O Privilégio Secreto
KM
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 05/03/19 23:28
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 0
Comentários: 0
Total de Visualizações: 23
Usuários que Visualizaram: 1
Palavras: 959
[Texto Divulgado] "Por trás da porta" O que uma mente insana é capaz de fazer? ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Finalmente, algo mais alegre ^^

Capítulo Único O Privilégio Secreto

Era um rio muito bonito, aquele que havia perto de casa. Não ficava entre montanhas, ou no meio de uma floresta virgem e densa, mas suas águas cristalinas e frescas, de caminhos sinuosos, faziam a alegria da criançada que morava ali perto.

O rio era perfeito para brincadeiras nos dias de verão e sem incomodar os pais - uma vez que a água não passava da altura das coxas, ninguém se preocupava com possíveis acidentes. Limpinho do jeito que era, matava a sede de qualquer um que por ali passava. O rio era sagrado, uma benção naquele fim de mundo.

A correnteza era preguiçosa. O rio não tinha pressa de seguir, gostava de ficar por ali, entre suas distantes margens, no meio daquele vale isolado, com uns pingos de árvores a cerca-lo. Divertia-se com gritaria infantil e sentia-se útil para as três famílias que ali moravam. Admirava aquela gente, tinha imenso carinho por eles. Porém, havia um segredo que o rio guardava nas profundezas de sua tranquilidade.

Eu gostava do rio. Achava que era meu amigo e por diversas vezes o fiz de confidente. Por ser o mais velhos dentre os pequenos e novo demais para os maiores, ficava mais sozinho, em silêncio como ele, sentado na margem de pedras, só observando, por horas a fio, o fluxo daquela água que me fascinava, compartilhando nossos pensamentos.

Mesmo após tantos anos, não entendo o porquê daquilo ter acontecido... Dependendo do meu humor no dia, imagino de uma forma diferente a explicação para esse mistério. Ás vezes penso que, por sermos tão próximos, o rio me escolheu para compartilhar seu desejo mais secreto. Noutras, em que foi apenas um acidente, um deslize do rio, permitindo-me testemunhar seu coração. Na verdade, não sei, nem nunca descobrirei realmente.

Era final de tarde, minutos antes do Sol começar a descer para descansar. Essa hora era sagrada, pois todos nós nos juntávamos do lado de fora para o jantar, e, como nossos pais nos ensinaram, deixávamos o rio em paz, para que ele pudesse dormir. Porém, nesse dia, eu tinha ficado em casa, ardendo em febre, e comi mais cedo. Eu queria ir ver o rio, mas minha mãe não deixou, prendendo-me cruelmente aos seus zelosos cuidados.

Foi na hora abençoada, sozinho entre as paredes, escutando as vozes das conversas ao redor do fogo, vendo o laranja tingir o céu, que fugi. Ainda fraco, escapei pela portinha dos fundos, cambaleando pela trilha que me levava para meu amado companheiro. Ia apressado, temendo que dessem por minha falta e arrastassem-me de volta.

Quando cheguei a minha margem, o sol começava a se por. O suor escorria por meu corpo quente, grudando meu cabelo comprido na testa, deixando-me desconfortável e louco para mergulhar nas águas límpidas e geladas. Mesmo com o frio assolando meu jovem ser, acreditava piamente que meu amigo me curaria.

De repente, um barulho ao meu lado desviou minha atenção. Levei um susto com o que encontrei a poucos metros de mim.

De pé e imóvel, havia um garoto um palmo mais alto do que eu. Sua pele era vermelha como a terra e seu cabelo era tão preto quanto a noite sem lua ou estrelas. Seus olhos grandes e escuros, mal focalizaram em minha figura, trancafiaram sua expressividade. A boca grande abriu-se em um “O” mudo, o peito magro subia e descia rapidamente, evidenciando o ar que entrava mais rápido em seus pulmões. O corpo franzino e limpo contrastava com os trapos que o cobriam de forma desajeitada – como toda aquela figura desconhecida era.

Encaramo-nos por tempo infinito e curto. Estava tenso. Minha voz sumira, e não sabia o que fazer: ensinaram-me a temer aos estrangeiros, mas ele não mais me parecia tão assustador.

Um grito, clamando meu nome, quebrou o encanto daquele singelo momento. Minha fuga fora descoberta, podíamos ouvir o barulho de adultos desesperados se aproximando.

Como um raio, o garoto mergulhou nas águas transparentes. Eu gritei, tentando alertá-lo que era proibido mergulhar no rio àquela hora, esquecendo minhas vontades anteriores.

Em meu consciente febril, eu tinha que salvá-lo da desgraça iminente que recairia sobre ele caso perturbasse o sono do rio. Preparava-me para pular quando um par de mãos brutas me agarrou por trás. Esperneei, gritei e lutei com mínguas forças. Queria que salvassem ao menino, e só aceitei voltar para a segurança do lar quando meus pais prometeram que os outros procurariam pelo desconhecido por quem havia simpatizado.

Nunca o encontraram, nem eu o vi mais. Mesmo com a luz brilhante do luar, não havia vestígio de garoto algum no rio cristalino – era como se tivesse sido engolido pelo fundo.

Por uns tempos, fiquei revoltado: com minha família, comigo mesmo e com o rio – por sermos tão incapazes de salvar uma vida.

E foi assim que, após uns meses de silêncio e olhares de raiva, sem pensamentos que conversavam, em meio ao meu adorado rio, eu vi um par de olhos escuros e grandes que vigiavam a algazarra das crianças mais adiante.

Tão rápido quanto apareceram, sumiram. Pensei ser uma alucinação, contudo, minha alma gritava que havia visto algo real.

Só após uns dias compreendi que dividia com o rio seu segredo. Eu perdoei e pedi perdão. Voltamos à nossa antiga amizade, porém com laços mais profundos.

Veja bem o que minha mente infantil concluiu, e que aceitarei como verdadeiro até o fim de meus dias: o coração do rio também queria ser gente. Em suas horas sagradas, ele saia e vagueava por seu reino, zelando por suas terras e povo. Era criança, pois era puro.

E esse foi o maior privilégio que já me concederam essa vida: conhecer o rosto de meu melhor amigo e guardião – que levo gravado na memória mesmo após tantos anos, e que jamais esquecerei.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigada por ler!!

XOXO,

K.M.

Apreciadores (0) Nenhum usuário apreciou este texto ainda.
Comentários (0) Ninguém comentou este texto ainda. Seja o primeiro a deixar um comentário!

Outras obras de KM

Outras obras do gênero Cotidiano

Outras obras do gênero Crônica

Outras obras do gênero Mistério

Outras obras do gênero Reflexivo