A carta
Frederico Goes
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 31/12/18 03:45
Gênero(s): Drama Mistério
Tags: carta
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 8min a 10min
Apreciadores: 2
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Palavras: 1313
[Texto Divulgado] "Lá Vem a Cobra, Lá Foi o Pandeiro" O personagem encontra-se no meio do mato em situação desfavorável após cair em um rio e perder seus equipamentos eletrônicos e seu pandeiro.
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Capítulo Único A carta

Ilhéus, 13 de julho de 1837.

Amada Júlia:

A mais querida entre todas as mulheres. Escrevo para você na esperança de que as coisas entre nós possam voltar a ser como eram antes, embora eu acredite pouco que isso aconteça. Acabo de me recuperar da enfermidade que me sobreveio após os eventos que se passaram comigo, sua adorada Helena, prometo que tudo está em paz agora e que o pior já passou. Porém, essas desventuras trouxeram luz e uma certa lógica à nossa história. Se lembra de como gostávamos de brincar juntas? Sempre fomos mais próximas do que irmãs, éramos amigas de verdade, ninguém ficava entre nós. Não pense que pretendo me desculpar, não quero pressioná-la a me perdoar, sei que não mereço o seu perdão ou a sua paz. Devo conviver com meu pecado e me lembrar do que eu sou, do que me tornei.

Desde muito jovem, nós sempre fomos muito unidas o que por vezes causava estranheza, pois, é mais comum que amigas tão próximas entrem em desentendimento de vez em quando ou se odeiem e briguem, mas nós nos amávamos, nos entendíamos e como nós duas nos entendíamos até acompanhávamos uma os pensamentos da outra, tínhamos os mesmos planos. Os portões entre as nossas casas nunca se fecharam até o dia em que se fecharam para sempre. O céu sempre azul, o mar sempre presente nas minhas lembranças, não havia nuvens, somente longas orlas e castelos de areia. Sempre tivemos uma paixão secreta pelo nosso vizinho, Paulo, sua barba sempre nos deixou atraídas, era alto e bonito parecia-nos um homem de verdade como os livros de romance descreviam, já passamos noites em claro escolhendo qual de nós ficaria com ele sem nem mesmo consultá-lo, mas sabíamos que nunca o teríamos por conta de nossa idade e de certo modo nos consolávamos.

Sempre que o seu pai chegava de suas expedições ouvíamos interessadas as suas histórias de aventura, com certeza alteradas para nos entreter e seu irmão Pedro sempre o ouvia acreditando sem duvidar de nenhuma palavra, nós fazíamos tudo juntas. Sempre que o Sr. Moreira voltava para casa era um evento! Havia um banquete, uma festa, minha família sempre foi bem-vinda à sua mesa. Apesar de todas as nossas afinidades, minha cara Júlia, os mistérios da minha Igreja Católica e meus hábitos cristãos sempre foram distantes dos seus e dos da sua família. Estranho que mesmo nessa época, antes de tudo, eu já percebia que havia algo por trás das gargalhadas, das infindáveis conversas, uma certa agitação, palavras complexas como ecos em uma cisterna profunda, gritando de volta sons indecifráveis, essa estranheza estava entre nossas famílias talvez? Entre nós? Não! A vida adulta é assim, eu pensava. Eu sempre percebi mais as coisas do que você, porque sou a mais velha, eu imagino.

Então aconteceu, naquela noite terrível, me pergunto se houve pistas alguma vez durante aquele jantar de que algo assim pudesse estar acontecendo. Fiquei acordada até muito tarde lendo, pensando, resolvi sair e passear pelo jardim. Ouvi passos e uma respiração ofegante acompanhada de pequenos gemidos curtos e baixos. Eu esperei que você e o Pedro surgissem da árvore mais próxima e me dessem um susto, mas quando eu olhei para o muro próximo à sua casa eu vi, minha mãe e seu pai sob o sereno, mais do que o choque, o ato proibido, o pecado, havia isso, eu gostei do que eu vi e acompanhei até acabar. Os dois se devorando por mero prazer sem se importar com absolutamente nada. Porém, alguma coisa me sussurrou nos ouvidos e eu escutei.

Talvez isso sempre tenha estado aqui, essa coisa, esse demônio dentro de mim riscando minhas entranhas, arranhando para sair ou atrás de mim esperando eu me virar, mas sempre me entregava às minhas rezas. Nunca te contei o que eu vi, como poderia te contar? Não havia motivo para te obrigar a crescer tão rápido, você poderia não ter suportado ou preferi acreditar nisso. Também posso ter me deleitado no fato de estar guardando um segredo como um pecado escondido, mas em mim houve uma mudança, depois daquela noite no jardim, eu me convenci de que talvez sempre estivesse aqui, meus pequenos atos de maldade, inofensivos, é claro, algo que qualquer garota faria, eu disse a mim mesma que não era mais do que travessura, mas eu sabia que era mais do que isso. Com certeza foi assim que esse abismo se abriu entre nós, quando eu comecei a fazer pequenos trotes com você, roubava-lhe as presilhas, escondia sua escova de cabelo, contava pequenas mentiras, isso me divertia, ou divertia algo dentro de mim, alguém que era muito mais eu do que eu mesma demonstrava e jamais demonstrei para você. Sempre que ficava sozinha eu sentia a presença dessa criatura vil, esse demônio que rugia no meu estômago, a forte impressão de que havia alguém aguardando eu olhar para trás, os sussurros e todos os outros inexplicáveis sentimentos.

Contudo, isso, as travessuras, a minha angústia, foram amplificando-se com o tempo. Quando nós crescemos, você se tornou a mais bela entre as moças, não me surpreendeu o fato de ter arranjado um pretendente tão rápido e não me surpreendeu também ele ter uma linda barba. Um belo jovem oficial, que belo casal vocês formavam. Pedro, também deixou a barba crescer e não se satisfez quando viu que tinha inúmeras falhas o que a tornava inadequada, talvez ele tenha sido sempre assim, inadequado. Um jovem muito limitado, sempre muito doente e delicado. Mas você se mostrou uma verdadeira raposa, Júlia, conheceu o jovem Bruno e o conquistou, eu assisti o seu namoro com o oficial Montebelo florescer, todos os estratagemas de avançar e recuar, de repente, senti no meu íntimo que nada mais seria como antes.

O amor entre vocês dois cresceu tanto que eu passei a odiar estar por perto, oh Deus, como eu te invejei, você conseguiu tudo antes de mim, um amor, um casamento, uma vida nova, embora fosse tudo o que sempre sonhamos, nunca imaginei que fosse ser a primeira de nós duas. Eu sempre fui a mais corajosa, Helena, a forte, valente, poderosa, curiosa, aventureira, um filho para o meu pai. Mas você sempre foi o extremo oposto, discreta, introvertida, tímida, humilde, de fato, a mulher segundo todos os padrões que um homem poderia desejar. Se mostrou sensual, atraente e meiga, quem não se apaixonaria ou seria conquistado? Certa vez quando estávamos à mesa, Bruno disse como gostaria de conhecer o mundo com você, eu pude vê-la indo embora para sempre e eu ficando sozinha, o mundo é tão vasto e imenso, quando você retornaria? Retornaria? Eu gostaria de ter gritado à mesa naquele momento e dito o quanto eu não queria que fosse, o quanto eu queria que ficasse, não me deixe, por favor! O que eu faria? Teria de me casar com o seu irmão, Pedro?

Como poderia você que sempre foi a mais dócil e prestativa sair assim para as maiores aventuras antes de mim? Você conheceria o amor, o toque de um homem, enquanto eu, a mais brava e corajosa não sabia nada da vida.

Naquela noite eu me ajoelhei no quarto e tentei rezar ao Senhor, pedi à Deus que me ouvisse, mas ele não respondeu, porém, eu não fiquei sem resposta, outro me respondeu, “nos encontraremos em breve”, disse e eu fingi que não escutei. Tudo aconteceu tão depressa que na semana seguinte a senhorita Júlia Rodrigues Moreira viria a se tornar a senhora Júlia Ferreira Montebelo, você parecia tão feliz como nunca foi, não parecia se importar com essa perda de identidade, eu me importei em seu lugar. Esse medo me moveu a fazer o que fiz, por favor, saiba disso e as complicações que se seguiram, Júlia, corroboram tudo isso. Espero encontrar contigo em breve.

Com todo o meu amor, Helena.

(Fim da carta)

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Apreciadores (2)
Comentários (1)
Postado 03/01/19 00:35

Achei tão lindo que nem sei o que dizer... Só posso te parabenizar por essa obra incrível e sensível, que toca alma e transborda o coração.

Meus parabéns ♥