Diga Meu Nome (Em Andamento)
Estella Monteiro
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 02/12/20 21:36
Editado: 02/12/20 22:02
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 02/12/20 21:36
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 14min a 19min
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Palavras: 2302
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de dezoito anos
Diga Meu Nome
Capítulo 1 Asas do Silêncio

A chuva caía morosa e incessante, tornando aquele dia ainda mais sombrio. Pela janela do carro, o menino esfregava o vidro embaçado, vislumbrando a paisagem montanhosa coberta por uma tímida neblina. Benjamin Laskaris possuía apenas sete anos quando viu seu alicerce familiar ruir após a prematura morte de seu irmão mais velho, Noah Laskaris, em um fatídico acidente durante uma excursão escolar.

A mãe, Nimel Laskaris, se afundou em uma profunda depressão. Já não cumpria mais com seus afazeres domésticos, deixou de dar aulas de piano, passou a ter longas discussões com o marido e pareceu esquecer que ainda tinha um filho pequeno, que estava tão sentido e abalado quanto ela, carecido de colo e afeto.

Diligente, Dener Laskaris, fazia de tudo para ajudar a esposa e o filho, mas trabalhar a serviço da lei, como delegado regional, exigia muito de seu tempo. Ele já não sabia mais o que fazer mediante a terrível situação. A escola já estava reclamando do estado em que seu Benjamim se apresentava para as aulas; lições por fazer, roupas sujas amassadas, cada dia mais pálido e esquálido.

Preocupado e compadecido pela situação da criança, Dener recorreu a uma licença provisória e convenceu a esposa a se tratar com um profissional de saúde mental. Foi uma conversa delicada, ele não queria que ela viesse a se ofender. Clarificou que também sentia profundamente a perda do primogênito, mas que prezava pelo bem-estar físico e emocional de Benjamin que ainda era muito dependente do laço materno.

Inicialmente, Nimel apresentou resistência, mas quando o filho apresentou o quadro clínico de pneumonia e esteve à beira da morte, ela entendeu que já era hora de seguir e se dedicar a ser uma boa mãe ou acabaria por perder a segunda criança e dessa vez por negligência. Para alívio do Sr. Laskaris, a esposa se permitiu ser tratada com um excelente psicólogo e, este recomendou além dos medicamentos, que ela passasse um tempo nas montanhas, pisasse na terra, respirasse ar puro.

E assim voltamos ao ponto inicial; mesmo ainda sendo período letivo, o Sr. Laskaris acordou com a escola que naquele momento a férias antecipadas seria crucial para a integridade e reparo familiar. Escolheram como destino, Eliseos, uma pequena cidade provinciana cercada por belas montanhas e uma densa floresta inexplorada.

Assim, naquela manhã brumosa, enquanto a Sra. Laskaris dormia sob efeito dos medicamentos o marido conduzia o automóvel. Do banco traseiro, o pequeno Benjamin admirava a paisagem lutuosa tornando-se clara e verdejante, como se tivessem rompido uma barreira invisível. As primeiras casas rústicas e formosas começavam a aparecer, pessoas com sorrisos luminescentes, senhoras a cuidar de seus jardins vastos e de flores sortidas, crianças saltitando em suas brincadeiras. Ao som de Secret Garden com a canção Silent Wings, um calafrio lhe percorreu pelas parcas formas, talvez fosse jovem demais para entender o poder de um presságio, mas sua chegada em Elíseos viria a ser um marco fundamental a vida inteira.

Uma pousada rústica, acolhedora volteada por um pomar variado, lagos cristalinos e jardins com lindos arranjos florais, foi a escolha perfeita para que a família recuperasse as energias. Já ciente de todo histórico trágico dos Laskaris, Morrigan Galanis; uma bela senhora de meia-idade, longilínea, ostentando uma longa trança lateral, grisalha e expressivos olhos azuis a contrastar com um vestido Azul-Acero, era a anfitriã local, responsável por recepcioná-los, acomodá-los e apresentar os arredores.

Benjamin era o reflexo da euforia. Sua cidade era grande, ruidosa, malcheirosa, eram raros os locais em que podia ver um pouco de verde e ainda mais o colorido das flores. Ali ouvia-se variados cantos de pássaros, cacarejar de galinhas, grasnar dos patos e outros ruídos os quais ele não saberia nomear. Jogaria sua mala no chão e sairia a correr sem rumo, não fosse sua rígida educação.

Foi torturante ter que ouvir a Sra. Galanis a falar sobre todas as maravilhas da cidade, quando tudo o que a criança mais queria era ver por si. Os adultos priorizaram o café da manhã farto e variado, que fora servido após conhecerem as acomodações e arredores. Os quitutes estavam deveras saborosos, mas o pequeno Laskaris aguardava mais-que-tudo, o aval de seu pai para que pudesse explorar livremente.

Ele esperou, e esperou, e esperou… Duas semanas se passaram e, de fato ali era muito agradável, Benjamin conheceu às duas camareiras, a cozinheira e o jardineiro, observou que todos tinham a particularidade de serem muito bonitos. Adultos daquela idade costumavam ter defeitos na pele, perda de cabelo, mas não aqueles. Adulto daquela idade eram carrancudos e mal-humorado, mas não eles, pois se o jardineiro até lhe fazia charadas, trava-língua e piadas e até o levou para pescar e andar a cavalo, todavia, ainda não era o que o menino queria.

No decorrer dessas duas semanas, Nimel apresentava melhoras visíveis até para o filho que pouco entendia acerca do assunto. As formas voltaram a encher os trajes, as bochechas recuperaram o rubor. Fazia longos passeios de barco a remo com o marido, piqueniques, trilhas, nadava na cachoeira. Já conseguia pegar o filho no colo e lhe afagar os cabelos. Tudo graças a sua força de vontade e aos cuidados de Dener, que se empenhara ao máximo para curar a alma da esposa.

Ocorreu que, a criminalidade não tira férias e, como representante da lei, o Sr. Laskaris precisou voltar a sua função após um chamado urgente da central. Conversou seriamente com a esposa e com Sra. Galanis, orientou para que os remédios fossem tomados na hora certa, a caminhada matinal fosse realizada e que a mulher não se detivesse presa a casa, mas que desfrutasse da beleza dos jardins e pomares.

Antes da partida, Dener levou o filho, finalmente, até o centro da cidade, onde se agitava uma pequena área comercial, assim como escolas, clubes esportivos e a imponente igreja central de arquitetura barroca, circundada por uma praça compostos por jardins impecáveis. Alí as crianças pareciam se reunir para tudo quanto era brincadeira, os jovens para o flerte, as senhoras para levar seus cachorros, mães com carrinhos de bebês, os senhores com seus jogos de tabuleiro. Todos com muita simplicidade e simpatia.

O Sr. Laskaris, a essa altura já investigara tudo sobre o utópico local. Era bom demais para ser verdade, mas era… Sem criminalidade, miséria, pobreza extrema, doenças terminais, catástrofes naturais, acidentes, brigas de bar, viciados, alcoólatras, violência doméstica, intolerância religiosa. O único ponto a divergir de toda essa ascensão, era que o povo era muito temente a, lendas e superstições.

Visto isso, Dener permitiu que Benjamin visitasse o centro da cidade sempre que quisesse, o que imaginou que seria a maior parte do dia. Concluiu que logo seu garoto faria amizade com as crianças locais. Deu-lhe uma boa quantia e instruiu para que usasse com sabedoria. Em um dos bancos da praça, pai e filho conversaram por um longo tempo e muitas recomendações foram feitas para o pequeno.

Ao entardecer. Sr. Laskaris foi embora com um certo pesar de deixar sua esposa e o filho, mas confiante de que estavam no melhor lugar possível. Já no amanhecer seguinte, mal o galo cantou e, Benjamin já estava de pé anunciando para a sua sonolenta mãe, que iria explorar a área central da cidade. Nimel consentiu com um murmúrio preguiçoso e virou-se para o canto.

Engolindo seu café da manhã, o garoto quase tropeçou nas próprias pernas, ao sair correndo para explorar o desconhecido e fazer novas amizades. Assim foi, primeiramente ele visitou a padaria de onde vinha um cheiro delicioso, como mal tinha se alimentado, comprou um farto pedaço de torta e outras besteiras mais. Não demorou para que as crianças do lugar ficassem curiosas a respeito do forasteiro.

A torta da padaria, foi o tiro inicial para começar um assunto que evoluiu para coleção de cartinhas, berlinde, outros jogos e brincadeiras que descobriram ter em comum. No começo ele estava conversando com apenas dois garotos, mas, outros se aproximaram. Não demorou muito e já tinham crianças o suficiente para brincar de rouba bandeira, pique esconde e cabo de guerra.

Era um sábado e assim como as demais crianças, Benjamin só voltou para pousada para almoçar e depois retornou para mais uma rodada de divertidas brincadeiras. Em meses ele poderia dizer que aquele foi um dos seus dias mais felizes, afinal desde que chegara em Elíseos, já se sentira melhor. Quando o sol começava a se pôr, as crianças se despediram e rumaram para seus respectivos lares. O pequeno Laskaris chegou na hospedaria cheio de aventuras para narrar, com uma gigantesca listas de novos colegas com personalidades e hábitos divertidos.

Benjamin não era de falar muito, mas sua agitação era tanta, que Nimel teve que pedi-lo para conter suas narrativas, que durava desde a sua chegada, hora do banho e estendendo-se ao jantar e, já estava saturando a todos. Obediente, ele anuiu e se limitou a comer seu jantar, esfomeado, mas mantendo bons modos. Naquela noite o menino praticamente desmaiou e nem ficou ouvindo os grilos e coaxar dos sapos, que tanto gostava de apreciar.

No dia seguinte, o garoto repetiu o mesmo ato da manhã anterior e, após devorar o café da manhã e sair em disparado para o jardim central, encontrou-se com o grupinho de crianças já reunidos em um círculo sentados em lotos. Suas expressões não estavam das melhores. Benjamin cumprimentou ao chegar, mas as respostas foram murmúrios desanimados. Desconfortáveis, os pequenos começaram a trocar olhares estranhos como se tivessem algo a dizer, mas esperassem que o outro dissesse.

Demóstenes era tido pela turminha como uma espécie de líder, talvez por ser mais velho e consequentemente o mais alto, coçou os cabelos cacheados e deu um suspiro desgostoso. Ele explicou a Benjamin que não poderiam mais ser amigos, portanto ele não faria parte das brincadeiras. O pequeno Laskaris mesmo abalado, contestou de modo a saber o que fizera de errado, de que forma e em que momento os ofendera, mas a resposta não veio.

O fato era que as crianças também pareceram perder o ânimo para brincar, mesmo entre si. Educadas, todas se desculparam e saíram cabisbaixas, cada uma para um rumo. O menino ficou ali parado sem entender o que houve. Nos dias decorrentes, ele voltou naquele local em busca de respostas ou de amigos, mas não encontrou nada. A única coisa que encontrou foi sua velha companheira amarga; a solidão.

Benjamin não contou sobre, o estranho ocorrido, para a mãe, pois seu pai havia lhe instruído a não preocupá-la. No entanto, se ele ficasse no terreno da pousada a brincar com a criação e escalar as árvores do pomar, como fizera nas primeiras semanas, Nimel o questionaria o motivo de não ir mais ao encontro dos amigos. O jeito era sair para perambular solitário pela cidade, comprar as guloseimas e sentar no banco da praça imaginando o que tinha de errado consigo.

Ele nunca teve facilidades para arrumar amigos, mas quando Noah estava vivo os dois sempre brincavam juntos. Às vezes se desentendiam, mas logo voltavam as pazes. Talvez seu falecido irmão fosse o único que realmente gostava dele. Estava sendo difícil superar a falta que sentia. Ele não queria voltar para a sua casa triste e vazia onde ele tinha a impressão de que a qualquer momento o mais velho surgiria para lhe pentelhar, mas também não queria ficar alí.

Sozinho já a muitas horas naquele banco, esperando sinal de qualquer criança que fosse, na esperança de que esta mudasse de ideia e o chamasse para brincar, Benjamin teve a impressão de ter visto Noah do outro lado da rua. Mas não poderia ser ele? O vira em seu caixão sendo trancado, jogado em uma grande cova e coberto com terra. Talvez fosse só uma criança que se assemelhasse com ele. Impelido por um impulso maior, o garoto levantou-se e atravessou para encarar o outro mais perto.

Como se convidasse Benjamin para uma caçada, o suposto sósia de seu falecido irmão, correu pelas vielas, revestidas de paralelepípedo, da cidade e se embrenhou em meio a floresta. O pequeno Laskaris freou o passo e se lembrou das diversas lendas que os coleguinhas dali contaram sobre aquele local, desde a reclusa Dama Branca, sugadora de almas, a bestial fera que devora pessoas vivas arrancando-lhes membros a membro.

Reunindo toda a sua coragem, ele desconsiderou os mitos e também se embrenhou na floresta. No começo, ainda podia ver o vulto do garoto a correr por entre as árvores velhas e, ouvir suas gargalhadas, mas repentinamente os risos cessaram e a sombra desapareceu. Benjamin se viu sozinho em meio a mata fechada e silenciosa, um calafrio lhe subiu pelo dorso e bifurcou no inferior da cabeça. Sua impressão era de ser observado nas sombras e agora aquelas lendas começavam a assombrá-lo completamente. Girou a procura de uma saída, mas tudo parecia igual e não tinha rastros de onde viera.

Em um ato desesperado, temendo por ter sua alma sugada ou seu corpo devorado, ele correu sem rumo. As galhas de arbustos selvagens lhe arranhando a face, puxando os cabelos, espinhos e carrapichos agredindo-lhe a pele alva e fina. Tudo aquilo parecia estar animado e o atacando propositalmente, além da impressão de estar sendo perseguido, até que, por correr olhando para trás na ânsia de identificar um possível perseguidor, o menino despencou de um barranco torcendo e ferindo o tornozelo, batendo a cabeça em uma pedra.

Lá estava Benjamin Laskaris em meio a brumosa e densa floresta fechada, inconsciente em meio a um vasto tapete de folhas secas, frias e murchas pela umidade da neblina. Talvez estivesse fadado a ter sua alma sugada pela famigerada Dama Branca. Talvez seu corpo fosse devorado pela horripilante besta. Quem poderia saber, se ali estava exposto a tantos perigos mais, insetos peçonhentos, predadores. Estaria ele, fadado a morrer sozinho e perdido naquele lugar esquecido por Deus?

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Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 02/12/20 21:56

Uma narrativa envolvente que encanta e deixa o leitor imerso num enredo incrível. Drama, mistério e uma dose de aventura deixam a dica: Diga meu Nome é uma história promissora e que vale estar na sua lista de leituras.

Postado 03/12/20 18:23

Muito obrigada, se não fosse por você, eu não teria conhecido esse site tão rico. Eu realmente espero que a trama agrade, assim como já estou louca para conhecer lindas obras, ricas como as suas. Abraços e obrigada pelo carinho.

Postado 05/12/20 19:06 Editado 05/12/20 19:07

Olá, senhorita Estella!

Mas que capítulo mais maravilhoso temos aqui *--- *

Essa história é muito envolvente, fiquei completamente presa nessas linhas, lendo com rapidez para absorver o máximo possível de informações!

Adorei os personagens, tão bem construídos, com histórias trágicas...

Fiquei muito intrigada com o motivo das crianças não poderem mais brincar com o Benjamin... Acho que os pais delas as proibiram... talvez por terem achado que o Benjamin traria algum perigo sobrenatural ou algo asim, visto o tom supersticioso da história.

E esse menino parecido com o irmão dele? Estou enlouquecendo de curiosidade em saber o que irá acontecer!

Muito bom mesmo! Meus parabéns!

Um abraço <3

Postado 06/12/20 11:25

Olá, Yukari! Seja bem-vinda!

Fico muito feliz em saber que a construção do drama e dos personagens tenha agradado e que a trama te envolveu, deixando-a curiosa. Suas palavras me soaram como uma gentil massagem, o que alivia a tensão de não saber se estou no caminho certo como autora.

Os pontos que você pressionou são primordiais para a trama, o motivo pelo qual as crianças não brincam mais com o Ben, é algo maior do que parece e Elísios pode não ser o que demonstra.

O sósia do Noah pode ser fruto da carência do Ben... ou não.

Muito obrigada por sua leitura e atenção.

Abraços!

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