História Entre tuas mãos: amor e agonia
Caroline F
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 31/01/21 15:12
Editado: 08/09/21 18:25
Gênero(s): Drama
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 5
Comentários: 3
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Palavras: 919
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de doze anos
Notas de Cabeçalho

Primeiro texto publicado aqui para o concurso do OPMP! essa é a fanfic para o mês de fevereiro do OPMP, cujo tema é objeto cotidiano, que amorosamente escolheram pra mim (porque eu sou uma esquecida) algo que eu definitivamente escrevi com a naturalidade com que passo café de manhã. minha casa é simplesmente um antro de flores e, automaticamente, vasos de flores que é o meu objeto.

história original novamente baseada numa história real, a da dona do vaso. espero que gostem!

Capítulo Único História Entre tuas mãos: amor e agonia

A sensação de saudade é um tanto quanto incomum, ainda mais quando você entende o que eu sou. Aquele foi o dia do meu nascimento, um dia extremamente quente em uma das cidades mais frias do país, parecia até que o Sol havia vindo testemunhar o momento em que me trouxeram ao mundo.

Não, se você está imaginando a cena de uma cegonha voando sobre a cidade, levando no bico um lençol e pousando diante de um casal super feliz por ter mais um membro em sua família, você está redondamente enganado e precisando urgentemente de ajuda médica, porque todo mundo sabe que as crianças não nascem assim, né? Mas também não nasci de uma gestação feminina de nove meses, em casa ou em um hospital. O meu tipo de nascimento é diferente, muito diferente.

Eu também tive algo parecido com o que os seres humanos chamam de mãe. Ela era a mulher mais linda — e a única, claro — que eu tinha visto, sempre com longos vestidos amarelos ou floridos, sorridente até mesmo quando a situação não era propícia, mãe de uma filha que a amava muito e um marido que não lhe amava o suficiente, mas o principal: ela amava flores.

E você deve estar se perguntando que diabos tem a ver uma coisa com a outra, mas não seja tão ansioso, vamos chegar lá.

Certo dia, ela decidiu comprar uma orquídea branca. Era sua flor favorita de todas, apesar de amar todas as espécies, aquela em especial tinha algo que assemelhava-se a sua essência, a algo mais profundo do que eu consigo entender. Pela lógica, ela deveria comprar um vaso, fosse de barro, cerâmica, porcelana — porque uma hora ela teria que tirar a flor daquela embalagem e colocá-la no recipiente adequado. Olhou para os vasos, os vasos olharam para ela, mas não era isso que queria fazer; primeira coisa que você precisa saber sobre ela: era o tipo de pessoa que ia pelo caminho mais difícil, que fazia ela arregaçar as mangas e sujar as mãos.

“Me vê um pacote grande de argila, por favor”, ela disse, pagando e saindo feliz da floricultura naquele dia. Ela não sabia, mas estava saindo comigo nos braços, ainda informe, mas eu já estava ali de certa forma. A mesa da área de fora era vermelha, foi ali que ela me colocou e amassou gentilmente até que finalmente ficasse uniforme, pronta para ela trabalhar.

Não tinha nenhum esboço, ela não viu nenhuma foto ou vídeo de… como é mesmo que vocês chamam? Ah é, tutorial, nenhum vídeo de tutorial na internet. Não, ela me criou do nada, de como sentiu que deveria fazer; suas mãos eram macias, ela cantarolava alguma música enquanto me moldava. Depois disso, precisava do tempo de secagem, dias e dias debaixo do sol para que estivesse apto para ser o que ela precisava que eu fosse. E lá estava eu, havia finalmente nascido.

Ela me olhava com amor, como a obra prima da sua vida. Um belo vaso de barro; às vezes ela me chamava de Geraldo — uma mania doida dela de colocar nome em objetos e conversar com eles. Fui a casa daquela orquídea, mas não só isso, todos os dias fui ouvinte de suas lágrimas, todos os dias fui acariciado por suas meigas mãos e suas canções, todos os dias fui agraciado por seu sorriso radiante.

Nunca me esquecerei do dia que seu esposo, em um dos seus momentos de fúria, jogou-me contra o chão; ela chorou como se estivesse vendo um filho ser machucado, sem saber que preferia que fosse eu do que ela. Após chorar por aquele ato de pura maldade, enxugou o rosto e começou a juntar todos os meus pedaços quebrados, mesmo os que eram quase impossíveis de ver. Ali percebi que o cheiro que tomava a casa não eram das inúmeras flores que estavam espalhadas pelo lugar, mas que, na verdade, o perfume vinha dela — ela era a flor mais linda e aromática de todas.

Após juntar todos os pedaços, usou um pincel — como a verdadeira artista que era — para limpar delicadamente toda a sujeira que pudesse impedir que eu fosse restituído à minha forma anterior. Até que então a mágica começou, pedaço a pedaço, passava cola e com as mãos firmes pressionava-me até que voltasse a ser eu por inteiro. Foi um trabalho de horas a fio, mas ela não se importava, a cada pedaço de volta no lugar, podia ver seu belo sorriso em minha direção.

Um dia, no entanto, ela não veio para cantar ou acariciar-me, nem para molhar suas lindas orquídeas. Ninguém veio, a casa já não tinha o mesmo aroma de flores; aos poucos, as orquídeas morreram. Quando todos voltaram para casa, vi sua menina encaixotando muitas coisas e choramingando baixo. Ousei tentar chamá-la, mesmo sabendo que ela não poderia me ouvir, porém ninguém veio.

Apesar disso, fui de muita sorte. Pude sentir suas mãos e ouvir sua melódica voz por muitos anos, e as lembranças sempre me sobrevêm quando, hoje, sua filha coloca mais flores em mim — com o passar do tempo, algumas inclusive eram orquídeas brancas, exatamente como sua mãe fazia — e também acaricia-me como se estivesse acariciando sua mãe. De certa forma, tudo — sejam pessoas ou objetos, dos mais complexos aos nascidos da maior simplicidade dos sentimentos — faz parte de uma grande corrente de partículas de amor, pois mesmo quando se perde, ainda assim se ganha, pois todos deixam algo em nós e de nós levam algo para onde quer que vão.

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Postado 31/01/21 20:46

Olá, senhorita Carol :)

Estou tão impressionada com essa história!!

No começo da leitura eu pensei que o narrador fosse a orquídea, o que já seria extremamente lindo, mas quando percebi que se tratava do vaso, fiquei realmente maravilhada!!

Essa foi uma história muito tocante, gostei tanto de ver o amor e o carinho que a mulher sentia por seu vaso, feito com suas próprias mãos!

Meu coração ficou apertado de tristeza quando o marido quebrou o vaso... Mas foi linda a sua reconstrução!!

O final tocou minha alma: a tristeza pela morte da mulher... a felicidade em saber que a filha continuou cuidando do vaso... e os sentimentos envolvidos nessa narrativa, tão belos, tão genuínos! A cerejinha do bolo foi a frase final, para terminar essa linda lição com chave de ouro!

Muito obrigada por ter compartilhado esse texto conosco! Parabéns!

Um grande abraço <3

Postado 06/02/21 13:37

Ai meu deus, quase caí pra trás.

Eu fico feliz que algo feito de forma tão simples, tenha tocado alguém. E só para fins de curiosidade: a mulher retratada na história é a minha falecida mãe.

Muito obrigada mesmo por ter deixado seu comentário, foi muito importante para mim <3

Postado 01/03/21 21:48

Olá Carol, eu gostei muito do texto e da criatividade que você teve para usar o elemento na narrativa dando vida a ele. Não é qualquer autor que faz isso. Fiquei bem tocada que você retratou a sua mãe ali, obrigada por abrir um pedaço da sua vida e trazer esse pedacinho de você para o mundo.

Obrigada pela obra e vamos conversar mais sobre ela.

Postado 21/03/21 17:19

Dois anos depois: Caroline vindo finalmente responder.

Sou sincera em dizer que quando eu li seu comentário, fiquei naquele estado estático de êxtase, principalmente porque eu tava com um medo do cão kkkkk

Obrigada por ler e ser tão gentil, como sempre <3

Postado 17/11/21 17:08

A narrativa dessa obra é como um suspiro, um abraço e um soco. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, com a mesma pessoa... As palavras transmitem um misto de emoções, além de uma profundidade que toca o leitor do início ao fim. É impossível não se emocionar com o término da história, porém a frase final, realmente, parece um quadro da vida, só que em forma de palavras.

Obrigada por compartilhar conosco essa obra extraordinária!

Parabéns, Caroline ♥