Sutileza (Em Andamento)
Endora
Usuários Acompanhando
Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 15/10/21 12:41
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 04/10/21 18:07
Cap. Editado: 04/10/21 23:37
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 10min a 13min
Apreciadores: 2
Comentários: 2
Total de Visualizações: 86
Usuários que Visualizaram: 8
Palavras: 1633
[Texto Divulgado] "O Último Delírio de um Rei" Há muito tempo, num reino bem distante, vivia um rei que tinha dois filhos gêmeos. O rei estava morrendo, e em seus últimos dias, uma preocupação inquietava a mente do velho soberano: quem seria seu sucessor no trono?
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza
Notas de Cabeçalho

Ilustração usada na capa:

The Kiss - Harrison Fischer, 1917

Capítulo Primeiro Ímpeto

Itália, Junho de 1908

Uma brisa quente soprou o rosto de Gianfrancesco, no momento em que abriu os olhos. As cortinas se balançavam nas janelas, e o ar era preenchido pelo ruído estridente dos acordes deformados de um mau violinista.

— Antonio, pare com isso! — jogou um travesseiro nas costas do primo, que o olhou de cara feia e continuou a tocar.

— É hora da minha lição. Se está incomodado, vá dormir noutro lugar.

— A que horas mesmo é que servem o café da manhã?

— Na mesma hora que serviram ontem.

— Eu não estou pensando direito. Minha cabeça está a ponto de explodir. Eu preciso de café.

O "aprendiz de Paganini" suspirou contrariado e disse que o café já estava servido. Gianfrancesco se sentou na cama e passou a mão por seus cabelos loiros, que, extremamente lisos, voltaram a lhe cair sobre a testa.

Olhou-se no espelho. Ainda usava as roupas da noitada anterior e estava suado pelo calor impiedoso daquele verão que se aproximava. Sua mãe detestava que ele aparecesse desalinhado para o café da manhã, sobretudo quando eles se encontravam em casa de parentes, mas ele não tinha condições de se preocupar com a aparência agora.

Saiu do quarto e tomou um caminho alternativo, que dava diretamente dentro da cozinha, onde surpreendeu as empregadas fofocando, comendo e rindo. Achou aquela uma cena muito agradável de ver. Tomou seu café da manhã por ali mesmo, rodeado daquelas mulheres simples que não ligavam para as roupas que ele vestia, e voltou para o quarto do primo, que já havia deixado o pobre violino em paz.

— O que pretende fazer esta tarde? — o som de sua voz, adulterado pelo cigarro que ele segurava entre os dentes, foi seguido pelo chiado do riscar e queimar de um fósforo.

— Nada. Por quê?

Gianfrancesco se debruçou na janela, tirou da boca o cigarro, agora aceso, e soprou a fumaça para fora antes de responder:

— Ouvi dizer que tem um grupo de atores na cidade. Acho que irei vê-los.

— Grupo de atores? Aqui? Devem ser um bando de saltimbancos...

— Eu gosto de saltimbancos.

— ... artistas de verdade não perderiam tempo nessa vilazinha de... de pescadores.

— Mas os saltimbancos é quem são o verdadeiros artistas, os que fazem arte por amor. Os renomados são um bando de afetados que dão chilique. Eu gosto dos artistas da plebe.

— Você não parece dessa família, sabe?

— Só porque eu não vejo beleza na arte transformada em comércio? A magia está nas coisas mais simples. Num cachorro de rua, nas criancinhas brincando descalças, nas prostitutas e nos saltimbancos.

— Você não tem juízo.

— Você não tem sensibilidade. Não compreende a poesia da singeleza. Fique aí fingindo que tem ouvido para a música. Eu vou ver os saltimbancos.

Aproveitou para tomar um banho de mar enquanto a praia estava deserta. Entabulou conversa com um velho pescador, figura magricela e de barba grande, que fumava um cachimbo e trajava roupas desgastadas. Decidiu ir com ele apenas para conhecer a experiência de pescar no mar. O velho era rude, mas amável de certa forma. Gostou de ter como ajudante "uma criança granfina curiosa".

A mãe de Gianfrancesco teve um ataque quando viu o filho voltar para casa deixando cheiro de peixe por onde passava. Trazia consigo uma cesta de sardinhas, pescadas por ele mesmo, e que foram o almoço daquele dia.

Eram por volta das três da tarde quando saiu para ver os "saltimbancos". Percorria as ruas com passo firme e decidido, quase sempre com o fumo entre os dedos, o rosto iluminado ao sol, o peito aberto e o queixo erguido, parecendo invencível enquanto deixava o vento brincar em seus cabelos dourados.

A peça era um texto tragicômico que ele já havia lido duas ou três vezes, que sempre quis ver encenado, mas nunca tivera oportunidade. O cenário, os figurinos, tudo era simples, e isso contrastava com a qualidade do trabalho dos atores, que de tão elevada, era impressionante que não estivessem nos palcos mais caros das cidades mais elegantes. E sobretudo era bem mais, mesmo com toda a simplicidade, do que ele esperava encontrar naquela cidade que, apesar dos habitantes abastados que abrigava, era pacata, e todos os esforços eram feitos para que fosse mantida pacata.

Conforme transcorria o espetáculo, um dos artistas no palco lhe chamou a atenção: vestido em roupas de cavalheiro, tinha formas de mulher. Era uma atriz extraordinária, mas não protagonizava o espetáculo porque a personagem principal exigia juventude. A tal mulher reproduzia em seus modos e trejeitos, um homem tão realista, que se não fossem seus quadris arredondados, teria enganado qualquer um. Mas nem todo o talento do mundo seria o bastante para disfarçar um corpo tão belo.

Gianfrancesco não sabia dizer ao certo se era uma mulher bonita. Àquela distância, não via bem, mas qualquer que fosse a aparência que tivesse, ele sentia que não podia sair daquele teatro sem ter ao menos uma conversa com aquela bela criatura.

Conseguia sentir nela a magia rara que poucas pessoas têm, e que só é reconhecida pelos poetas. É uma coisa sutil, que não pode ser definida ou descrita. Apenas está lá, e é irresistível.

No segundo ato, ela reapareceu, mas já não mais interpretava um homem. Na figura de um sonho, estava nua. Cobria-lhe o corpo apenas um véu, tão transparente, que ela podia ser toda vista. E este detalhe não a induzia a procurar exibir seus atributos de mulher, fosse nos movimentos dos quadris ou das pernas. Ela não precisava tentar parecer atraente, oferecendo-se aos olhos do público. Era inebriante sem qualquer esforço.

Aquela visão afetava Gianfrancesco em cada parte da alma e do corpo. Com o coração em frenesi dentro do peito, ele mal prestou atenção ao restante do espetáculo. Na verdade, contou os minutos para que acabasse.

Ao fim do último ato, o interesse que começara como simples curiosidade era já uma atração tão forte, que o jovem suava frio. Jamais havia tido medo de conversar com artistas ou mulheres antes, mas daquela vez era diferente. Ela mexia com algo no íntimo dele de maneira tão intensa que lhe estremecia a autoconfiança de que ele tanto se orgulhava.

O jovem dirigiu-se ao toalete, ajeitou os cabelos e as roupas e se esgueirou pelos corredores até chegar aos camarins. Felizmente conhecia bem aquele teatro. Crescera assistindo a musicais de quinta e peças infantis em suas visitas anuais.

Parou diante da porta entreaberta que tinha uma placa com o nome da "estrela" e bateu devagarinho. Podia ouvi-la cantar lá de dentro, para si mesma. Era uma canção francesa, cujos dizeres ele não compreendia, mas que era famosa por sua letra obscena. Ele bateu outra vez, um pouco mais forte, e ela parou de cantar.

A voz dela a dizer-lhe que podia entrar fez correr um arrepio por seu corpo inteiro. Ele entrou, então, e como ela se trocava, detrás de um biombo, não se viram no primeiro momento. Ainda antes de vê-lo, pediu que dissesse o que queria, aparentando saber com quem estava lidando. Saiu, então, segurando um pano de seda fortemente estampado na frente do corpo, e se surpreendeu ao dar com um desconhecido. Disse bruscamente que ali não era lugar de criança e pediu que se retirasse.

Gianfrancesco lhe fez lisonjas ao talento em cena, e sem se dar conta, interrompeu as próprias palavras. Apenas olhou para ela, num longo momento de silêncio. Ela se retraiu e recuou ao vê-lo aproximar-se um passo, mas ouviu a justificativa de que ele fazia isso por ter dificuldade para ver de longe.

Vê-la ali, naquela nudez velada, tão próxima dele, provocou o início de uma indecorosa pulsação. Ela tinha os olhos de um negro infindável. Os cabelos, longuíssimos, e de volumosas ondas, também eram escuros. Era uma mulher alta e de curvas generosas, e dona dos dentes mais lindos já vistos por Gianfrancesco. Via-se que era muito refinada. Emanava requinte em cada olhar e gesto. Rondava os 50 anos de idade, e este era o detalhe que fazia dela extraordinariamente linda — já que ser bela na flor dos 20 anos costuma parecer ser extremamente fácil.

Ele a olhava de ponta a ponta, indo e voltando, sem ter nada para dizer, e ignorava a própria respiração ofegante. A atriz acabou falhando em manter-se fria por dentro diante daqueles olhos famintos.

Depois de finalmente perceber o silêncio constrangedor que se tinha formado, perguntou o nome dela, por mais que já tivesse visto nos cartazes que era Diana.

Sem lutar muito, ela curvou-se à vontade que sentia de deixar cair o pano e o coração dele parou por um instante e doeu ao voltar a bater.

Ela, de sua parte, estava surpresa consigo mesma por se render àquele ímpeto sem nenhuma reflexão. Mas a forma como ele a olhava a acendia toda, a deixava em chamas por dentro.

O ar inseguro e pidão do começo acabou por dar lugar a sua usual postura de predador quando ele a recebeu em seus braços e correu as mãos quentes por sua pele macia.

Mas apesar da irresistível tentação que a dominava, Diana foi um pouco arredia. Se sentiu estranha aos toques e beijos a princípio, pediu a Gianfrancesco para não ter pressa. Perguntava-se o que estava fazendo nua nos braços daquele menino desconhecido, e cogitava voltar atrás, mas não era o que seu corpo queria.

Para ele não foi tão fácil conter o furor com que procurava devorá-la, mas fez um bom trabalho em domar a si próprio.

O corpo de Diana não demorou a se lembrar de todas aquelas sensações, e ela logo pôde se entregar ao momento, esquecendo-se do resto. Mostrou sua face mais fogosa, e surpreendeu Gianfrancesco com seu estilo e energia. Ele jamais esperaria encontrar numa mulher daquela idade e classe uma atitude como aquela, que ele bem conhecia dos cabarés que frequentava.

❖❖❖
Apreciadores (2)
Comentários (2)
Comentário Favorito
Postado 13/10/21 17:35

A leitura me prendeu tanto que a finalizei com uma das mãos na boca, por conta do choque da narrativa, e com a cabeça fervendo por conta do calor que as palavras emanaram. MAMMA MIA, MAMMA MIA! Preciso urgentemente de mais!

Obrigada por compartilhar essa obra conosco! Tenho grandes expectativas para com essa narrativa.

​Parabéns, Endora ♥

Postado 14/10/21 13:30

Socorro! Que bom que você gostou, AAAAAAAA nem sei como responder aqui, pera kkkk

Amanhã tem mais um capítulo! Obrigada pelo carinho, espero não frustrar suas expectativas até o último capítulo.

Até mais!

Postado 10/10/21 13:54

Minha nossa senhora da luxúria, o que foi isso que eu acabei de ler?

Esse final me deixou todinha arrepiada! Que intensidade!

Sou um pouco suspeita para falar, mas essa coisa da mulher mais velha com o moço mais jovem, me é bastante interessante!

Sua escrita é incrível, eu adorei o modo como você está construindo essa história, Senhorita Endora <3

Postado 14/10/21 13:24

Eeeeita que pegou fogo o cabaré kkkk o nome do capítulo não foi escolhido à toa, como você pode ver. Na hora que o ímpeto veio, eles foram que foram, sem pensar em mais nada!

Suspeita por quê? me conte kkkk

Muito obrigada, senhorita Meiling ❤ Até nossas próximas interações.