Roleta russa
Ovni Cius
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 12/12/18 12:18
Editado: 12/12/18 12:23
Gênero(s): Cotidiano
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 8min a 10min
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Palavras: 1281
[Texto Divulgado] "Lá Vem a Cobra, Lá Foi o Pandeiro" O personagem encontra-se no meio do mato em situação desfavorável após cair em um rio e perder seus equipamentos eletrônicos e seu pandeiro.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Roleta russa

1.

Nós caímos, sim, mas atirando.

Eu estava sanguínea, feroz e famintamente fluindo pelas ruas da cidade, a altas horas, ponderando como diabos eu poderia, mais uma vez, me apaixonar cega e perdidamente por uma mulher. Seria esse meu último plano. Quero dizer, na vida, como um todo. Não posso conceber outra coisa mais plausível. Que um homem nasça para perecer na solidão, isso é certo, mas que ao menos seu coração, até o fim, arda fervorosamente no desejo de consubstanciar-se com outra alma.

— Esquece esse papo — disse M., acendendo um Gift no outro. — O romantismo está fora de moda. Os memes alteraram pra sempre as configurações de nossos afetos. Em uma palavra: estamos diante de algo totalmente novo e incompreensível. Não se trata mais de "amor" e "alma". A coisa degringolou. Viramos autômatos. Trata-se disso. Que livre-arbítrio nós temos?

M. continuou:

— Seria preciso trancar as janelas, cerrar as cortinas, se entrincheirar com um caderninho e escrever por uma ou duas décadas sobre como o mundo "lá fora" está explodindo aos pedaços. Mas isso não resolveria nada. Quem diabos se imagina resolvendo milênios de uma espécie humana claudicante, delirante, com suas malas e montes e borbotões de ouro, dinheiro e genocídios, em seus sapatos e helicópteros cheios de cocaína e confetes de festim pipocando no ar enquanto a todo instante noticiam mais e mais barbaridades?

Temos ódio, isso é tudo. Nossas tripas se contorcem diante do horror. Mas combinamos o ódio com o amor pela vida. E aqui temos talvez o mais fundamental mecanismo de conservação da coisa.

Mas a todo momento devemos nos perguntar: até que ponto trabalharemos em função da máquina? E até que ponto a máquina trabalhará em função da gente?

Isso são groselhas, você me diria. Já "sacamos" tudo. Está tudo "aí". Não precisamos "pensar". Basta "pesquisar no Google". De modo que você pode "infinitamente" "abrir" "aspas" "e" "todas" "as" "palavras" "já" "estão" "arquivadas" "no" "sistema". A questão-limite é: em que proporção estamos na margem e em torno de qual eixo orbitamos ainda fora de um sistema? Se há uma liberdade é por aí que ela caminha. Flutua. Se oferece.

Minha cabeça ainda estava girando e eu tentei captar o sentido essencial do que dissera M., mas de repente passou um carro tocando funk, naturalmente tocando numa altura tremenda, e daí uma horda de pessoas, e outra horda de pessoas, e a coisa toda já havia se confundido de tal modo que, quando nos demos conta, estávamos bebendo, tresloucos — mais dois sujeitos e duas mulheres agora se punham a discutir sobre Bolsonaro, anarcocapitalistas, psolistas, comunistas, e assim por diante, na infinitude de istas — um espectro horizontal, talvez o mais importante, pensei eu: a política!

Lembrei que estava sem comer há mais de quinze horas. Peguei no bolso uma bala. Não podia compreender mais nada. É claro: meu cérebro estava embaçado pelo fumo. E pela tristeza. Uma tristeza gangrenosa, mas nada que não pudéssemos enfrentar.

Há variados tipos de vegetação, com seus variados formatos e comprimentos, se estendendo em diversos territórios, adaptando-se cada qual a diferentes condições atmosféricas de crescimento, cultura e plantio. Com isso podemos determinar, em gráficos, todas as oscilações do ambiente X, Y, e inclusive podemos traçar um panorama das tendências inatas de cada espécie com relação a seu declínio e as medidas subsequentes para contorná-lo e adiá-lo.

Acendi um cigarro e me libertei dessas considerações técnicas. Estava novamente com a mente em branco. A imaginação, de um modo geral, trabalha dessa forma: é um quadro no qual esboçamos o ensaio de um rascunho sem fim.

M. foi ao banheiro. As pessoas continuavam ali. Quanto mais eu penso em mim e nas pessoas, mais eu não quero pensar em mim e nas pessoas. Há sempre um duplo, uma dupla vontade, que depois se multiplica, e já não sabemos como a coisa se dá: seria preciso continuar, laboriosamente, investigando a natureza das relações humanas — e isso é uma tarefa para toda a vida.

2.

Imaginei os campus das universidades, cérebros albaroados de conhecimento. Bibliotecas, exames de admissão, dissertações, rotinas de estudo, e assim por diante. De certo modo, eu vivo, fora da universidade, como se eu estivesse numa.

Mas pode-se viver em universidades, ou pode-se viver em fossos de crocodilos. Aprender com os professores que habitam os detalhes e as entrelinhas do cotidiano. As árvores me dão uma aula de vigorosa lucidez. Todos os ramos se estendem, em sua beleza, e atingem um certo limite.

— Que enfadonho! — dizia comigo mesmo, num de meus acessos de anedonia. — Que coisa realmente, grotescamente, enfadonha, a vida! — e então, cancelando meus lamentos: — Nada com que não pudéssemos lidar! Avante!

Era assim que eu costumava me motivar, nesses momentos em que o niilismo se converte em estandarte e já não sabemos bem se está tudo bem. Num tal estado, reconhecemos que precisamos respirar e seguir em frente, mas precisaríamos conhecer melhor, e mais agudo, e se envaidecer menos, por escalar certas montanhas imaginárias e gritar lá do alto: por que me abandonaste, Deus?

Isso são jogos de criança! É como escrevera um certo louco, que hoje se encontra encerrado num hospício:

"Estão todos em seus cumes! Acenando uns para os outros! Do topo de suas torres! Em seus celulares e computadores! Enquanto a sombra da Idade Média paira! Por sobre os bagos putrefeitos de nossos homens do século XXI! Uns cretinos, isso sim! Um bando de punheteiros! Com domínios técnicos e qualificação para a cretinice completa! Estamos podres ou não estamos? Dos pés à cabeça! Fedendo ao fracasso! Ladramos raivosamente, temos impulsos disparatados e fomos possuídos pelo mofo! Nossas casas mofam, nossas línguas secam, nossos olhos perdem o brilho, nossos filhos e filhas são mortos ao acaso, por mãos ímpias e covardes! Mas quem se importa com isso? É preciso alienar-se o máximo possível; ou antes, se trazemos constantemente à consciência a absurda quantidade de mal que se processa no mundo, perderíamos a sanidade, instantaneamente. Mas até que ponto podemos nos apartar da sanidade, seria essa a questão capital."

"Por isso é preciso seguir o que-é-com, (isto é, o comum; pois o comum é o-que-é-com). Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular." (Heráclito)

Temos aqui um ponto de partida, ou de chegada. Considerando a duração da vida nas proporções de um oceano, enfrentamos incontáveis recuos e avanços de maré, olhando o horizonte ao nosso redor, já sem distinguir a praia ou porto em que iniciamos nossa jornada. Ou antes: início e fim, podemos concebê-los apenas de uma perspectiva humana, isto é, limitada. Mas quem dirá que alguma coisa nesse mundo existe e deixa de existir? E se tudo existir permanentemente, num estado inalterado de curso (i)material das coisas, numa configuração já previamente dada, e precisamente isso determinar, de modo perene, todas as combinações a priori infinitas de possibilidades?

3.

Devaneios, devaneios. Àquela altura eu já estava despencando, de tanto fumar. M., o tal malandro, eu já não saberia dizer em que quitandas se enfiara. A última vez que o vi estava bebendo cachaça. Dei um gole, um longo gole, não sei mais, agora estou voltando pra casa, agora a noite cai por sobre a minha cabeça, agora estou são e lúcido, embora um tanto quanto perturbado, cronicamente, mas ainda capaz de ter em vista um certo equilíbrio — e que vã pretensão, a minha! Andar intacto, pela vida! Sem ser diariamente derrotado por mim mesmo, pela multiplicidade em mim, que por si só já se orquestra de maneira bélica, ao som de Shostakovich, batendo panelas, estourando pipocas, miolos, o tambor do revólver girando, girando, a roleta russa nossa de cada dia, o sono que nos permite uma trégua, um longo sono de esquecimento sem fim...

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Apreciadores (3)
Comentários (1)
Postado 03/01/19 16:48

Porra, Vini! Cê sempre é incrível nos textos. Meus parabéns ♥