Segredo
Victoria C
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 28/09/19 12:26
Editado: 28/09/19 12:35
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 6min a 8min
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Não recomendado para menores de dezoito anos
Capítulo Único Segredo

Era para ser uma noite como todas as outras se não fosse pelo incidente que aconteceu na casa de sobrado de cor amarelo. Da cadeira do terraço do segundo andar, não pude acreditar até ver os carros e a ambulância chegando e parando na casa de sobrado em frente à minha, enquanto três corpos saiam cobertos por um pano branco manchado de sangue. A garota estava sentada na calçada, tremendo de frio e ensanguentada, fingindo estar sofrendo como se ninguém tivesse visto o que tinha acontecido dentro da casa. Porém, eu vi.

Após os seis dias do acontecimento, eu ainda podia imaginar o carpete cinza colorido com manchas vermelhas, as cortinas rasgadas e os gritos abafados pela acústica da casa que não deixou o som escapar, mas observei as bocas se abrindo enquanto gritavam e tentavam abrir a janela. Três de quatro pessoas foram mortas dentro daquela e ninguém podia desconfiar quem seria o culpado.

Estico meu braço até a escrivaninha e puxo um pequeno espelho, olho-me nele e vejo as olheiras se formando abaixo dos meus olhos, são seis dias que mal consigo dormir. Com a outra mão ergo uma fotografia e observo os quatro membros da minha família, incluindo eu, estamos sorrindo e felizes em frente a nossa casa, quando eles ainda moravam comigo, idêntica as outras da rua, mas a diferença é o terraço do segundo andar, aconchegante o suficiente para fazer-me passar as noites.

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Dizem que quando você pensa demais em uma coisa isso pode permanecer na sua mente por muito tempo. Dois comprimidos não foram o suficiente para a minha enxaqueca terminar e eu conseguir dormir, então engulo mais dois, com a garganta seca as capsulas passam arranhando a superfície. Espero que seja o bastante para fazer eu aguentar hoje. Um passo de cada vez, digo a mim mesma. Coloco um pé no degrau da pequena escada de casa e olho para a casa de sobrado, de cor amarelo. Está tudo em silêncio. Caminho o mais rápido que posso até o canto da rua. Respiro profundamente, penso que ninguém me viu.

As horas pareciam passar rápido demais como se quisessem que eu chegasse logo em casa. Abro a porta e me lanço para dentro. Quando fecho a porta olho através do vidro da mesma, do outro lado da rua uma luz amarelada acender. Ela já retornou para casa.

Não me atrevo a acender as luzes ou utilizar qualquer aparelho que possa imitir uma. No escuro subo as escadas lentamente, o carpete macio arrasta sob o meu pé descoberto. Alcanço o meu quarto e fico estática, as janelas estão fechadas, então estou segura aqui dentro. No bolso da minha jaqueta sinto algo vibrar e uma luz franca começa a picar. Droga! É o meu celular. Apanho o aparelho e deslizo para cima uma mensagem aparece na tela do mesmo mostrando um valor transferido para a minha conta no banco.

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De todas às vezes que eu senti medo, está é a mais aterrorizante. Tento convencer a mim mesma que nada fiz, a não ser presenciar algo que estava longe do meu alcance. Procuro formas de esquecer o que vi, mas as imagens invadem os meus pensamentos de forma excessiva. A agonia que me aflige parece não atingir a minha vizinha que retorna a sua vida de forma normal e passiva, sem ninguém desconfiar. Sinto como se fosse um segredo que guardamos que nunca vou poder revelar.

Não consigo pregar os meus olhos na noite, a minha casa escura parece repousar todas as noites, mas continuo a atenta. As imagens daquela noite, novamente, interrompem os meus pensamentos. A porta da casa, a sala de visitas, o sofá grande o suficiente para a família e visitas. Eu já estive lá uma vez, uma única vez… ou mais que isso. Na verdade, foi fácil entrar, a porta estava aberta como o combinado, as luvas em minhas mãos não deixariam digital alguma sobre a maçaneta, as botas de números diferentes do que costumo utilizar atrapalharia qualquer investigação que fosse. E lá estava ela me esperando com os comprimidos em uma das mãos, uma forma de pagamento adiantado, o resto eu poderia comprar com o dinheiro que ainda receberia. Estava tudo arquitetado. Mas eu não saberia dizer no dia em que me dispus a fazer isso como eu me sentiria agora.

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Se soubéssemos sempre o que vai suceder após uma ação nossa, existem muitas coisas que, possivelmente, não seriam feitas. Mais cinco comprimidos descem pela minha garganta, forte demais, cuspo um pouco de sangue misturado com a minha saliva. Olho para o relógio no meu pulso marcando um horário entre a madruga e a manhã. Desço as escadas de forma triunfante, as pílulas começam a fazer o efeito desejado, um sorriso brota em meu rosto, logo estarei livre. Destravo a porta da minha casa e saio para a rua, uma lufada de ar frio faz o meu corpo se encolher, percebo agora que estou apenas com um pijama surrado. Consigo completar o curto trajeto até a casa de sobrado, a porta está trancada, é óbvio. Antes da minha mão chegar a tocar a superfície da madeira, pronta para bater, a porta de abre emitindo um rangido que até a noite em que estive aqui não tinha. A figura a minha frente parece calma a minha presença. Vejo em suas mãos uma luva idêntica à da noite passada, um pensamento vem em minha mente, olho para baixo e a vejo calçada com um tênis esportivo, balanço a cabeça negando, deve ser o efeito da droga. Antes que eu possa perceber já estou dentro da casa e a porta atrás de mim se fecha, a luz do hall de entrada acende e a figura a minha frente como um déjà vu fala como da última vez “eu estive esperando por você”.

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Postado 05/10/19 12:58

Você escreve com maestria, parabéns. Texto incrivel