Lua Nova
LG
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/07/20 00:20
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 6min
Apreciadores: 4
Comentários: 2
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Palavras: 799
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Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Bom, é um texto que representa muito pra mim, só isso que tenho a dizer. Não está revisado e nem pretendo revisar. E estou tentando voltar a escrever aos poucos, espero que gostem.

Digam não ao plágio.

Capítulo Único Lua Nova

A porta aberta iluminava o quarto escuro, e apesar de nova, a lua parecia perto demais para quem estava apenas no segundo andar. Tentei acender a lâmpada da varanda e vi que não acendia.

- Droga, eu esqueci. - Murmurei, lembrando que fui no mercado ontem comprar as coisas do jantar e não trouxe uma bendita lâmpada nova.

- Desci para cozinha, o relógio indicava que faltavam ainda 15 minutos para ele chegar.

- Cama, ok. Comida, ok. Cerveja, ok. Limpeza, ok... Eu deveria ter escrito tudo que eu tinha que fazer. - Mentalmente não me permitia esquecer nada, mas que se foda se esquecesse. Era só mais uma noite.

Era o que eu tentava me dizer repetidamente. Espiritualmente, a Lua Nova indicava novos inícios, e muitos religiosos dizem que até mover marés e plantas ela é capaz. E lá estava eu tentando de novo. Receber alguém em casa depois de tanto tempo... Soava estranho, mas reconfortante, uma sensação de alívio por estar me permitindo viver algo novamente. Estava movendo minha maré para outra direção e plantando algo novo na minha vida: A liberdade, de ser, de querer, de estar.

O celular tocou e o nome dele apareceu na tela. Gelei e fui até o portão, ele desceu do carro rapidamente e entrou comigo. Minha barriga sussurrava meu nervosismo e eu fiquei pensando em tudo que pudesse falar, e o que saiu da minha cabeça nas primeiras partes da conversa foram apenas perguntar, duas vezes, se ele estava bem. Tinha uma parte de mim que queria que eu me jogasse do segundo andar por estar sendo patético.

Terminei de preparar o jantar enquanto conversávamos sobre a vida, atualizando todas as notícias que não sabíamos por conta do afastamento. Já tínhamos bebido algumas cervejas e comido o resto de queijo e presunto cortado que tinha em casa.

- Vamos jantar? - Olhei para a boca dele instintivamente, me apoiei na pia e esperei ele dizer algo. Visivelmente mesmo após algumas cervejas, eu ainda estava nervoso.

- Acho melhor subirmos e terminarmos as cervejas primeiro. - Disse ele, já se virando para pegar duas cervejas na geladeira. Ainda bem, pensei. Jantar era a última coisa que queria.

Subimos com as cervejas e sentamos na cama, afastados, um de frente ao outro. Liguei a TV e dei o controle na mão dele para escolher um filme. Enquanto ele demorava para escolher, me perguntando sobre as sinopses dos filmes, eu me aproximava na cama. Quando finalmente escolhemos o filme, eu já estava sentado encostado no braço dele.

Conversamos um pouco com os olhos, olhava-o de baixo para cima e ele não piscava. Talvez eu tenha ouvido que ele queria um beijo, e assim o fiz. E o filme? Bem, nem sei dizer para vocês qual era o título.

Não era a pessoa, não era o toque, não era o momento. Era sobre estar livre. Senti cada toque como uma corrente que quebrava sob minha pele, ouvi cada gemido e sussurro como o estalar dos cadeados que eu tinha na minha vida. Demorei alguns bons anos para entender que sermos nós mesmos não é questão de felicidade e sim de necessidade. Talvez ele não soubesse o impacto daquela noite para mim, mas eu sabia exatamente o peso dessa transição.

Transamos por mais algumas horas. Não foi algo de outro mundo, muito pelo contrário. Foi novo, contudo, parecia que estava pronto para aquilo desde sempre. Os movimentos, o envolvimento, a mecânica... meu corpo parece que já sabia como funcionava.

- Vamos jantar? - Disse, deitado de lado e de costas para ele, que me envolvia com seus braços, calado.

- Sim, deu fome! - Pude perceber o sorriso, realmente deve ter sido cansativo.

Descemos, saboreamos o jantar ali mesmo, em frente a pia, enquanto conversamos sobre trivialidades. Sobre como estava o irmão dele, sobre sonhos, o que ele ia fazer depois da faculdade, o que eu iria fazer ano que vem, já que não iria morar mais naquela casa. Em algum momento, sentei no penúltimo degrau da escada e o vi, só de cueca, se aproximar e em pé ficar do meu lado. Passei meu braço por trás dele e peguei em sua mão. Continuava a conversa e ele apertava minha mão levemente, de vez em quando. A hora dele ir embora chegou.

- Tenho que ir, João. - Ele falou, e confirmei com a cabeça. Trocamos um abraço e um último beijo.

Vendo de cima na varanda, acompanhei ele sair pelo portão. Entrou no carro e saiu, enquanto a lua continuava a iluminar todos nós, abaixo dela. Pude perceber que seu curvado, única parte iluminada da lua nova, cresceu nos últimos dias. Já era tempo de ela virar crescente, e assim como eu, assumir que cresci e mostrar que sou capaz de me tornar cheio, completo. Afinal, estamos nessa vida para iniciar e fechar ciclos, assim como a Lua.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Espero que traduza muito o que muitas pessoas sente quando se descobrem.

Apreciadores (4)
Comentários (2)
Postado 30/07/20 15:54

Que texto mais maravilhoso!!!

Não tenho nem palavras para descrever o quanto me emocionei com cada uma das palavras utilizadas! A sua escrita é linda demais! A emoção e o sentimento que você transmite ao escrever, é enorme demais!

E a metáfora com a lua foi perfeita, linda, maravilhosa mesmo!

Gostei tanto que nem consigo expressar direito!!!

Obrigada por compartilhar essa obra!

Abraços!!

Postado 02/08/20 18:51

Esse texto me tocou de todas as maneiras que jamais imaginei serem reais! A conexão do leitor com as personagens é automática e a simpátia, instantânea. O desenvolvimento da trama é tocante e o final, preenchido pela metáfora lunar, enche o leitor de melancolia.

Obrigada por ter compartilhado essa obra maravilhosa conosco!

Parabéns ♥