Eu a vi uma vez
Tháiza Lima
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 20/03/16 19:57
Editado: 20/03/16 22:07
Gênero(s): Drama Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 8
Comentários: 4
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Palavras: 893
[Texto Divulgado] "Sem história " Esse é um conto bem ao contrário e entendedores entenderão as entrelinhas dele
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Só explicando, nada escrito aqui realmente aconteceu, embora os fatos históricos da minha avó sejam reais. Eu espero que isso não se concretize e que ela complete cem anos (quase lá, quase lá ouo), mas me veio a inspiração e eu comecei a escrever e simplesmente aconteceu.

Além disso, eu tenho meio que um fascínio pela morte desde que eu li "A menina que roubava livros". Eu a personifiquei como uma mulher aqui, mas na minha cabeça ela seria um espírito neutro; mulher ou homem, tanto faz.

Capítulo Único Eu a vi uma vez

Eu a vi uma vez. Ela era deslumbrante como o céu sem estrelas, como uma noite de lua nova, como o campo enegrecido depois de uma devastação.

Eu estava sentada ao lado da minha adormecida avó paterna, a única que eu tinha contato após o falecimento dos meus avôs. Ela, coitada, debilitada por causa do Alzheimer e enfisema pulmonar, com a corcunda pressionando seus nervos, queria mais do que tudo se entregar para Deus e deixar a Terra. Ela, bela e conservada com seus noventa e três anos de idade, completados alguns meses antes, estava com as pálpebras fechadas aproveitando o que seria sua última noite de sono.

Recebi um sonho de madrugada, uma voz feminina dizia-me para levantar e velar minha avó, pois ela não tornaria a abrir os olhos.

Sofrera tanto, minha velha senhora, com seu marido bipolar e as dificuldades financeiras dos pais. Ela foi uma mulher guerreira, minha referência feminina na ausência de uma mãe a quem me amparar. Eu vivia me abrindo com ela, ainda que poucos minutos depois ela esquecia de tudo o que eu falava. Ela amparava minhas dores quando havia as suas próprias, ela confundia meu nome com o da minha prima e depois ria como uma criança, a dentadura exposta com os dentes artificiais retilíneos.

Uma vez eu comentei com ela o quão bonitos seus dentes eram. Apenas uma vez e nunca mais, ao vê-la com o olhar brincalhão e inocente tirar a dentadura da boca e expor sua gengiva nua. Os dentes inferiores eram meio tortos, mas isso não tirava por menos sua elegância.

Mesmo corcunda, minha avó tinha um balançar suave. Ela era uma das melhores dançarinas de valsa da cidade, vivia frequentando clubes antigos que hoje nem o nome existe mais. Ela participava do desfile da escola de samba, costurava as roupas do meu pai e tias, tratava a todos com gentileza e nunca desistiu de sorrir, apesar do marido horrível que tinha.

Eu nunca conheci meu avô, e que Deus o tenha, esse homem amargo que eu nunca consegui compreender.

Tanto falo da minha avó, esse anjo que caiu na terra, para fazer o possível de não me lembrar da segunda figura majestosa daquela madrugada.

Após acordar, logo depois da voz em meu sonho esmaecer, coloquei um roupão por cima do pijama fino. Era primavera, a noite estava gelada. Andei pé ante pé até o quarto ao lado, que estava com a porta aberta caso minha avó tivesse mais um ataque de tosse e meu pai precisasse sair correndo levar-lhe água e dar-lhe pancadas nas costas. Sentei-me na cadeira de balanço ao lado da cama, e fitei seu rosto enrugado, cheio de pintas da idade.

Refleti naquele momento quanto peso ela levava em sua corcunda. Noventa e três anos é muita idade, como ela mesma fala, e um dia eu chegarei lá. Nego com minha cabeça esses pensamentos, eu não quero chegar em uma idade tão avançada para no fim cada passo que eu der for acompanhado de falta de ar, engasgos se tornem frequentes e a sensação de não ter mais o que fazer na Terra se apoderar de mim.

Foi então que ela entrou, a Dama da Escuridão, Rainha dos Reinos Profundos.

Ela entrou adornada em vestes negras e pedras de ônix, seus olhos opacos não refletiam as lágrimas que ameaçavam cair de meus olhos. Trazia acompanhando-a o ar frio de primavera, o cheiro pútrido de corpos falecidos, e minha avó logo se juntaria a eles.

Certamente aconteceu um milagre para meu pai não ter acordado ao som do meu choro. A Morte deve ter se certificado de que ele não acordaria na hora errada.

Seu rosto parecia de mármore, com traços rígidos e anormalmente pálidos. Seus cabelos sedosos escapavam do capuz e flutuavam a sua volta, a gravidade não parecia ter poder para sua magnificência.

A Imperatriz viera levar o sofrimento da minha avó, deixa-la descansar, enfim, depois de tantos anos conosco. “Ela já deu, recebeu e viveu o suficiente”, disse com sua voz de veludo, e eu só pude concordar.

Entristecia-me ver aquela figura negra se ajoelhar e sussurrar algo no ouvido surdo da minha velha senhora, e logo enchi-me de pânico ao presenciar a alma idosa separando-se do corpo, com toda sua formosura e vivacidade, renovada e em plena juventude, sorrindo para mim como se eu ainda fosse aquela criança que saía da escola e ia para seu antigo apartamento ler revistinhas da Turma da Mônica.

O nome da minha avó significa “espírito de luz”, seu pai era espírita e ela me trazia mais felicidade que qualquer outra forma de vida.

A Morte pegou sua mão e olhou para mim, uma tentativa de sorriso aparecia em seus lábios finos. Ela puxou a alma luminescente da minha parente amada, e minha parente amada sorriu para mim ao acompanhar a Dama da Escuridão pelos corredores escuros da nossa casa.

Ela estava, finalmente, livre de seu fardo.

Sua perda não me deixou triste, pois eu havia sentido sua felicidade.

Minha avó estava feliz por não precisar depender mais de nós, descendentes, para tudo o que fazia. Ela estava feliz que finalmente seguiríamos em frente sem precisar leva-la nas costas.

A Morte deixou-me outro presente, além da ciência da alegria da minha velha senhora.

Ela me deixou a marca de um beijo, para que eu não esquecesse minha gratidão.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Espero que tenham gostado, tentei não deixar muito pesado ><

Apreciadores (8)
Comentários (4)
Postado 06/04/16 01:15

O que dizer diante de uma obra tão magnífica quanto foi a sua? Um texto abordado de uma maneira totalmente diferente das demais que eu li, e posso dizer com toda a certeza de que esta marcou, forte e profundamente, a vida dos leitores que aqui passaram.

Menina, sua criatividade me dá inveja! Amei a forma como você conduziu a história, e mais do que isso, houve uma história por detrás da própria história, e nesse caso, para contá-la de uma maneira melhor e mais vívido, se fez presente um terceiro personagem (o que também foi um ótimo diferencial).

A ligação contida aqui é de um desejo indireto, pois não houve a ligação do protagonista com a morte. Não. Houve uma testemunha desde o princípio. Talvez por isso a protagonista não sentiu a tristeza da perda: por saber que agora a sua avó tem seu tão merecido descanso.

Foi interessante esses detalhes que você redigiu. A história da avó é uma história tão real que qualquer um consegue assimilar com um ente querido: uma guerreira, que a vida inteira lutou pela própria sobrevivência e daqueles que a acompanha; uma guerreira que não se abalou, que não se deixou vencer até os suspiros finais.

E agora, depois de muitas batalhas ganhas e depois de tanto sofrimento (afinal, ter uma vida tão independente para no final se tornar dependente para tudo é deveras entristecedor para quem vive, sem contar o fato de ter sido presa a um casamento fracassado), ela finalmente encontra o motivo de seu sorriso final.

O que mais? Foi uma belíssima interpretação do tema que propus, sendo fiel e criativo a ele, e fazendo um desenvolvimento impecável. Parabéns! sz

Postado 12/04/16 20:26 Editado 23/04/16 01:21

Eu demorei quase uma semana me fazendo essa mesma pergunta: o que dizer diante desse comentário tão maravilhoso e carinhoso? Tia Pam, que agora é Pão-chan, eu não sei como devo chamar, shuau, muito obrigada. Devo admitir que fiquei com medo desse texto não estar completamente dentro do tema, justamente porque não era a protagonista que sentia o desejo de morte, e sim uma outra pessoa muito próxima dela.

E, bom, É uma história real, e o que eu coloquei no texto é só uma minúscula parte, tentei ser fiel aos relatos da vovó para construir os sentimentos do texto do melhor modo possível, que bom que deu certo :3 E eu abro um sorriso toda vez que releio esse seu comentário, sentindo orgulho desse texto feito em um surto louco de inspiração.

Obrigada de novo, até algum dia <3

Postado 23/05/16 23:03

Tocante. Emocionante. Meio melancólico, mas é perfeito em todo seu contexto.

É a minha maior sinceridade em relação à este texto. Meus parabéns ;D

Postado 27/05/16 00:33

Receber um comentário em um texto "antigo" faz meu sangue circular com mais cores que o arco-íris *u* não, pera q

Obrigada, Julih! Fico muito feliz que tenha achado tudo isso do texto, eu fico impressionada com esse tanto de emoção, sendo que de tanto passar o olho por esse texto já estou acostumada a ele xD mesmo assim, muito obrigada por ter deixado um comentário, embora só o fato de você ter gostado já me é o bastante <3

Postado 29/06/16 21:10

Como não se dislumbrar com uma obra tão deleitável, profundamente detalhada e rica em emoções? Como não simpatizar com a respeitável protagonista (dona de uma história de vida tocante e memorável) ou não admirar a beleza sobrenatural tanto da morte enquanto evento quanto a Morte enquanto entidade?

Suas descrições e narrativa foram de uma suavidade, fluidez e qualidade tremendas! Conseguiu transformar um momento potencialmente devastador em algo maior, mais sublime e, condizendo com a proposta do desafio, morbidamente feliz.

Meus parabéns pelo belíssimo conto, senhorita!

Atenciosamente,

Um ser que imagina a Morte como uma monstruosidade indescritível, Diablair.

Postado 12/07/16 00:34

Como encontrar palavras para responder, depois de duas semanas, um comentário tão maravilhoso, que emocionou tanto quem leu?

Eu não acho que mereço esses elogios, mas saiba que estou profundamente agradecida, principalmente pelo fato de ter gostado genuinamente desse conto que foi tão cuidadosamente escrito.

A morte é para mim nada mais que a consequência inevitável de se estar vivo, então a dama sublime merecia um foco especial ao ter pessoalmente aparecido na hora de dizer adeus, não como uma entidade funesta, mas em sua literalidade - a partida da vida, o descanso final após uma longa e dura trajetória.

Novamente, muito obrigada, Diab! :'3

Postado 13/11/16 00:27

É impossível não se sentir tocado por A Menina que Roubava Livros, é realmente magnífico a narração daquilo que tudo tira o fardo, apesar de nem sempre levar apenas isso.

Um ótimo texto, Thá. ^^