Sutileza (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 18/04/22 21:34
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 30
Cap. Postado: 18/04/22 21:22
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 9min a 12min
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Palavras: 1483
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Romance ou Novela.
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Capítulo Vigésimo Sexto Desamparo

Maria Madalena Tremaine retornou num domingo à tarde. Agnes organizou a recepção tradicional que fazia cada vez que os patrões voltavam de viagem.

Parados de pé à entrada da mansão, Gianfrancesco e Agnes — além de todos os empregados, que se encontravam em formação como um batalhão de exército, enfileirados nos degraus da escada, distribuídos simetricamente, e cada um vestindo seu melhor uniforme — viram o carro chegar e estacionar ao pé das escadas. O chofer saiu do banco do motorista e abriu a porta de trás, e estendeu a mão para ajudar Madame Tremaine a sair do automóvel.

Ela saiu devagar. Usava um vestido carmim, com finos bordados pretos. Um chapéu largo e luvas de tule bordado, nas mesmas cores do vestido. Era uma figura exuberante e requintada, que pela primeira vez fazia Agnes sentir-se pequena.

A majestosa senhora levantou um pouco o vestido e pôs o pé no primeiro degrau. Agnes olhou para Gianfrancesco, e queimou de ciúmes ao ver que ele assistia a outra mulher subir as escadas como se visse o mais belo dos espetáculos.

O italiano estava ansioso para que ela chegasse ao topo e ele pudesse abraçá-la. Ao revê-la, por fim, depois de um mês inteiro, ele percebia como tinha sentido a falta dela. Não era uma sensação desesperadora de ausência, apenas um tipo suportável de saudade.

Diana subia com atípica lentidão, cumprimentando seus empregados com sorrisos forçados, que eram respondidos com nobres acenos de cabeça. Gianfrancesco percebeu qualquer coisa estranha: ela tentava esconder alguma dificuldade atrás de uma parede de elegância, e estava conseguindo. Carolyn não se atreveu a chegar ao topo das escadas antes da mãe, ajustando o passo de forma a não ultrapassá-la.

— Se tivesse demorado mais um diazinho só, eu teria ido pessoalmente buscá-la em Londres — declarou, ao receber calorosamente a mulher em seus braços.

Ela havia deixado cair sua máscara de falsa força, e agora agarrava-se a Gianfrancesco como se fosse cair. Tremia.

Agnes, correspondendo ao abraço de Carolyn com um mecânico afago nos cabelos, lutava bravamente contra uma grandíssima vontade de empurrar escada abaixo a mãe daquela criança, e puxar seu lindo italiano para longe dali. Viu o jovem avançar para beijar Lady Tremaine, e ela virar o rosto, e sussurrar alguma coisa que apenas ele ouviu.

— Não me beije. Acho que estou morrendo.

— O quê?

— Me carrega até a minha cama? Mas vamos entrar primeiro.

Ela entrou na casa apoiada em Gianfrancesco, que manteve o braço ao redor de sua cintura, e depois carregou-a nos braços escada acima, com facilidade, porque ela havia perdido algum peso naquelas últimas semanas.

— Por que voltou, se ainda está doente?

— Eu tinha ficado boa. Me ajuda a tirar a roupa? Eu melhorei, apesar de ainda não poder comer qualquer coisa, e me deram alta há dias. Devo ter contraído qualquer coisa no hospital, que só esteja se manifestando agora. Estive muito bem nos últimos quatro dias. Agora só sei que nunca me senti tão mal. Começou no trem. Meu corpo todo dói. Estou sentindo muita dor, e muito frio.

— Está ardendo em febre.

— Estou tonta, a luz me incomoda muito. Feche as cortinas, por favor.

Ele reduziu a iluminação do quarto, terminou de tirar as roupas dela e a ajudou a vestir uma camisola. Diana tremia, mais do que quem simplesmente sente frio. Ele sentia que não devia ficar perto, mas não conseguia deixá-la.

Colocou-a debaixo dos cobertores e saiu do quarto apenas para mandar Agnes chamar o médico, mas ela virou as costas antes que ele dissesse a primeira sílaba. Ele voltou e começou a vasculhar as gavetas. Perguntou a Diana onde estava o caderno de telefones, mas ela pareceu não compreender a pergunta. Refletiu por um segundo e solucionou a situação pedindo ajuda à babá de Carolyn, porque naquela função ela precisava saber coisas como contatar o médico da família.

Gianfrancesco passou uma hora apreensiva com Diana a tremer em seus braços, até que o médico chegou.

Depois de alguns minutos, o Doutor saiu do quarto com um ar muito grave. Não poupou Gianfrancesco da verdade terrível: o estado de Diana era crítico. As chances de sobreviver eram baixas, e as de ter sequelas irreversíveis, altas. Apesar disso, o hospital não seria de muita ajuda para ela agora. Tudo de que ela precisava era o conforto de seu lar, os remédios certos, enfermeiras vigilantes, o amor de Gianfrancesco, paciência, e sobretudo, esperança.

O velho doutor entregou a Gianfrancesco a receita dos medicamentos de que ela precisaria e um cartão com o telefone e o endereço de sua casa e de seu consultório, e partiu.

Por alguma razão difícil de compreender, embora Gianfrancesco tivesse escolhido Agnes conscientemente, seu subconsciente ainda interpretava Diana como a pessoa mais importante de sua vida, e vê-la acometida por uma doença tão séria o deixava sem norte, e lhe fazia voltar toda sua atenção para ela.

Por semanas, Diana sofreu e Gianfrancesco amargou sua culpa. Não podia suportar o peso do que havia feito, e não pensava em outra coisa a não ser na dor, no medo, e que jamais poderia viver em paz novamente se ela não se recuperasse.

Numa das piores tardes que ela atravessou, em que ele passou o dia sentado numa cadeira ao lado da cama, assistindo os movimentos de sua respiração enquanto ela dormia, ele se arrependeu do que havia feito na ausência dela e chorou de vergonha de si mesmo. Enxergou o disparate nas ideias sobre deixá-la e viu abandonar estas ideias como a mais ética e óbvia atitude a se tomar.

Nesta hora ela abriu os olhos e tentou entender as lágrimas dele, mas não conseguiu dizer nada antes de adormecer novamente. Ele segurou e beijou sua mão. O medo de perdê-la era suficiente para distraí-lo de qualquer outra coisa que existisse. Naquele dia ele se arrependeu do que havia feito. No dia seguinte, foi como se tivesse se esquecido de tudo. Só pensava em não sair do lado dela nem por um instante, porque qualquer segundo poderia ser o último.

Agnes, subitamente deixada de lado, tentou ser compreensiva e paciente enquanto pôde, mas houve um dia em que o ciúme começou a falar mais alto que sua placidez, resignação, e solidariedade.

— Se você não sair daí agora, eu vou fazer um escândalo! — disse firme e exaltada, como uma esposa desgostosa, à porta do quarto de Diana, recebendo como resposta um olhar frio e indiferente, talvez até vilipendioso — Gianfrancesco, eu não estou brincando. Saia deste quarto!

— Saia daqui você. Me deixe em paz.

— O que foi que você disse?

— Disse para me deixar em paz. Eu não vou sair de perto dela.

— Então agora você a ama?

— Eu a adoro. Estou desesperado. Ela é tudo para mim.

— Você não parecia pensar assim alguns dias atrás.

— Agnes, volte ao seu trabalho.

— Não se atreva! Você não vai me dar ordens como se eu fosse uma empregada qualquer!

— Você é! Pare de me infernizar, eu não tenho compromisso nenhum com você, eu não te prometi nada! Você não pode exigir coisa alguma de mim.

— Não me prometeu nada? Você tem coragem de negar que…

— Citar ideias passageiras não significa nada. Tudo não passou de fantasia. Acabou, esqueça.

Ia fechar a porta e encerrar aquela discussão, mas ela entrou no quarto querendo briga. Tentou afundar as unhas na carne do rosto dele, que a segurou pelos pulsos e, não sem esforço, conteve seu debater, mas não pôde impedi-la de cuspir em seu olho. Soltou um dos antebraços dela para limpar o rosto e a arrastou para fora do quarto, bateu a porta e a trancou sem mais uma palavra.

Ouviu-a gritar de frustação. Um grito que parecia poder ser ouvido em toda a extensão da propriedade.

Ali mesmo, diante daquela porta trancada, ela foi ao chão, e despejou um rio de lágrimas de dor e desilusão no tapete.

Tinha algo para contar a ele. Havia alguns dias vinha apresentando alguns adoráveis sintomas, e tinha certeza. Mas não queria que parecesse chantagem.

Chorava alto, soluçava, gemia. Ele ouvia tudo e não se abalava. Agnes tentou se levantar, mas não teve forças, então permaneceu ali, atônita, a face contra a maciez do longo tapete, chorando em silêncio, a princípio, depois de olhos inchados, vermelhos, e secos. Tinha as pupilas apontadas para o fim do extenso corredor, mas seu olhar vago não encarava nada.

Sentindo-se diminuída, abandonada, mais humilhada que um cachorro de sarjeta, percebeu que era melhor se levantar e sumir dali, antes que ele resolvesse abrir a porta e se deparasse com aquela imagem deplorável de derrota. Ergueu suas ruínas, então, e se arrastou pelo corredor até alcançar as escadas, onde parou para refletir.

Podia descer ou subir. Voltar para a segurança de seu quarto e aceitar seu destino de mulher desprezada, ou sair daquela casa de cabeça erguida. A segunda opção lhe pareceu impossível. A primeira, insuportável. Mas havia uma terceira alternativa, e era para baixo.

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