LA VIDA Y LA MUERTE – UM CICLO
KM
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/01/19 12:20
Editado: 27/01/19 12:24
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 22min a 29min
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[Texto Divulgado] "Voltando para casa" Estou de volta, e isso é tudo. Sem meias palavras ou versos contidos, apenas eu.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único LA VIDA Y LA MUERTE – UM CICLO

Tatiana

Dá janela da sala de estar eu observava o Sol se pôr lentamente no horizonte, notando como a palheta de cores do jardim era alterada conforme a escuridão se aproximava: as flores amarelas ficavam mais laranjas, as rosas mais vermelhas, os arbustos se tornavam mais densos e as árvores mais escuras. O céu mudava de cor conforme o astro se punha, tingindo de todas as cores românticas e suaves as numerosas nuvens, tornando o azul atrás delas quase imperceptível, a não ser quando este escurecia a leste, como se o manto da Noite fosse puxado pelo Sol, que não estando mais de vigia, chamava as estrelas para tomarem seu lugar. A brisa suave balançava suavemente as folhas e trazia para dentro o perfume adocicado das flores.

Era um entardecer maravilhoso. Era tão lindo que fiquei com raiva. Muita, muita, muita raiva. Isso era tão injusto.

Eu morava em um chalé que ficava no topo da colina mais alta da região, e de onde estava sentada, conseguia enxergar todo o trajeto que o caminho de pedras fazia até a cidade, que ficava na direção do pôr-do-sol, a oeste de casa. Mas, se até ontem meu único pensamento sobre esse detalhe era relativo a observar de longe quem chegava, hoje observava a procissão que partia, levando para sempre uma parte de mim.

Juan

Já tínhamos percorrido um bom pedaço do caminho que levava à cidade. Andávamos devagar, como se a carga fosse pesada demais para dois homens – e talvez fosse, mas o que pesava não estava em nossos braços, e sim em nossos ombros. Seguíamos rumo ao pôr-do-sol, e atrás de nós a Noite se arrastava preguiçosa, como se tentasse nos dar tempo para chegar ao nosso destino antes dela.

Atrás de nós, seguia a procissão: minha mãe, minhas tias, alguns amigos próximos e, por último na fila, minha sogra Maria. Conforme a tradição, todos estavam de preto, em prantos e lamúrias altas, menos ela, que caminhava com um lenço azul cobrindo os cabelos brancos, o rosto sério e sem uma lágrima, solene e dura, como um monumento antigo que resistia a mais uma tempestade e se recusava a cair.

Eu fui ensinado a ser forte e a proteger quem dependia de mim. Contudo, frente à situação em que estava eu me sentia impotente e fraco, pois não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer – a não ser fumar um ¡maldito cigarrillo! De que servia minha força se não aguentava levantar minha carga do chão sozinho? Se não conseguia proteger a mulher que amo do pior dos males?

Eu me sentia o pior dos homens, e fraquejei. Olhei para trás, uma vez apenas, quando ainda descíamos a colina, procurando por uma forma de escapar. Não queria estar ali, carregando... Queria voltar para a cama e voltar no tempo, ou simplesmente acordar desse pesadelo. Eu quis fugir. E quando virei minha cabeça na direção das pessoas que me seguiam, um mar de negro luto, meu olhar desesperado encontrou com o de minha sogra, um ponto azul de resistência no meio da desesperança. Maria simplesmente sinalizou para eu continuar andando, e assim o fiz.

“Em tempos difíceis, precisamos cumprir nossos deveres, inclusive os que doem”, ela havia me dito no início daquele dia, antes de todos chegarem. Lembrei-me disso quando a vi, e por isso continuei o caminho. Algumas vezes, quando nos falta coragem para seguir em frente, é muito tentador desistir. Porém, eu precisava enfrentar esse vazio, e as palavras de Maria me lembraram disso.

Firmei meus passos, contudo, não ergui minha cabeça nem os ombros, já que a caixa que levava continha algo tão precioso como meu coração, e o simples pensamento de ter que abandoná-lo consumia minha alma.

Carmen

O Sol do fim de tarde entrava pela janela e aquecia o quarto de forma agradável. Eu estava deitada desde o dia anterior, e, pela primeira vez na vida, não fazer nada não me incomodava nenhum pouco. Com um sorriso olhei para o berço ao lado da cama, eu estava feliz e relaxada... Franzi o rosto quando me lembrei de minha irmã, e senti meu sorriso murchar.

Eu era a mais velha de seis filhas de um casamento feliz. Nossa casa era um chalé lindo de madeira e pedra, construído por meu pai, afastado por uns três quilômetros da cidade. Nós tínhamos um pequeno jardim cheio de flores na frente de casa, enquanto que nos fundos nós tínhamos uma horta. A casa era espaçosa e cheia de enfeites coloridos, cada um uma lembrança de uma vida feliz. No térreo ficam a cozinha, a sala de estar e o quarto de mi madre, e no andar de cima ficam os outros quartos.

É claro, nem tudo era um mar de rosas. Mi madre é uma matriarca forte, cheia de cicatrizes, pois suportou muito pelo bem de nossa família. Primeiro ela perdeu duas filhas, e depois mi padre, que Deus o tenha, quando estava grávida de Tatiana, a caçula da família. Tivemos tempos difíceis, onde ela trabalhou muito e ganhou pouco, mas o Señor sempre cuidou de nós na necessidade.

Então, a vida continuou para nós, até que as meninas cresceram e se tornaram mulheres que queriam se casar. Apenas Luciana continuou solteira, enquanto que Renata foi a única a se mudar para longe, e raramente manda notícias. E se temos fases doces, temos também as amargas, pois em pouco tempo de casada, perdi meu marido, e com ele se foi parte do colorido que havia em mim. Nos meses seguintes, as coisas ficaram estranhas. Tudo parecia estar bem, mas não estavam de verdade. Eu sentia uma saudade terrível de Gabriel, e confesso que se não fosse mi madre, não teria tido forças para continuar – o Tempo cura, ela disse. Descobrir que estava grávida foi um consolo em tempos nebulosos, algo que me devolveu um pouco a vontade de viver.

E quando Tati contou que também estava embarazada, nós celebramos em dobro! Fizemos uma grande festa pela família estar aumentando, todas nós nos empenhamos em discutir nomes, encomendar roupinhas, planejar os quartos dos bebês... Até ontem à noite.

Quando comecei a sentir as dores do parto, Luciana, uma de minhas irmãs, correu e foi chamar pela parteira. Assim que ela chegou, Tatiana também começou a passar mal. Como era um pouco cedo para isso, a parteira aconselhou chamar um médico enquanto cuidava de mim.

Foi uma madrugada longa e exaustiva, até que, finalmente, meu menino nasceu! Ele era grande e, ¡graças a Díos!, saudável! Meu Miguel era lindo e a cara do pai. “Mi tesoro” sussurrei para ele, quando o segurei pela primeira vez, aconchegando-o no meu peito. Não me lembro de muito, depois disso. Estava muito cansada, e dormi profundamente. Acordei no meio da manhã com o choro de mi hijo, e me assustei com a presença de Luci em meu quarto.

- ¡Buenos días, mana! ¿Como estás? – ela estava toda arrumada, com enfeites no cabelo trançado e de vestido novo, mas tinha um sorriso triste no rosto, o que me deixou alarmada. Porém, antes que eu questionasse, ela apontou para o berço – Não se preocupe. Por que não cuida do bebê primeiro?

Ela me ajudou a cuidar de Miguel, me deu comida e me ajudou a me lavar e trocar de roupa. Tagarelou o tempo todo, tentando me distrair, e esperei ela me colocar de volta na cama para perguntar sobre Tatiana. Como estava o bebê dela, afinal? Em resposta, Luciana ficou pálida e desviou o olhar. Ela engoliu em seco e disse em um sussurro, sem me fitar nos olhos, que ele tinha morrido, e que o enterro seria no final da tarde, o velório estava acontecendo agora, na sala.

- Não precisa descer. Fique aqui e descanse. – então, ela se virou e saiu do quarto.

Tentei processar a informação, atônita. O bebê de Tati... ¡Díos mio! Coloquei a mão na testa, e se já não estivesse deitada, teria caído. Que tragédia! ¡Oh, mi hijo!

Preocupada, encarei o berço, onde mi niño dormia tranquilo e, com cuidado, levantei e o peguei no colo. Enquanto eu caminhava pelo quarto, ninei-o, cantei para ele e o acalentei, mas meus pensamentos estavam a mil. Concentrei-me na pequena vida que segurava e sorri. Beijei sua testa e o coloquei de volta no berço antes de voltar para a cama, onde fiz uma prece pedindo pela alma de meu sobrinho e pedindo por mi hermana e seu marido. É com certa vergonha que, admito, também agradeci por meu bebê estar bem.

Acabei adormecendo e despertei agora. E é com esse rosto preocupado que Luciana me encontra, quando entra alguns momentos depois. Ela traz um prato de comida para mim, e avisa que resolveu não ir ao enterro para cuidar de mim e de Tati, que está estraña, ela diz. Se por um lado me sinto reconfortada com a atenção, por outro me preocupo mais ainda com minha irmã caçula. Insisto que Luci vá ver como nuestra hermana está, mas me assegura que ela prefere ficar sozinha, olhando a paisagem da janela da sala de estar.

Sem saber o que fazer com a situação, permito que me faça companhia em meio ao silêncio triste em que a casa está. Ela brinca com Miguel e conversa comigo tarde adentro, e agradeço ao buen Díos por ter alguém para me distrair.

O sol acabou de se pôr quando, de repente, um barulho no andar de baixo chama nossa atenção, e depois de me entregar Miguel, ela desce para ver como está Tati. Balanço mi hijo nervosamente, enquanto ouço as vozes se elevando, e o que acho ser a porta da frente se abrindo com violência. Deixo meu bebê na cama e levanto com cuidado, andando preocupada até a janela.

- Tatiana! Tatiana! – escuto Luci chamar. De onde estou, consigo ver Tati correndo como louca e começar a descer a colina antes de perde-la de vista, por causa da pouca luz. Ah! Tati, o que está fazendo? Meu coração começa a bater mais rápido, e o desespero me leva até a porta, quando escuto Luci gritar que não devo sair, que ela vai atrás de nossa irmã! ¡Díos mio! Mas é ela que não enxerga no escuro...

Miguel começa a chorar. Meu coração se aperta pela escolha que tenho que fazer, mas dou as costas para a porta e volto para a cama. Eu o seguro e beijo o rostinho de meu bebê, contudo, enquanto o acalmo, faço uma prece:¡Señor, por favor, ayudanos!

Juan

Durante o percurso, não vi nada além da trilha a frente de meus pés. Em algum lugar na minha cabeça, estavam guardadas as memórias de uma paisagem com muitos arbustos e flores selvagens, poucas árvores, algumas casinhas simples e vez ou outra uma vaca mugindo. Se algum curioso se juntou ao nosso grupo, ou se tirou o chapéu para nos mostrar respeito, não percebi. Simplesmente continuei a andar de cabeça baixa, um vazio no peito.

Eu seguia na frente com meu irmão. Apenas nós dois erámos suficientes para carregar o pequeno... Caixão. Era tão pequeno... Acho que apenas eu teria sido suficiente para carrega-lo, de tão leve que era. Mas, sem nenhum tipo de ajuda, eu não teria conseguido – o que é muito vergonhoso para mim.

Meu irmão Carlos e eu somos muito parecidos fisicamente, porém nunca tínhamos estado muito próximos, já que ele sempre pareceu ser bem mais velho – sendo o homem da casa depois que meu pai morreu, há tantos anos atrás. E agora, andando lado a lado, dividindo o peso da perda de um filho e sobrinho, sinto que ele é o único em quem posso considerar a pedir apoio, agora. Apesar de detestar me sentir vulnerável, mi hermano jamais me julgaria como um covarde, pois acho que ele entende o que é ter que ser forte quando você não quer ou não consegue.

- Levo o lado esquerdo da procissão, se quiser – ele me disse durante o velório, com o seu jeito autoritário de oferecer ajuda. Seu rosto era sério, ao passo que o meu era desolado.

- Gracias, Carlos. – minha voz tinha todo o alívio que queria transbordar por meus olhos – eu aceito. – e selamos o acordo com um aperto de mão, que me transmitiu muito mais força do que todas as palavras de “meus sentimentos” que havia escutado a manhã inteira.

Finalmente, a menos de um quilômetro de chegarmos à cidade, viramos à esquerda, em um caminho de terra mal cuidado, e rumamos para o cemitério. O choro das histéricas ficou mais alto a cada passo, e comecei a andar mais rápido, ansioso pelo fim dessa tortura.

Já estava escurecendo quando alcançamos os portões, onde uma estátua de dois metros sorria com nossa chegada: era um esqueleto, coberto por um manto esculpido com cruzes de lápides antigas, que na mão direita segurava um bastão, e a esquerda estava estendida, como se para nos dar as boas vindas. Quando garoto sempre tive medo dela, de seus orbes vazios e dentes sinistros. Contudo, nesse momento, mais um espinho entrou em meu coração já ferido, porque estava prestes a deixar meu primeiro filho em um lugar tão desolado, com um guardião tão assustador. Ergui os olhos para os Céus e perguntei ao Señor o porquê de estar punindo um inocente, se era eu quem havia pecado.

O padre e o coveiro estavam na frente da estátua, com uma lanterna a nossa espera, para nos guiar até o local que prepararam. Quase me ajoelhei perante eles e pedi que fizessem um milagre, mas me contive. Eu já tinha me destituído de boa parte de meu orgulho durante esse dia, e não queria terminar de joelhos dobrados na lama, implorando por um milagre a santos surdos. Eles nos mostraram o caminho até a pequena cova, no lado dedicado àqueles que tinham suas almas enviadas para serem Anjinhos no Céu – um lugar para as crianças serem enterradas, selando seus poucos anos de vida a sete palmos abaixo da terra.

Com a ajuda de um primo, o coveiro, eu e Carlos descemos o pequeno caixão, e com ele uma parte de mim. Acho que o padre começou a falar, e tinha pessoas gritando, mas a verdade é que eu não ouvi nada. Eu só olhei para o caixão branco, com uma pequena cruz na tampa, e a terra que o viejo jogava cada vez mais... E imaginei meu filho ali, quieto e indefeso, dormindo um sono eterno, sendo soterrado e escondido da luz do Sol para sempre.

Ele nunca iria aprender a jogar bola, nunca ia precisar de mim para consertar algum brinquedo, nem iria meu chamar de ‘Papá’. Nunca iria crescer e se meter em uma briga. Nunca me deixaria triste, nem orgulhoso. Jamais teria seus próprios filhos. Eu enterrava... Meu filho. Sangre de mi sangre. E precisava me despedir:

- Adiós, mi niño. Durma bem, Alejandro. – eu tinha perdido a batalha contra o vazio, que lentamente me consumia enquanto eu recitava minhas últimas palavras.

Tatiana

O sol já estava pela metade no horizonte quando perdi a procissão de vista, pois seguiu na trilha rumo ao Sul, para longe da cidade. Um caminho com grama morta e árvores altas. Por onde eu não tive coragem de ir.

Eu estava sentada na mesma cadeira, na mesma posição desde a partida deles, à tarde. Não senti nada quando fecharam o caixão na sala e meu marido e cunhado o levaram. Não lembro nem de ter acenado da janela para as pessoas que vieram prestar suas condolências e rumaram para .

Entretanto, agora eu não os via mais. Uma súbita onda de ansiedade tomou conta de mim, meu coração começou a bater mais rápido, eu estava ofegante e minhas mãos tremiam. ¡Señor! Eu precisava ver. Eu precisava ver onde eles estavam indo, eu precisava ver, euprecisavaeuprecisava...

- Tatiana! – ouvi minha irmã gritar, mas a ignorei. Eu já tinha me levantado e estava abrindo a porta da frente quando senti que alguém segurava meu braço com força. – Onde pensa que está indo? Não pode sair de casa! O médico disse...

- Para o diabo com o que o médico disse! – gritei! Com um safanão, livrei-me do aperto de Luciana e corri noite afora.

Estava um clima agradável, com alguns vagalumes acordando para voar, e o aroma delicado das flores saturando o ar. Gritei. Nem sei exatamente o porquê, talvez de ódio por tudo parecer tão bonito e em paz. Não deveria se assim. Toda a Natureza deveria estar triste, porque mi... Hijo, havia partido.

Lágrimas grossas começaram a correr por meu rosto, enquanto pela primeira vez desde a noite anterior eu tomava conhecimento que mi hijo estava muerto. Ele nasceu morto. Desde o início das dores do parto, meu filho não estava vivo. Eu dei a luz um niño muerto. Um menininho pequeno e perfeito, que não chorou quando veio ao mundo. Que não abriu os olhos para me conhecer. Que nunca iria ser amamentado.

Enquanto que o bebê de minha irmã era forte e bonito. De mim nasceu um morto, e dela um vivo. Na mesma madrugada, Díos mio, que peça pregou em mim? Por que o meu morreu e o dela está vivo?

Eu corria desesperada, tentado permanecer no caminho de pedras, quando pisei em falso e caí. Rolei algumas vezes até a base da colina, quando parei e permaneci estendida no chão, imóvel.

Em meu peito estava uma raiva acumulada contra essa injustiça, contra todo o Amor que eu tinha por um bebê que nunca poderia cuidar, e por ter que ver outro crescer. Eu tinha muita raiva. E desespero. E uma grande tristeza. Eu queria o meu filho, queria-o com todas as minhas forças e alma, queria-o tanto que doía saber que a única vez que o segurei ele não...

Eu soluçava com tanta força que não conseguia manter uma linha de raciocínio. Acho que devo ter gritado, ou esperneado na terra, não tenho certeza. Minha mente estava enevoada e meu corpo tomado pela dor e adrenalina.

- Tatiana! Tatiana! – era Luciana gritando. ¡Díos mio! Por que não me deixava em paz?

Precisava escapar de ser arrastada de volta para casa, então tentei retomar o controle sobre mim e me colocar de pé, o que foi mais difícil do que pensei. Tudo doía e meus músculos estavam resistentes a minha vontade, porém, com alguns grunhidos e força de vontade, consegui ficar sobre meus joelhos, então, apoiei-me em uma pequena árvore mais próxima para, sofridamente, ficar em pé.

Por sorte eu tinha corrido como uma possessa. E como Luciana não enxergava bem no escuro, seu progresso era lento, o que me deu tempo de retomar o fôlego. Oh! Eu precisava ver meu filho.

Com medo de que por algum milagre minha irmã me alcançasse, recomecei a andar, mais devagar do que gostaria, porém, não conseguia forçar meu corpo a ir mais depressa. Precisava ver se mi hijo estava bem, se as roupas que escolhi para ele o deixavam confortável... Eu precisava segurá-lo mais uma única vez e me despedir.

- Tatiana! – essa voz... Meu marido!

- Juan!

- Tatiana, Tatiana... – ele correu até mim e me abraçou com força, para garantir que eu também estava no mundo dos vivos. Eu o abracei de volta e agradeci aos santos – mais por hábito do que por fé – por meu Juan estar comigo e por ele não ter perguntado sobre meu estado em frangalhos ou o que estava fazendo ali.

- Eu preciso vê-lo – sussurrei, e tentei me desvencilhar dele e continuar andando. Mas minhas pernas cederam antes que pudesse dar mais que um passo, e fiquei chorando nos braços de meu marido, e em minhas costas senti suas lágrimas quentes. Isso me fez chorar ainda mais.

- Mamá, mamá, Tatiana está louca...

Maria

- Sua irmã não está louca, Luciana – minha voz soou áspera como o vento no deserto. Andei até minha filha mais velha, passando pela minha mais nova e o marido, dando as costas e me afastando do grupo enlutado. Eles estavam ou envergonhados pelo que viam e se dispersando, ou curiosos pela fofoca do dia seguinte e se amontoando em grupinhos murmurantes – mas todos mantiveram distância da cena.

- Mi hija – disse, quando me pus ao lado dela, tocando seu braço para que soubesse onde eu estava. Olhei para onde Tatiana e meu genro estavam abraçados, chorando em silêncio, e quando falei minha voz tinha o peso dos anos dolorosos que vivi, mais a perda de duas filhas e um marido – Sua irmã não está louca, está sofrendo – virei-me para Luciana – e só o Tempo e o Amor vão cicatrizar essa ferida.

Mais tarde, depois de termos chegado a nossa casa e nos lavado, dispersamo-nos. Luciana foi levar comida e ver como Carmen e meu neto estavam passando, Juan foi à casa do irmão, e eu fiquei com Tatiana na mesa da cozinha. Entre um gole de chá e outro, compartilhei com minha caçula, agora bem mais calma, um pouco de minha experiência:

- Você vai continuar a viver, e vai ter outros filhos. Vai amar seu marido, suas irmãs e seus sobrinhos. E toda vez que se lembrar do seu primogênito, vai doer. Mas um dia você vai entender, mi hija, que a Morte não para a Vida dos que vivem, e que não sepulta a alegria de continuarmos vivos; somos nós que fazemos isso. Então, escolha a Vida, mi amor, e deixe a Morte chegar no tempo dela.

¡FIN!

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigada por ler =)

XOXO,

K.M.

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