Canção de Ninar
KM
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 27/01/19 12:28
Gênero(s): Drama Reflexivo Suspense
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 6min a 8min
Apreciadores: 2
Comentários: 2
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Palavras: 1004
[Texto Divulgado] "Por trás da janela" E se a sua imaginação se confundisse com a realidade?
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Canção de Ninar

Dizem que as experiências que vivemos na infância nos moldam como adultos. Nossas fantasias se tornam sonhos a serem alcançados, e nossas lembranças mais queridas são as brincadeiras que deram certo ou que nos meteram em confusões: no final, rimos de tudo. Porém, nossos medos e traumas se não vigiados, crescem e se tornam monstros que muitas vezes não conseguimos derrotar sozinhos.

Da tenra idade tenho poucas memórias. Talvez porque não haja nada de muito bom ou relevante para ser recordado, mas não me importo muito com isso. Bom, pelo menos, até agora. É engraçado como no fim sentimos a necessidade de contar como foi o começo... Se há algo que aprendi, em todos esses anos, é que nada faz sentido nessa vida. E ainda assim, ela continua a ser bonita. Agora, quando meu coração começa a falhar, eu volto para minha primeira memória. Tento me lembrar de como foram meus primeiros passos nesse mundo, uma vã tentativa de me agarrar por mais breves instantes a esta realidade, esquivando-me do desconhecido que aguarda ansioso demais para o meu gosto.

Vejo-me parada em um quarto escuro, com uma grande janela, coberta por cortinas, do lado oposto à cama. Há uma poltrona de cor clara atrás de mim, e um tapete felpudo sob meus pés. Um cheiro de doença empesteia o lugar – e reconheço o odor, pois eu mesmo o exalo, em minha atual condição de quase morta. A princípio, não reconheço onde estou, até que um homem entra com uma criança no quarto. Espero que eles me vejam, e possam me dizer o que diabos eu estou fazendo nessa casa desconhecida, quando deveria estar moribunda em meu próprio quarto. Contudo, eles passam por mim, e percebo o semblante sério do homem – que deve ter volta dos trinta anos, mas que caminha como se tivesse sessenta. Ele leva pela mão uma menininha de cabelos curtos e que usa um vestido bonito. Um vestido tão bonito que eu poderia usar todos os dias... Espere. Eu me lembro de usar essa roupa – da sensação de girar e sentir a saia levantar, como se alçasse voo. Oh! Sou eu! Tenho quantos anos? Três? Talvez cinco. Definitivamente, menos que sete.

O que estaria eu fazendo em um quarto escuro, com um homem me levando em direção à cama? Espere... É papai! Que saudades de um rosto que não vejo a mais de trinta anos, e que durante minha infância e adolescência pouco esteve presente. Dizem que ele mudou demais depois que minha mãe... Morreu.

Então entendi o que estava vendo em meu leito de morte, algo que havia enterrado e só agora voltava à tona. Aos poucos, conforme eu recordava do que aconteceu, a cena a minha frente se desenrolava: minha mãe deitada na cama – que somente agora eu reparava – e eu e meu pai ao lado dela. Eu não conseguia subir sozinha no colchão, fui erguida e colocada próxima a ela, então, como fui mandada, beijei a bochecha dela, que estava gelada demais.

- Mamãe vai ficar boa logo? – escutei minha voz infantil perguntar ao homem que envelhecia dez anos a cada segundo.

Ele não respondeu de imediato. Primeiro, ele me pôs no chão, e depois se ajoelhou para dizer:

- Filha, a mamãe não vai ficar boa. Agora ela está dormindo, e logo, logo vai acordar. Mas não aqui. Ela vai acordar em um lugar lindo, cheio de anjos, e música. E vai virar uma estrela linda e brilhante, e ser muito feliz. Você não vai ver ela nunca mais, mas ela vai te ver... – a voz dele está embargada, e meu coração se aperta a cada palavra dita.

- Mas a mamãe está aqui. – o eu criança diz, se virando e apontando com mãos gordinhas para a figura na cama – o que você está falando?

- Querida, a mamãe... Não está bem. E o médico disse que ela não vai melhorar nunca mais... – ele tenta explicar novamente, mas a criança o corta.

- É só acordar ela! Papai, é como naquela história! Você precisa dar um beijo nela pra ela acordar! – eu tento puxá-lo de volta para a cama, mas ele é firme e me segura pelos ombros.

- Filha... Filha... – ele me abraça forte e saí do quarto, deixando-me sozinha comigo mesma.

A situação é tão estranha que eu, já velha e acabada, não resisto a ir até onde minha mãe descansa e olhar para ela. A sensação de se ver um rosto esquecido há tantos anos é angustiante: o coração aperta e você se pergunta como pode não se lembrar? Tenho uma imagem feia diante de meus olhos, um rosto murcho e marcado pela morte, semelhante demais ao meu. De repente, ela abre os olhos. A febre a fazia delirar, e quando me viu deu um sorriso que mostrava todos os seus dentes. Levo um susto tão grande que dou um passo para trás, e quase tropeço em mim, pequena.

Ah! Quase esqueci essa parte. Mamãe estava acordada, durante a discussão com meu pai, e ela começou a cantar uma canção de ninar, sua voz sussurrada preenchendo todo o espaço mórbido do quarto. A menina tampou os ouvidos e correu para o jardim e se escondeu atrás das roseiras, onde ficou até alguém ir procurar por ela, para avisar que a mamãe tinha ido para o Céu e virado uma estrela. Lembro que perguntei se a estrela cantava e quando minha tia – quem havia me encontrado – respondeu que sim, decidi que nunca queria ir para lá. O que eu faria em um lugar em que estrelas cantavam músicas tão horríveis como aquela?Dorme bebê, dorme meu bebê.Vovô já foi embora. Papai foi descansar.E a Mamãe agora canta:Adeus bebê, adeus meu bebê.Venha em meus braços repousar, Feche os olhos devagar, embalada nessa mantaSeus sonhos vão se apagar... Dorme bebê, dorme meu bebê.Sozinha comigo, cuidado para não se machucarA morte aguarda, ronda e espreitaLogo vamos nos encontrar...

E eu, já velha, revisitando aquela memória, com minha mãe quase morta naquele quarto, disse junto com ela, a parte final da música: Até breve minha estrela.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigada por ler =)

XOXO,

K.M.

Apreciadores (2)
Comentários (2)
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Postado 16/02/19 18:43

Esse texto me arrepiou. Parabéns pelo conto. Gostei muito dele, a ambientação é muito boa, fiquei imersa nas cenas. Obrigada por postá-lo na Academia.

Postado 19/02/19 14:41

Muito obrigada por ler!! Fico muito feliz em saber como reagiu a história!!

=)

XOXO,

KM

Postado 29/01/19 00:32

Que obra incrível! Estou sem palavras para descrever a sensibilidade presente em cada espaço desta obra.

Obrigada por tê-la compartilhado conosco. Terminei a leitura com os olhos marejados.

Meus parabéns ♡

Postado 29/01/19 16:55

Muito muito muuuito obrigada por ler e comentar! Fico feliz que tenha gostado!!

Gosto bastante de provocar emoções, então sinto como e tivesse cumprido meu objetivo ^^ Mas pretendo escrever coisas mais felizes em um futuro próximo, e seguindo o que você disse, procurarei manter a sensibilidade em minhas histórias =)

Mais uma vez, muito obrigada =D