Sonhando acordada (Em Andamento)
Handress4
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 19/09/21 13:41
Editado: 22/09/21 20:48
Gênero(s): Romântico
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 22/09/21 20:48
Avaliação: 9.6
Tempo de Leitura: 24min a 32min
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Palavras: 3858
[Texto Divulgado] "O Último Delírio de um Rei" Há muito tempo, num reino bem distante, vivia um rei que tinha dois filhos gêmeos. O rei estava morrendo, e em seus últimos dias, uma preocupação inquietava a mente do velho soberano: quem seria seu sucessor no trono?
Livre para todos os públicos
Sonhando acordada
Notas de Cabeçalho

Olá, tudo bem com você? Espero que sim...

Aqui está mais um capítulo do meu livro, espero que goste.

Comente o que achou, vou adorar saber! Boa leitura.

Capítulo 3 Inquietação

Preciso da minha cama com urgência…, pensa, enquanto estala seu pescoço de um lado para o outro. Um restaurante tão fino com certeza não teria problemas em contratar mais uma pessoa para me ajudar e isso não seria nada mal, conclui

Depois de muitos chãos limpos, lixos recolhidos, louças lavadas e, principalmente, muitas ratoeiras e venenos espalhados, a pequena sonhadora recebe seu primeiro salário. Em casa, abre o envelope com um sorriso satisfeito no rosto, entretanto logo o desfaz, pois lamentavelmente desconhecia um importante detalhe do acordo, já que só havia trabalhado sem registro em carteira até então.

— O que aconteceu com o meu salário?

Delphine olha para o dinheiro nas mãos da amiga, dá um suspiro e explica:

— O governo também quer um pouco do seu salário, cher.*

— Não me diga que você nunca trabalhou antes? — pergunta Manon, espantada.

— Sim, eu já trabalhei antes. Mas...

A visão do salário tão baixo lhe rouba a força para pronunciar as últimas palavras. Como conseguirá o dinheiro que precisa para cursar gastronomia na Le Cordon Bleu? Não faz a menor ideia.

— Ah, não ligue para isso, Bia... Vamos amanhã comprar roupas. Você precisa conhecer a Loja Christian! — convida Delphine, acrescentando empolgação extra às palavras, para motivar a amiga.

— Já estava demorando... — desaprova Manon, balançando a cabeça.

— Acho melhor não ficar gastando muito, já é pouco e...

A loira interrompe:

— Nossa, não seja sem graça. Vamos lá.

— Na verdade ela está querendo te mostrar o Christian, son amour.*

— Claro que não, que absurdo! Eu preciso de um vestido novo, apenas isso. — Delphine tenta desviar a atenção, mas suas bochechas rosadas mostram que não está falando a verdade.

— Está bem, eu vou. Não me lembro da última vez que comprei uma roupa nova.

Com um revirar de olhos, Manon — que preferia ficar em casa lendo um livro e escutando música — decide acompanhá-las, por ser o primeiro passeio de Bianca em Paris.

A Loja Christian realmente faz jus à empolgação de Delphine. Com uma fachada imponente e um interior extremamente sofisticado, dá para perceber a atenção dos proprietários em cada detalhe. Na recepção, um rapaz finamente vestido recebe as garotas com rapidez e um sorriso no rosto.

Bia, acanhada como sempre, tenta correr os olhos pelo francês sem chamar tanta atenção. Ele parece ser o tipo que fica horas na academia e usa um topete enorme impecável em seus cabelos castanhos, parece um príncipe de conto de fadas dos desenhos animados. Ela não entende por que o acha tão artificial, mas seu colega de trabalho Julien é muito mais bonito. Sorri ao se lembrar do sorriso solto e do penteado despreocupado dele.

De repente, um locutor fala em um microfone ali dentro da loja. A garota olha para os lados assustada e sem entender nada, enquanto Manon a observa com os braços cruzados e um pequeno sorriso no rosto, aparentemente sabendo o que está acontecendo.

Enquanto o locutor fala, uma modelo caminha numa passarela com tapete vermelho, toda iluminada. Ao que parece hoje tem um evento especial: o desfile da nova coleção primavera/verão do estilista.

Com o queixo erguido e pose perfeita, a modelo é incrivelmente magra e tem traços muito parecidos aos de Christian, o que leva Bia à conclusão de que obviamente são irmãos gêmeos. Seu corpo esbelto está trajando um short branco e uma camisa florida laranja, e a pequena sonhadora acha tudo isso fantástico e assiste a tudo boquiaberta.

— Quem é ela? — pergunta à Manon.

— Ah, ninguém... O nome dela é Camille, desfila nesta passarela todos os sábados e pensa que é modelo.

— Nossa, ela é muito magra.

— Isso é bulimia.

— Sério? — Bianca arregala os olhos diante da menção da doença grave da qual ela já tinha ouvido falar.

— Muito sério. — A amiga balança a cabeça, concordando.

Aparentemente, aquela modelo — ou menina que se acha modelo, como disse Manon — é muito amiga de Delphine, pois desce do palco para cumprimentá-la. Em seguida, com um jeito muito arrogante, olha para Bianca de cima a baixo.

— Quem é essa aí? — pergunta.

— Minha amiga Bianca. Ela é brasileira — responde, demonstrando toda a afinidade que tem com Camille.

A moça faz uma cara de nojo, e Bia se sente extremamente desconfortável pela gritante diferença entre suas roupas. Com um pequeno aceno para ela, afasta-se e vai olhar as peças do cabideiro. Ao puxar as etiquetas, sente-se ainda mais medíocre, se é que isso é possível.

— Eu não tenho dinheiro para isso! — Solta as peças como se tivesse levado um choque ao tocá-las.

— Eu odeio este lugar — diz Manon, aproximando-se. — Eu conheço outra loja que é bem mais barata. Quer ir comigo?

— Sim, você me leva?

— Claro. É pra já. Não vejo a hora de sair deste ambiente tóxico.

As duas saem da loja avisando de longe que estavam saindo. Delphine está tão entretida conversando com Christian, que nem escuta.

— A Del namora com aquele cara estranho? — pergunta Bianca, arqueando a sobrancelha.

— Não. Ela só sonha em se casar com ele desde que o conheceu e por isso vem aqui todo final de semana. Eu sinceramente acho que um cara todo malhado daquele jeito jamais se casaria com uma gorducha como ela, mas fazer o que se ela quer sonhar?

— Ah... Se ele gostar dela, acho que seria possível. A Delphine é muito bonita e muito simpática. Se você quer saber, eu acho que ela é bem mais bonita que aquela modelo nojentinha.

— Nisso concordamos.

As amigas caem na gargalhada enquanto entram em uma loja menor e mais simples, onde os preços são razoáveis. Bianca compra algumas peças de roupas. Uma boina vermelha pendurada chama sua atenção e ela se apaixona na hora. Experimenta e percebe que cai muito bem, custa somente 3 euros. Vai para casa alegre com ela na cabeça e várias sacolas, sentindo-se uma dondoca francesa. As compras a deixaram animada e com vontade de fazer o jantar hoje, então, antes de ir para casa, elas passam no mercado.

No dia seguinte, Bianca estreia suas aquisições, amando se arrumar para o trabalho. Finaliza seu look com a boina vermelha e se olha no espelho muito feliz com o resultado.

A satisfação em finalmente usar algo novo é tanta que ela nem vê o tempo passar e, quando se dá conta, já está atrasada. Com muita pressa, sai correndo afobada pela rua, torcendo para que Olivier ainda não tenha chegado ao restaurante.

Ela abre bruscamente a porta dos fundos do restaurante, que dá acesso ao local destinado aos funcionários, lembrando muito Delphine quando chega em casa.

Puxa, estou ficando igual à minha amiga, é melhor eu me controlar, pensa, enquanto ri internamente de si mesma.

Toda sua ansiedade pelo atraso acaba quando nota que Julien está ali, colocando a bandana de cozinheiro para começar suas atividades, e a está olhando com uma cara surpresa, depois abre um sorriso para cumprimentá-la:

Bonjour, Bianca.

Bonjour — responde, entrando devagar, envergonhada pelo modo como chegou, e percebe que ele ainda a observa com um sorriso, muito bonito por sinal, pois a achou linda toda arrumada, e ri internamente pela situação. Imediatamente ela sente sua face queimar, prefere se afastar e entrar no banheiro.

Hoje é um dia bem movimentado, pois é final de semana. O Chef Oliver entra na cozinha de repente e as portas brancas continuam se movimentando depois que ele passa.

— Bernard Pacaud acabou de chegar e o salão está uma loucura! Courir! Courir!* Eu não posso deixá-lo esperando.

Quem é Bernard Pacaud? Por que o Chef está tão estressado? Bianca se dirige ao salão para tentar descobrir. Ela corre os olhos pelas pessoas sentadas esperando a chegada de seus pratos e nota um senhor idoso, com cara de poucos amigos, ajeitando os óculos. Desconfia que aquele seja o homem a quem seu patrão se refere.

Matando o tempo com uma vassoura na mão, percebe que Olivier continua estressado e colocando muita pressão em todos os funcionários da cozinha. Aos gritos, ele exige pratos perfeitos e o mais depressa possível enquanto chama a atenção de todos com braveza.

A cara fechada de Julien entrega que está se segurando para não perder as estribeiras com aquele homem. Bia pensa que ele deve estar no limite, afinal, levou dez repreensões seguidas. Nunca o tinha visto tão irritado.

Não parece ser uma boa hora para perguntas, mas ela não consegue aguentar a curiosidade e questiona o rapaz sobre quem é o homem que está causando todo aquele alvoroço.

Ele responde, sem parar de arrumar vários pratos ao mesmo tempo:

— Ele é um crítico gastronômico. Faz críticas num jornal muito importante aqui na França e de vez em quando vem aqui para tornar nossas vidas um inferno. Mas relaxa, normalmente ele é inofensivo.

— Se ele é tão inofensivo, por que o Chef está tão estressado?

Julien se abaixa junto ao ouvido dela e sussurra:

— Porque ele pode arrancar uma estrelinha do restaurante. S'il- vous-plait.* Nunca diga isso em voz alta se não quiser perder seu emprego — diz, divertindo-se com a situação.

— Nossa, tomara que ele não seja cruel... — responde Bia, ainda tentando se recuperar do efeito que a proximidade de Julien lhe causou.

Após algumas risadas, ambos se afastam sustentando a troca de olhares por algum tempo, o suficiente para arrancar um longo suspiro em Bia assim que ele volta aos seus pratos.

Mais tarde, quando o crítico vai embora, tudo se acalma. O expediente está quase terminando, mas, quando Bianca olha para a pia, solta um suspiro e um pequeno gemido. Seus ombros caem num gesto descontente, pois já sabe que terá que fazer hora extra para lavar tudo isso.

— Onde estava com a cabeça na hora que aceitei fazer a limpeza geral? Bom, mãos à obra... Fazer o quê? — Arregaça as mangas.

— Oh, você está aí ainda, Bianca!?

Ela percebe que Julien, já arrumado para sair, com a mochila pendurada em um ombro, está parado no canto da cozinha, perto da porta.

— Sim, tenho que lavar toda essa louça antes de ir.

— Quer ajuda?

— Não precisa se incomodar. Você pode ir para casa.

— Tem certeza? Em dois minutos a gente termina isso aí — responde ele, colocando sua mochila em cima da bancada, e se aproxima dela com um pano de prato na mão.

— Na verdade, se você realmente não se incomoda... Seria bom uma ajuda.

— Não me incomodo nem um pouco. Sabia que eu comecei lavando pratos também? — Pega um prato para secar.

— É mesmo? Eu não sabia... — Ela abre um sorriso.

— Sim, e agora sou o cozinheiro deste restaurante, o que sempre quis. Eu acredito que você quer cozinhar também, não quer?

— Como você sabe disso?

— Desde quando você começou a trabalhar aqui. Já percebi seus olhares curiosos e admirados em todos os lugares desta cozinha.

— É verdade, eu tenho uma paixão antiga pela gastronomia. — Bia ri timidamente. — Tão antiga que vem desde quando me conheço por gente. Mas me diga: como foi que você conseguiu ser um cozinheiro?

— Certo dia fiz um teste para uma vaga e passei. Eu sempre gostei muito de cozinhar, minha mãe me ensinou tudo o que sei. Acho que tive sorte.

Ao escutar a palavra "mãe ", Bia abaixa a cabeça enquanto ensaboa um prato. Julien percebe sua reação.

— O que foi? Eu te deixei triste? — Inclina-se para ver melhor o rosto dela.

— Nada, eu só me emocionei um pouco, minha mãe faleceu há um tempo, e... — responde ainda de cabeça baixa.

— Sinto muito, eu não sabia.

— Está tudo bem, aos poucos estou superando isso. E você fez algum curso? — muda de assunto, olhando-o.

— Fiz um curso básico somente, foi enquanto trabalhava como lavador de pratos. Mesmo assim, erro muitas receitas, por isso às vezes o Chef puxa minha orelha, penso que ele se arrepende de ter me contratado, mas eu não dou a mínima pra isso.

Ambos dão risada.

— Ah, quem nunca errou uma receita? — Ri mais um pouco. — Sabe, meu sonho é estudar na Le Cordon Bleu. — Comenta com um ar sonhador.

— Que legal! Essa escola é a melhor de todas, o problema é o preço salgado.

— Nem me fale...

Enquanto trabalham, Bianca sente-se tão à vontade na presença dele, que conta que já tentou uma vaga nessa escola, depois conta um pouco da sua história, o desemprego, a pobreza, os armários vazios e a mágoa que tem de sua irmã. O rapaz escuta atentamente tudo o que ela diz e tenta entender como seria vivenciar tudo isso, já que sua própria vida é tão diferente da dela.

Com pais vivos e casados, Julien não faz ideia do que significa perder uma família inteira. Embora não tenha o apoio de seu pai para ser cozinheiro, já que ele esperava que seu filho se tornasse um doutor, sua mãe compensa essa falta, comendo com empolgação tudo o que ele prepara. Filho único, ele teria um irmão, se não fosse um abordo espontâneo que interrompeu a gestação daquele que seria o primeiro filho da família. A descrição que faz de sua mãe é tão empolgante que Bianca sente uma vontade enorme de conhecê-la, mas não diz nada.

— Seja lá onde sua mãe estiver, tenho certeza de que ela está muito orgulhosa, pois você é uma garota muito esforçada. Se continuar assim, com certeza irá se tornar uma grande Chef.

Bia se vira, entregando o último prato a ele com um largo sorriso no rosto, arrancando um brilho sem igual daquele par de olhos azuis encantadores. Ele, por outro lado, enxuga aquele prato sentindo-se vitorioso em conseguir lhe arrancar um sorriso.

A dupla deixa a cozinha impecável e vai embora junta, depois de ficar uma hora a mais do que de costume. Eles caminham pelas ruas parisienses devagar, curtindo a conversa:

— Sabe qual é o meu maior sonho? Pode ser meio bobo comparado ao seu, mas ignore isso...

— Nenhum sonho é bobo. Diga-me qual é.

— Ficar famoso como o criador da marca de chocolate mais gostosa do mundo. Sim, sou um chocólatra assumido e tenho uma receita bem especial que todos deveriam provar!

— Ah, eu quero!

— Trago para você na segunda-feira. Vou prepará-lo neste final de semana.

Animados, eles chegam a uma praça onde um senhor simpático toca acordeom com maestria, dando um clima perfeitamente francês ao ambiente. Bianca olha satisfeita para Julien, amando o momento e sua companhia.

— Ei, eu adoro este lugar. Quer comer um doce? — pergunta ele, apontando para a loja de guloseimas defronte à praça.

Surpresa pelo convite, Bia olha para o estabelecimento e se encanta com as várias cadeiras do lado de fora de uma porta de vidro bem chamativa. Antes de responder, sente a mão de Julien tocando levemente seu braço.

— Vamos comer um doce feito com chocolate.

Eles se aproximam da vitrine e Bianca fica com a boca cheia de água, indecisa sobre o que escolher, pois são várias opções de doces, todos muito bonitos e chamativos. Fica na dúvida entre um crepe ou um macaron, mas escolheu o crepe e Julien a acompanha, o dele com bastante chocolate.

— Nossa, o crepe lá no Brasil é bem diferente... Mas esse daqui também é ótimo.

— E como é?

— Todo fechado e recheado — responde, dando mais um garfada.

Depois do lanche, o rapaz segue o caminho contrário e Bianca volta para casa pisando nas nuvens. Aquela foi a primeira vez que ela teve algo parecido com um encontro e tudo parece mágico.

Dois dias se passaram e Bianca fica de olho nos jornais, pois está curiosa para saber o que e se o crítico gastronômico escreveu sobre o restaurante onde trabalha. Espera o jornaleiro aparecer no portão de onde mora. Percebendo sua apreensão, o simpático senhor entrega Le Figaro direto em suas mãos.

Bom, vejamos... Será que ele escreveu alguma coisa sobre o restaurante? Parece que aqui tem algo:

"Não merece sequer uma resenha, logo, escrevi esta pequena nota para alertar aos que gostam de comer bem e, preferencialmente, com uma quantidade justa no prato. As porções são incrivelmente minúsculas, pobre em calorias, uma coisa qualquer que ousam chamar de comida. O tempero é ridiculamente mal feito e com nenhuma complexidade de sabores. Tenho certeza de que na cozinha estavam rindo dos clientes.

Como se não bastasse, cada prato do menu degustação estava muito salgado ou muito esquisito. Só tenho uma forma de avaliar o que me foi servido: uma brincadeira de mau gosto. Pego-me pensando: essa é uma vingança do cozinheiro por fazê-lo trabalhar com um péssimo salário? Ao meu ver, seria a única explicação para essa experiência insossa e completamente imemorável".

Embora a verdadeira vontade de Bianca fosse ficar em casa naquele dia, por saber que seu patrão estará no pior dos humores possíveis, sabia que esta não era uma opção.

Ela entra com cuidado no restaurante, percebendo que tudo está imerso em um profundo silêncio. Na cozinha já tem alguns funcionários e escuta quando comentam que o restaurante perdeu uma das estrelas da classificação do Le Bistrot Splendide, e o cozinheiro responsável pelo prato de Bernard Pacaud foi um cara chamado Pierre. Bianca suspira aliviada em saber que não foi Julien.

— Acho que o Pierre vai ser demitido hoje — comenta Julien, ao chegar no local.

— Você ainda tem dúvida? — responde uma cozinheira.

— O Chef já pediu para avisar ao Pierre para ir até a sala dele quando chegar — completa o responsável pelas saladas.

— Já sei que hoje vai ser um inferno. Diel aide moi* ! — Julien ergue as mãos para o céu para complementar sua frase.

Bianca fica extremamente desconfortável com a situação. Sabe o quanto é difícil conseguir um bom emprego e não deseja que ninguém seja demitido. Infelizmente, porém, entende que isso não está em suas mãos.

No dia seguinte, há um cartaz na frente do restaurante anunciando que foi aberta a vaga para a contratação de um novo cozinheiro. Mesmo se sentindo mal por Pierre, Bia sabe que aquela será a sua chance de conseguir uma vaga na cozinha. Só falta achar um jeito de convencer Olivier a lhe dar essa chance.

Saltitante, ela entra cantarolando na cozinha.

— Bonjour! Parece feliz hoje... — Julien a recepciona com seu sorriso cativante, enquanto prepara uma massa.

— E estou — confirma a garota. — Eu vou conseguir essa vaga de cozinheiro.

— Pensei em você quando vi o cartaz. É isso aí, tem que pensar positivo.

— O problema é que não sei como impressioná-lo — responde, fazendo uma careta

— Ah, você vai conseguir impressioná-lo, pode ter certeza.

— Será que eu poderia preparar um prato para ele? O que acha?

— Pode funcionar, sim... Venha amanhã mais cedo que eu te ajudo, topa? Eu posso te dar algumas dicas. Fui encarregado de receber algumas mercadorias e vou chegar mais cedo mesmo.

— Eu topo. — Ela sorri, em seguida vai até o vestiário toda animada para colocar seu uniforme.

Bianca fica indecisa sobre o que cozinhar, não sabe fazer nenhum prato francês. Em casa, pega seu velho caderno de receita e escolhe algo que sabe fazer muito bem: estrogonofe. Não tem nem ideia de qual origem é, mas acha que o mais importante é Oliver gostar.

No dia seguinte, após verificar se o cartaz ainda estava no mesmo lugar, ela caminha até a porta dos fundos para ter acesso ao vestiário. Julien já está arrumando algumas coisas e, quando a vê, abre um dos seus belos sorrisos. Ver aquele rosto lindo dizendo "Bonjour" já está se tornando o momento preferido de seu dia.

— Bonjour, Chef Bianca! — diz ele, apanhando sua mão e depositando um suave beijo sobre ela, o que a faz estremecer dos pés à cabeça. — O que vamos cozinhar hoje?

— Bom dia, gentil cavalheiro — responde Bianca, com um sorriso. — Vamos fazer um delicioso estrogonofe.

— Ah, isso é simples demais para apresentar ao Chef. Que tal um Gratin Dauphinois*?

— O que é isso?

— Batatas gratinadas com molho branco. O Chef gosta muito e é rápido de fazer. Precisamos de algo rápido, porque daqui a pouco ele chega e não pode sonhar que estamos usando a cozinha dele para cozinhar algo sem autorização.

— Mas ele vai saber o que fiz aqui.

— Você vai dizer que trouxe de casa. — Pisca uma vez com o olho direito. — Não se preocupe, vai ficar ótimo! Vamos lá, iniciaremos cortando essas batatas.

Aparentemente, Julien já havia planejado ensinar Bianca a fazer essa receita. A garota confia nele e começa a cortar os tubérculos. Ele pega uma panela para iniciar o molho branco, e ela percebe o bom grado e fica feliz.

— Agora coloque todas essas batatas naquela travessa e eu vou colocar o molho.

— E depois? O que faremos?

— Colocaremos ao forno.

— Uau! Super fácil e rápido!

Je n'ai pas dit?*— responde Julien, com um charmoso biquinho típico francês, e ela gosta tanto que não consegue tirar os olhos. Ao perceber ele abre um sorriso travesso.

Minutos depois, o prato está pronto. Tem um excelente aroma e, graças à habilidade do amigo, a apresentação fica perfeita. O combinado é que Bia dirá que fez o prato sem mencionar Julien, então ela começa a ensaiar o diálogo que terá com Olivier mentalmente, enquanto começa suas tarefas de limpeza.

Com muito medo, ela se aproxima do patrão e, após inspirar e soltar o ar dos pulmões com força, começa a falar o que planejou.

— Com licença, quero dizer, Bonjour, Chef... — Repara seu amigo observando-a de longe enquanto espera uma resposta de seu Chef. Nenhuma resposta. — O senhor tem um minuto para conversar comigo?

— Fala — responde ele, ríspido.

— Podemos conversar na sua sala?

— Não, não tenho tempo.

Bianca engole seco:

— Bom, é que eu percebi que o restaurante está com um cozinheiro a menos e... — Observa o semblante dele fechar cada vez mais e fica ainda mais insegura, esquece de tudo o que queria falar. — Eu fiz algo para o senhor... em casa, pois quero ser cozinheira. Guardei na geladeira e...

Ela para de falar quando vê Oliver balançar a cabeça numa negativa, demonstrando o quanto desaprova a atitude.

— Não precisava ter feito nada, eu já contratei um novo cozinheiro. Você fica na limpeza mesmo.

Depois de dizer essas palavras frias, Oliver vai em direção a Julien, que está boquiaberto, para lhe dar ordens. A moça fica parada no mesmo lugar desiludida. Ele sequer quis ver o que fiz.

Em seguida, Bianca caminha em direção à saída dos fundos e senta-se no meio fio da calçada. Ela não quer chorar, mas não consegue segurar.

Minutos depois, alguém senta ao lado dela sutilmente, é Julien. Ela enxuga as lágrimas rapidamente.

— Ei, não fique assim.

— Poxa... Ele não quis nem ver.

Ele solta um suspiro, impaciente.

— Entendeu por que eu o detesto?

Ela balança a cabeça, quase imperceptível.

— Você terá outras oportunidades, Bia. Você não pode se dar como derrotada, tem que erguer a cabeça. E não ligue para isso, il est fou!* — Mexe seus dedos ao lado da orelha, como se estivesse parafusando sua cabeça, um gesto francês. Bia olha para ele e abre um pequeno sorriso, e ele continua: — Hoje teremos um almoço delicioso, você experimentou? Está incroyable*. O Chef não sabe o que está perdendo! — Ela começa a rir um pouco, contagiando o rapaz, e num gesto espontâneo, encosta de leve sua cabeça no ombro dele, mas logo afasta, sustentando uma troca de olhares.

— Então vamos entrar? — Ele se levanta estendendo a mão, e ela segura para se levantar.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Glossário

Cher — Querida

Son Amour — Seu amor

Courir — Corram

S'il-vous-plait — Por favor

Le fígaro — Um dos jornais mais importantes da França

Diel aide moi — Deus me acuda

Je n'ai pas dit? — Eu não disse?

il est fou Ele é louco

Incroyable — Incrível.

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