O Último Delírio de um Rei
Endora
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 01/10/21 00:48
Editado: 30/10/21 23:54
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 27min a 37min
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[Texto Divulgado] "Sutileza" Cumpriu sua missão e partiu, como se tivesse nascido apenas para salvá-las. Cheio de todas as faltas e falhas, havia até quem pudesse dizer que não valia nada, mas o bem que fez àquelas duas senhoras, ninguém jamais terá o direito de negar.
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Escrevi esta história há bastante tempo, pra um desafio que uma amiga criou em outra plataforma. Escrevi várias histórias praquele desafio, e esta é a minha favorita, pelo jeito que me fez me surpreender comigo mesma.

Capítulo Único O Último Delírio de um Rei

Há muito tempo, num reino bem distante, vivia um rei que tinha dois filhos gêmeos.

O rei estava morrendo, e em seus últimos dias, uma preocupação inquietava a mente do velho soberano: quem seria seu sucessor no trono?

Os dias passavam e não se via esperança de cura. Tudo já havia sido tentado para salvar a vida do rei. Mas ele já estava conformado. Sabia que era seu fim. A única coisa que importava agora era o destino do reino.

Num último ato de desespero para salvar a vida de um amigo, o conselheiro, homem de confiança e amigo mais íntimo do velho monarca, recorrera a um meio nem um pouco otrodoxo de cura: os poderes sobrenaturais de uma feiticeira.

O cansado soberano, para poupar o amigo da culpa de não ter tentado mais, aceitou o que sabia que não adiantaria. Naquela mesma tarde, a tal feiticeira adentrou seus aposentos.

Encolhida, assustada, a pobre mulher se agarrava às suas saias e parecia não ter coragem de dizer uma palavra que fosse. Era evidente que nada nela havia de malévolo.

— Boa tarde, minha filha. Te aproximes, não tenhas medo.

— Meu senhor, bom soberano, vos peço perdão, mas nada posso fazer para ajudá-lo. Não sou feiticeira como dizem na cidade. Sou uma mera curandeira. Conheço os poderes das plantas, e é só. Posso aliviar um pouco a vossa dor, mas não serei capaz de salvar vossa vida.

— Sei disso, minha filha. Não te preocupes, não serás punida por não conseguir realizar o impossível. — Num olhar de relance, encontrou os olhos do rei e viu bondade neles, mas assim mesmo desviou rapidamente.

— Muito obrigada, Vossa Majestade. — Fez uma reverência e iniciou seu trabalho.

O velho esperou pacientemente que a mulher preparasse o chá de ervas, e bebeu-o até a última gota, como um dócil menininho. O preparado não podia evitar-lhe a morte, mas aliviava um pouco os sintomas que o afligiam.

O generoso rei deu à curandeira algumas moedas de ouro, agradeceu-lhe pela boa vontade e a dispensou. Ficou com seus pensamentos. Tinha ainda uma última decisão a tomar como soberano daquela nação. Ponderou a questão por muito tempo, caiu no sono sem perceber.

Teve um sonho.

Enquanto se encaminhava à saída do palácio, a curandeira teve um infeliz encontro com o príncipe.

— O que faz aqui, mulher imunda? — Perguntou furioso, de espada em punho.

— O Rei, me chamou, Alteza. — Respondeu, de olhos baixos.

— É mentira. Confesse ou morrerá.

— O Rei realmente me chamou. — Gaguejava, a pobre mulher. — Por favor, Vossa Alteza, me deixe ir. — O príncipe abaixou a espada e agarrou a mulher pelo braço.

— Meu pai jamais convidaria uma serva do Diabo para dentro do Palácio. Guardas! — Dois deles apareceram de pronto. O arrogante jovem empurrou a mulher aos pés deles, fazendo-a derrubar suas três moedinhas. — Levem esta hedionda mulher para fora daqui, e se assegurem de que ela jamais volte a pisar no meu castelo.

Enquanto era levada pelos guardas, a mulher olhava para trás, para o príncipe que recolhia as moedas que ela não conseguira recuperar.

Chorou por muito tempo, depois voltou para casa. Contou à sua mãe o acontecido. Sua mãe sim, era uma autêntica e poderosa feiticeira. Que prometeu à sua frágil filha que aquela humilhação não sairia impune.

O rei despertou daquele sonho grato por ainda estar vivo por tempo suficiente para tomar sua decisão. Mandou chamar o escrivão e seus dois filhos. O servo chegou primeiro, ficou esperando à entrada do aposento. Os amados filhos do rei não chegaram a demorar um minuto inteiro. Sentaram-se um de cada lado do leito do pai. A princesa segurou uma de suas mãos com carinho.

— Meus filhos. Deveis saber que meu fim se aproxima.

— Não fales assim, meu pai. — Pediu a gentil princesa, afagando os longos cabelos prateados do velho.

— Meu doce anjo, é a verdade. E a essa altura, uma última decisão se faz necessária. Preciso escolher meu herdeiro.

— Papai, não fales muito. — Rogou o príncipe.

— Depois de muito pensar, cheguei a uma definição que parece-me ser a melhor para o meu povo.

— Estamos ouvindo, meu pai.

— De acordo com nossas leis, o sucessor no trono deveria ser meu filho mais velho. Mas eu não tenho um filho mais velho. Vocês dois nasceram no mesmo dia. Então hoje, vossa mãe me ajudou a dar este meu último passo.

— Nossa mãe está morta há 20 anos, papai! — Protestou o príncipe, temendo que a última baboseira de um moribundo pudesse atrapalhar seus planos. O velho continuou o que dizia, inabalado.

— Um monarca deve ser bom para seus súditos. Deve ser íntegro, justo e gentil. Portanto, eu decidi: meu sucessor será escolhido pelo povo.

— Pelo povo? — Perguntaram os dois. A princesa, num delicado espanto; o príncipe, revoltado.

— Sim. — Soltou a mão da filha e apontou uma bonita caixinha de madeira. Ela não precisou de uma palavra para se levantar e pegar a caixa. O rei a abriu e mostrou o conteúdo a seus filhos.

— O medalhão de mamãe…

— Esta será sua coroa. Mande entrar o escrivão. — O príncipe obedeceu e foi chamar o homenzinho, que chegou trazendo o papel e a pena, tomou a liberdade de sentar-se e esperou os ditos do rei: — Eu, o Rei, agora declaro: meu sucessor será nomeado pela bravura de um homem raro.

O escrivão esperou, mas visto que o soberano nada mais dizia, perguntou:

— Será só isto, meu senhor?

— Por ora, sim. Mande vir o Conselheiro. — O escrivão fez uma reverência ao sair, e se foi.

— Papai, não creio que compreendi.

— Isso é um acinte! — Exclamou o príncipe. — A lei diz que o filho homem mais velho é o herdeiro natural do trono! Eu posso não ser mais velho, mas sou o único filho homem que o senhor tem!

— Pare! Isto não é hora para perturbar papai! Faremos conforme a vontade dele.

— Para você é muito conveniente!

— O povo certamente não achará que eu sou uma herdeira adequada ao trono. Por ser mulher. Se é isso o que o incomoda, não precisa se preocupar. Apenas respeite nosso pai. Como foi que nossa mãe falou com você, papai? Foi num sonho?

— Sim, num sonho. Me apareceu como um anjo e me disse para esconder seu medalhão nas florestas do Norte.

— E o que mais?

— Apenas isto. Mas compreendi o que queria. Mandarei bons homens do povo procurarem pelo medalhão, e aquele que primeiro o encontrar decidirá quem se sentará no meu trono.

A doce princesa compreendeu e apreciou a ideia. O príncipe saiu dali achando que o pai só podia estar louco.

Chegou o conselheiro. Ficou horas ao lado do rei, discutindo os detalhes deste plano e como colocá-lo em execução. Saiu três horas antes do amanhecer. O rei ainda viveu apenas o tempo suficiente para assistir a seu último nascer do sol.

A princesa, moça esguia, de longos cabelos ruivos, despertou de um sonho naquela pesarosa manhã, sem precisar receber a notícia para perceber a diferença. O ar estava pesado. O reino estava triste.

Ela escovou suas ondas ruivas com o coração apertado. Sabia que quando saísse daquele quarto, sairia para uma realidade que ela não desejava enfrentar tão cedo. Além da dolorosa falta do pai, seu destino agora estaria nas mãos de seu irmão, ambicioso, que não levaria em conta seus sentimentos antes de casá-la com quem julgasse mais conveniente.

Procurou afastar estes pensamentos e relembrar o sonho que tivera. Passeava pelo campo com um rapaz que nunca vira antes. Um jovem com sua idade, cabelos louro escuros, cortados na altura da nuca. Tinha os olhos como os dela: o esquerdo, intensamente azul; o direito, profundamente verde.

A notícia da morte do Rei correu os quatro cantos do reino, como que levada pelo vento. Um pobre moço do campo que estava na cidade naquele dia, tentando vender os queijos produzidos na pequena propriedade da família, viu um fio de esperança no derradeiro decreto do falecido monarca: uma generosa quantia em ouro seria oferecida àquele que entrasse nas florestas do norte e encontrasse o medalhão da Rainha.

O valor prometido era o suficiente para salvar a fazendinha de seus pais, que devido à seca do último ano, tiveram sua produção prejudicada. Duas de suas vacas morreram.

O jovem homem não pensou duas vezes. Correu a se juntar ao grupo de voluntários que iria tentar a sorte entre as árvores. Existiam apenas duas exigências: o homem tinha que ser do povo — soldados do Rei e guardas do castelo não eram aceitos — e precisava ser um homem honrado.

Os conhecidos beberrões, vagabundos, agitadores, libertinos e ex-detentos deram meia-volta cabisbaixos ao serem recusados. Cabisbaixos e ofendidos. Desonrado, eu?

E o rapaz voltou ansioso para casa, guiando seu jumentinho marrom pela estrada de terra, trazendo de volta as peças de queijo na velha carroça de madeira carcomida, ansioso demais para esperar que todos estivessem vendidos para dar a notícia a seus pais.

No palácio, o Príncipe, sentado no trono vago como se lhe pertencesse, com uma das pernas sobre o braço do sólio, ponderava uma saída para o impasse em que seu pai o colocara. Era quase unânime a opinião de que aquilo era uma grandíssima excentricidade. Mas excentricidade ou não, era um decreto do Rei, e desobedecê-lo publicamente não era uma opção.

Tinha uma mecha de seu cabelo vermelho vivo entre os dedos, brincava distraidamente com ela. Eram longos, os seus cabelos, e quase lisos, como os do finado rei.

O príncipe era alto e muito bonito. Tinha um maxilar de traços firmes, o nariz reto e afilado, lábios finos e olhos castanhos.

Entrou um homem na sala do trono. Um dos melhores soldados do reino, e amigo de infância do príncipe. Eram feitos da mesma matéria.

— Ninguém viu entrares aqui, viu?

— Não, ninguém.

— Estás certo?

— E alguma vez fui pego? — O príncipe respondeu com o gesto, pedindo que se aproximasse.

— Chegou tua chance de ser general, meu amigo.

— Vais me nomear? Mas não és o rei ainda.

Ainda. Tu me farás rei. E assim, o farei general.

Explicou ao amigo seu plano. Ele entraria na floresta e encontraria o medalhão. A vitória era praticamente certa, uma vez que um soldado bem treinado tinha muito mais chance de sobreviver naquelas hostis florestas do que qualquer um daqueles campôneos sonhadores. O soldado pegaria o medalhão, nem que para isso tivesse de roubá-lo do homem que o encontrasse primeiro.

O medo do príncipe de não ser escolhido vinha de sua conhecida impopularidade entre os plebeus e até mesmo os nobres. Aquele reino tivera uma mulher no trono uma vez, e aqueles tempos eram sempre lembrados como um período áureo da nação. E a relutância de seu pai em colocá-lo diretamente no trono, como mandavam as leis de sucessão, piorava ainda mais a imagem dele aos olhos do povo. Era quase impossível que fosse escolhido.

Mas cada detalhe daquele plano foi ouvido. Eram observados, jamais perceberiam.

A feiticeira encarava as labaredas verdes de sua fogueira, girava em torno dela, conjurava encantamentos. Dentro do fogo ela via uma imagem: as árvores da floresta do norte, magras, largas, retas ou retorcidas, águas numa vertiginosa corredeira, um homem desce de seu cavalo. É o conselheiro do rei. Enterra uma caixinha de madeira entre as raízes da árvore mais larga da margem do rio. Uma árvore cujo tronco exibia a marca de um golpe de espada, feito cicatriz de batalha. O homem se vai.

A feiticeira estava satisfeita. As chamas tornaram à coloração alaranjada de uma fogueira comum. A mulher agarrou-se à grande pedra vermelha pendurada em seu belo pescoço, fechou os olhos, deu um passo à frente e desapareceu. Estava na sombria floresta, diante da árvore marcada que vira dentro das chamas. Desenterrou com as mãos a caixa e a abriu. O brilho dourado do medalhão enchia seus olhos.

Ela fez movimentos com as mãos em torno do objeto, um brilho azulado apareceu em suas palmas. De seus lábios ouviu-se um encantamento:

Deuses da floresta, ouçam meu encanto: que esta joia agora seja fonte de quebranto. E aquele de coração impuro que este medalhão tocar, a magia que agora invoco há de eliminar.

O brilho azul se tornou roxo, abandonou suas mãos sujas de terra, e como que atraído por um ímã, concentrou-se no centro do medalhão e foi absorvido por ele. Ela fechou a caixa com cuidado. Nem ela mesma podia tocar aquela joia agora. Tinha um coração péssimo.

Cinquenta homens entraram na floresta. Não foi fácil encontrar voluntários. Os que não tiveram medo das criaturas que ali viviam — reais ou míticas — acharam que a chance de encontrarem o tal medalhão era tão ínfima, que não valia o tempo empregado na busca. Cinquenta homens entraram na floresta, então. Cinquenta e um. Nem todos sairiam.

Atacados por animais, acidentados em quedas ou tocados por espinhos venenosos, alguns homens perderam suas vidas, muitos outros desistiram antes que fosse tarde.

Por fim, restavam apenas sete dos cinquenta e um homens que entraram na floresta.

O soldado começava a se desesperar. Havia três dias que estava ali, percorrera milhas, e nada da caixa. Se algum daqueles camponeses a encontrassem antes dele, estava perdido. A ira do príncipe seria capaz de bani-lo do reino para sempre, ou coisa pior.

Exausto, sentou-se para descansar por um minuto. Tudo o que ouvia era o farfalhar das árvores e a corredeira violenta que passava por ali.

Foi então que viu um rapaz franzino passar correndo por ele. Um rapaz loiro, com um olho de cada cor. Verde e azul. Trazia algo em suas mãos. A joia havia sido encontrada.

Levantou-se num sobressalto e pôs-se a correr atrás do menino. Derrubou-o, tentou pegar a caixa, mas o jovem estava determinado a ficar com ela. Não teve medo da espada ou dos músculos do soldado. Resistiu, lutou, e conseguiu se livrar dele. Correu. Correu muito. Mas as pernas do soldado eram mais longas.

— Pare ou eu o mato! — Ordenou o soldado, de espada em punho. — Me entregue esta caixa, rapazinho. Não vale a sua vida, vale?

O jovem parou, respirou, pensou no que fazer. Estava frente a frente com o soldado, e não se via nenhum dos outros homens. Ouviu um cavalo e um som que parecia alguém correndo sobre as folhas secas. Voltou a olhar para o soldado, disfarçado em andrajos parecidos com os dele.

— Tudo bem. — Disse, por fim.

Tirou do ombro a bolsa de pano que carregava a tira-colo, que entrara na floresta cheia de provisões para a jornada, e agora saía levando a preciosa relíquia. O soldado estendeu a mão para receber a bolsa amigavelmente, mas foi surpreendido ao ser golpeado com a mesma. Caiu desmaiado.

Foi quando o rapazinho ouviu o grito de uma moça, implorando por socorro. Não perdeu tempo pendurando a bolsa em seu corpo novamente. Pegou a espada do soldado desfalecido e correu para a origem do som, deixando todo o resto para trás.

Encontrou a moça encurralada entre o perigoso rio e um perigoso homem que a pusera contra uma árvore e segurava uma faca em seu pescoço. Suas vestes estavam rasgadas, os seios expostos. Ela chorava.

O camponês não pensou duas vezes. Correu em direção da cena.

— Você, aí! Deixe a moça em paz! — Ao ouvir aquela voz de garoto, aquele homem enorme pensou em se livrar dele apenas com uma resposta malcriada. Mas teve de se afastar da moça ao ver o brilho afiado da espada em sua mão.

— Então, o meninote quer brincar?

O bandido não tinha uma espada elegante como aquela, mas tinha um rude facão, tão perigoso quanto. Mesmo não sabendo esgrimir com muita destreza, o menino feriu o bandido na mão. Feriu-o o bastante para que não pudesse voltar a empunhar aquele facão contra ele, ou contra a jovem donzela.

O homem disse algumas blasfêmeas enquanto segurava sua mão machucada. Procurou estancar o sangramento como podia. Não se preocupou em perseguir os dois jovens. A moça estava tão assustada que nem podia falar. Ele lhe deu sua camisa. Ela a vestiu e correu pela mata até sumir de vista.

Só então ele pensou em pegar de volta sua bolsa. Mas esta tinha sumido. E o cavaleiro sem honra também.

O menino chorou. Aquela era a última esperança de sua família. Ele a tivera tido em suas mãos e a perdera. Seus pais perderiam suas terras, seu sustento, seu futuro.

Prantear era inútil, ele sabia. Mas, àquela altura, era tudo o que podia fazer.

Sentado sobre as folhas secas do chão, encolheu-se dentro de sua grosseira jaqueta de camurça e ainda ficou ali por mais quase meia hora, até recobrar seu ânimo e se levantar.

Três dias depois acontecia a esperada cerimônia de coroação. Todos os homens que tentaram a sorte na busca pelo medalhão foram convidados a assisti-la de perto.

O salão principal do palácio estava cheio. Todas as classes se viam ali, os pobres e a realeza, os cortesãos e os nobres.

Depois de um brevíssimo discurso do conselheiro do Rei, foram convidados a entrar o Príncipe e a Princesa. Fez-se silêncio. Soaram as trombetas, solenemente.

Entraram, um por cada porta lateral do salão, os filhos do Rei, vestidos com muito mais do que simples luxo.

Foi então anunciado o valente homem que encontrara o precioso medalhão da falecida Rainha, e mais uma vez as trombetas foram ouvidas. Mas o homem que trazia o medalhão não era o soldado. Era um substituto pago para não evidenciar a farsa.

Depois de mais algumas palavras do conselheiro, foi dada a ordem ao tal homem para entregar o medalhão a seu escolhido, cumprindo-se assim a última vontade do rei morto.

Por um momento, o silêncio se fez imperar. A ansiedade que todos aqueles súditos compartilhavam, de tão sólida, era quase tangível. A grande maioria ali presente rezava que a princesa fosse a escolhida. Seis ou sete desonestos, porém, julgavam que o príncipe seria mais propício aos seus interesses.

O homem, então, abriu a caixa, aproximou-se dos gêmeos, e com um dos joelhos no chão, ofertou a joia ao príncipe. O príncipe, com ar de triunfo, retirou o medalhão da caixa, levantou-o para mostrar aos presentes que o havia recebido.

— Sai fumaça do pingente, mamãe. — Uma criança disse baixinho à sua mãe, que mandou que fizesse silêncio, e se assustou com o grito do escolhido. Constatou verdade no que o filho dizia. Saía fumaça do medalhão.

O príncipe gritava de dor, mas não conseguia, por algum motivo, soltar a joia. Caiu de joelhos, depois de lado. Ainda gritava. Logo se calou. Estava morto.

Um forte vento vindo de lugar nenhum começou a soprar. Um raio caiu no meio do salão. No lugar tocado pelo raio, viu-se de pé uma mulher linda. Jovem. Não aparentava mais de 30 anos. Vestia púrpura e escarlate. Tinha olhos cor de violeta.

Todos estavam tão aterrorizados, que não eram capazes nem mesmo de gritar.

— Não se preocupem. Não vim aqui para praticar o mal. Hoje.

— Não veio praticar o mal? — Perguntou a princesa, em choque: — Você matou meu irmão!

— Ah, não. Não fui eu quem fez isso. Foi seu coração. Era um mal coração. E posso provar. Há qualquer criança aqui presente? — Olhou para a criança mais próxima, um menininho de quem mãe segurava os ombros. — Vá lá. Pode pegar. — Ele tentou ir, mas a mãe não deixou. A bruxa riu. — Medroso.

— Você não vai tocar em nenhuma criança. — Disse a Princesa, firme. — Pegue você mesma o medalhão.

— Mas eu não posso. Você vê, meu coração é terrível... Mas ainda preciso provar que falo a verdade.

Abriu a mão, sobre a qual uma luz pequena começou a brilhar, se esticou e começou a enfraquecer. Quando se apagou completamente, havia um graveto comprido sobre a mão da mulher. Ela usou este graveto para pegar o medalhão pela corrente. Aproximou-se de uma mãe que tinha seu bebê no colo. Assustada, a mulher se encolheu, apertando a criança contra seu peito.

— Não vai fazer mal. Palavra de bruxa.

A mulher não queria deixar, mas que podia fazer? A feiticeira balançou a joia frente ao rosto do bebê. Ele agarrou o grande pingente com suas mãozinhas e o pôs na boca, como fazia com todos os seus brinquedos. Nada aconteceu.

— Por que fez isso? — Indagou a princesa.

— Seu irmão humilhou minha filha.

— Sua filha? Não pode ser verdade, meu irmão não faria mal a uma criança.

— Criança? — Ela riu alto, irreverente. — Minha filha tem 43 anos. Me decepcionou ao não querer seguir meus passos, mas lhe asseguro que a amo com todo o meu coração. E o que seu irmão fez a ela não podia ficar de graça, podia? Ponha-se no meu lugar. — Todos estavam em silêncio, até mesmo a Princesa. A bruxa viu os olhares de terror direcionados a ela e disse: — Não me olhem dessa maneira. Sabem que fiz o melhor para o reino. Tudo isto foi ideia minha, desde o momento do sonho do Rei.

— Você o fez ter aquele sonho?

— Sim, alteza.

— E… e o meu sonho? Você o enviou a mim também?

— Seu sonho? Não, não sei do que está falando.

— Tem certeza?

— Tenho! Já me viu mentir? — Na verdade, mentia muito, sim. Mas a princesa nunca vira. Apontou o homem que entregara o medalhão ao príncipe. — Aquele homem é um impostor.

— Alteza, não sou! — Disse em sua própria defesa.

— Ele não encontrou a joia. Nem sequer esteve na floresta.

Com um gesto do dedo indicador, fez o medalhão — que o bebê deixara cair no chão e ninguém teve a coragem de recolher — levitar e ir parar nas mãos do jovem filho do queijeiro, que o recebeu sem medo de segurá-lo.

— Este foi o homem, alteza.

— Obrigado. — O rapaz articulou silenciosamente. A bruxa lhe piscou um olho, tão amigável que todo o medo que ele sentia por ela dissipou-se.

— Bem, agora eu me vou.

— A senhora não vai tirar o feitiço da joia de minha mãe?

— Não. Para quê? — Virou-se para sair pela porta, mas lembrou-se de uma coisa que tinha a dizer e retornou: — Vossa alteza deveria investigar a lealdade dos seus soldados. — Declarou, olhando fixamente o soldado que conspirara com o príncipe.

— Prendam esta criatura! — Bradou, colérico, este mesmo soldado, e três homens avançaram na direção da bruxa, que riu da ingenuidade deles.

Um a agarrou, mas estranhamente sentiu o volume do corpo da mulher murchar e murchar, e em segundos não tinha nada em seus braços além das vestes da mulher. Meros panos vazios.

O camponês e a princesa se olharam. O conselheiro ordenou que o corpo do príncipe fosse removido dali, e o impostor preso para que se desse continuidade à cerimônia.

As cornetas foram tocadas, como no começo. O rapaz se aproximou da princesa, que permitiu que ele pusesse o medalhão em seu pescoço.

— Eu a teria escolhido desde o princípio, Alteza. — Disse, enquanto passava a corrente pela cabeça ruiva da moça. Quando ela levantou a cabeça, viu os olhos verde e azul do jovem, e teve a impressão de já conhecê-lo.

A cerimônia de coroação prosseguiu. Ela já não seria mais chamada de Alteza. Era a Rainha, agora. Majestade.

Naquela noite, ela não foi capaz de dormir. Tantas coisas haviam acontecido, tanto havia mudado. Em menos de uma semana perdera seu adorado pai, seu amado irmão, e agora se via na regência do reino. Tinha visto uma feiticeira de perto. E havia aquele rapaz…

Pensou muito no assunto até que se deu conta: era ele o homem que vira em seu sonho.

Aquilo tinha que significar algo. Mandou chamar o rapaz no dia seguinte.

— Aproxime-se, moço. Não se acanhe, nós temos a mesma idade.

— Idade não passa de um número, Majestade. — Ela riu, leve.

— É verdade, não é?

— Por que quis me ver?

— Não sei ainda. Preciso descobrir. Você se lembra de quando perguntei à feiticeira sobre um sonho que tive?

— Sim.

— Foi com você que sonhei.

— Comigo, Majestade?

— Sim, você... Deve ser importante de alguma forma. Existe algo que precise me dizer?

— Não, nada. Mas…

— Diga.

— Desde pequeno carrego um sonho: quero ser cavaleiro. Por favor, não pense que quero me aproveitar da situação, mas… Se puder me dar esta chance, minha Rainha, juro jamais decepcioná-la.

— Pois que assim seja. Você será cavaleiro. Pode vir a salvar meu reino algum dia. Um sonho assim nunca vem sem motivo. — Ele beijou a mão da Rainha com adoração.

Era incomum — de fato, raríssimo — que um homem pudesse iniciar-se na vida de cavaleiro depois de adulto. Um cavaleiro era designado para ser cavaleiro ainda na infância, crescia sendo treinado para isto, e aos 18 anos, deveria estar pronto. E aquele jovem já tinha 17. O Conselheiro se opôs àquele disparate. Alegou que aquilo seria um precedente para que qualquer um tentasse ser cavaleiro no futuro. Mas a jovem Soberana insistiu.

— Sou a Rainha, ou não sou?

E o camponês recebeu treinamento. Quatro anos. Tornou-se um cavaleiro à altura de qualquer outro no reino.

Então, três anos depois, eclodiu uma guerra. Ele lutou bravamente, junto de outros heróis, e o exército inimigo sofreu baixas irremediáveis. A guerra estava quase decidida quando a rainha foi raptada. A rendição em troca da vida da mulher. Ela resistiu, relutou. Não queria entregar seu povo àqueles bárbaros, não podia.

Então, numa noite fria, o bravo cavaleiro cavalgou sozinho até a base inimiga onde a Rainha era feita prisioneira. Lutou com mais de quinze homens e a resgatou sem um arranhão. Cavalgaram de volta ao castelo. Na manhã seguinte veio a notícia da desistência do inimigo.

O povo estava em festa. A guerra estava acabada e sua boa Rainha a salvo.

Numa grande cerimônia, o Cavaleiro foi condecorado como o herói que era. A Rainha, empunhando uma espada, tocou os dois ombros de seu salvador.

Com o passar dos anos, o reino prosperou. Havia paz e felicidade.

Não se sabe exatamente quando ele e a Rainha se tornaram amantes, tampouco o fato foi admitido publicamente; mas na corte, a natureza da relação dos dois era do conhecimento de todos. Por razões políticas, resolveram nunca se casar, mas tiveram um filho juntos. Coisa que precisou ser dissimulada. O príncipe recém-nascido foi apresentado aos súditos como filho adotivo da Soberana.

Na velhice, depois que o fogo da juventude já havia, há muito, se apagado nos corpos dos dois, se tornaram os melhores amigos que poderiam ter. Riam muito juntos. Com o corpo já velho demais para continuar lutando, tornou-se o conselheiro da Rainha.

A história deles ainda é contada no país, de avó para neto, de mãe para filho, na mesa do jantar ou na hora de dormir.

Até hoje não se sabe daquele medalhão, que fora muito bem escondido para não causar mais problemas.

Naquela região, ver uma pessoa com heterocromia até hoje é tido como um bom presságio.

E ninguém desafia a uma moça com olhos cor de violeta.

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