Acervo do Multiverso (Em Andamento)
Sjowmalf
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 07/04/21 23:29
Editado: 18/04/22 14:13
Qtd. de Capítulos: 12
Cap. Postado: 18/04/22 14:13
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 12min a 16min
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Palavras: 1972
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de catorze anos
Acervo do Multiverso

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Terror or Horror.
Para saber mais sobre o Evento e os ganhadores, acesse o tópico de Resultados.

Notas de Cabeçalho

Apreciem com moderação.

Doc. #031c Sangue mole Pedra eterna - Final

Dia 15

As tempestades deram trégua hoje, e [ERRO] acusa um nível normalizado de radioatividade lá fora. Por mais que os kakianos alegam tais fenômenos serem totalmente normais no planeta, e que coincidem com sua revolução ao redor de Pktut, as análises de nossos astrônomos são <indecifrável>

Júnior continua a insistir por minha atenção à sua "descoberta". O rapaz afirma ter a necessidade imediata de retornar ao jardim que visitara quando intoxicado. Há dias tenho evitado estimulá-lo na direção de tais pesquisas de campo independentes, levando em conta diversas situações de risco nas quais eu mesmo me encontrei na cidade.[ERRO]s tempestades e aos picos de <indecifrável>. Sabe-se lá o que realmente ocorre com este planeta.

Além do mais, o que ele espera encontrar naquele lugar?

Os últimos dias tempestuosos me deixaram com uma carga negativa. Tempo demais dentro de um edifício isolado contra radiação é capaz de deixar qualquer um de mau humor, mas eu me sinto como um burro de carga perneta. Fyodor insiste em me levar de volta à base para fazer um check-up de rotina. Eu digo a ela que estou bem. Ela diz o mesmo quando eu comento sobre seu aspecto pálido.

Evidentemente, não estamos habituados a mentir.

Amanhã tentarei aproveitar a melhora no tempo e dar continuidade ao meu trabalho.

Dia 16

Seja pela insistente moléstia de meu assessor, a qual, apesar de pouco persuasiva, é bem irritante, ou pelo simples fato de que me encontro exausto, hoje acompanhei Júnior até a famigerada residência com o jardim. Ele merece um voto de confiança neste fim de mundo.

A despeito de toda minha sensatez a espernear, adentrei a casa com meu assessor por uma janela irregular tipicamente kakiana.

O local estava desprovido de habitantes, apesar de mobiliado. Utensílios espalhados pelos cômodos, matéria orgânica com aparência <indecifrável> esquecida em cantos obscuros, aparatos medicinais em desuso. Pedi a Jr. que me guiasse diretamente ao que quer buscasse naquele lugar.

Não mencionei meus calafrios. Num planeta a princípio tão festivo e promissor como este, minhas suspeitas indescritíveis se somavam mais e mais a cada dia, sem eu ser capaz de explicá-las, quanto mais entendê-las. E, se é que houvessem residências mal-assombradas em planetas extraterrestres, aquele local seria o mais próximo disso.

Segui Júnior, e logo nos encontramos no famigerado jardim. Tudo o que fora descrito pelo rapaz há dias estava logo ali, diante de mim. As flores, os arbustos, o aspecto de descuido.

Somente as cores não condiziam. Não havia tons de vermelho, apenas cinza. Júnior explicou a mim como tudo parecia mais desgastado que antes. As flores secas, como se, quem quer morasse na casa, não colocava os pés naquele lugar há muito.

Olhei em volta perscrutando cada canto do jardim, avistando apenas o abandono.

E, então, a estátua. Tão real, tão fidedigna. Tão... macabra.

Me aproximei com cuidado, a velha sensação de estar sendo observado presente a cada passo.

Era pura formação rochosa, dura e impregnável, na forma de um Kak fêmea. Seu aspecto não era como as grandes esculturas clássicas da Terra, cinzentas porém de superfície lisa como a pele humana: estranhamente realista. Relutante, toquei a superfície rochosa.

Morna. Morna e quase vibrante, como se uma fraca turbina pulsasse. Um som de pedrinhas se batendo ressoou próximo, sem eu dar atenção. Júnior se alertara.

"Professor," disse, e eu me virei. Apontava para o rosto da estátua, mais especificamente para a região onde se encontrariam as membranas vocais kakianas. Elas se moviam.

Ali, acredito ter soltado meu primeiro palavrão na frente de um estagiário. Júnior estava apreensivo demais para notar.

"Está dizendo algo," disse Júnior. Aproximei meu ouvido às membranas.

Tuit, pude escutar. Ou tut.

Pelo que havia aprendido com Fyodor nas últimas semanas, a primeira palavra significava algo como "oferta" ou "oração". A segunda era o equivalente exato de nossa língua para "filho". Não faziam sentido..

Então, "ki ptlok". Essa interjeição eu conhecia muito bem. Consistia num pronome pessoal e um verbo em seu modo imperativo.

Mate-me.

A estátua, compreendi, se tratava de um kakiano em seu estado mais envelhecido, petrificado.

Naquele momento, sob suor profuso, consequência de um estado febril e adrenalina, eu soube que Fyodor seria indispensável caso planejássemos voltar àquele jardim.

Agora, o que eu preciso é de uma boa noite de sono. Não sei, porém se serei capaz de pregar os olhos........

Dia 17

Voltamos ao jardim, Júnior e eu, acompanhados por Fyodor. Não foi difícil convencê-la a nos acompanhar, a despeito de seu estado febril

<passagem indecifrável>

com seu contador Geiger após coletar um pouco da formação rochosa da epiderme. O contador acusava 89

<indecifráve>

aparentemente emitidos da "estátua". Não duraríamos um minuto caso não tivéssemos sido inoculados contra radiação.

Estranha e subitamente, Fyodor fez algo que eu jamais havia presenciado vindo da hirsuta doutora, e eu, sinceramente, fiquei sem saber como agir. Ela <indecifrável> primeira vez que testemunho esse lado humano da linguista e exobióloga.

Fyodor, então, chamou minha atenção sobre as leituras, de volta à sua postura rígida. Havia um aumento perceptível na [ERRO] local, mesmo para humanos. Em menos de trinta minutos, alegou, aquele jardim estaria inabitável. Em algumas horas, o quarteirão inteiro.

Foi nesse ponto que a "estátua" falou outra vez.

Fyodor procurou os olhos e <indecifrável>

A linguista, então, fez alguns sons que meu kakiano rústico não pôde decifrar, e o velho Kak petrificado respondeu.

"O nome dela é Riutr", disse Fyodor. "Ela tem trezentos e oitenta anos. Ela... não consegue se mover. Está enraizada aqui há... décadas."

Júnior e eu permanecíamos tão congelados quanto Riutr.

Em meu alojamento, agora, não posso deixar de admitir que jamais teria imaginado algo assim nas missões que acompanhei.

Eu conheci espécies aquáticas, terrestres e aéreas. Vi civilizações cujo poderio faria com que os deuses de qualquer mitologia parecessem primatas brincando com seus <ERRO> em uma caverna.

Seres feitos de nada além de pura energia, raças líquidas cujas formas eram limitadas apenas à sua capacidade de pensar, populações extraterrestres inteiras que conectaram seus cérebros a <ERRO> escapar a dura realidade de que nada é eterno.

Jamais houve êxito na busca pela imortalidade por parte de qualquer espécie.

Os seres de energia pura se dissipavam como cloro num piso quente, sempre temendo o fim de suas consciências.

Líquidos estão sempre sujeitos à ação do meio ambiente, mais até do que Sólidos. Os Virtuais encontram seu fim repentino dentro de suas próprias simulações, cada vez mais imperfeitas, cada vez mais repletas de erros de programação.

Até o próprio Cosmo termina.

Nossos portais de Alcubierre já nos levaram a um Universo cuja espécie era única: um amálgama de toda a vida que havia nascido em cada planeta, em cada sistema, em cada conjunto e galáxia. Esse universo estava na reta final de sua Entropia Una, seu Acorde Final. Havia poucas estrelas, e as que existiam estavam prestes a se apagar para sempre. Um lugar solitário...

Mas qual seria o fim kakiano? Pois haveria um fim. "Imortal" é um conceito inexistente nas constantes multiversais.

Mas sem mais divagações...

Nos curtos trinta minutos que possuíamos com Riutr, Fyodor fez o melhor que pôde para aprender o que pôde. Era velha e mal conseguia se comunicar, mas com <indecifrável> uma conexão forte entre nossa linguista e a extraterrestre.

Então, compreendi.

"Tut. Tut. Tut!"

Fyodor tentou acalmá-la, sem sucesso. A Kak havia entrado num estado que só posso comparar à antiga doença humana que afligia os cérebros de nossos idosos tanto tempo atrás, cujo nome me escapa.

Riutr parecia presa num ponto sem volta, repetindo sem parar o chamado por seu filho perdido ou, talvez, pensei, morto.

Mas Kaks não morrem.

Júnior soltou um grito que me fez pular e Fyodor se virar em posição de ataque. Tut. O filho de Riutr estava logo atrás de nós, furioso e tão confuso quanto.

Ele portava algo que, para mim, era inédito na fisionomia kakiana: em seus dois antebraços, saindo da parte superior dos pulsos como duas pontas de lanças de granito, apontava um par de terríveis agulhas.

O tut era robusto e já coberto com uma considerável petrificação epidérmica. Ele, porém, ainda conseguia se locomover, e muito bem.

Lançou-se sobre nós três com seu par de longas agulhas para trás, numa carga silenciosa a qual se comparava a uma formação de guerra das mais perversas raças alienígenas que conheci.

Congelado, aguardei o fim.

Com a aceitação de que, em poucos momentos, meu corpo estaria repleto de furos, sorri.

Fyodor, no entanto, e pela graça de todos os meus antepassados, é teimosa.

Num brado de guerra e desafio, digno dos povos bárbaros de Antares 7, a doutora ofereceu seu corpo e alma em resposta. Ouso dizer que o tut não a esperava, pois vacilou, pisando em falso e indo de encontro ao chão. Fyodor não diminuiu o passo, e foi com tudo contra o Kak.

Aqui, tenho dificuldades em descrever em detalhes.

Em suma, a quem interessar este relato, direi apenas que o filho de Riutr passou de uma bola de pedra assassina para um dócil e cooperativo extraterrestre chorão.

Fyodor, posicionada sobre o extraterrestre a mantê-lo contido, vociferava o equivalente kakiano de "solte as armas, desgraçado!"

Ainda em pranto, o tut não obedecia, mantendo as agulhas de fora.

Então, Júnior se fez útil. "Professor!" disse ele, apontando para o contador Geiger de Fyodor no chão. Estranhamente, o aparelho indicava níveis normalizados de radiação.

Fyodor liberou o tut, e fiquei aliviado quando este apenas limitou-se a ficar parado, não obstante as agulhas.

Riutr estava quieta, a despeito da confusão. Por vezes, ainda sussurava "tut", embora este estivesse logo ali.

Kldimia, respondeu o tut, então, e compreendi mais.

"Mãe."

Fyodor traduziu uma série de cliques: "Kldimia, plikt ntrmatki kot": "Mãe, não vou/não farei."

Observei Riutr, e pude vê-la abrir os olhos. Eles fitavam o tut que deu um passo para trás e voltou a falar.

"Não, mãe. É contra as nossas leis/tradições(?)" "Não posso/vou. O estado/deuses <indecifrável> medicamentos."

O tut ergueu os braços, revelando seu aparato medicinal.

"ki ptlok... kot", disse.

No chão, o contador Geiger voltara a apitar, e eu puxava Fyodor. Ela vacilou durantes alguns instantes, fazendo-me pensar que teria de arrastá-la dali.

"Me desculpe," disse a doutora. Não sei dizer se traduzia ou

<indecifrável>

um bom vinho e, quem sabe, uma banheira quente. Estou mais do que pronto para deixar esta esfera. Me aposentarei na Terra. Está decidido.

Dia 18

As tempestades voltaram, piores.

Fyodor piorou, e parece que eu

<indecifrável>

Acabamos de examinar Júnior.

Tentamos contatar a base de operações no campo de pomk. As únicas coisas que chegam a nossos comunicadores são <indecifrável>.

O que está acontecendo?

<aqui, mais de 90% das transcrições do diário eletrônico foram danificadas

o sistema de inteligência artificial do Acervo foi incapaz de recuperar a maioria dos dados>

Dia 22

<indecifrável> é o que podemos fazer. Se não como dever, ao menos como distração.

Há algo errado com os anciões Kak. Centenas deles, alguns <indecifrável>

Os embaixadores não querem admitir. Alegam <indecifrável> completamente normal.

Nossos cientistas discordam, os ainda vivos. O núcleo de Kakptutmur está totalmente

<indecifrável>

incalculáveis.

Dia 25

Os anciões não são imortais.

No entanto, as ninhadas são a única coisa que podem libertá-los de suas prisões de pedra. As agulhas <indecifrável>

Caso contrário, ficam instáveis. E o planeta <indecifrável>

O tut de Riutr sabia. Quando próximo da mãe, as agulhas <indecifrável> agressão incontrolável.

Eles não adoravam a morte. Eles sabiam que, sem um <indecifrável>

Dia 28

<indecifrável> sem saber o que dizer. Hoje de manhã, quando <indecifrável> todo nosso suprimento de analgésicos.

Eu tentei <indecifrável> não tive treinamento médico para tal. Aquilo foi <indecifrável>

Eu sinto muito.

Eu <indecifrável>

Dia 31

Todos se foram. Estou sozinho com os Kaks.

<indecifrável>

Júnior...

Dia 42

É o fim. Kakptutmur está entrando em colapso.

A atmosfera se foi, <indecifrável> se foi.

Os anciões <indecifrável> das constantes universais.

Nada é eterno.

[ERRO]{Dia((logN)²(loglogN)(logloglogN)}[/ERRO]

<indecifrável>

❖❖❖
Notas de Rodapé

BOOM

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