A Marca
Jyuuken
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 26/02/19 11:29
Gênero(s): Fantasia
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 20min a 27min
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Palavras: 3355
[Texto Divulgado] "Escorpiana" Intensidade, esse é o seu nome. Aquela que sussurra, que grita e que demostra o quanto o amar é importante.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Olá!

Já faz muito tempo que não posto nada aqui, ano passado foi uma lástima improdutiva. Mas espero reverter isso. Trago até você um conto que gostei muito de escrever, talvez o começo seja um pouquinho lento, mas garanto que vocês irão gostar. Não deixem de comentar, comentários são o alimento da alma de um aspirante a escritor!

Capítulo Único A Marca

O ar estava seco, abafado. O céu estava se enchendo de nuvens escuras e agourentas, uma grande tempestade se aproximava. Emma observava os campos a frente, planícies imensas cobertas de nada além de um mato amarelado, se estendendo feito tapete até o fim do horizonte.

A marca em sua mão ardia feito ferro em brasa. Os vários ferimentos espalhados por seu corpo doíam cada vez mais. Seu corpo inteiro gritava que não ia conseguir. A cada passo, esmagador sob seus ossos, ela pensava em desistir de toda aquela loucura. Gritar, correr pelos campos sem olhar para trás. Mas a cada passo, se obrigava a dar mais um, e mais um. Não podia se dar ao luxo de desistir.

“Essa é a maldição verdadeira de nossa família, Emma”, a voz rouca de seu pai soou em sua mente, “é nosso dever continuar, quando ninguém mais for capaz.”

Pensar em seu velho pai a encheu de tristeza. Daria tudo por mais uma conversa com ele. Sentir sua presença, tê-lo ao seu lado e ouvir seus conselhos. Mesmo que por apenas mais um dia. Mas seu pai estava morto, bem como todos que um dia haviam sido importantes para ela. Nada restara a Emma além da marca em sua mão direita e a maldição que trazia consigo.

Em sua testa, seu cabelo amarelo palha se misturava a suor e sangue. O corte ao lado do olho esquerdo doía de um jeito particular. A fome começava a se fazer notar também. Olhou para trás mais uma vez, para se lembrar da importância do que estava fazendo.

Emma cortava a planície inóspita a passos lentos e vacilantes. Logo atrás de si, feito uma tropa arregimentada, uma horda de demônios seguia seu ritmo, grotescos e horrendos, criaturas feitas de puro pesadelo, seguiam a marcha lenta da garota sem se desviar, presos pelo poder contido no sangue dela.

Suas vozes cresciam na cabeça de Emma. Alguns a insultavam, outros diziam que nada fariam se fossem soltos. A loucura contida naqueles seres era como veneno, Emma fazia de tudo para mantê-los longe de seus pensamentos.

A marca os mantinha presos. Emma era a última de uma família antiga, odiada e perseguida. Os Dellgor, chamados de mestres infernais, tinham a marca em suas mãos e o peculiar poder de controlar demônios. Embora, nunca antes em toda a história, alguém controlasse uma horda como aquela de uma só vez. Ainda mais sozinha.

A horda se estendia como um rio imundo. Perdia-se de vista. Deixavam atrás de si um rastro de podridão, secando a terra e matando toda a vida por onde pisavam. O murmúrio entorpecido que faziam era constante, um som horrível e infernal.

Um portal para o inferno havia surgido na capital, despejando aquela horda sedenta por sangue em meio a pessoas inocentes, crianças, velhos e nobres desesperados. Emma pensara em fugir. Correr e se esconder. Com sua marca, seria capaz de escapar. Mas quando se deu conta, estava aprisionando as bestas em seu encanto. Aprisionando cada vez mais, e mais, e mais...

A cidade assistiu, com um misto de terror e espanto, a menina saindo pelos portões, liderando a terrível horda para longe.

A marca começava a arder cada vez mais. Atrás de si, os demônios se agitavam, tentando romper o encanto, tentando estender suas garras até ela. Emma seguia firme, mantendo-os presos, suportando todo o tormento o melhor que conseguia.

Seu braço queimou como fogo. A dor foi tão grande que caiu de joelhos. Os demônios começaram a fazer uma algazarra grotesca. “Sangue e entranhas!!” uma voz hedionda soou em sua cabeça, “nos deixe festejar, menina, nos deixe matar!”

“Vamos cortar cada pedaço de sua alma, junto com as deles!”

Emma olhou para o horizonte, enxergando uma fina linha escura surgindo pela planície. A linha foi aumentando, enchendo-a do mais puro terror. Ainda de joelhos, viu estandartes surgirem, enquanto a linha ganhava formas mais detalhadas, formas de cavaleiros, usando armaduras reluzentes e montados em cavalos corpulentos.

Um exército gigantesco vinha a seu encontro. A simples aproximação deixava os demônios enlouquecidos, cada vez mais difíceis de serem mantidos prisioneiros. A medida que o exército se aproximava, o pavor aumentava. As vozes em sua cabeça cada vez mais loucas e animalescas.

O exército parou em uma boa distância. Duas figuras se destacaram e vieram a galope em sua direção. Emma ficou novamente em pé, mantendo os demônios imóveis o máximo que conseguia, foi a passos lentos de encontro com os dois cavaleiros.

Antes de se encontrarem, as duas figuras desceram de suas montarias. Emma pode vê-los com clareza. O primeiro era alto e elegante, tinha o cabelo e a barba bem escuros e muito bem cuidados. Era muito bonito e nobre, devia ser um rei ou algum príncipe. Já o segundo, era um homem mais velho, sua pele era toda pintada de branca, com uma cruz escura sobre a testa. Emma conhecia bem aquele tipo. Um sacerdote de Scraa, o deus pálido da alvorada.

– Garota, aonde pensa que vai com tantos demônios? – o sacerdote sibilou feito uma cobra

– Só estou de passagem – Emma respondeu, sua voz saindo mais fraca do que imaginava – fiquem em suas cidades e ficarão bem...

– Não podemos simplesmente deixar uma horda dessas passar por nossas terras – o príncipe respondeu – Ainda mais sob a responsabilidade de apenas uma menina...

– Uma pecadora! – O sacerdote esbravejou, segurando uma cruz com sua mão direita – Olhe, meu príncipe, em sua mão, olhe a marca do pecado!!!

Emma levantou sua mão, exibindo a marca que brilhava um vermelho cor de sangue.

– Eu sei, meu senhor – o príncipe respondeu – de que outra forma ela estaria guiando tantos demônios? Você está vindo da capital?

Emma corou diante dos olhos nobres daquele homem. Apenas fez que sim com a cabeça. “Nunca confie em um nobre, filha” a voz de seu pai soou severa, “Eles só lutam por seus próprios interesses.”

– Estou indo para as montanhas Kheereh – ela respondeu, com determinação – Seus homens deixam os demônios agitados. Apenas me deixem passar...

– E deixa-la espalhar estas bestas pelo reino todo? – o sacerdote irrompeu em uma gargalhada odiosa – deveríamos queimá-la aqui mesmo, como fazemos com todos de sua laia!!!

Emma sentiu uma lufada de ódio. Os demônios se agitaram ainda mais. Tanto o príncipe como o sacerdote recuaram alguns passos. Percebendo o que estava acontecendo, ela fez de tudo para conter o sentimento ruim.

– Vou resolver isso – retrucou – nas montanhas, irei encontrar a solução.

– Nos deixe ajudar – o príncipe retrucou, com a voz suave e cheia de gentileza – você os mantém imóveis, eu e meus homens matamos todos eles, um por um!

Desde que saíra da cidade, com aquela horda atrás de si, Emma estava pronta para o que encontraria nas montanhas. Já havia aceitado seu destino. Mas agora, diante de uma possível nova esperança, sentiu-se um tanto desorientada.

Aquele plano podia dar certo! Ela precisaria de toda a concentração para mantê-los presos quando a matança começasse, mas poderia dar certo! Observou o sacerdote, que mais parecia um cão raivoso. “Os sacerdotes de Scraa, minha filha, são o pior tipo de pessoa que você pode encontrar”, seu pai lhe contara uma vez, quando entraram escondidos em uma das igrejas, “eles pregam o amor e o perdão, mas são os primeiros a exigir morte e tortura de quem ousar discordar de suas crenças!”

Emma via nos olhos daquele homem o desejo de matá-la. Não, não apenas matá-la, mas estupra-la, cortá-la e queimá-la.

– Talvez dê certo...

– Dará certo! Olhe para meu exército! São homens ferozes e prontos para a batalha!!

– Meu príncipe – o sacerdote interrompeu – não vejo necessidade alguma de pedirmos a essa criatura imunda coisa alguma! Deus está do nosso lado, nossa vitória é....

– Cale-se, Bako! – O príncipe o cortou, sem nem ao menos lhe dirigir o olhar. O sacerdote encolheu-se como se tivesse levado uma bofetada – Como você se chama garota?

– E-Emma...

– Emma, sei que com seu poder – o príncipe se aproximou, tomando as mãos dela entre as suas – poderemos por fim nesta terrível situação!

Emma corou. A armadura dourada e reluzente do príncipe era fria, mas de certa forma o contato com aquele metal a confortou. “Nobres só lutam por seus próprios interesses”, seu pai a lembrou. Sem dizer nenhuma palavra, com a cabeça turva de cansaço, ela apenas concordou com a ideia.

O príncipe sorriu, segurando suas mãos, guiou-a até seu cavalo. Tomou-a entre os braços, levantando-a como se não fosse nada além de papel, colocando-a gentilmente sob o dorso do animal.

Sentar-se trouxe à tona toda a dor de suas pernas. Seu mundo foi arrebatado por uma poderosa vertigem. O príncipe montou a sua frente, imponente e determinado. Tanto ele como o sacerdote se colocaram a galope, indo em direção as tropas que esperavam ao longe.

Emma segurou-se no príncipe. Abraçou suas costas, ainda corando. Não podia deixar de sentir os olhos odiosos de Bako, o sacerdote, sobre si. Nem a horda, imóvel e vibrante, desejando sair e dilacerar aqueles humanos.

Passaram por entre os soldados, que vibravam com sua passagem. Comemoravam a certeza da vitória. Por um breve momento, Emma se sentiu querida, longe do preconceito habitual que estava acostumada.

O príncipe a levou para trás das tropas. Colocou-a no chão com um sorriso tenro no rosto. A sua frente, seus homens formavam uma muralha de aço e coragem.

– Você pode mantê-los imóveis? – O príncipe perguntou

– Posso...

– Ótimo. Espere aqui! Irei resolver esse problema, então voltaremos juntos para minha cidade, onde vamos cuidar dessas feridas e do seu cansaço!

Emma encheu-se de esperança, enquanto via aquela figura imponente sumir por entre tantos soldados. Sentou-se contra o chão, sabendo que a tarefa a seguir seria difícil. A multidão rugiu, batendo os pés e as lanças contra o chão. Os demônios ao longe gritaram em fúria, cientes do que estava por vir.

O exército irrompeu em uma correria. A medida que chegavam perto, os demônios começavam a se entregar ao desespero. Gritavam por liberdade, guinchavam insultos e eram dominados pelo medo.

De onde estava, Emma conseguia agora enxergar a confusão que iria começar. Mas sentiu exatamente o momento em que o primeiro dos demônios foi morto. O frenesi das bestas veio como um turbilhão em sua mente.

Solte-nos sua maldita!!!

Meretriz infernal, nos solte!!!

Maldita seja, porca imunda!!!

Estão nos matando!!! Não consigo fugir!!!

Maldita seja!!!!!

Sangue e entranhas!!! Espada e fogo!!!!

A algazarra em sua cabeça foi aumentando. A marca queimou seu pulso, parecia que a pele ia desgrudar de seu corpo. A dor foi se espalhando pelo braço inteiro e pelo peito, pelas costas... parecia que havia entrado em uma fogueira.

Não conseguia ouvir seus pensamentos. Eram muitas vozes, cheias de fúria e rancor, medo e desespero. A dor e a bagunça em sua mente estavam destruindo-a por dentro e por fora...

Quando seus olhos cruzaram com os de Bako, tudo ficou quieto por alguns segundos.

Os sacerdotes de Scraa, minha filha, são o pior tipo de pessoa que você pode encontrar”

– Não precisamos da ajuda de uma pecadora suja como você!

Emma não teve tempo de pensar, nem de reagir. Só sentiu o impacto explodindo contra sua cabeça. Sentiu seu mundo desabar. O sangue fervendo escorrendo por seu rosto. O chão duro recebendo-a.

Sua visão ficou turva. Os demônios uivaram. Seu corpo ficou pesado. Parecia afundar em areia movediça. Sentiu seu controle sobre as criaturas se desfazer, um a um. Escaparam de seu controle. A marca parou de doer. As vozes em sua cabeça sumiram. Mergulhou na escuridão e no silêncio.

– Por que fazemos isso, pai?

Era um sonho. Uma lembrança. Emma ainda era uma criança e estava com seu pai, em uma casa pobre, diante de uma cama imunda, uma mulher pálida e magra que acabara de ser exorcizada.

– Como assim, minha filha?

– Por que ajudamos essas pessoas? Nos odeiam! Atiram pedras quando passamos na rua, cospem e gritam insultos como se fossemos animais...

– Elas nos odeiam mesmo, hahahaha – Seu pai tinha uma voz grave, mas sua risada era gostosa de se ouvir, mesmo quando era fingida – Vamos, filha, nosso serviço aqui está terminado.

Os dois se dirigiram para fora. Enquanto caminhavam, ele continuou a dizer:

– Não nos cabe decidir como o mundo irá nos tratar. Mas somos nós que decidimos o que fazer com nossos poderes. E eu, minha querida filha, escolhi sempre fazer a diferença!

Recobrou seus sentidos sendo inundada pela dor. O cheiro de sangue, lama e carne queimada era nauseante. Escutava gritos, choro e o terrível som de carne sendo mastigada e partida.

Por alguns momentos, a confusão era tudo que havia em sua mente. Estava no chão, sentindo seu sangue escorrer, com mais dores do que conseguia suportar. Abriu os olhos, ainda caída, vendo diante de si um homem morto, olhos arregalados e sangue por toda parte.

Sentou-se, sendo invadida pela lembrança na mesma medida que contemplava o horror ao seu redor. Demônios por todas as partes, devorando homens vivos, devorando homens mortos. O exército se dispersara, derrotado e destroçado.

Muitos morreram lutando, outros morreram fugindo. Alguns ainda vivos imploravam por clemência enquanto o festival de sadismo dos demônios se desenrolava. O sangue tornara a planície vermelha escura, sangue misturado com lama.

Emma se levantou, sentindo as pernas tremerem. Tentou localizar a figura do príncipe, mas todos os homens pareciam iguais, retalhos de pessoas, cortadas e queimadas. Perto de onde estava, um homem agonizava com a barriga aberta, o rosto em ruínas. Outro por ali, já morto, tivera braços e pernas arrancados.

Emma vomitou. Sua cabeça girou e por pouco não desmaiou outra vez. Os demônios estavam soltos, seus risos medonhos eram altos e terríveis. Perseguiam os vivos, estraçalhavam os mortos. Um espetáculo horrendo...

E a culpa de tudo aquilo era dela. Somente dela. Quisera ter esperanças, evitar seu destino e isso custara milhares e milhares de vida. Seus olhos marejaram, as lágrimas se misturando ao sangue.

A marca em seu pulso começou a arder, enquanto ela levantava sua mão direita. O brilho escarlate tomou conta do lugar, enquanto Emma chorava copiosamente. Os demônios foram se acalmando, aos poucos sendo pegos pelo encanto.

Começaram a se reunir em volta dela. Uma multidão deles. A marca doendo cada vez mais, alcançando cada vez mais longe.

“Onde iremos agora, menina?”

“Que carnes fresquinhas nos dará agora?”

“Queremos mais seguidores de Scraa implorando por suas vidas!!”

Aquelas criaturas estavam satisfeitas. Muitas nem sequer resistiram ao controle. Achavam que ela os conduziria para mais uma situação como aquela. A própria dor e tristeza que Emma sentia os divertia.

Foram se reunindo, uma multidão grotesca e selvagem. Até que não restou um só demônio fora de seu controle.

A marca latejava. Olhou para um dos homens perto de si, imaginando que fim terrível o príncipe teria encontrado.

– Me perdoe – Emma sussurrou quando começou a caminhar

A marcha foi retomada. A horda assumiu uma fileira gigantesca, seguindo novamente atrás da menina. A marcha que não devia ter sido interrompida. Emma sabia seu destino e não devia tê-lo negado nem mesmo uma vez sequer. Mas agora não fugiria. Agora, seguiria até o fim.

A marcha foi mais lenta do que antes, Emma estava sangrando, com fome, esgotada. Cada passo era um sofrimento maior que o anterior. Não houve nenhum outro exército corajoso o suficiente para interromper sua jornada.

Sendo assim, Emma lentamente deixou as planícies para trás, adentrando um terreno rochoso e cheio de montanhas. O ar ficou quente e os demônios começaram a se agitar. Haviam percebido para onde estavam indo.

Os insultos voltaram, mas dessa vez eram demais para que Emma pudesse suportar. Caiu de joelhos contra o chão duro, esfolando-os. Quase perdeu o controle, enquanto a marca doía como o inferno em seu braço inteiro.

Levantou-se e passos vacilantes continuaram a conduzi-la. Os demônios começaram a ser tomados pelo pavor. A voz de seu pai era a única coisa que a guiava, competindo contra a algazarra das feras.

“E eu, minha querida filha, escolhi sempre fazer a diferença!”

A visão de Emma começava a ficar turva. Estava morrendo? Ia desmaiar outra vez? Iria falhar, estando tão perto?

Mais alto que o mundo, mais grave que o trovão, uma voz retumbou por entre as pedras, calando toda a algazarra em sua mente, fazendo seu sangue congelar em suas veias, seu coração parar por alguns instantes:

O que você pretende, menina, trazendo tantas criaturas para meus domínios?

Ela parou, tentando encontrar alguma resposta em sua mente. A voz tornou a falar:

Sinto cheiro de sangue Dellgor em você! Sim, isso explica esses demônios agindo feito gado.

– Eu... eu sou uma Dellgor – Emma respondeu, sua voz vacilante

Nunca vi um dos seus arrastando tantos demônios de uma vez só. É impressionante! Mas se pretende invadir minhas terras, essa não é a força necessária.

– Não... não quero invadir... esses demônios surgiram na capital... derrotaram um exército no caminho pra cá... eu só quero que eles morram...

Os demônios entraram em desespero. Tentaram forçar sua liberdade, fazendo a marca doer cada vez mais. Emma sentia estar próxima do fim. Reuniu todas as suas forças e continuou a dizer:

– Seu fogo... Zeffenir, pode trazer fim para estas bestas...

Um som forte e estrondoso retumbou por todo o lugar. O bater de asas gigantescas, aliadas a um poderoso rugido fizeram todos ficarem imóveis. A figura alada, majestosa e terrível, surgiu por entre as montanhas, um dragão vermelho, com asas enormes e escamas afiadas. Zeffenir, das antigas lendas, pousou diante de Emma.

Sua presença deixava o ar muito quente. Era quase como estar diante de um rio de lava.

Se é meu fogo que procura, para dar cabo destas criaturas infelizes, veio ao lugar certo. Entretanto, criança, morrerá junto com estas bestas?

Emma olhou para a imensa fileira atrás de si. Estava fraca demais, mal conseguia organizar seus pensamentos. Podia sair correndo pelas montanhas, mas e depois? Como iria sobreviver ao caminho de volta?

Não sobreviveria. O ferimento em sua cabeça, feito pelo maldito sacerdote cobrava um preço caro a cada segundo que passava. Era um milagre gigantesco ela ainda estar viva...

– Eu... não pretendo sobreviver...

Morrer pelo fogo é uma das maneiras mais cruéis que se possa encontrar. Minhas chamas irão evaporar seu sangue e desintegrar sua pele. Em questão de segundos, nada restará neste mundo para comprovar que você tenha existido.

No fundo, não queria morrer. Quando reuniu todos aqueles demônios na capital, sabia que o lar do dragão era a única saída. Aceitara seu destino, mas o príncipe havia devolvido esperança. Mesmo que tenha sido breve. Fechou os olhos, sentindo-se ainda mais fraca, ainda mais cansada.

– Pelo menos irei encontrar meu pai...

Pois bem! Que assim seja!!!

Emma fechou os olhos. Zeffenir rugiu e bateu suas asas, estrondeantes como trovão. Os demônios se encheram de pavor e medo, se agitando ainda mais. Zeffenir voou para longe, para o ponto mais distante da fileira.

Quando soltou seu fogo, o estrondo era semelhante aos céus estarem se rasgando. Uma torrente de fogo caiu contra o chão, incinerando imediatamente os últimos demônios daquela marcha. Sem interromper a torrente flamejante, o dragão começou a voar para frente, levando o fogo adiante.

Emma sentia o calor em sua própria pele. Sentia-os gritar quando partiam, enquanto os demais tentavam a todo custo fugir. Sua cabeça foi ficando cada vez mais pesada. Caiu de joelhos, sentindo o encanto se desfazer. Um a um, os demônios foram sendo libertos de seu poder, mas já era tarde demais. O mundo era apenas fogo e não havia para onde fugir.

Emma visualizou o dragão nos céus. Viu impressionada o fogo que saia de sua boca, causando uma enorme explosão abaixo. Viu a montanha de fogo se aproximar cada vez mais. As montanhas eram a prisão perfeita. As criaturas não encontravam para onde fugir.

Fechou os olhos, entregando-se ao cansaço. Em meio a todo aquele caos, a algazarra dos demônios morrendo e o fogo explodindo na rocha, pode escutar seu pai, com sua voz alegre, lhe dando conselhos, como sempre.

“Orgulhe-se de quem você é filha. Não importa o que te digam, nem o que te façam, estufe seu peito e mostre a eles do que você é feita!”

E mesmo antes que o fogo a atingisse, sua marca se apagou...

❖❖❖
Notas de Rodapé

É isso, o que acharam? Minhas principais influências para escrever esse conto foram sem sombra de dúvidas Berserk, todo o horror que acontece quando humanos caem nas garras de demônios. Espero que tenham gostado, assim como também espero não sumir e voltar aqui em breve com mais uma história.

Até a próxima!

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