Escape Bar
KM
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/01/19 12:15
Avaliação: Não avaliado
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[Texto Divulgado] "Voltando para casa" Estou de volta, e isso é tudo. Sem meias palavras ou versos contidos, apenas eu.
Não recomendado para menores de dez anos
Capítulo Único Escape Bar

De acordo com meu relógio, meu turno no bar havia começado há dez minutos. Era a terceira vez que me atrasava em duas semanas, mas não me apressei. Era terça a noite, ou seja, aguardavam-me pouquíssimo movimento e horas infinitas de tédio.

Dobrei a esquina na avenida principal, deparando-me com o turbilhão de luzes e buzinas caóticas, típicos de um início de noite na cidade grande. Pouco prestei atenção ao meu redor, preferindo me concentrar em qual desculpa usaria para escapar da fúria da garota nova – que eu ainda não tinha decorado o nome – que deveria ter substituído há... Doze minutos e meio.

Trabalhava em um daqueles negócios de família, na ativa há pelo menos trinta anos. A decoração de “bar americano da década de setenta” não tinha sido alterada nem para reparos. Desde sua construção tinha as mesmas vidraças sujas que davam para a rua, a mesma tinta desbotada, os mesmos problemas de encanamento, os mesmos bancos duros, as mesmas prateleiras para as bebidas, a mesma mesa de sinuca velha nos fundos... A única coisa moderna por ali era a televisão instalada na parede e as tralhas no escritório do chefe.

Prossegui na calçada, ignorando os transeuntes, e empurrei a porta de entrada principal do Escape Bar: o barzinho de esquina mais decadente e badalado do centro. Fui recepcionado pelos cheiros de fumaça de cigarro e cerveja de sempre. As luzes vermelhas iluminavam as placas decorativas nas paredes e as mesas de canto, onde estavam três homens jogando cartas. Eram clientes antigos e sempre se encontravam às terças no Escape para “fugir das patroas e dos pentelhos”.

- Você está a-tra-sá-do! – uma voz aguda, que quase explodiu meus tímpanos, impediu que eu fosse cumprimentar os camaradas-do-pôquer.

Com um suspiro resignado, olhei para baixo, deparando-me com a garota nova bufando de raiva em todos os seus um metro e meio de altura.

- Eu tenho compromissos a noite, sa-bía?! Não posso ficar te cobrindo sém-pree! Só porque o chefe não estáá, não significa que pode ficar chegando quando bem entende, sa-cóu? – pelos céus, como essa guria é irritante.

- Eu entendi, eu entendi... Catrina? – tentei ler o crachá dela, mas a luz não estava lá muito favorável.

- Ca-ri-ná! Meu nome é Cariná! – ela chiou. Caramba, acho que se ela fosse um cachorro estaria babando de raiva. Ela até parece um poodle, pensando bem.

- Foi mal, sou ruim com nomes, “Carinááá” – imitei – Eu perdi a hora, relaxa que não vou fazer de novo – eu disse a mesma coisa nas outras vezes – Agora dá licença que você está me atrasando ainda mais. Não viu que na pressa até entrei pela porta dos clientes?

Enquanto falava, fui para trás do balcão de bebidas onde as luzes ainda estavam amarelas e funcionavam mais ou menos bem, e segui para a porta que dava acesso ao quartinho dos funcionários, nem esperando para ouvir os gritinhos dela.

Era um cubículo com dois armários de metal velhos, um espelhinho e o lugar em que ficavam as vassouras, panos, baldes e demais produtos de limpeza. Enquanto guardava minhas coisas e colocava o avental, imaginei um poodle com a cabeça loira tingida da “Carináá”. Coitada, ela não me pegou de bom humor hoje... Na verdade, nem desde que ela começou a trabalhar aqui. Paciência, um dia eu vou me redimir.

Ao sair, deparei-me com a dita cuja batendo os saltos sem parar, fazendo aquele irritante “toc-toc-toc-toc” no piso de linóleo. Murmurei um “desculpa pela demora”, ou qualquer coisa parecida, e dei passagem. Quando ela sumiu, os camaradas-do-pôquer se viraram para mim e gritaram o que clientes íntimos e sinceros gritam: “Cuidado que a baixinha é braba!”, “Se lascou filho!”, “Mas você não se emenda, né Beto?”.

Limitei-me a soltar uma risada forçada. Até pensei em dizer que meu nome não era Beto, como eles pensavam fazia cinco anos, só que me distraí limpando e organizando o balcão, afinal a guria era folgada! Ficou no turno da tarde e largou toda essa bagunça na pia! Como é que ela serviu os clientes se todos os copos estão aqui?

A rotina é viciante e perigosa, enclausurando-nos em pensamentos vazios e distantes do que realmente importa, creio. Irritado, só parei de lavar a louça quando a garota nova apareceu para avisar que estava indo “encontrar seu mais novo namorado, que é muito pontual, ao contrário de certas pessoas”.

Quando ela saiu pela porta dos funcionários nos fundos, dei graças! Finalmente meus ouvidos terão paz, pensei. Assoviando a música do comercial que passava na televisão, retomei minhas atividades costumeiras de noites fracas: terminei com o balcão e joguei um pouco de conversa fora com os camaradas-do-pôquer, certificando-me que estavam bem providos de cerveja.

Enrolei mais um pouco até que me muni de coragem, máscara, luvas, balde e produtos de limpeza, seguindo em direção aos banheiros. Não era minha obrigação preferida, mas se eu não fizesse isso logo, o cheiro de esgoto impregnaria o bar por dias, e no fim eu teria que limpar a nojeira acumulada de qualquer jeito. Quando acabei, coloquei todo o lixo para fora e esterilizei as mãos e os braços, de tanto lavar. De volta ao salão, sentei no balcão e fiquei assistindo as notícias, esperando que logo mais passasse uma reprise de algum jogo esportivo.

Olhei para meu relógio de pulso e suspirei: eram pouco mais de nove horas. Já haviam se passado duas, agora só faltavam mais cinco horas e quarenta e três minutos para o final do turno. Mas quem estava contando?***

Eram mais de dez e meia quando minhas expectativas de uma noite entediante foram quebradas.

Quando os sinos avisaram que alguém tinha acabado de entrar, virei-me pronto para cumprimentar o Seu Tilo, um cinquentão careca e gordo que vinha em horários aleatórios bater um papo filosófico e beber umas geladas. Porém, quem entrou foi uma mulher.

O que me pareceu estranho não foi que uma mulher desacompanhada, por voltas dos quarenta anos, entrasse em um bar deserto. Nem mesmo a expressão desolada e perdida em seu rosto, coisa comum em muita gente que entra por aquela mesma porta, esperando afogar as mágoas na bebida. Eram suas roupas me pareciam fora de contexto: saltos finos, uma pasta chique, traje executivo completo e de aparência cara.

Só observei enquanto ela andava até o balcão, para sentar-se em um dos bancos e mergulhar o rosto nas mãos, suspirando. Aproximei-me e parei a sua frente, esperando que fizesse o pedido. Como isso não aconteceu, dei uma olhada nos camaradas-do-pôquer, entretidos demais na partida para ficar espionando a figura que acabara de entrar. Sem pensar, por força do hábito acho, comecei a enxugar os copos – já secos – e a arrumá-los na prateleira atrás de mim. Não sei por quanto tempo fiz isso. Estava com a mente vazia, até que um guincho me tirou dos devaneios.

Pronto para evitar uma briga de caras que estavam bebendo desde as cinco e meia da tarde, fui até a mesa dos camaradas e perguntei mansamente o que estava acontecendo. Claro, o de sempre: alguém estava ganhando, o que estava perdendo reclamava de trapaça e o outro estava muito ocupado reclamando que estava com a garganta seca. Sabendo que se os deixasse ficar por mais tempo provavelmente ninguém pagaria a conta, comecei com a lenga-lenga ensaiada de convencê-los que estava tarde e já havia passado da hora de ir. Demorou até eles levantarem, deixarem o dinheiro na mesa, rumarem trôpegos para fora e pegarem um táxi. Só depois de me certificar que partiam em segurança, voltei para dentro.

Assoviando, levei um susto quando encontrei a mulher sentada no mesmo lugar. Havia me esquecido completamente que havia mais alguém ali. Agora de cabeça erguida, podia contemplar melhor suas feições cansadas e a cor de seu cabelo preso em um penteado sério. Ela encarava o vazio com um semblante tão desamparado que comecei a caminhar cautelosamente até o balcão. Por dentro, preparava-me psicologicamente para ouvir sua triste história pelas próximas horas, como bêbados infelizes tem o hábito de fazer.

Novamente parei em sua frente. Dessa vez, pediu em voz contida uma “bebida forte, como uísque”. Servi o Black Label e ela virou tudo de uma vez, tossindo muito logo em seguida. Arqueei as sobrancelhas e pensei em dizer para ir devagar, porém, calei-me quando pediu por outra dose. Dei de ombros e obedeci, pois meu trabalho era servir e receber por isso, não dar conselhos a senhoras bem crescidas. Isso se repetiu por mais duas ou três vezes, até que ela disse “deixe a garrafa”, que interpretei como “quero ficar sozinha”.

Sem uma palavra, virei-me e voltei a organizar copos – acho que é meu hobbie –, apenas um pouco preocupado, pois agora ela já não estava mais engasgando com o álcool na garganta. Por via das dúvidas, fui ao cubículo dos funcionários buscar o celular. É sempre bom ter o número da Emergência a mão quando alguém está em risco de entrar em coma alcóolico.

Quando voltei, a mulher tinha mudado de lugar, ocupando uma das mesas da parede. Como não tinha nada demais para fazer, além de arrumar a bagunça da mesa dos camaradas-do-pôquer, fiquei a espionando. Enquanto limpava, observava-a discretamente. Reparei em como estava sentada de um jeito largado, como segurava o copo com a mão direita e como entornava a bebida mais lenta e ocasionalmente do que antes. No balcão havia visto uma aliança de casamento em seu dedo, mas fora essas observações, não sabia mais nada sobre ela.

Outro hobbie secreto: inventar histórias com os clientes desconhecidos que passam pelo Escape.

Será que tinha filhos? Será que era feliz? Era casada com um cara importante? Era a chefe no trabalho? Morava ali perto ou no subúrbio? Ela não era feia, aparentava ser dona de uma boa grana... O que aconteceu para sair de casa, em uma noite de terça feira, para um barzinho deserto, a não ser pelo barman bonitão? E por que estava tão desolada?

Mais uma vez, levei o lixo para fora. Tais perguntas me orientavam a montar cenários e situações sobre a vida da Sra. Empresária, como a apelidei, enquanto voltava à rotina. No salão, segui minha lista mental de obrigações: varrer, mudar o canal das notícias econômicas para um de clipes musicais, reorganizar os copos em uma pirâmide, desmontar tudo e guardar nas prateleiras...

Entretido, mal registrava os suspiros ocasionais da Sra. Empresária. Eu imaginava uma vida de luxo e ilusões, na qual ela morava em uma mansão de um bairro chique, e acabara de descobrir que o marido estava envolvido em um escândalo de corrupção e estava traindo-a com a secretária. Sem chão, saíra de casa dirigindo a esmo até a gasolina acabar. Decidira andar a pé, repensando seus valores e objetivos de vida, quando a fachada neon colorida de um bar chamou sua atenção. Pensando em realmente escapar de sua triste vida, decidiu entrar e...

O relógio apontava para meia noite e trinta e oito. Mais duas horas e vinte e dois minutos para fechar.***

Eram três da manhã e eu encarava a Sra. Empresária descaradamente. Eu já podia fechar o bar, mas estava sem coragem de expulsá-la, então torcia para que se continuasse olhando com uma cara de cansado, suspirando alto, ela se tocaria que eu queria encerrar o expediente.

Se bem que a garrafa dela já estava vazia fazia tempo e ela continuava triste. Não disse uma palavra em todo o tempo em que estava sentada ali, não se moveu além de respirar e beber. Parecia ver um mundo além de mim, algo insondável e deprimente.

Dei um tempo a ela. Desliguei a televisão, arrumei as cadeiras, dei uma checada no banheiro. Por fim, não tinha mais nada a fazer senão apagar as luzes e fechar, contudo, a dona não tinha nem piscado nesse tempo todo. Não vendo outra maneira, parti para a apelação. Peguei uma bandeja e fui até a mesa dela. Sua figura continuava imóvel e com a mente perdida, então tentei chamar sua atenção delicadamente, tossindo “caham, caham, CAHAM!”.

- Minha filhinha morreu. – ela disse de repente, com a voz tão vazia quanto sua expressão.

- ... Mas que merda. – diante dessa bomba, não consegui pensar em nada melhor ou mais sincero. Consolei-me com o fato de que ela não se lembraria dessa conversa.

- Ela se chamava Cecilia. Tinha quatro aninhos e sete meses. Era linda... O cabelinho curto, liso... As bochechinhas fofas... – ela começou a encarar o nada como se sua pequenina estivesse lá, sorrindo e dançando. Lágrimas começaram a correr, conforme ela prosseguiu – Foi uma besteira, sabe? Eu estava em casa, tinha chegado mais cedo, distraída com o celular... Pensei que a babá estivesse com ela ou que... Eu só a ouvi me chamando, mamãe, mamãe, mamãe, e eu gritei um já vou filha, espera um pouco... E então... Ela passou correndo, tropeçou e... Caiu. Eu não consegui pegá-la a tempo... Eu tinha dito para o Roberto colocar a cerca lá, a rede ou trancar aquela porta mas... E eu corri e a vi lá embaixo... Nem lembro do que aconteceu direito, acho que entrei em choque...

Ela só chorava, mas a voz era perfeitamente clara. Nem um soluço. Apenas dor. Eu continuei em silêncio conforme ela falava, não entendendo tudo apenas... Estava ali. Ouvindo. Acho que era isso que ela precisava.

- A gente mora no terceiro andar, e ela caiu lá de cima... Não era para ela ter... Ter... Ma-mas, o médico disse que... Foi o jeito que ela ca-caiu sabe? – eu voltei para o balcão, peguei o melhor conhaque, por conta da casa, servindo-lhe uma dose, que ela nem ao menos reparou – Eu não sei o que fazer... A minha menininha... Se eu tivesse ido ver... O que ela queria me mostrar? Por que a babá teve que ir embora mais cedo... E o Roberto... – ela apertou o copo com força, mudando o tom para um raivoso – Ah, o Roberto! Ele nem estava em casa! Nunca por perto! Nunca me escuta ou faz o que eu peço... – ela virou o copo, bebendo tudo muito rápido. Pensei que ela fosse engasgar, porém isso não aconteceu.

- A minha filhinha... – ela voltou a falar depois de um tempo. Ela não parava de chorar, ás vezes sussurrava “Cecilia” e um ou outro soluço... Parecia em transe.

Lidar com problemas alheios fazia parte do trabalho, mas eu não conseguia me acostumar. Caracas, perder um filho? E um filho pequeno? Nossa... Meio perturbado, levei para o lixo a garrafa vazia e deixei a outra na mesa, garantindo que o copo dela não ficasse vazio. Eu não sabia o que mais poderia fazer. Então, fiz o que sabia: peguei os copos das prateleiras e comecei a arrumá-los no balcão, e depois voltei a guardá-los nas prateleiras de novo. Já não me importava mais com as horas.***

Começava a amanhecer quando um sujeito entrou no Escape, os sinos me despertando do estado hipnótico e estático. Havia cansado de arrumar copos como um maníaco e só observava a poeira cair e cobrir os móveis e a senhora, que pareceria parte da decoração não fosse os soluços baixinhos e o nariz escorrendo.

O homem estava todo desarrumado, o rosto tão amarrotado quanto à roupa. Ele aparentava estar sem dormir a um mês e levemente embriagado. Entrou de supetão, vasculhando o salão até se deparar com a mãe de Cecilia.

- Maureen! – ele gritou – Onde estava com a cabeça? Estou te procurando a noite toda! Entrando em cada bar perto do Hospital! O que deu em você? – ele avançou agressivamente na direção dela. Eu já estava preparado para pular o balcão heroicamente e salvar Maureen do cara que, possivelmente, era o futuro-ex-marido dela, quando ela mesma o cortou.

- Perdi minha única filha. Tenho o direito de enfrentar minha dor como quiser... Roberto. – foi duro, cortante, e congelante. Ela o encarava diretamente, e em vinte e seis anos eu nunca havia visto um olhar tão raivoso. Nem parecia que estava em estado catatônico há trinta segundos.

Sem reação, o homem falou baixinho:

- Era minha filha também. – ele falou baixo, a voz dolorida. Ela voltou à cabeça para o ponto imaginário que estava encarando antes, sem dizer uma palavra, as mãos no colo, na mesa um copo cheio intocado e uma garrafa pela metade. Ele se sentou ao lado dela, sem tocá-la, e... Entrou em transe também.

Pensei em oferecer uma bebida, dizer algo como “meus pêsames”. Entretanto, ele pegou um maço de dentro do paletó amassado e começou a fumar. Seu olhar era tão desolado, que preferi deixa-lo a sós com sua dor.

Chequei meu relógio, que marcava cinco e quinze da manhã. Suspirei, pensando que estava tirando todo o atraso da minha cota de trabalho. Pela janela dava para ver o sol nascendo, anunciando mais um dia, o primeiro que Cecilia não viveria.

- Você não é o pai da minha filha. – outra bomba que uma Sra. Maureen muito bêbada soltou – Você não é meu marido e eu te odeio! Te odeio por não ligar para Cecilia, te odeio por esse casamento vazio! Te odeio por nunca estar por perto! – ela começou a bater no homem, que continuou impassível e fumando – Te odeio por fumar! Odeio que prefira trabalhar do que ficar comigo! Odeio o apartamento gigante que matou a minha filha! Odeio suas regras de comportamento! Eu te odeio! Eu te odeio! Teodeioteodeioteodeio... – superado o choque, percebi que estava deixando que uma briga acontecesse no estabelecimento semi-respeitável que era meu local de trabalho.

Tudo aconteceu muito rápido, antes que eu pudesse intervir. A cada “odeio” parecia que ela ficava mais furiosa, até que ele largou o cigarro e segurou os braços dela, que começou a gritar mais ainda e a chorar copiosamente, soluçando tanto que parecia que estava convulsionando.

- A culpa é minha! Meu bebê! Eu não peguei o meu bebê! – ela repetia.

- CALE A BOCA! – ele gritou e a sacudiu, assustando-a o suficiente para que parasse com a crise histérica.

Ele a soltou e endireito-se no banco sem uma palavra. Pegou outro cigarro, acendeu-o e começou a olhar a rua, fingindo não conhecer a moça ao seu lado, que aos poucos se recompunha.

Enquanto ela voltou à imobilidade do início da noite, ele se remexia inquieto, balançando as pernas e vigiando a rua, como se pronto para correr em disparada pela porta a qualquer momento.

Esperei para ver se eles ficariam assim mesmo e quando minhas suspeitas se confirmaram, dirigi-me a eles, sem sair de trás do balcão, com medo de seu luto.

- Eu... – pigarreei, minha voz esquisita pelo longo período sem uso – Eu preciso fechar o bar. Já são... Quase sete horas. Preciso fechar.

O homem assentiu e se levantou. Tateou os bolsos até encontrar a carteira e perguntou o valor da conta. Sentia-me muito mal por toda a situação, então fiz a transação rapidamente, querendo acabar logo com aquilo.

Ele se aproximou dela e a tocou no ombro, chamando-a baixinho. Ela o olhou. Ele estendeu a mão, que ela encarou antes de segurar, e se levantou. “Sem escândalos, querida”, ele disse, enquanto guiava a esposa, que não conseguia andar em linha reta, para a saída.

Suspirei pela enésima vez, um misto de gratidão pelo final do expediente e triste por aquela família quebrada. Estava louco para ir embora, então corri para fechar a porta da frente, desligar os neons, e voltei para arrumar a última mesa que faltava. Só então percebi que cobrara o conhaque que dei àquela mãe, algo que havia prometido para mim mesmo ser por conta da casa.

Atrapalhado, fui até a caixa registradora, pegando o valor equivalente à garrafa e corri para os fundos, torcendo para que se corresse bastante, conseguiria alcança-los.

Na rua, atropelei alguns apressadinhos para o trabalho, gritei alguns “foi mal” enquanto percorria a avenida, procurando pelo casal que saíra do Escape. Conforme corria na calçada, fui diminuindo a marcha até parar, porque percebi, um pouco tarde, que não tinha a menor ideia da direção que eles haviam tomado, se estavam a pé ou de carro ou de táxi. Eles mencionaram um hospital, e havia pelo menos três ali perto e mais tantos outros pelo resto da cidade. Era uma busca em vão.

Sentia-me pior do que lixo. Devagar, voltei cabisbaixo para o bar. Guardei o dinheiro, troquei de roupa, passei no escritório para deixar um bilhete para o chefe, explicando resumidamente o motivo de estar deixando o trabalho doze horas depois, e pedindo uma folga nessa noite de quarta, pois estava esgotado.

Apaguei todas as luzes e tranquei tudo. Saí, mais uma vez, para a rua. Dessa vez, tive o cuidado de reparar em tudo ao meu redor, no trânsito de carros, pessoas, no barulho da cidade, no céu azul e sem nuvens...

Pensando se Cecilia gostava de brincar em dias assim, voltei para casa, ansioso por longas horas de sono, e para esquecer... Esquecer o quanto a vida é breve e a realidade frágil.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigada por ler =)

XOXO,

K.M.

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