Frágil ponto azul
Jorge Miranda
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 24/05/19 17:33
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[Texto Divulgado] " Apenas se jogue!" seja da altura de um pé, ou de um precipício para haver aventura tem que ter um inicio. tudo começa do momento em que tu se jogas.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Frágil ponto azul

Quando as primeiras informações chegaram à Estação Rastreadora foi uma correria só, todo mundo queria saber alguma coisa, perguntas e mais perguntas surgiam, um monte de gente falando ao mesmo tempo. A sala de controle ficou pequena pois todos queriam de alguma forma estar presentes. Tudo isso porque o que estava acontecendo ali naquele momento provavelmente seria a maior descoberta da história.

Uma das sondas caríssimas que havíamos mandado para interceptar e capturar parte de um cometa havia simplesmente tropeçado com um objeto estranho. Um objeto que não deveria estar lá.

Nessa noite fui dormir pensando no objeto que encontramos vagando perdido na imensidão do espaço. Lembrei também de uma história que meu pai contava para mim e meus irmãos quando íamos dormir. A história era sobre um homem que estava perdido em uma ilha deserta, ele colocava uma mensagem dentro de uma garrafa e soltava no oceano ...

I

Há alguns anos havíamos enviado duas sondas com a intenção de fazê-las pousar em um cometa e capturar uma pequena porção deste. Ora, cometas e asteroides são como verdadeiros fósseis que ficam vagando pelo espaço. Com uma amostra de um deles poderíamos entender melhor sobre a formação dos corpos celestes e consequentemente ter mais pistas sobre o surgimento do nosso sistema solar. Só que ao invés de um cometa nossa sonda terminou encontrando um objeto misterioso.

Quando nossa sonda detectou o objeto imediatamente reconfiguramos a órbita programada (isso demandou muita discussão entre os cientistas e técnicos da missão e cálculos de um nível de precisão inimaginável) e conseguimos que esta capturasse o estranho objeto.

Denominamos nosso achado de OOD (objeto de origem desconhecida). As fotos iniciais do objeto mostravam algo com um formato levemente triangular. Cada vez ficava mais claro que aquilo que observávamos era algo de origem extraterrestre.

Tivemos que superar toda a nossa impaciência e aguardar por quase dois anos longos anos até que a nossa sonda trouxesse o objeto até nós. Todas as informações foram consideradas de caráter extremamente confidenciais e todos os técnicos e cientistas da missão passaram a sofrer vigilância para que nada vazasse para a imprensa.

II

Após uma espera interminável finalmente a sonda aproximou-se de nosso planeta. Decidiu-se que por medida de segurança o objeto seria levado para a Estação de Pesquisa Internacional que orbita o planeta e não para algum centro de pesquisas em terra. Havia um medo muito grande que, por ser um objeto de origem desconhecida, este pudesse trazer consigo algum tipo de micro-organismo nocivo e completamente desconhecido por nós.

Uma equipe composta por astrofísicos, matemáticos, biólogos e engenheiros de várias especialidades foi mobilizada para estudar o objeto. Durante o rápido voo até a estação espacial era nítida a ansiedade que todos nós vivenciávamos. Pela primeira vez na história tínhamos certeza de que não estávamos sozinhos no universo.

III

Após uma série interminável de testes e varreduras de todo tipo decidiu-se que o objeto estava livre de qualquer patógeno. Era hora de finalmente estudarmos o objeto.

Não havia a menor dúvida de que o que tínhamos a nossa frente era a algo construído por uma inteligência extraterrestre. De onde ele teria vindo? Qual era a sua finalidade? Quem construiu ele?

O objeto não era muito grande. Ficou claro desde o início que aquilo que denominamos de OOD era algum tipo de sonda de exploração. Ela era um pouco diferente das nossas sondas, mas definitivamente era algo construído para explorar e pesquisar.

Foi detectado que todos os materiais e metais que compunham a estrutura física do objeto eram conhecidos por nós, com exceção de um que não constava em nossa tabela periódica. Em pouco tempo de estudo já havíamos acumulado dados para uma infinidade de pesquisas.

Que equipamentos nos colocaríamos em uma sonda exploradora? Tomando por base esta pergunta a equipe de engenharia, não sem um trabalho intenso, conseguiu montar um quadro mais ou menos claro dos tipos de equipamentos encontrados na sonda extraterrestre.

Acreditamos agora que a SOD (mudamos a denominação para Sonda de Origem Desconhecida) contém aparelhos para analisar plasma, para detecção de campo magnético, telescópios de raios cósmicos e infravermelhos, para detecção de asteroides, e radiação, além de equipamentos fotográficos e de radiofonia. Observamos também que ela é construída com uma tecnologia que, se comparada a nossa, estaria pelo menos uns cinquenta anos atrasada. Concluímos que nosso objeto desconhecido era uma sonda para exploração e pesquisa espacial.

IV

Desde o início das investigações nada nos chamou mais a atenção do que uma pequena placa que estava presa ao suporte daquilo que acreditávamos ser uma antena. Essa placa desde o início deixou claro o seu objetivo: ela é uma mensagem.

Quem enviou a sonda teve o cuidado de deixar nela uma placa contendo informações que acreditava poderem ser úteis caso alguém a encontrasse em um futuro indeterminado e improvável.

Era uma placa composta por uma liga de alumínio e ouro. Um alvoroço tomou conta da equipe quando ela foi descoberta. Foram chamados linguistas e antropólogos para se juntarem a equipe de pesquisa. O desafio era enorme. Os construtores da sonda haviam deixado uma mensagem na esperança de que um dia ela fosse encontrada por alguém com o conhecimento cientifico necessário para traduzir a mensagem.

Quando olhávamos a placa de imediato chamava a atenção o desenho de duas figuras que guardavam alguma semelhança conosco. Concluímos que eram um macho e uma fêmea. O macho está com um dos membros superiores levantados, não conseguimos entender porque ele está assim, os antropólogos acham que pode significar um gesto de paz, de interrogação ou algo de caráter religioso (os debates são intensos e apaixonados sobre isso).

O ser que entendemos como uma fêmea possui algo que lembra seios o que fez com que chegássemos a conclusão de que estas figuras extraterrestres tenham uma natureza mamífera. As estruturas antropomórficas deles parecem ser semelhantes à nossa e isso gerou intensas especulações de todo tipo, desde a possibilidade da existência ou não de um sistema familiar até o tipo de gravidade a que eles estariam sujeitos.

A placa nos fascina e mais de um de nós já foi visto com os olhos marejados de encantamento olhando para ela. Tenho certeza que todos nós experimentamos em algum momento uma tremenda sensação de estranhamento perante aquele objeto alienígena.

Estudar essa placa só faz sentido se fizermos uma suspensão da forma como pensamos. Torna-se necessário um exercício permanente de tentar pensar como os construtores da sonda pensavam. Eles utilizavam um sistema de registro completamente diferente do nosso. Que tipo de medidas eles usavam? Que símbolos foram construídos por eles ao longo da sua história? Estamos diante de um artefato alienígena que representa uma civilização que talvez guarde alguma semelhança física conosco, mas que também deve ter um nível de diferenciação cultural e sociológica inimaginável para nós.

Além da figura dos dois alienígenas a placa traz uma série de desenhos que, só após intensos estudos e debates, concluiu-se que faziam referência a localização do sistema solar de origem da sonda. Isso só foi possível porque de imediato ficou claro que a placa continha informações que só poderiam ser interpretadas por uma civilização com conhecimentos básicos de matemática e astronomia. Aquilo que na placa parecia ser o desenho de algum tipo de estrela mostrou-se na verdade um sofisticado sistema que demonstrava a existência de determinados pulsares em uma parte da constelação. De posse dessa informação cálculos extremamente complexos foram feitos demonstrando a localização do ponto de origem da sonda dentro da nossa constelação.

Há quanto tempo está sonda está vagando na imensidão do universo? Nossos astrofísicos acreditam que conseguiram calcular de onde ela veio. A localização de seu sistema solar de origem estaria há mais ou menos 6, 59 anos-luz de distância do nosso. Um oceano interestelar gigantesco. Ela poderia estar vagando há milhares e milhares de anos. Ter encontrado ela foi um verdadeiro milagre.

V

Estou olhando pela janela da estação, não me canso de admirar nosso planeta. Ele é belo e muitas vezes parece-me frágil. Possui um azul claro que se destaca no entorno escuro do universo. É aqui que eu moro, é aqui que nós moramos. Fico pensando no planeta de origem da sonda ... como será ele? Fico imaginando que ele talvez seja um pouco parecido com o nosso. Acredito que ele também é azul. Nós temos um ano de 397 dias. Quantos dias terá o ano lá? Nós já tivemos três guerras mundiais? Será que eles tiveram muitas guerras também? Nós temos cinco grandes religiões monoteístas e já matamos e morremos por elas. Será que eles passaram por isso também? Somos mais de 10 bilhões morando aqui. Quantos moram no pequeno planeta? Eles ainda existem? Nós temos música e todo tipo de arte. Será que eles desenvolveram algo parecido?

Acho que nunca conseguiremos um contato direto com nossos vizinhos, nem sabemos se eles ainda estão lá ... nossos radiotelescópios estão agora todos voltados para aquela região do espaço em busca de um sinal qualquer que nos diga que existe algo ali.

A pequenina sonda encontrada desencadeou uma mudança total em nossos paradigmas científicos, em nossas crenças religiosas e acredito que em nossas vidas pessoais também. Vai ser muito difícil olhar para as estrelas e não achar que elas ficaram mais bonitas e que agora estão um pouco mais próximas de nós.

Em algum lugar do universo existe um pequeno ponto azul muito frágil que mandou uma mensagem em uma garrafa. A garrafa foi encontrada ...

(*) Este conto foi inspirado (inclusive o título) no famoso texto de Carl Sagan “Pálido ponto azul” acerca de um registro fotográfico da Terra feito há mais de 6 bilhões de quilômetros de distância.

(**) A placa citada no conto existe e foi colocada nas sondas Pionner 10 e Pionner 11 que foram lançadas em 1973 e que provavelmente já saíram do nosso sistema solar.

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