O Desígnio da Deusa (Em Andamento)
Diablair
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 11/11/20 00:26
Editado: 20/01/21 14:54
Qtd. de Capítulos: 12
Cap. Postado: 10/01/21 19:13
Cap. Editado: 10/01/21 23:16
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 12min a 16min
Apreciadores: 1
Comentários: 1
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Palavras: 1941
[Texto Divulgado] "Seis e Dezesseis." Sobre a culpa inexplicável que eu carrego dentro do peito, culpa por algo que não sei o que possa ser, culpa por existir, culpa por ser assim. Me desculpe, não deu para resistir.
Não recomendado para menores de dezoito anos
O Desígnio da Deusa
Notas de Cabeçalho

Como promessa (ainda mais para a própria Divina Brina) é dívida, cá estamos novamente...

Espero que tal capítulo seja digno de sua espera e expectativa, Brina (assim como a de quaisquer leitores adicionais)!

Música Tema/Inspiracional: Dishonored Death, by Randy Dominguez.

https://youtu.be/UY0s3Tf-2SU

Ps: sinto muito, mas esta Long vai acabar sendo Long mesmo, pois nâo vejo como ou mesmo porquê acelerar as coisas... Gomen.

Reintero que os créditos da belíssima ilustração da capa pertencem à talentosíssima artista Yuumei.

Ato VII Grotesca Realidade

Ternura aos poucos despertou de seu estranho sono sem sonhos, o que a deixou tremendamente confusa: jamais isso ocorrera antes, sempre tinha sonhos belíssimos e revigorantes nos mais variados tipos de situações e cenários. Mas, isso imediatamente perdeu a importância quando ela sentiu a frieza e aspereza de onde seu corpo jazia. Levantando de imediato, começou a tossir e sentia uma leve falta de ar. Nada que a incapacitasse, todavia era algo incômodo e inédito.

Não estava mais em seu quarto fofamente mobiliado: estava deitada sobre uma rocha semi retangular parcialmente recoberta com uma espécie de musgo que se assemelhava a ranho, o que fez com que Ternura convertesse sua bela face em uma careta de nojo. Ao seu redor, havia algumas árvores velhas que, mesmo mortas, se mantinham de pé. Seus galhos lembravam dedos esqueléticos e as próprias árvores acabavam parecendo mãos brotando do solo escurecido. Vez ou outra o vento frio passava de modo ululante, contribuindo com o clima agourento que o lugar transmitia. Estava um tanto escuro, mas ela conseguia enxergar de modo considerável os arredores nada agradáveis e decididamente estava em um lugar que jamais viu ou esteve antes com sua família e muito menos sozinha.

- Pela Deusa, onde eu estou? Como vim parar aqui?! Cadê todo mundo?! - inquiriu a pequena para si mesma conforme saltava da nova "cama" no meio da penumbra. - Tio Diab? Tia Mei? Pessoal? Onde vocês estão? - indagou Ternura em voz alta com a intenção de caminhar no recinto após ajeitar seu chapéu de caubói sobre a cabeça.

Tão logo ela arremeteu o corpo para fora da rocha, o sentiu estranho, como se estivesse diminutos pesos pendurados nos braços e nas pernas. Por muito pouco não caiu de bunda no chão, lutando para se manter de pé. Com total estranheza no olhar, constatou que se movimentar exigia um pouco mais de esforço que o normal, como se seu corpo fosse mais denso. A adição de tal novidade com a ligeira falta de ar fez com que Ternura tivesse que caminhar bem mais devagar do que gostaria e sem conseguir fazer silêncio, pois vez ou outra acabava tossindo ou respirando ruidosamente. Aquela situação toda parecia mais um sonho louco e desagradável, contudo ela não tinha outra escolha a não ser buscar respostas ou ajuda.

Ternura continuou a árdua caminhada em linha reta floresta adentro por algum tempo, vez ou outra chamando por alguém de sua família. Sua voz afetuosa e preocupada ecoava de modo distorcido, com a entonação às vezes sendo convertida pelo misterioso ambiente em gritos furiosos, clamores desesperados ou sussurros horripilantes. Isso lhe deixava totalmente arrepiada, mas ela insistia assim mesmo na medida em que tentava em vão ignorar as adversidades que o local exercia sobre seu infante corpo. Tal tormento prosseguiu por cerca de uma hora (provavelmente mais), até que ela se deparasse com um grande ponto de luz esverdeada e bruxuleante vários metros à frente do que parecia ser uma imensa clareira.

Hesitante, ela rumou para o local de um modo instintivamente cuidadoso. Não que estivesse com medo, longe disso. Todavia, era como se em seu íntimo se fortalecesse o instinto de que algo muito ruim estivesse para acontecer ou a estivesse espreitando próximo daquele intermitente fulgor esmeralda. Sentia-se inexplicavelmente ameaçada, com uma sensação rançosa na boca e na alma. Não queria estar ali. Não queria ficar ali.

Ao se aproximar da borda da clareira, Ternura pôde visualizar melhor o que lá havia e estacou boquiaberta no lugar: de um determinado ponto em diante, uma quantidade inacreditável de cadáveres de criaturas inumanas destroçadas de inúmeras formas recobriam todo o solo. Pedaços delas, bem como cabeças desfiguradas e orgãos internos também estavam dependurados ou fincados nos galhos das árvores, cujos troncos ressecados ainda continham sangue e restos estomacais escorrendo por entre suas rachaduras. Um amontoado de ossos estava rudemente agrupado de modo a sustentar uma fogueira de chamas verdes que emitia um brilho quase hipnótico, conforme se retorcia como se fosse um agregado de almas sendo lentamente incineradas, soltando uma fumaça escura e tóxica que ascendia rumo às trevas mais acima.

E, logo atrás do fogaréu atômico e sentada sobre a gigantesca cabeça decepada de um monstro oriundo de algum pesadelo doentio, estava uma figura trajando um manto escuro com ombreiras metálicas cheias de espinhos. O misterioso ser estava de costas para a visitante e parecia devorar ruidosamente alguma coisa. O som da carne sendo rasgada e mastigada com selvageria ressoava como uma inapropriada saudação à pobre menina, que não pôde evitar que potentes tremores brevemente lhe acometecem diante de tão inóspita e inesperada cena.

- Ti...? - a palavra não foi completada pela infante, que estreitou o olhar e ficou subitamente séria ao encarar melhor aquela coisa consumindo seja lá o que fosse. - Não, não é não. Quem é você? Onde estou e cadê minha família?

O ilustre desconhecido a princípio pareceu ignorar as perguntas, mas na verdade terminava de consumir o que quer que fosse. Feito isso, lentamente pôs-se de pé sobre o imenso crânio fraturado sob seus pés, revelando ser uma pessoa alta que fisicamente em muito lembrava o homem que criou; a menina o questionou uma vez mais, elevando o tom de voz e fazendo com que as perguntas ecoassem como lamúrias enlouquecidas clareira adentro. Por fim, Diablair tomou a palavra com sua voz gutural e desagradável:

- Deixemos as coisas bem claras, criança: não sou aquele monte de excremento que a senhorita chama de tio. Não sou e, pelo Eterno Tormento, jamais serei seu amigo. E por fim, como pode ver... - houve uma pausa na medida em que o pescoço do mascarado se retorcia cento e oitenta graus até que sua cabeça virasse na direção da horrorizada menina com um sorriso cheio de presas afiadas e manchadas de sangue. - Somos só nós dois aqui. Me certifiquei disso enquanto a senhorita estava em torpor. Disponha sempre.

- ... Retire o que disse. - exigiu a pequenina, tremendo menos, todavia ainda aturdida e mortificada com sua presente situação.

- Como é que é? - rebateu o forasteiro, franzindo o cenho enquanto mantinha o sorriso predatório ao fitar a menina.

- Você é surdo ou burro? Eu mandei você retirar o quê falou sobre meu tio! Agora! - ordenou Ternura, completamente séria e ainda tremendo, mas dessa vez de raiva e crescente ansiedade. - Ou eu vou dar um socão na sua boca!

Diablair foi desmanchando o sorriso aos poucos enquanto suas íris adquiriam um sutil brilho amarelado e lentamente girou a cabeça de volta para o lugar correto até seu pescoço emitir um grotesco estalo, o que causou um calafrio na alma da menina. Entretanto, ele logo começou a rir e por fim sua gargalhada tomou conta do lugar, ecoando como urros enfurecidos e o vociferar inumano de uma multidão enlouquecida, fazendo com que Ternura instantaneamente levasse as mãos aos ouvidos ao sentir como se seus tímpanos fossem explodir, fechando os olhos e se encolhendo enquanto gritava. Nesse instante, Diablair saltou de cima da cabeça gigante, caindo de frente e de modo a esmagar alguns corpos na aterrisagem e começou, ainda às gargalhadas, a caminhar sobre os mortos na direção da menina.

Ternura abriu os olhos a tempo de ver aquela coisa mascarada vindo cada vez mais rápido até ela, mas seu corpo ainda estava pesado e sua mente desorientada pela cacofonia monstruosa gerada pelo seu desafeto. Ela pouco pôde fazer para impedir que Diablair acabasse por ficar perigosamente próximo dela. Só então ele abruptamente cessou as risadas e se encurvou de modo a ficar cara a cara com sua oponente mirím

- Digo e repito por toda a Eternidade: seu tio não passa de um monte de fezes que merecia ter sido abortado. - exclamou Diablair com inigualável asco em sua voz conforme fitava Ternura com intensa atenção. - Um. Monte. De. FEZES. F-E-Z-E-S!

- CALA ESSA SUA BOCA! - berrou a menina, fechando o diminuto punho e dando o primeiro soco real em sua vida no meio da cara de Diablair com toda a sua força infantil.

O oponente não se desviou e o punho atingiu a face de Demônio, tal movimento terminando em um esguichar de sangue na medida em que a pele e a carne de sua mão fechada eram dolorosamente laceradas pelo impacto tanto com a máscara quanto com a própria pele de Diablair. Ternura deu um grito de dor, mas o mesmo foi interrompido quando seu adversário a apanhou pelo antebraço e a suspendeu no ar conforme se punha de pé novamente.

- Pelo ardor de Satã, mas de golpe mais miserável foi esse? Essa é toda a força de sua indignação lhe dá? Oh, Lúcifer... - exclamou Diablair com deboche enquanto sua refém gritava e esperneava para que ele a soltasse.

- ME LARGA, SEU MONSTRO! - sentenciou a garota, efetuando um chute frontal visando o estômago de seu captor.

Toda a planta do pé de Ternura golpeou o abdômen encoberto pelo manto, fazendo com que ela imediatamente sentisse sua energia física e mental sendo substituídas por letargia e apatia, o que a fez parar de gritar e se mover. Até mesmo seu olhar perdeu muito do brilho, tornando-se opaco conforme a infante foi ficando inerte, ainda suspensa pelo abominável mascarado. Ela sentiu ainda mais falta de ar e a visão ficando turva na medida em que uma brisa gélida e hostil passava por ambos.

Ainda mantendo-a segura, Diablair deixou a menina tombar e começou a correr em direção à fogueira, de modo arrastar Ternura por entre os cadáveres. Por um instante ela imaginou que seria atirada no fogo e isso a demoveu minimamente do estado quase catatônico no qual se encontrava, balbuciando algo que vagamente lembrava um "me solta", mas foi completamente ignorada enquanto o ser de manto escuro colidia violentamente com a fogueira. Fogo, brasas e ossos ganharam o ar conforme o horrendo adulto continuava sua marcha célere entre os mortos, sem se importar com a quantidade de hematomas que tal ato causava em sua relutante oponente.

- A senhorita está muito aquém do necessário para sequer tentar sair daqui e não estou aqui para lhe explicar coisa alguma. - declarou Diablair, repentinamente parando e saltando por sobre a enorme cabeça entre os mortos, voltando a correr até chegar diante de uma estrutura pétrea que se assemelhava a um grande poço. - Pelo menos, não neste estágio inicial. Isso não faz parte da barganha. Todavia...

Diablair então novamente ergueu o pequenino corpo de Ternura, agora todo machucado e sujo de sangue, inclusive com pedaços de cadáveres por dentro do vestido e nos cabelos. Seu chapéu de caubói sumira no meio da marcha insana. Ela sentia frio, dor e algumas outras coisas que nem sabia denominar fustigando-lhe por dentro. Havia lágrimas em seus olhos, mas mesmo elas estavam manchadas de rubro. Voltando a sorrir hediondamente, o homem que um dia foi tio daquela pobre criança estendeu o braço, fazendo com que Ternura ficasse com o corpo totalmente dentro da abertura do poço. Ela arregalou os olhos de modo incrédulo, tentando enxergar a alma dele. E pela primeira vez em toda a sua existência, tudo o que viu foi uma coisa maligna no lugar.

- Srta Ternura, creio que ao menos posso demonstrar com total exatidão a sua situação atual na vida e neste infeliz momento. Ademais, se quer respostas, a verdade está lá dentro.* - e sem hesitar um segundo sequer, Diablair abriu a mão e largou Ternura, que despencou rumo à escuridão abaixo sem ao menos conseguir gritar.

- Enfim... Sós. - exclamou o homem para si mesmo, virando as costas para o poço. - Onde estávamos, monte de merda gerado nas coxas? - Então, ainda sorrindo, Diablair também mergulhou nas suas próprias e abissais trevas enquanto seguia floresta adentro.

Ternura ainda caía mesmo após ele ter desaparecido.

❖❖❖
Notas de Rodapé

* Uma (nada) sutil referência à célebre frase/mote "A verdade está lá fora", do atemporal seriado Arquivo X.

Obra em Hia... Não, pera.

Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 11/01/21 22:22

A magnitude na qual essa obra se encontra é inexplicável. Não consigo deixar de exaltar a excelência com a qual o autor consegue nos cativar na leitura, assim como nos imergir na mesma. A cada linha lida, mais e mais me vi dentro da narrativa, acompanhado cada acontecimento atordoado da pequena Ternura, assim como seu diálogo/encontro com o Diablair. A riqueza e potencial desta obra, com certeza, a torna a melhor já feita neste antro.

Quando a Ternura disse que ia dar um socão na boca do Diablair, só consegui rir. Amo as piadas internas que você insere na história. Acredito que nesse capítulo tivemos uma amostra grátis da violência e assombro que Diablair transmite. Fiquei toda arrepiada lendo as descrições dele e do local. Desejo toda força para a pequena Ternura, porque ela vai precisar.

Obrigada por compartilhar conosco!!!! Essa obra não deixa de me surpreender, encantar e inspirar!

Parabéns, Tio Diab ♥

P.S.: Trilha sonora PERFEITA!!!!

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