Quarta-feira
Ana Clara
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/04/21 20:07
Editado: 05/07/21 23:41
Gênero(s): Crônica
Tags: OPMP
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 3min a 5min
Apreciadores: 5
Comentários: 3
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Palavras: 628
[Texto Divulgado] "Liberdade da tua Voz" Quando algo tão belo cai em nossas redes, o certo é soltar.
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Texto para o OPMP de abril, o tema era associar uma cor a um sentimento e escrever sobre, minha escolha foi Cinza e Apatia.

Capítulo Único Quarta-feira

Quando abriu os olhos, existia o cinza e só. Desnorteado, apoiou-se no poste de luz mais próximo e se levantou, ao tentar fechar as mãos, soube que estava num sonho. Ainda assim, era carne. Seus dedos não atravessavam a própria pele e podia sentir seus pés descalços queimando no chão, mais uma vez fora posto no jogo cruel em que era obrigado a assistir àquele mesmo filme antigo sem poder fazer nada para mudar seu desfecho.

Um jornal exposto na banca dizia ser quarta-feira de 1951, mas poderia ser muito antes, ou depois. Poderia ser agora, de tão monótono, e não faria a menor diferença, porque a mulher sentada na calçada ainda estaria lá com o olhar vago procurando eternamente por algo que talvez nunca tivesse existido, e o homem conduzindo a charrete ainda seria o homem buzinando descontrolado no engarrafamento, e as crianças continuariam dividindo seu coração entre a esperança por um futuro melhor e o pesar de reconhecer que desde aquele momento estavam condenadas ao fracasso; piscou e escutou suas vozes ecoarem rua abaixo.

O carro do povo alemão começava a conquistar a simpatia dos brasileiros, e o barulho do seu motor brigava por espaço contra os relinchos e os galopes. Era um sonho antigo, recorrente, que o perseguia há tanto tempo que não poderia dizer desde quando, ocasionalmente o sonho se divergia em fatos e acontecimentos, mas o começo e o fim eram sempre os mesmos: tudo começava e acabava com ele abrindo os olhos e se levantando.

Aprendera a ignorar os olhares desconfiados e curiosos enquanto se misturava às pessoas, dos seus pés ao seu cabelo, era encarado como se fosse o alienígena enviado para fazer a terra parar ou o viajante do tempo que aparecera no trânsito de Nova Iorque um ano antes. Nas primeiras vezes, quando ainda não podia distinguir o sonho de sua própria realidade, correu pelas ruas e fugiu, quatro vezes tentou impedir o acidente que logo aconteceria — perdeu a conta de quantas vezes — bem na sua frente.

A princípio, cobria-se de raiva, caía, chorava e esperneava, já não sentia mais nada disso, em nenhum momento encontrou a luz no fim do túnel, a almejada paz de espírito ou a confiança de que tudo acontecia porque assim tinha que ser, apenas aceitou que não adiantava mais lutar e desistiu. O desespero e a tristeza eram exclusivos a quem esperava que do outro lado houvesse seus opostos a espera.

Se fizesse qualquer coisa para tentar salvar aquelas pessoas, desencadearia uma segunda, uma terceira ou uma quarta onda de eventos, a seguinte sempre mais desastrosa que a anterior. Por isso, sentou-se na calçada ao lado da senhora, respondeu suas perguntas sem realmente prestar atenção em nenhuma e esperou que a madrugada explodisse.

Todos os trilhos levavam ao mesmo destino, e eles até se deslocaram para abrir uma ruptura em espaço e tempo e dar ao caos uma chance de desviar a ordem natural de seguir seu curso, mas, quando a oportunidade lhe surgiu, recusou-a, em outros tempos, tentaria, mesmo que para falhar, apenas para dizer que pelo menos tentou, mas ele não era o protagonista daquele filme e sabia que não salvaria ninguém.

Ainda que funcionasse, quando abrisse os olhos novamente, as dores do mundo continuariam sendo as mesmas, as tristezas só remodelagens daquela primeira, e nada, absolutamente nada que fizesse, mudaria o fim que o aguardava do outro lado.

Ele esperou que as chamas iluminassem a noite e o pânico e as cinzas se alastraram pelas ruas, apoiou os cotovelos no joelho, cobriu o rosto com as mãos e quase se sentiu angustiado, outra vez perdeu porque sequer tentou fazer nada, mas, então, lembrou-se de que naquele mesmo instante existia alguém que, apesar de ter tentado de tudo, também estava perdendo.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigada por ler <3

Apreciadores (5)
Comentários (3)
Comentário Favorito
Postado 01/05/21 14:13

Olá Ana, eu gostei bastante do seu texto, apesar de achar que você não me passou o sentimento de apatia, muito pelo contrário, seu personagem foi totalmente empatico e cheio de vontade de viver e de fazer algo para mudar tudo, talvez ele quisesse ser apatico, mas sem sucesso. Talvez se você tivesse brincado com o antes ele ter empatia e o depois de tudo aquilo não o tocar mais teria ficado mais dentro do tema proposto, ou talvez tivesse brincado com essa dualidade mais um pouco, contudo acho que ficaria estranho no que você escreveu e machucaria o texto.

Mas mesmo assim eu achei excelente a narrativa e muito gostosa de se ler e é normal acontecer de não conseguirmos transmitir o tema, o importante é tentar e trazer vida um texto maravilhoso como esse.

Tem textos que possuem vida própria e esse parece o caso do seu.

Obrigada.

Postado 09/06/21 21:59

Olá! Nas primeiras vezes que ele se viu no sonho, realmente sentiu a vontade de tentar evitar o acidente (que, a título de curiosidade, se refere a um acidente ferroviário que ocorreu em Nova Iguaçu em 1951), mas, conforme se dava conta de que nunca conseguia reverter a situação, passou a apenas se sentar e esperar. Tentei mostrar essa dualidade do antes vs. depois, mas realmente ficou bem por cima, talvez se descrevesse momentos de sonhos anteriores, reforçaria a mudança, só que a enrolada aqui estava correndo pra chegar a tempo no desfile dos atrasados kkk

Muito obrigada mais uma vez pelo feedback e pelas palavras! ❤️

Postado 03/05/21 20:21

Uau... Estou sem palavras, essa sua obra me tocou de uma forma tão única... Muito obrigada por compartilhá-la conosco! Admirável ❤️

Postado 09/06/21 21:45

Eu que fico boba e sem palavras com comentários assim! Muuito obrigada mesmo ❤️ ❤️

Postado 08/08/21 22:35

Essa é, infelizmente, o tipo de apatia que toma conta de nós muitas vezes quando presenciamos inúmeras vezes o mesmo tipo de tragédia.

Parece que quanto mais vemos pessoas passando fome, menos empáticos somos com a fome no mundo.

Quanto mais casos de violência doméstica aparecem na mídia, mas a gente se desensibiliza com a violência.

E isso é muito triste...

Eu amei todos esses sentimentos que o seu texto conseguiu me passar!

Parabéns e um grande abraço <3