Honra entre similares
Wolffenry
Tipo: Lírico
Postado: 17/06/20 15:25
Editado: 17/06/20 15:29
Gênero(s): Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 1
Comentários: 2
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[Texto Divulgado] "De Olhos Fechados" Até quando o que você vê ou ouve é real? ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

ᴀ ᴛʀɪʟʜᴀ ǫᴜᴇ ᴍɪɴʜᴀ ᴍᴇɴᴛᴇ ʀᴇᴘʀᴏᴅᴜᴢ ᴛᴏᴅᴏs ᴏs ᴅɪᴀs 'ɴᴀǫᴜᴇʟᴇ' ᴍᴏᴍᴇɴᴛᴏ.

https://www.youtube.com/watch?v=HohlKls_fYo

Capítulo Único Honra entre similares

Quando finalmente me emancipei de pais e familiares e fui para Osasco levar a vida e morar sozinho, fiquei cerca de um ano e alguns meses residindo em pensionatos masculinos. Passei por três deles antes de conseguir um aluguel proprio com as continhas no meu nome (ultimate fucking achievement, paw). Aprendi mais valores do que posso tentar enumerar convivendo naqueles lugares e, bem, não foi fácil, os Deuses sabem que não foi fácil. É estranho pensar que, de todas as vivencias que tive desta fase atribulada e cheia de percalços (e acredite, foram muitos; bizarros, tensos, escabrosos e pouco agradáveis, diga-se de passagem) o que mais me marcou foi essa inusitada e "boba" característica a qual eu sempre era capaz de verificar em todos os homens com quem cruzava nas republicas que permaneci.

Em fato, posso afirmar que conheci todo o tipo de homem enquanto estive naquele tipo de habitação. Dos mais santos aos mais asquerosos, dos mais sãos aos mais psicóticos, dos mais iluminados aos mais malditos, dos mais cheios de fé aos mais descrentes. E, apesar de ter me deparado com inúmeros padrões vibratórios, havia sempre essa sinergia macabra que insistia em trazer os atormentados aos lugares que tanto chamávamos de "lar".

Novamente... não se tratava de bons ou ruins, de certos ou errados, karmicamente negativados ou positivados; mesmo o mais metido a monge espiritualizado perto de alcançar o nirvana ainda estava sujeito àquela "honra entre similares" que pairava sobre cada um de nós. Afinal, somente um para reconhecer o outro, não?

Por mais que o banheiro (mais de um dependendo da pensão) estivesse disponível, era possível ver sempre alguém debruçado em um dos tanques da lavanderia. A cena se repetia constantemente. Os braços cansados de algum daqueles senhores de meia idade se apoiavam nas extremidades de um concreto áspero ou de um plastico manchado e então, uma respiração pesada dava inicio a um ritual que, de tão sagrado, parecia expurgar os mais repulsivos pecados de cada um deles. Abriam a torneira e visualizavam a pressão d'água descer como algum tipo de isenção divina. As mãos se juntavam abaixo do córrego enquanto abrigavam o liquido da vida nas palmas amassadas. Os milésimos de segundo necessários para encher uma concha pareciam uma eternidade. E num movimento impetuoso de desespero jogavam a cabaça cheia e improvisada contra seus rostos.

O choque térmico os atingia como um súbito aval de redenção, seguido pelo suspiro agonizante que disparavam contra o ar assim que conseguiam retomar o folego. A tensão superficial da água os emulsificava não como um efeito físico, mas sobrenatural, extra-corpóreo, irrevogavelmente mistico. A água lavava suas almas enquanto refrescava seus rostos enrugados. As gotículas passavam entre os poros buscando qualquer resquício de malemolência e então, entregavam-se a lei gravitacional, levando toda a treva avassaladora ralo abaixo.

Alguém engolia seco, fechava os olhos e, enquanto passava uma das mãos na face aliviando o encharcado, transportava-se para essa dimensão alternativa onde Jesus, Mitra, Horus ou qualquer outro Messias haviam lhes dado a remissão absoluta, o perdão mais sincero do arrependimento, a chave para a entrada do paraiso.

As janelas da alma se abriam e voltavam a realidade ardente que os assolava. As vezes pequenos tapas os ajudavam a acordar, outras, voltavam para seus quartos ainda inebriados pelo encontro etéreo sem desejo algum pelo desperte. Um braço era usado para enxugar o excesso d'água, se não já uma toalha, outras... apenas deixavam escorrer pelo peito, fosse vestindo uma camisa ou não. Existia essa dilatação temporal assustadora que os revestia, sempre, obrigando-os a assimilar seus fantasmas do passado entre cada passo daquele processo ritualístico.

Essa foi a primeira coisa que notei quando pus os pés na pensão da Dona Izabel em 09 de agosto de 2018 e foi a ultima coisa que pensei quando sai da pensão do Seu Luiz em 11 de janeiro de 2020. E até hoje... até hoje, não consigo entender a razão disso, razão que divago sobre dia após dia quando me pego debruçado sobre o tanque da minha própria varanda com o rosto totalmente encharcado de água.

Durante esse tempo todo talvez se tratasse bem mais do que simplesmente lavar o rosto.

❖❖❖
Apreciadores (1)
Comentários (2)
Postado 17/06/20 15:46

Cara, tu estas de parabéns. Eu, que já estou a um bom tempo aqui, não conseguiria produzir algo de tamanha qualidade!

Postado 17/06/20 17:27

Não posso parar a voz que diz "crônica com a daquele velho autor", um simples acontecimento de meus dias de estudos simplórios.

Sua narrativa em primeira pessoa trás a ideia de uma história contada ao leitor por um bom velhinho, espero não ofender com a comparação. Mas a ideia do texto em que os rituais cotidianos são bem mais, faz minha mente viajar em meus próprios rituais.

Sem muito a dizer e por não o conhecer, agradeço por compartilhar sua obra e por agraciar a academia com sua observação.

Assinado alguém que deseja encontrar semelhantes (espero que encontrei alguns aqui também, Senhor Wolffenry)

<3