Acervo do Multiverso (Em Andamento)
Sjowmalf
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 07/04/21 23:29
Editado: 18/04/22 14:13
Qtd. de Capítulos: 12
Cap. Postado: 12/04/22 11:59
Cap. Editado: 12/04/22 12:29
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 14min a 19min
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Palavras: 2359
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de catorze anos
Acervo do Multiverso

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Terror or Horror.
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Notas de Cabeçalho

O documento seguinte, recuperado de destroços em um cinturão de asteroides pelo time de busca MV-1-B, é um fragmento do extenso diário de campo do xenoetnógrafo Lindelm Mauss. O excerto se trata dos registros do pesquisador em uma missão num planeta não detectado, onde, teoricamente, uma espécie sapiente habitava até um período indeterminado.

Não há mais registros de Lindelm Mauss datados após este fragmento.

Doc. #031 Sangue mole Pedra eterna - pt. 1

Dia 1?

É como sempre falo: a parte mais difícil de se iniciar um diário de campo num planeta alienígena é saber o que é, exatamente, um dia nesse planeta. Não se pode simplesmente dar as caras numa esfera heliocêntrica com esperanças de que a rotação será uma boa menina como a da Terra, porque geralmente elas não são.

Estou de acordo com rotações periódicas de 30, 40, 50 horas terrenas. Me coloque num planeta com uma rotação de 100 horas, e começo a me sentir incomodado. Peyriot - e que os Peyriotas perdoem minha pronúncia deflagrada do nome de seu planeta de origem - tinha uma rotação de 100 dias, aquele maldito inferno verde-musgo. (Júnior: editar passagem mais tarde!!!)

Mas havia uma rotação, pelo menos.

Valenti-4, o planeta onde nos encontramos atualmente, não.

Bem, tecnicamente há. E, assim como nossa Lua está para a Terra, sua rotação está inexoravelmente sincronizada com seu ciclo solar. Grosso modo, um lado do planeta está perpetuamente aprisionado à luz do sol e, o outro, à escuridão eterna. Como podem imaginar, isso cria um pequeno problema sobre como datar meus registros. Não há o conceito de dias aqui, tampouco horas.

Não será um problema. É para esse tipo de coisa que tenho um assistente. Júnior é criativo, ele vai encontrar uma maneira de nos localizarmos temporalmente nesta esfera.

Dia ??

Júnior foi incapaz de encontrar um modo para contarmos o tempo por aqui, uma amarga surpresa. TALVEZ EU TENHA DADO CRÉDITO INDEVIDO AO GAROTO.

Ademais, enquanto a equipe de engenharia e seus drones concluíam a instalação de nossa base, ele, segundo seu próprio testemunho, amigou-se com um dos habitantes de Valenti-4, quebrando o protocolo de primeiro contato. Curiosamente, o indivíduo não era hostil. As reações violentas de uma população sapiente, a qual ainda se encontra "presa" em um único mundo, não variam muito, e vão de avisos e ameaças a respostas bélicas imediatas - o que torna esta situação uma curiosidade extremamente afortunada! Afortunada a ponto de eu pessoalmente solicitar um plebiscito em prol da suspensão da instalação de medidas de segurança letais.

Nossa exímia exobióloga e linguista insistiu para que a solicitação fosse ignorada pelo pessoal de Recursos e Engenharia. Uma reacionária de carteirinha, essa dra. Fyodor. Vergonha! Lembremos que estamos aqui, em primeiro lugar, numa missão diplomática! Posso dizer confiantemente que lembrei a doutora desse fato, e os olhares que recebi foram de puro ódio mesquinho.

Acentuando que meu assistente se encontra inteiramente ILESO de sua peripécia momentânea. Obterei mais informações com Júnior sobre seu encontro em breve. Meus aposentos estão instalados e preciso de um momento para reflexão.

Dia ???

Visitantes, enfim! Os habitantes do quarto planeta na órbita da estrela de classe M, denominada Valenti por nós humanos, finalmente chegaram em massa ao redor de nossa base, e com aparatos interessantíssimos! Junto aos carros altos e robustos que vieram trazendo os valentianos, eu avistei o que pareciam ser aparelhos de filmagem e fotografia, captação de som, refletores e antenas pequenas e grandes, de variadas sortes - aparelhos não tão distintos de nossas próprias ferramentas eletrônicas tais como eram alguns séculos atrás.

Isso carrega uma sorte de implicações, junto a outras observações as quais citarei. Primeira implicação: a civilização valentiana encontra-se nos estágios iniciais de sua terceira revolução industrial; segunda implicação: os mesmos não apresentam os mínimos sinais de serem uma cultura sanguinária como a nossa própria.

A afirmação anterior apoia-se no fato de que, considerando o território habitável limitado de seu planeta, os valentianos parecem viver em plena harmonia com seu meio ambiente. Num planeta de rotação sincronizada, a única área habitável é a faixa longitudinal entre os dois extremos da esfera, onde encontra-se o equilíbrio ameno entre o bombardeio solar abrasador constante e a total ausência deste.

O respeito pela vegetação local por parte dos habitantes foi visível assim que saímos da bolsa Alcubierre, a qual nos trouxe a esse idílico campo de florescências altas e arroxeadas. Sobre nós, um céu de nuvens paralelas finas correndo juntas até os confins do hemisfério congelado deste globo. O cheiro agridoce e extraterreno é difícil de escapar aos sentidos.

Quanto à implicação sobre o estágio de desenvolvimento tecnológico desse povo, basta apresentar o bizarro maquinário encontrado pelo nosso time de engenheiros durante a escavação do terreno de nossa base. Esse grandioso artefato esquecido - incinerado e meio derretido indevidamente pela radiação Hawking de nosso portal Alcubierre - é de uma semelhança inegável às nossas antigas máquinas de colheita do século XXI. O que tal maquinário pesado estaria fazendo no meio de um vasto campo natural é uma incógnita para a história.

O que tenho a dizer sobre os valentianos em si é baseado em minhas limitadas observações até então, somadas à análise amadora de Júnior referentes à sua breve aventura. Essa interessantíssima raça pacífica consiste em organismos intelectualmente individualistas e politicamente sociais. As estaturas humanoides são pouco variáveis, a priori, com uma sutil oscilação de massa muscular entre um indivíduo e outro.

As diferenças físicas mais marcantes, e aquilo que mais se destacou diante de mim, estão na postura corporal de cada valentiano - onde reina uma inconstância angular possivelmente relacionada à idade, como em nós, porém muito mais acentuada - quase troglotoide, - e nas curiosas camadas, comparáveis a partes de uma armadura rochosa e pálida, observadas nas juntas e cabeças dos valentianos mais curvados. Seriam esses os sinais dramáticos de um envelhecimento vagaroso do organismo ou algo muito mais complexo?

Análises complementares serão necessárias.

Dia ????

Nossas defesas estão finalmente prontas e o escudo de estase foi erguido no momento em que um míssil balístico entrou na área de nossos sensores. O míssil em si atingiu o perímetro do escudo e, como esperado, ficou ali pendurado e ineficaz, onde permanecerá até segunda ordem. Análise técnica acusa a ausência de uma ogiva nuclear, significando uma arma de natureza menos destrutiva. Quero deixar claro aqui que isso são pontos para os valentianos.

Ora, simplesmente não vejo sentido algum num ato de obliteração bélica como esse ser de suma intenção da população valentiana como um todo. Quiçá há facções territorialistas entre os mesmos. Já posso enxergar em minha linha de pensamento lógico, dotada do conhecimento histórico de minha própria espécie, uma ou duas megalópoles tomadas pelo consumo exacerbado, onde o progresso financeiro é a palavra de primeira ordem, seguida da negligência opressora de pobres valentianos.

Mas eu divago.

Talvez eu deva desculpas à dra. Fyodor pelo meu discurso anterior, mas acredito esta já estar suficientemente agradada pelos tapinhas nas costas do restante do pessoal. Que diferença o meu faria?

Ademais, e surpreendentemente, nenhum de nossos valentianos curiosos se deslocaram do local onde estavam desde que chegaram para nos contemplar. Nem mesmo diante da possibilidade de um fim violento e fulminante. Prosseguem a bebericar seus refrescos e apontar para partes e movimentos curiosos em nossa base de operações.

Isso é muito interessante, mas não consigo chegar a conclusão alguma neste momento.

Dia 1

Aparentemente, desprovidos de qualquer meio natural local para medir as horas, o resto de nossa comitiva tem utilizado os relógios comuns de seus assistentes digitais pessoais para consultar a passagem do tempo, inclusive o Júnior.

Saímos da bolsa Alcubierre há exatamente duas horas e quarenta e sete minutos.

A meu ver, é uma pena a necessidade imediata de um conceito antropocêntrico de tempo, ainda mais num local aonde não pertencemos. Sinto como se estivesse roubando algo precioso dessa espécie ao impor aqui tal medida tão utilitária, porém não sei bem o que é.

Indaguei com a equipe, também, sobre as primeiras formulações de linguagem por parte de Fyodor para que, enfim, meus trabalhos de contato sociocultural neste planeta começassem. Para minha surpresa, as formulações linguísticas já se haviam iniciado no primeiro quarto da primeira hora em que chegamos aqui, sem a minha supervisão.

Isso se dá pelo que foi encontrado junto à estranha máquina a qual incineramos ao adentrar o espaço-tempo daqui: seu condutor.

Solicitei para que me apresentassem imediatamente ao mesmo, sentindo-me nada mais que trapaceado pelos meus colegas de tal descoberta crucial para meu trabalho. Fyodor, por sorte, não havia a essa altura afetado o sujeito valentiano com vícios de nossa linguagem. Tanto. Ela foi, por outro lado, competente o bastante para estabelecer uma comunicação fluente com nosso convidado na própria língua deste, o suficiente para que eu coletasse dados com a ajuda de sua tradução.

Aqui, deixarei de lado as grosseiras nomenclaturas seguintes: Valenti-4, valentiano(s)(as).

Nós, neste momento, revolvemos a estrela Pktut, no sistema solar de mesmo nome. Pisamos, atualmente também, em solo do exoplaneta denominado pela espécie nativa de Kakptutmur.

É importante colocar aqui a estrutura de linguagem do povo Kakptutmuriano (doravante denominados Kaks, de acordo com a gíria local), especialmente essa característica aliteração silábica, em paralelo com seu organismo locutor. As cordas vocais estão presentes para a produção de som, mas não do modo como estamos acostumados.

A linguagem, um veículo de comunicação constantemente adaptado por forças sociais, aqui se transforma a partir do processo de amadurecimento biológico dos Kaks. As "cordas" vocais destes encontram-se localizadas nos cantos inferiores externos da cabeça, e é um dos primeiros órgãos a iniciar um processo lento do que eu apenas posso chamar de petrificação, o que confirma minha teoria sobre o envelhecimento dessa espécie. O órgão de comunicação em questão apresenta três camadas distintas, discos ou asas horizontais, as quais, de acordo com o Kak em nossa presença, começam como películas sensíveis em um bebê Kak, estágio biológico no qual o indivíduo é capaz de produzir uma maior variedade de sons ou sílabas fonéticas.

Com o enrijecimento posterior, essa capacidade vai se deteriorando, e os fonemas mais comuns que se pode ouvir de um Kak adulto são cliques ruidosos, como um bater intricado de pedras.

Sabendo disso, eu, em seguida, perguntei ao Kak se música era um conceito presente em sua cultura, ao que, confirmada minha indagação, propus para que cantasse uma melodia popular em sua região.

As asas vocais nos cantos de sua cabeça produziram uma série de sons, e aproveitei para buscar o ritmo musical naquele momentâneo verso. Ele parou após alguns segundos e deitou-se no colchão que providenciamos a ele, imediatamente pondo-se a produzir mais sons rochosos em uma frequência lenta a qual me deu a sensação de sossego.

A dra. Fyodor riu ao meu lado. Ela disse, então, que o Kak pegara no sono, e traduziu para mim o que o sujeito havia realmente dito: "Agora? Esse cara é de verdade? Por tpkirn (divindade?), me deixem descansar por hoje."

Cogitei seguir os passos desse curioso camarada.

Dia 2

Passaram-se, agora, 35 horas de nossa chegada e, olhando para a quantidade impressionante de mísseis pendurados na distorção espaço-temporal de nosso escudo, chego à conclusão de que não somos queridos.

O que era de se esperar, considerando o que Trkipto, nosso Kak, sugeriu a nós nas últimas horas. O governo Kak, disse ele, provavelmente está desesperadamente tentando, com todas as forças, retomar um dos últimos latifúndios existentes no planeta, no qual estamos assentados neste exato momento. Pomk, aquela florescência arroxeada e aromática que nos rodeia, é a principal fonte de nutrição dos Kaks atualmente, e Trkipto um dos últimos fazendeiros.

Com isso, mais vale dizer que Trkipto, no ato de ser liberado de nossa base em troca de um grupo de diplomatas e representantes do governo Kak, salvou nossas relações com o povo deste planeta.

A multidão permanece nos arredores de nosso escudo, sem ousar tocá-lo, para nosso alívio.

Agora terei dias e dias de trabalho para progredir em meus registros com a chegada da comitiva Kak. Sinto-me exaltado!

E Júnior desapareceu outra vez.

Dia 3

A civilização Kak, posso dizer com primazia, não é tão diferente da civilização humana da segunda metade do século XXI. A tecnologia é um pouco menos avançada, mas as estruturas de pensamento são bem parecidas.

Os Kaks são regidos pela busca da igualdade suprema, e o direito de escolha de cada um sob o céu de Kakptutmur. Não há o imperativo paralisante de uma responsabilidade social artificial, e as escolas e universidades brilham com os raios predominantes das artes e estudos sociais coligados ao progresso cultural, em detrimento de um estupor competitivo e predatório, o qual, como alegaram os diplomatas Kaks, não faziam mais do que atrasar e oprimir as massas. Eu estaria sendo omisso caso não registrasse aqui meu contentamento com essas revelações, pois tudo isso torna meus exercícios de reflexão etnográfica muito mais prazerosos.

Os diplomatas tiveram a graça de me apresentar dados estatísticos sobre seus avanços socioculturais nas últimas décadas, os quais anexarei ao restante dos documentos que coletei. Entre eles está o inacreditável aumento da expectativa de vida, coligada a um delicioso decréscimo íngreme sobre a taxa de natalidade. Os Kakptutmurianos têm vivido cada vez mais, e sua população está sob um controle digno de uma utopia, onde bastaram ações afirmativas não invasivas para que as massas se conscientizassem dos perigos da superpopulação.

Não sendo o suficiente tais dados para a total estupefação de um terráqueo, me vi com o queixo no chão quando chegamos ao tópico de crenças religiosas no planeta Kakptutmur. Se, em nossa própria história, o fervor religioso trouxe a morte de milhões de inocentes ao longo dos séculos, a civilização Kak sofreu o dobro.

Cegos por uma adoração letárgica pela morte, os Kaks enxergavam a vida como uma passagem ritualística para um mundo melhor. Cultuavam o fim de suas vidas individuas como a única recompensa digna do sofrimento temporário da carne. Davam valor às experiências vivenciadas aqui, mas somente como um meio, somente com a crença inabalável de que a moral aqui mantida e o trabalho aqui praticado traria a morte esperada, amada.

Tal pensamento afundou a civilização Kak num período sombrio e aparentemente incurável de desolação cultural, e milhões foram levados ao óbito em busca do alívio derradeiro.

Tendo escutado o depoimento desses dignos diplomatas extraterrenos, reitero aqui a conclusão de que a busca da igual distribuição de frutos e bem-estar deve estar no topo da lista de uma civilização digna, independentemente de quaisquer antecedentes.

E congratulo com sincera admiração essa espécie de agentes dos direitos comuns!

Agora, onde está meu assistente? Preciso encontrar o Júnior e dar a ele as boas novas.

❖❖❖
Notas de Rodapé

"Em cada bloco de mármore há uma estátua, e é trabalho do escultor a desvendar."

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