Presença de espirito
Nilton Victorino Filho
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 03/08/19 23:28
Editado: 03/08/19 23:38
Gênero(s): Cotidiano
Avaliação: 9.93
Tempo de Leitura: 4min a 6min
Apreciadores: 7
Comentários: 6
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Palavras: 790
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Livre para todos os públicos
Capítulo Único Presença de espirito

Quase todo mundo tem, em épocas escolares, uma história de bouling para contar, infelizmente ou felizmente eu não tenho uma dessas, aprendi na Casa da Infância pela madre Brasil e depois com o padre Paulo que o segredo era fazer muitos amigos, eu tinha tantos amigos que, se alguém quisesse me fazer mal, enfrentaria um batalhão.

Eu era amigo do Tadeu Neguinho do 11, do Ranho do 20, do Zangão do 17, do Avelino do 13, do Bruxa do 16, do Jurandir do 24, do Cabeção do 12, todos eles esquisitos, mas, amigos do peito.

Então, eu passei de fofo na infância à esquisito na adolescência, com um batalhão de amigos.

Nesse ponto, uma ressalva eu faço, eu era esquisito e afilhado de dona Maria Amélia a presidente da Liga das Senhoras Católicas e, isso não contava para ser melhor que ninguém, ela tinha uma centena de afilhados além, sempre dava presentes simples no natal, o beijo dela era mais esperado sempre, essa senhora me assistia desde os dois anos de idade.

Em determinada ocasião foi mesmo vantagem ter como madrinha a esposa do deputado Eulálio Vidigal, ficou constatado que eu tinha uma pequena perda de visão, dona Maria me levou ao mais caro e moderno oculista de São Paulo, então, além de esquisito, eu usava um óculos com armação redonda, escolhida para homenagear o Lennon.

Pronto, preto, esquito e de óculos, dir-se-ia um perfeito nerd.

Já vamos à aventura então, antes que o leitor desista dela.

No aprendizado havia uma faxineira de nome Sueli, por volta dos quarenta anos, uma pessoa muito alegre que me adorava, gozado, eu não era querido pelas meninas mas, as senhoras me amavam.

Bom, essa senhora tinha um filho de nome Claudio que era aluno da oitava série, e ambos moravam ali perto, meio caminho da portaria ao mercado Paraná.

Se tem uma coisa muito natural que acontece em escola o tempo todo é meninos que correm em corredores da escola e, eu não fugia à regra, corria no corredor e acertei sem querer uma trombada no Claudio, ele caiu no meio do corredor.

Até aí, tudo normal, o que sempre acontecia no grupo escolar era, nesses casos, a turma toda cair na gargalhada, como os internos eram cruéis nesse ponto e, em questão de segundos o corredor virou uma balbúrdia, o Claudio caído no chão e todos a gritar:

_NÒÒÒÒÒ

Mesmo eu pedindo desculpas e dando a mão para ele se levantar, o ódio lhe avermelhava o rosto e ele recusou a minha ajuda e gritou:

_Oito e quinze, muleque.

Esse era o horário do término das aulas e, segundo o vocabulário educandáriano, significava...vou te quebrar na saída.

E ele nem viu o ridículo daquilo tudo, então um guri de quinze anos ia pegar outro de onze?o Arnaldo chamaria isso de "força desproporcional", a regra é clara.

Em menos de dois minutos meus amigos apareceram, gente de todos os pavilhões do meu lado, se tivesse acontecido a briga, eu contei mais de quarenta do meu lado do corner.

Bom, aquilo seria um insurreição e guerras duram muito e somam muitas vítimas, eu tinha que achar uma solução para acabar com aquilo e, não podia passar por covarde.

Conforme se passava o recreio, a expectativa ia aumentando e o valentão jogava em mim, do outro lado do pátio um olhar ameaçador, com os amigos a atiçar.

Bateu o sinal e me veio uma ideia doida, enquanto todos se dirigiam às suas salas eu fui à diretoria.

Atenção agora leitor, se você estiver lendo esse texto como um filme, pare e dê um zoom nessa cena, nesse exato momento os olhares se cruzam...o aluno interno que não tinha nada de si e usava um óculos da mais cara tecnologia e o olhar do diretor Sérgio que usava um óculos fundo de garrafa, rachado e colado com esparadrapo, breve segundos, o tempo de um breve dialogo:

_Professor, preciso ir ao lago, perdi a minha carteira com muito dinheiro dentro.

_Que barra, quer um farolete???

Isso tudo, sem tirar os olhos do meu óculos.

Levei o farolete mas, não fui rumo ao bambuzal, segui para a portaria, em menos de quinze minutos eu estava de volta á minha carteira, os meninos estranharam a minha calma.

Mais dez minutos e a Sueli irrompeu gritando na diretoria, meteu o pé possessa na porta e foi buscar o filho na sala dele, enquanto ela o arrastava pelo corredor, os estalos dos tapas eram ouvidos e, ela gritava:

_Vai bater no meu menino, é???

O Batata me cutucou os amigos me olhavam incrédulos.

_Você foi caguetar pra mãe dele???

Ajeitei meus óculos dadas por minha madrinha e disse naturalmente:

_Vocês teriam coragem pra tanto???

_Não.

_Viu, sou mais valente que vocês.

❖❖❖
Apreciadores (7)
Comentários (6)
Postado 24/06/20 12:27

Hahahahahahaah!

Muito boa a sua história! Nunca teria pensado em algo tão bom e de tamanha coragem.

Vou manter essa resolução em mente para caso tenha problemas, hahah.

Agradeço por compartilhar sua obra.

Assinado alguém que imagino um curto filme, <3

Postado 27/08/20 12:36

To impressionada essa história foi muito boa, vc é demais viu, eu amo ler seus textos *_*

Postado 27/08/20 16:24

NOOOOSSA, QUE GENIAL, estou muito surpreendida mesmo com o rumo que a história tomou no final, e isso foi muito bom!!

Quem diria que o óculos seria tão importante assim, né!!

E foi um grande ato de coragem sim denunciar a briga!!

Eu gostei demais dessa história!! Parabéns!!

Um abraço!!

Postado 10/09/20 23:43

É maravilhoso demais imergir em suas histórias! Nilton, minha alma não vai descansar até ver tudo isso em milhares de livros, você é o melhor e mais interessante escritor que eu conheço, você transpira inspiração, você é um maestro de palavras e cenas, suas descrições, o uso de cada palavra, a forma como você me dá um banho de água fria e depois quente em cada texto... É precioso! Muito obrigada por isto, mais uma vez!

Postado 05/10/20 19:14

CARACAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! ESSE TEXTO FOI INCRÍVEL.

A narrativa é extraordinária e cativa muito o leitor. O final foi, por todas as perspectivas possíveis, muito bom! Contar sobre a briga foi magistral, realmente me pegou de surpresa.

Obrigada por compartilhar conosco!

Meus parabéns, Nilton ♥

Postado 03/12/20 18:26

Fantástico! Amei sua história e o final foi demais...

Cada texto seu é um filme e uma viagem no tempo...

Obrigada por compartilhar conosco!