O Cavalo de Prata (Em Andamento)
Nyels
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 22/07/21 01:17
Editado: 22/07/21 11:34
Qtd. de Capítulos: 1
Cap. Postado: 22/07/21 01:17
Cap. Editado: 22/07/21 11:34
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 5min a 6min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
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Palavras: 811
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de catorze anos
O Cavalo de Prata
Notas de Cabeçalho

Essa história foi inspirada no livro "A Menina na Torre", de Katherine Arden. Eu não conheço muito da cultura eslava, mas a licença poética tá aí pra gente poder falar abobrinha sem compromisso.

Boa leitura <3

O palácio em Kiev Olga

Nada indicava que o horário de levantar chegara; a noite escura como carvão não tinha sequer uma nesga tímida de luz e o frio opressivo parecia ainda mais intenso, se é que isso era possível. A única pista de que a madrugada ia avançada eram os ruídos de gente acordando, desfazendo-se dos cobertores grossos enquanto tentavam espantar a friaca que lhes mordia as bochechas, tornozelos e a pontinha do nariz.

As meninas casadouras dormiam todas juntas sobre um dos imensos fornos da cozinha, vigiadas por uma idosa frígida cujos olhinhos aguados e sobrancelhas retas eram o perfeito retrato de um texugo mal-humorado. A velha criada chamava-se Oksana Lukovna e, segundo as fofocas, era a figura mais antiga a viver no Palácio. Havia quem jurasse que a velha era anterior à construção da própria Kiev, mas Olga não acreditava nessas bobagens.

Dificilmente uma mulher com intestinos tão inconvenientes seria algum tipo de criatura mística.

— Levantem-se, porquinhas — Oksana resmungou a contragosto, cutucando o quadril de Olga com a ponta do atiçador de brasas. — Bando de preguiçosas, eu não vou chamar de novo! — Uma pancada dolorosa nas coxas obrigou a garota a deixar o abrigo agradável dos acolchoados e meter os pés nas grossas meias de lã penduradas no fogão. As outras meninas, com idades que iam dos catorze aos vinte anos, moviam-se em graus variados de sonolência, lentamente separando os corpos quentes uns dos outros.

Olga ocupou-se em vestir camada por camada das roupas com os dedos rígidos: três anáguas sobre a chemise e as meias quentes, duas pesadas saias de lã para manter o calor e mais duas sobressaias bordadas que recebera para a ocasião. A capa delicadamente ornada com fios de ouro seria vestida mais tarde.

— Pensam que têm a manhã toda para se aprontar, suas pequenas porcas mimadas? — Oksana Lukovna guinchou, distribuindo varetadas nas coxas e nádegas das meninas mais atrasadas. A mulher tinha uma estranha fixação em porcos, especialmente os mortos e fritos na manteiga (não que criados pudessem dispor de jantares caros com frequência). Às vezes, Olga temia surpreender um brilho bizarro naqueles olhinhos escuros.

— Até mais tarde, Dunetchka. — Ela apertou os dedos de Dúnia, a lavadora de pratos, e dirigiu-se à escada que levava aos andares superiores do Palácio, deixando os gritos agudos de Oksana para trás.

A ala das mulheres ficava ao Leste, afastada dos olhares indiscretos de visitantes e soldados rasos. Olga subiu os intermináveis lances de escada sentindo os ossos gelarem, seus lábios trêmulos sob o véu branco que cobria sua cabeça. Ela caminhou apressada pelos corredores quase inabitados, eventualmente acenando discretamente para um ou outro criado ocupado com as próprias tarefas. Após subir quatro andares a partir do subsolo, a garota atravessou o grande salão acarpetado que antecedia os aposentos femininos, sentindo-se grata pelo calor da calefação.

Um eunuco de altura mediana e ombros largos guardava a grande porta de madeira escura, caprichosamente enfeitada por arabescos dourados e vermelhos. Ao avistar Olga aproximando-se depressa, ele deu um passo respeitoso para o lado e sacou uma pesada chave de latão do cinto. Do lado de dentro, quatro criadas moviam-se agitadas pelos corredores: uma garota de dezessete ou dezoito anos passou por Olga carregando uma grande panela de água quente, enquanto três outras garotas empurravam carrinhos abarrotados com os vestidos luxuosos das damas da corte. As roupas seriam passadas com ferro a vapor, perfumadas e arejadas antes que as mulheres acordassem.

O Palácio do príncipe Maksim Igorevich pulsava com vida várias horas antes do sol raiar. Olga encarregou-se de preparar as roupas de sua senhora; qualquer tarefa relacionada a Miroslava Dimitrova cabia apenas a ela.

— Você tem tanta sorte, Olya — Sonja reclamou em voz chorosa quando Olga juntou-se ao grupo que se dirigia à lavanderia. A menina tinha pouco mais de quinze anos, e era alta como um homem, mas seu rosto redondo ainda conservava as marcas suaves da infância. — Eu daria tudo para assistir ao festival!

As outras criadas fizeram movimentos positivos com a cabeça, concordando.

— E veja essas roupas — Anna, uma garota sardenta de olhos e cabelos escuros, apontou impetuosamente para os brocados que adornavam a babushka, o lenço que cobria seus cabelos. — Eu mataria por uma peça como essa.

— Estou certa que sim — Olga respondeu secamente. Anna era pequena, mas voluntariosa e ambiciosa. Em geral era bastante inofensiva, desde que seus interesses não entrassem em conflito direto.

Olga evitava provocar o ressentimento das outras garotas, pois sua posição como criada pessoal da princesa inspirava facilmente a mágoa e ódio entre suas iguais. Ela dormia na cozinha, como todas as camponesas casadouras que trabalhavam para reunir seus dotes; teoricamente, as garotas pertenciam ao mesmo nível social na base da hierarquia. Na prática, como protegida da princesa, Olga recebia uma série de privilégios e facilidades.

Suas roupas simples, porém de qualidade, eram apenas um exemplo disso.

— Você tem mesmo muita sorte — Anna acrescentou enfaticamente.

❖❖❖
Apreciadores (4)
Comentários (3)
Postado 28/07/21 03:31

A escrita impecável, como sempre. Me deu uma saudaaade da literatura russa agora D:

Obrigado por compartilhar, Nyels, aguardando o próximo capítulo.

Postado 28/07/21 10:56

A literatura russa tem um encanto todo especial, não é? Eu também gostaria de voltar a ler os russos, mas a biblioteca da minha cidade tá fechada =(

Obrigada pela gentileza, Sena. Seus comentários são um brilho de alegria no meu dia <3

Postado 30/07/21 22:02

Que leitura mais maravilhosa, Srta. Nyels!

Estou encantada com seu modo de escrever! Tudo é realmente impecável, como disse o Sr. Sena!

Fiquei com vontade de já começar a shippar a Olga com a Princesa... Será? Provavelmente não. Mas não me custa nada tentar shippar hahahaha

Aguardo ansiosamente o próximo capítulo dessa obra de arte <3

Abraços <3

Postado 02/08/21 20:59

Olga é um dos meus nomes favoritos, pois sempre que vi esse nome, envolvia alguma trama completamente viciante e perfeitamente composta como esta!

Espero ver mais em breve, parabénssssssss, muito obrigada por compartilhar conosco!

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