Ensaio Sobre a Cegueira
Mrs Spellman
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 08/10/20 02:29
Editado: 08/10/20 02:38
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 5min a 6min
Apreciadores: 5
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Palavras: 823
[Texto Divulgado] "Ecos do passado acorrentados pela negação" Somos os vultos nas fotos, aqueles que observam do escuro, aqueles que não estão mais mortos, o som da respiração no silêncio, a negação ecoando no futuro. Ou talvez apenas um de nós. Afundados em melancolia e no esquecimento, esperamos o momento em que voltaremos como uma folha em branco, sem nos dar conta da natureza trágica de nossa existência. Somos ecos do passado, somos o fardo e o trauma daqueles desafortunados da classe 3-3. Éramos a classe 3-3. Quem é o morto do ano? Também aguardamos essa resposta. | Oneshot Per Month Project | Mês do Terror e Horror | Outubro 2020 |
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

"Are you insane like me?

[...]

You can’t wake up, this is not a dream"

(Gasoline - Halsey)

Dedicado à Imperatriz do Massacre

Capítulo Único Ensaio Sobre a Cegueira

— Estou cega. — A Imperatriz me confessa em voz alta, enquanto esbarrava em algum móvel da sala.

A escuridão diante de meus olhos era profunda, mas a cegueira em si não me incomodou. O maior problema era que nós estávamos na caçada de uma vítima naquele exato momento.

A pequena cabana não era tão grande, havia somente dois cômodos: uma cozinha e uma sala (que servia de quarto, pois era onde a cama estava) e que já haviam sido minuciosamente investigadas por nós duas antes da cegueira cair sobre nós, enquanto a vítima dormia algumas horas atrás. O banheiro ficava do lado de fora (onde a noite sombria deixaria qualquer um que tentasse sair, mais cego do que eu e Imperatriz) e nós tínhamos certeza de que a vítima não havia saído, porque a única porta de acesso estava trancada (e foi a última coisa que vimos antes de ficarmos cegas), sendo que a chave estava comigo. Todas as janelas estavam bloqueadas pelas travas de segurança. Caso ele tentasse abri-las, nós ouviríamos o suave clic como se fosse um grito no perturbador silêncio no qual estávamos. O local era revestido de madeira da cabeça aos pés, então qualquer ruído que não fosse o nosso, denunciaria a localização da vítima.

Dentro ou fora da casa, aquele homem narcisista não poderia se apoiar em nada, além de seu desespero.

— Flávia — A chamo da cozinha. — Eu também estou cega. Talvez devêssemos ir embora. Provavelmente ele já fugiu sem que percebêssemos.

Minha companheira, percebendo rapidamente que se tratava de blefe, me respondeu:

— Concordo. Até porque nós não vamos conseguir matá-lo nesse estado.

A única vantagem da vítima era a sua visão e, caindo em nossa armadilha como um coelho, ela passou a se mover juntamente conosco, enquanto andávamos em direção a saída. Com um dos nossos sentidos em desuso, os demais ficaram aguçados, por isso, Flávia, ao ouvir um passo a mais fora da nossa sincronia de movimento, lançou sua faca em direção ao barulho, no mesmo instante que eu lancei minha adaga.

Um baque surdo foi ouvido caindo no chão segundos após o lançamento. Dou um longo suspiro e digo:

— Finalmente! Essa venda estava machucando meus olhos.

— Queria ajustar o ângulo para acertar a testa dele, desculpe se demorei. Estava contando a que distância ele estava de mim por meio da contagem dos passos. — A Imperatriz me responde, enquanto tira sua venda.

Concordo fazendo um leve aceno de cabeça e guardo no bolso a máscara escura que Ternura carinhosamente costurou para mim e Flávia, quando ela ouviu a Imperatriz dizer que gostaria de brincar de Assassina Cega¹.

— Acertei bem no centro da cabeça. A morte foi instantânea. — Minha parceira comenta com a mão no queixo, contemplando a sua obra.

— Diabo… — Praguejo em voz baixa.

— O que foi?

— Não encontro minha adaga.

— E eu não encontro a orelha dele.

Nós duas arqueamos as sobrancelhas e passamos procurar a arma e orelha perdidas. Quando começamos a nos locomover para a cozinha, senti alguém puxar a barra de meu vestido. Meu primeiro impulso foi virar-me rapidamente e impulsionar a perna com força para trás, para que o dispositivo da lâmina na ponta da minha bota fosse ativado, mas, por algum motivo, lembrei-me que Tristeza certa vez me disse:

— Nunca chute antes de verificar quem ou o que é. Pode ser algum ser mágico tentando te ajudar... ou te matar.

Em respeito aos Deuses Ocultos e todas as suas mágicas criações, principalmente à minha própria vida, abaixo lentamente os olhos e me deparo com uma criatura muito pequena, que possuía mãos enormes penduradas em seus finos braços. Em seu rosto, a falta de seus olhos era o destaque, pois estavam sem os globos oculares e somente um profundo vazio me encarava. Olho para Flavia e ela rapidamente levanta as mãos em forma de rendição ao dizer:

— Juro que não fui eu que arranquei os olhos.

Contenho o riso e, abaixando-me para tentar ficar na mesma altura do Duende², sorrio nervosamente ao dizer:

— Você sabe onde está a minha adaga, pequenino? Ela é muito preciosa para mim. Foi a minha Mestra que me deu.

Ele balança a cabeça positivamente e de repente some, mas um segundo depois retorna, como se tivesse se teletransportado, entregando a mim a adaga negra com a orelha presa na ponta. Pego minha arma e retiro a orelha, dando-a para o meu novo amigo.

— Um presente para você. — Digo e o Duende tenta abrir um sorriso de agradecimento, mas sua boca está costurada.

Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ele subitamente desaparece, deixando para trás o som de uma risadinha abafada sombria e um papel dobrado. Pego com a ponta dos dedos o minúsculo bilhete e ouço a Imperatriz dizer:

— Qual o nome dele?

— Rumpelstiltskin. — Respondo, após ler com certa dificuldade o pequeno papel.

— Ele gostou de você. — Minha amiga comenta.

Com um suspiro aliviado, revelo:

— É melhor tê-lo ao nosso lado do que contra nós.

❖❖❖
Notas de Rodapé

¹ Nome da brincadeira Cabra Cega adaptado pela autora.

² "Duendes, segundo as lendas, possuem poderes sobrenaturais, desafiando as leis naturais da física, como: atravessar paredes, se locomover em alta velocidade e até se teletransportar de um lugar para o outro. Eles são conhecidos por serem travessos e terem um humor extremamente sensível (assim como a maioria dos seres mitológicos europeus), portanto, caso alguém lhes agrade, eles podem tornar-se seus amigos, mas caso os ofenda, as travessuras, como esconder objetos, irão se tornar cada vez mais sérias, chegando a causar doenças ou em alguns casos, a morte"

- [Fonte: Wikipédia].

Por conta disso, vocês podem notar no texto que a minha personagem sorri nervosamente. Ela sabia que ele podia estar escondendo a adaga por não ter gostado da presença das duas moças na cabana. Dar a orelha foi como fazer uma troca.

- O título do texto foi baseado no livro de mesmo nome escrito por Saramago, mas a trama das obras não possuem nenhuma ligação.

Obrigada a quem leu até aqui

Apreciadores (5)
Comentários (5)
Comentário Favorito
Postado 12/10/20 03:47

A genialidade na construção do título e do texto é impressionante; um trocadilho com um humor negro e sarcástico. Além disso, é uma interpretação tão criativa da música; ao mesmo tempo que você vê particularidades similares, há uma desconstrução no significado literal.

A narrativa também foi muito bem descrita, de uma forma que se torna fácil a visualização da cena. Quem diria que uma brincadeira infantil que outrora parecia inocente iria virar algo macabro em suas mãos?

Amei a criatividade, e novamente volto a dizer o quanto me apaixonei pela criatividade do título, que nos induz tanto ao nome da brincadeira, quanto ao ocorrido na cabana e ao livro do Saramago. É genial, sério.

A maneira como as duas lidaram com a cegueira me lembrou do filme Hush: A Morte Ouve, só que ao contrário: você não vê, mas ouve cada som, prestando atenção nos mínimos barulhos e montando estratégias para a conclusão do serviço.

Parabéns por essa obra genial, Brina ♡

Postado 16/10/20 01:41

Caramba, você conseguiu capturar tudo que eu usei de referências na história. A ideia realmente era criar a temática inversa de Hush, mais toda a cegueira repentina que aparece no Saramago e, logo em seguida, destruir tudo isso com insanidade.

Seus comentários me deixam muito emocionada, pois sempre capturam a essência das obras.

Obrigada pela presença e comentário, Pam ♥

Postado 08/10/20 09:06

A D O R E I

gente, que incrivel, bem escrito, e o melhor, é que isso me fez rir, pois uma adaga e uma ORELHA foi perdida kk

foi maravilhoso ler isso, como sempre suas obras me arrepiam e me fazem querer mais!

grande abraço para a senhorita Brina!

Postado 16/10/20 01:36

Fico feliz que tenha gostado!

Obrigada pela presença e comentário, Estrelinha ♥

Postado 08/10/20 10:46

Pelo ardor do Inferno, mas que obra sombriamente adorável temos aqui! Logo no início somos tomados pela curiosidade dada a estranheza da situação em que a história se desenrola. O modo como tudo foi narrado e descrito criou uma atmosfera que prende o leitor e conforme os eventos ocorrem, somos brindados com a criatividade deleitável e malevolente da autora em introduzir uma versão doentia de um jogo clássico infantil, bem como uma brutalidade requintada e a adição perfeita de uma potencial ameaça sobrenatural para duas protagonistas que já representam perigo per si. Absolutamente fascinante!

Me sinto realmente agraciado e inspirado por ler esta maravilhosa criação de alto nível, Divina Brina! Interessante, muito bem escrita e sinistramente divertida, além de mostrar uma parceria que com certeza adoraríamos ver outras vezes! Meus sinceros parabéns por mais esta maravilha literária, Srta Tortura! Belíssimo trabalho/homenagem!

Atenciosamente,

um ser subitamente cegado pela maestria da Divina Brina (e agora interessado em duendes coletores de pedaços humanos), Diablair.

Postado 16/10/20 01:36

Seus comentários sempre me deixam sem palavras! Muito obrigada por ter capturado as minúcias da narrativa.

Obrigada pela presença e comentário, Diab ♥

Postado 08/10/20 20:49

GRITOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!! Olha o que um AC News com falta de olhos causou!!! Melhor obra da vidaaaaaaa!!!

Eu peguei tanto as referências que quase gritei aqui. Melhor coisa foi a Imperatriz acertando a vítima bem no meio da cabeça. Que morte, senhores! Juro que até pensei no que a vítima pensaria, se visse o estado em que ficou! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

As trigêmeas colaborando para a brincadeira de "cabra" cega. Melhor coisa que poderia acontecer. Amo essas personalidades! Quero colocar todas em um potinho e chacoalhar até virarem slime. Fofas!!!

Brinis, que bom que você achou os olhos. Eu sabia que estavam em algum lugar da coleção, mas juro que não tive nada com o sumiço dos olhos do duende. Não é minha culpa mesmo! Eu posso provar!!! Só vai demorar um pouco, muitos rótulos para olhar. e_e

Muito obrigada e parabéns!

Postado 16/10/20 01:37

Temos que ficar atentas. Nunca se sabe quando alguém pode aparecer e roubar nossos olhos, deixando a galera sem AC News KKKKKKK

Obrigada pela presença e comentário, Flavinha ♥

Postado 09/10/20 15:17

Aaaaaaaa Deuses, que texto magnífico, Divina Brina!!

Fui muito bem enganada, pois achei que essas duas lindas assassinas estavam cegas por algum motivo estranho e perverso, mas não, elas próprias quiseram brincar de matar no escuro!!

Eu admiro muito essas assassinas * - *

Pobre vítima que não foi capaz de identificar um blefe hahahahaha

Gostei muito da descrição desse duende, mas fiquei preocupada, ele aparentemente gostou da Tortura, mas... pode estar fingindo, rs.

Parabéns, pelo texto <3

Um grande abraço <3

Postado 16/10/20 01:38

AMIGA, A INTENÇÃO ERA ENGANAR MESMOOOO! KKKKKKKKKKKKKKKKK Se não for pra causar, nós nem vamos!

Fico feliz que tenha gostado! E a sua desconfiança foi certeira!

Obrigada pela presença e comentário, Mei ♥

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