O Silêncio dos Túmulos (Em Andamento)
Rei do Norte
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 30/09/20 15:08
Editado: 23/10/20 23:10
Qtd. de Capítulos: 4
Cap. Postado: 30/09/20 15:08
Cap. Editado: 30/09/20 19:50
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 8min a 11min
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Palavras: 1348
[Texto Divulgado] "Dia 17...." Dia 17, dia tão comum, mas ainda sim tão especial... dia de reatar laços de sentir de novo.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
O Silêncio dos Túmulos
Notas de Cabeçalho

Oriundo do meu tédio nesses meses de pandemia.

Capítulo 1 Começo do Fim

“Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.”

Ariano Suassuna – O Auto da Compadecida

Voz30.mp3

25 de maio de 2025, Recife, Pernambuco.

Meu nome é... Eu já disse nas outras 29 vezes, não? Ninguém vai ouvir essa merda mesmo, não importa mais. Assim como a vida que tinha antes da peste se alastrar pelo mundo. Já fazem o quê, 5 anos? Um maldito vírus dizimou o mundo todo. Milhões morreram. Ricos e pobres, não houve exceções. E quando pensamos estar próximos da cura, o verdadeiro pesadelo começou. Os laboratórios americanos queriam vender a vacina. Um novo símbolo de poder na hegemonia mundial. No entanto, invés de propagar a imunidade, usaram uma arma biológica com a desculpa de controlar a situação. Esse foi o erro fatal, pois muitos que poderiam ser salvos acabaram morrendo. O Brasil e outras economias emergentes ficaram em segundo plano. Nossos governantes brigavam entre si e pouco se lixaram para o povo. A mídia repassava as recomendações da OMS: QUARENTENA! FIQUEM EM CASA! "VAI PASSAR".

Não passou, piorou. As doses da vacina que foram distribuídas em solo brasileiro mataram o povo. O intuito disso era uma macabra "seleção natural" para que a verdadeira cura pudesse chegar aos países de terceiro mundo com grandes populações. As pessoas eram enterradas em valas, como indigentes e lixo. E foram elas que saíram dos túmulos para aterrorizar os vivos. "Os Infectados". Cientistas diziam que isso era resultado de uma mutação. Fanáticos religiosos gritavam nas ruas anunciando a penitência: "Arrependam-se! O juízo e o fim estão próximos!" 5 anos... Eu estava no fim da minha graduação de ciências biológicas. Um garoto de escola pública, nordestino, mestiço e pobre. Lutei muito pra conseguir uma vaga na faculdade. Meu avô dizia: "O Norte pode ser uma floresta abandonada, mas o Nordeste é o rabo do Brasil. Ninguém se importa com gente pobre." Ao menos ele morreu antes de toda essa merda acontecer. Enquanto eu estou tentando sobreviver nesse inferno. Dor, sangue, cansaço, fome e sede. Tenho que lidar com o infortúnio de estar vivo, embora a morte esteja ali na esquina, me esperando de braços abertos como uma prostituta.

Fim da gravação

Cinza, sempre detestei essa cor. Um meio termo e ambiguidade. Podia ser citada como pedaços queimados de um cigarro ou restos de um ser humano. Essa cor entre as nuvens anunciava que o céu iria chorar em breve. Ah sim, também chove no Nordeste. Recife tem algo bem único, ou você enfrenta um calor infernal ou se previne de chuvas que parecem um segundo dilúvio. Nublado, aquele maldito dia me aguardava. Liguei a moto, uma antiga Honda de 120CC. O vermelho desbotado deu lugar ao marrom da ferrugem, mas a moto tinha duas rodas e era rápida, isso era mais que suficiente. Por agora eu precisava de suprimentos. Os grandes supermercados tinham sido saqueados e depredados. Os mercadinhos de bairro? Eu já vi um ser queimado inteiro. A fome enlouquece as pessoas. A única diferença de um Infectado é que os vivos soltam berros e palavrões.

Minha alternativa era rondar a cidade, verificar casas, postos de gasolina e com sorte, algum mercadinho. Fiz uma pequena horta e conseguia me manter com alguns legumes, mas uma feijoada enlatada até que não seria tão ruim. Ainda que eu não pudesse me dar o luxo de desperdiçar recursos, mesmo que fosse um asqueroso miojo. Além disso, eu procurava por medicamentos, roupas, facas e combustível. Tudo aquilo estava na lista, mas eu sabia que facas boas eram tão raras quanto um achar bife de primeira e armas de fogo como água num deserto.

Parei em frente a um posto de gasolina. O letreiro ainda piscava hesitantemente, embora o M do "MEGA" estivesse apagado. Reabasteci o tanque. O preço nas bandeiras era extremamente abusivo, mas ninguém se importava com os impostos e o preço do dólar agora. Consegui colocar dois galões no baú da moto. Olhei ao redor. A rua estava deserta, mas não vazia. As árvores quase tomavam toda a pista. Havia mais verde do que jamais houvera antes e o som dos pássaros era muito mais evidente agora.

Caminhei até a loja de conveniências e notei que a porta de vidro temperado estava quebrada. Um buraco grande aparecia onde outrora havia uma tranca de metal. Ao redor do vidro, manchas de sangue marcavam presença. Secas e com um vermelho escurecido, já estavam ali há algum tempo. Elas decoravam a porta como um convite ruim de boas-vindas. Com a mão esquerda, tirei o facão da bainha de couro improvisada no cinto. Adentrei após empurrar a porta com a mão direita. Não havia ninguém lá dentro, embora eu tivesse certeza que uma pessoa tinha morrido ali ou no mínimo, saiu gravemente ferida. Brigas por comida geralmente terminavam em morte e aquele cenário não era nenhuma surpresa.

Não sobrou muita coisa na loja. Alguns salgadinhos murchos, doces vencidos cheios de formigas e umas revistas pornô. Olhei no balcão e notei que o caixa aberto tinha grana. Uns 200 reais completamente inúteis. Ninguém que estivesse vivo podia fazer coisa alguma com dinheiro. Hoje, até um pão dormido tinha muito mais valor. E pensar que há pouco tempo pessoas matavam e até vendiam o corpo por esse maldito papel me deixava enojado. Meus melhores achados foram três garrafas de água e um álcool 46%. Os freezers há tempos tinham pifado, mas água era água, ainda que não tão refrescante. Pouco depois saí da loja e coloquei a faca na bainha. Senti algumas gotas caírem sobre meu cabelo crespo e minha velha jaqueta jeans. As nuvens soltaram suas lágrimas. Estas logo ficariam mais fortes, sinalizando que meu tempo ali tinha que acabar. Então veio um barulho... Um som que escutei bastante ao longo desses cinco anos.

Aquele grunhido ficava mais intenso a cada segundo. Levei a mão direita ao cinto e desenrolei o chicote. Uma longa corda de couro com um aguilhão de metal na ponta, uma lâmina fina e afiada, tal como um ferrão de escorpião. Diante dos meus olhos, lá estava a maldita Peste em carne e osso. Uma mulher com a pele acinzentada e apodrecida estava se aproximando da moto, vindo em minha direção. Olhos cinzentos e sem vida me fitaram. Sua mandíbula era exposta, lhe faltavam dentes e os poucos que restavam na gengiva eram pretos. Ela manteve a boca aberta, rosnando e babando. Comecei a girar o chicote que rodopiava no ar, e em seguida golpeei o chão, fazendo um forte estalo. O golpe arrancou um pedaço do concreto no processo. Ela reagiu ao som com um urro e correu até mim. Girei o chicote mais uma vez e o lancei. Ele a atingiu como um bote potente de uma cobra, o aguilhão perfurou o olho esquerdo atingindo o crânio. Eu o puxei e a mulher caiu. Pude ver uma parte do cérebro podre cair junto com ela. Dei alguns passos e observei brevemente as margens da estrada. Passei álcool no aguilhão do chicote, o enrolei e prossegui até a moto. No entanto, outra mulher me aguardava. Distante, a silhueta turva feminina ia tomando forma até que tive uma visão nítida dela.

Ao contrário da Infectada, esta tinha uma cor acastanhada bem viva. Era uma mulata bonita, seus cachos negros e volumosos ficavam na altura do pescoço. Se aproximava graciosa e ameaçadoramente pela estrada esburacada e cheia de lama. Trazia nas mãos erguidas um 38, e referiu-se a mim por um nome. Um apelido na verdade, mas não qualquer apelido. Não como aqueles nomes bobos de infância, e sim do tipo se enraíza em você e as pessoas te reconhecem por ele como se fosse seu nome de verdade. Eu odiava esse apelido. Me chamo João. João da Silva. Um quase biólogo, míope e sobrevivente pós-apocalíptico. Mas durante esses 5 anos, ganhei um outro nome infame. A mulata perguntou com mais ênfase: — Responde porra! Você é o Lampião?

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Postado 30/09/20 16:20 Editado 30/09/20 16:21

Antes de mais nada, fico imensamente feliz por sua presença aqui!! Obrigada por ter aceito meu convite!! :)

Essa história já começou incrível com essa citação maravilhosa do Auto da Compadecida!

Hora que comecei a leitura, já me identifiquei com esse narrador, porque às vezes fico pensando que esse vírus vai durar no mínimo uns 8 anos ainda... Minha família não gosta quando eu digo isso, mas fazer o que, sou pessimista ao extremo...

Estados Unidos com arma biológica para uma "seleção natural" completamente nazista, ótima sacada de crítica!

Amei essa ideia dos Infectados, isso foi genial demais!!

"Até o pão mofado tinha mais valor que o dinheiro largado no caixa", caramba, isso foi pesado. Você é ótimo fazendo essas críticas!

Sr. Rei do Norte, eu estou profundamente encantada com essa história, a sua escrita me prendeu do começo ao fim, você é realmente um ótimo escritor!!

Meus parabéns! Já estou aguardando mais capítulos desse mundo apocalíptico incrívelmente incrível que você criou!!

Um abraço <3

Postado 21/10/20 21:28

Devo dizer que o seu texto foi uma surpresa bastante agradável. A narração é muito bem estruturada e você conseguiu ambientar bem o clima de decadência e a dificuldade em relação aos suprimentos e em se manter vivo nesse mundo brutal do pós-apocalipse. As críticas ao imperialismo e ao capitalismo são bem interessantes, inseridas nesse contexto.

O personagem principal é bem humano, pelo menos eu achei, ele tem um quê de comum, de alguém que só estava fazendo o melhor que podia para seguir com a vida e passou a tomar decisões ainda mais dificeis e cruéis.

Excelente estreia, gostei bastante. O apelido do protagonista no final foi uma sacada muito interessante.

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