Esquecer (nunca) foi uma opção
Lady Lótus
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 31/08/21 21:48
Gênero(s): Crônica Romântico
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 8min a 10min
Apreciadores: 4
Comentários: 1
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Palavras: 1299
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Olá pessoal, mais um texto do OPMP.

Este mês o tema proposto era: Comece pelo fim.

Meio estranho não é mesmo? Mas se já leu o livro “Memórias póstumas de Brás Cubas” ou assistiu ao filme “Cidade de Deus” vai entender a ideia de iniciar a história pelo fim dela.

Espero não fugir ao tema neste mês e vamos ver o que que vai sair não é mesmo?

Minha inspiração desse mês também é musical, e a música que me tocou para escrever é “Impossível” do Biquini Cavadão, peguei a letra da música e basicamente pensei em escrever a história que enxerguei ali. Fazia muito tempo que queria escrever com a letra dessa música, então tentei juntar o útil ao agradável e é isso.

Espero que gostem e apreciem, sem moderação.

Capítulo Único Esquecer (nunca) foi uma opção

Ela deixou na mesa a xícara marcada por seu batom vermelho, se levantou e caminhou no alto de seus scarpins pretos para fora da cafeteria, para trás ficou o rastro de seu perfume embriagador, e enquanto ela caminha me hipnotizava com o rebolado e contorno de seu corpo marcado na saia lápis, sua nuca estava a mostra devido aos cabelos presos no alto e a regata de cetim branca.

Muitas cabeças se viraram para ver aquela mulher na casa dos quarenta andar imponente até a saída, afinal ela era uma visão estonteante e capaz de fazer muitos se jogarem aos seus pés por um pouco de atenção, mas aquela beldade não se iludia por ninguém, muito menos para a vida.

E mais uma vez ela partia.

Quando a conheci na faculdade tínhamos não mais que vinte anos, eu era imaturo e com pouco juízo na cabeça, acreditava que o mundo me serviria, vivia às custas dos meus pais enquanto ela lutava ao lado da mãe para sobreviver a cada dia. Na época suas roupas simples e fora de moda se destacavam naquela faculdade renomada, e eu mal sabia o quão duras custas e notas espetaculares eram necessárias para ela manter a bolsa de estudo, enquanto eu era apenas um aluno mediano.

Na época não me importei com a classe social dela, as vestimentas simples, o que me encantou foi o seu sorriso caloroso e brilhante como o sol, sua voz melodiosa e firme quando estava em oratória, a inteligência, além da língua afiada e sem freios.

Não sei dizer quando me apaixonei, talvez no princípio eu quisesse apenas conhecer um pouco mais daquela garota de língua ferina que me xingou no dia em que nos esbarramos na escada, mas acho que a culpa é dos constantes encontros e esbarrões que dávamos, alguns por pura coincidência e outros provocados por mim.

Quando percebi já ansiava por cada momento ao lado dela.

Era fato que sempre a iria encontrar na biblioteca com algum livro grosso do nosso curso de direito e para a acompanhar e estar junto passei a frequentar aquele lugar e efetivamente estudar ao seu lado, já que ela não me dava outras opções. Fiz várias matérias que tive pendência ao lado dela e pude completar o curso junto daquela garota.

Perto dela conheci uma forma de viver mais simples, humana e empática, e percebi que existe uma forma diferente de viver a vida, sem necessidade de muitos recursos e ostentações, onde você poderia ser você mesmo, sem cobranças.

Adorava a naturalidade dela ao tirar o all star surrado e as meias gastas para andar descalça no gramado do jardim da faculdade, ela dizia que o contato com a terra a fazia se lembrar de manter os pés firmes no chão e não se perder nos sonhos sem futuro. Mas eu era um tolo e não percebi na época que ela sabia da verdade, de alguma maneira através daquele vocabulário inteiro havia um recheio de ilusões de um futuro que não poderíamos ter juntos, restando apenas o momento presente para nós e ela buscava nunca esquecer disso.

Eu era egoísta e mal sabia o que ela enfrentava na vida, apenas acreditei ser capaz de enfrentar as diferenças que nos cercavam, desde que ela me mostrasse aquele sorriso elegante e arrebatador que ela tinha, ela sempre sorria para espantar qualquer dor ou amargor.

A juventude nos faz acreditar que tudo será possível, mas nem sempre é assim. Vivi os melhores anos da minha vida ao lado dela, compartilhamos o amor pelas leis, nossos corpos, nossos sonhos, mas como ela bem sabia eles não teriam futuro, afinal meus pais tinham outros planos e não fui capaz de lutar por nós dois quando o momento chegou.

— Tudo bem, quando termina bem.

Aquela frase foi dita por ela na formatura colocando um fim ao nosso tempo, eu invejei a coragem que era tão dela, que apesar dos olhos rasos d’água enquanto a dizia não demonstrou um timbre de indecisão. Sei que muitas palavras foram guardadas no coração, afinal ela era assim, mas para mim nada terminou bem, ainda era assombrado pela felicidade que compartilhamos naqueles anos de nossa juventude, e estar vendo ela na minha frente agora só me comprova o que já sabia há anos: fui um tolo incapaz de seguir decentemente.

Talvez o universo esteja a nosso favor, afinal nunca imaginei a encontrar naquele café. Quando a vi sentada numa mesa, pude reconhecer imediatamente o meu primeiro e único amor. Ela parecia bem, estava ainda mais bela com os fios de cabelos brancos, a maquiagem leve apenas para enaltecer a beleza natural que ostentava, os óculos num aro vermelho a davam um ar de elegância enquanto as mãos pequenas e delicadas se revezavam entre anotar no moleskine e a levar a xícara de café aos lábios carmins. Ela parecia tão compenetrada e eu me sentia um tolo atormentado pelo cemitério de lembranças em minha mente.

Ela apoiou a xícara sobre o pires na mesa, e ao levantar o olhar em minha direção senti um calafrio percorrendo minha espinha enquanto meu peito apertava com uma sensação de taquicardia e falta de ar, que piorou quando a via abrir o mais radiante (famoso) sorriso. Nesse momento soube que havia me reconhecido, apesar dos vinte anos que passaram.

Entre um café e outro contamos nossas vidas pós formatura, eu, como o covarde que era, havia casado com quem minha família queria, tive dois filhos, um menino já de quinze anos e uma menina de doze anos, mas o divórcio do casamento e do elo com meus pais foram inevitáveis, ela havia me mudado e eu não fui capaz de viver naquele mundo por muito tempo. Quando você conhece o gosto da felicidade você não aceita sentimentos rasos.

Ela me contou que havia seguido o caminho da promotoria, encontrou um bom rapaz com quem teve uma filha e enviuvou há alguns anos.

Conversamos como se nunca tivéssemos ficado distantes, como se os anos fossem a poucos dias atrás, estávamos mais maduros, mais cientes da vida que tomamos, eu longe das amarras familiares, e ela como sempre a batalhadora senhora de sua vida. Trocamos telefones, talvez alguns flertes e a vi se despedir e caminhar para a porta do café. Mais uma vez ela caminhava para fora da minha vida, e eu não poderia permitir isso mais uma vez.

— Foi impossível te esquecer Eduarda.

Ela parou no caminho à porta quando me ouviu falar alto o seu nome e virou o corpo em minha direção, assim como os olhos de todos os presentes naquele salão e os ruídos se cessaram.

— Carlos…

Sua voz era um sussurro e eu pude decifrar o meu nome em seus lábios enquanto nossos olhos estavam mais uma vez rasos d’água; eu estava pronto para derramar todas as palavras que estavam presas em meu coração por todo aquele tempo.

— Por favor, antes que eu me esqueça, antes que você cruze aquela porta e vá embora ou diga que eu sou louco eu preciso lhe dizer a verdade, nunca fui capaz de esquecer o que vivemos no passado, quero aproveitar que a vida nos deu esse reencontro para recomeçarmos.

Ela caminhava agora de encontro a mim, devagar, uma lágrima rolou pela face bonita e eu tremia com o que poderia acontecer dali para a frente, um tapa poderia ser bem aplicado e eu merecia ele pela falta de coragem e estamina.

— Tudo bem, quando termina bem, mas nunca há de terminar pra mim, eu nunca te esqueci, só existiu você em meu coração, e se eu tiver alguma chance de fazer parte do seu futuro…

E antes que eu pudesse terminar o meu discurso ouvi palmas e assobios enquanto seus lábios colaram nos meus, e talvez tudo bem, já que poderíamos começar bem.

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Apreciadores (4)
Comentários (1)
Postado 09/10/21 20:00

Apesar de algo tão bosta ter acontecido no passado, por puro egoísmo, eu fico muito feliz que eles puderam ter essa segunda chance para começar de novo!!

O amor constrói caminhos estranhos, mas se final chegar em algo bonito, isso valeu a pena!!

Adorei o texto <3

Postado 02/11/21 17:36

Olá Mei, desculpa a demora e obrigada pelo comentário.

Realmente, o amor tem caminhos estranhos, ou a gente que nega a existência dele e deixa ele estranho, por falta de coragem de seguir o que realmente queremos.

Mas no final, sempre pode valer a pena não é mesmo?

Obrigada