Sutileza (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 18/04/22 21:34
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 30
Cap. Postado: 18/04/22 21:26
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 30min a 41min
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[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Romance ou Novela.
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Capítulo Vigésimo Sétimo Memórias

Cinco dias haviam se passado, e a sensação que Gianfrancesco tinha ao olhar para Agnes — respirando tranquila, os olhos fechados — ainda não conseguia mudar. Mas foi um conforto ter ouvido dos médicos que, duas horas mais cedo, ela havia despertado. Antes, estava em coma. Agora, apenas dormia. Mas enquanto não visse, ele mesmo, o azul daqueles olhos apontados para ele, o italianinho não encontraria paz.

O trauma ainda estava vivo em seu inconsciente. Pudera, haviam se passado cinco dias apenas. Subir as escadas não era nenhum problema, mas descê-las já não era mais tão fácil. Ele pisava nos degraus devagar, receoso, repetindo para si, com os olhos fechados: "ela não está lá". Então chegava ao piso inferior, e não via ninguém ao pé das escadas. Alívio. Suspirava e seguia em frente.

Naquela tarde, Gianfrancesco, surpreso com a própria crueldade, e honestamente arrependido, foi procurar por Agnes para se desculpar. Subiu primeiro, mas não a encontrou em seu quarto, então desceu.

O choque gelou o sangue e a pele de Gianfrancesco num estalo. O coração deu uma única batida, forte como uma pancada, e parou por um segundo, voltando a bater em seguida, dolorido. Paralisado no patamar das escadas, foi atingido por uma crise de pânico violenta. Era tão culpado daquilo, quanto seria se a tivesse empurrado com as próprias mãos.

Desceu, e suas mãos trêmulas lhe deram o parecer de que Agnes não tinha pulso.

Trouxe-a para seu peito, colocou-a no colo e chorou pedidos de perdão e palavras de amor. Molhou a pele dela com suas lágrimas, cobriu sua face de beijos, e por fim sentiu uma tímida brisa quente soprar em sua bochecha.

Vinha lhe fazendo visitas diárias desde então. Afinal, o estado de Agnes não justificaria um abandono a Diana. Mas desta vez, tinha passado a noite por ali. Porém, quando ela abriu finalmente os olhos, ele estava ausente, almoçando num restaurante simples que ficava a vinte minutos dali.

Quando despertou, Agnes se viu rodeada de tecidos brancos, e foi mais do que óbvio que não estava no céu, e sim entre as cortinas que separavam um leito de outro, em algum hospital. Era a terceira vez que acordava ali, e o motivo continuava a ser o mesmo.

Estava desorientada e fraca, e não sabia quantos dias havia perdido. Tinha um sentimento de decepção, e depois dos primeiros segundos, percebeu que estava muito arrependida, não pela vida que não conseguira perder, mas pela vida que havia perdido. Não precisava de nenhum médico para dizer-lhe que a havia perdido, ela podia sentir. E como era doloroso!

Trocou poucas palavras com uma enfermeira e com um jovem médico, forçou-se a comer três colheradas de qualquer coisa, e voltou a dormir.

Ela novamente abriu os olhos, e Gianfrancesco se levantou num pulo. Segurou sua mão, sem se preocupar em conter as lágrimas de alegria.

— Agnes, graças a Deus! É tão bom te ver de olhos abertos! Por que fez isso, meu amor? — falou, emocionado, enquanto cobria aquela mão de milhares de beijos.

Agnes apenas o encarou em silêncio.

— Agnes, você está bem? Está me entendendo, querida? Está me ouvindo?

Ainda em silêncio, ela fez um curto movimento com a cabeça, indicando que era capaz de ouvi-lo.

— Mas não consegue falar?

— Não quero... Por favor, me deixe.

— Agnes, escute — pediu, enquanto secava o rosto.

Debruçou-se sobre o leito, chegando perto o bastante do rosto dela para que pudesse falar baixinho. Ela olhou para o lado oposto, mas isso não o deteve.

— Eu preciso te pedir perdão. Eu compreendo que a culpa foi toda minha, eu te levei a isso. Jamais deveria ter dito aquelas coisas, eu te empurrei daquelas escadas. Foi isso o que eu fiz. Me perdoe.

— Perdão… — repetiu, desdenhosa — O mal que você me fez é irreversível.

— Irreversível? Está dizendo que…

— Estou dizendo que você arruinou minha vida. Mas não vou ficar aqui choramingando, me deixe só, por favor.

— Agnes… eu compreendo que fui cruel com você, e Deus sabe o que poderia ter acontecido, mas você está bem agora. Não está?

— Não finja que não me entende. Você me tirou a última coisa que eu tinha.

— Eu nunca quis te fazer mal. Eu amei você, Agnes.

— Você se aproveitou dos meus sentimentos mais puros! — atestou, acusatória, a voz baixa desafinada pelo nó que se formava em sua garganta. Os olhos transbordavam, expondo uma dor que ela gostaria de poder esconder — Você me fez promessas e planos, me deixou sonhar com você.

— Agnes, não se exalte. Eu disse algumas coisas nesse sentido, sim, mas eu nunca prometi nada.

— Ora! Você não precisa usar as palavras "eu prometo" para fazer garantias a uma pessoa, e você fez.

— A única garantia que eu fiz foi que se você acabasse grávida, eu me casaria com você. Mas não aconteceu. E eu não disse nada desse tipo, antes que nós já tivéssemos… então, não me acuse de ter enganado você.

— Você sabia que eu nunca havia amado antes, Gianfrancesco. E tirou proveito disso.

— Eu realmente te amei, Agnes. Eu sei o que senti. Mas terminou.

— Você a amou até ficar sozinho comigo, e me amou até ela voltar. Você não sabe amar, Gianfrancesco. Eu nem sei o que está fazendo aqui. Por que não fica ao lado dela? Ela morreu?

— Ela melhorou ontem. Ainda não está fora de perigo, mas está consciente, até falando.

— Então volte para ela, vai querer saber onde você esteve.

— Me perdoe, Agnes. Por favor.

A Srta. Winter se recusou a gastar qualquer palavra a mais com aquele homem, que, vencido, se retirou sem receber o perdão que tinha vindo buscar.

De volta à mansão, Gianfrancesco encontrou Diana acordada, ainda muito debilitada, mas parecendo mais tranquila.

— Onde estava? Não o vejo desde ontem — perguntou, num tom que ele só ouviu porque estava bem perto.

— Parece que eu vou ter que ser o chefe da casa por alguns dias. Ou você deixa a tarefa nas mãos de Carolyn? Agnes sofreu um acidente nas escadas, está no hospital há cinco dias.

— Cinco? Como ela está?

— Agora está acordada. Eu fui vê-la logo pela manhã. Passei aqui para te ver antes, mas estava dormindo.

Ele se aproximou de um dos móveis, sobre o qual, um delicado trabalho de crochê servia de berço para uma decoração de porcelana. Ele sentiu a trama do fio com as pontas dos dedos e procurou mudar aquele assunto:

— Muito simpático este trabalho, foi você quem fez?

— Não, foi Agnes.

Agnes. Até no quarto — o santuário — de Diana, era perseguido pela lembrança de Agnes e por seu terrível sentimento de culpa.

— Por que não me disse nada antes? — indagou, retomando o assunto de que ele procurava fugir.

— Não queria preocupar você antes de saber do estado real das coisas. Mas ela vai ficar bem, logo estará desfilando pelos corredores de nariz empinado, dando ordens aos seus empregados como se fossem dela — aproximou-se da cama de Diana e se sentou — E você, como se sente hoje?

— Um pouco melhor do que ontem.

— Há alguns dias eu pensava que ia te perder — trouxe-a para um abraço acolhedor — Eu te amo, Diana.

— Seu abraço é tão gostoso…

— É? — sorriu e a apertou mais um pouco.

— Quero estar nos seus braços para sempre. Mas não é melhor se afastar de mim agora? Não quero que fique doente, meu bem.

— Não, acho que se eu fosse contrair, já estaria de cama. Mas de qualquer forma, acho que eu resisto.

— Está bem, se prefere arriscar. Mas não diga que eu não avisei. Escova o meu cabelo?

Depois de escovar docemente os cabelos dela, Gianfrancesco deitou-se a seu lado, pôs a cabeça em seu ombro, e exausto pela noite passada numa poltrona no hospital, pegou num sono pesado por mais de três horas.

Para o alívio e desgosto de Agnes, que fingia desejar que ele pegasse a doença e morresse junto com Diana, não contraiu nada. Continuou com sua saúde de touro inabalada.

Agnes voltou para casa dois dias depois. Não conseguia mais olhar para Gianfrancesco e sentia um ódio mortal de Madame Tremaine, mas não tinha forças para operar mudanças de qualquer tipo na própria vida. Logo procuraria outro emprego, ou tomaria outra providência qualquer, mas enquanto não recuperava sua coragem, ficava ali, arrastando sua rotina conforme podia, se valendo de alívios medíocres, escondida do mundo, e principalmente, de Gianfrancesco, de quem ela fugia como o escuro foge da luz.

Lady Tremaine ainda demorou muito até estar plenamente recuperada e poder voltar a ver algo do mundo além das paredes de seu quarto, mas oito dias depois da primeira melhora, estava de pé, ainda que precisasse do apoio de alguém para caminhar. Era necessário que se movimentasse, mesmo que apenas para ser conduzida por Gianfrancesco da cama até sua sacada, onde se sentaria para tomar um Sol medicinal. Algum tempinho a mais e voltou a circular pela casa.

Conforme a enfermidade se dissolvia, os olhos e a mente de Diana conseguiam observar com mais clareza os pequenos indícios. Não demorou até que ela se desse conta de tudo o que havia se passado entre aquelas paredes durante sua ausência.

Era impossível não ver. O mal estar entre Gianfrancesco e Agnes era evidente demais para esconder qualquer coisa. A forma como se evitavam, o silêncio eloquente que se instaurava entre eles durante o jantar. Cada detalhe gritava o que eles procuravam esconder. Ela sabia que a queda de Agnes não havia sido acidental, e sabia também que, por mais tórrido que tivesse sido aquele mês entre eles dois, nada mais acontecia. Isso explicava a repentina aversão que Agnes tinha passado a lhe direcionar, assim como a mudança generalizada de seu comportamento. Ela havia sido deixada de lado, e estava morrendo disto.

Num daqueles dias, Agnes se aproximou do quarto de Madame Tremaine, e parou diante da porta, hesitante. Maria Madalena estava de costas, escrevendo algumas cartas possivelmente importantes, e ainda não ter sido vista dava a Agnes uma última chance de recuar.

— O que você quer, Agnes? — perguntou Diana, sem precisar virar-se para trás para saber quem estava ali.

A governanta sentiu o sangue gelar. Agora não tinha mais volta. Precisava dizer o que tinha vindo dizer. Demorou muito a conseguir pronunciar a primeira sílaba, mas por fim, manifestou-se:

— Posso falar com a senhora, Madame?

Madame girou o corpo na cadeira, voltando-se para Agnes. De rosto baixo, o corpo todo rígido, a mão esquerda segurando o cotovelo de um braço esticado e a outra mão fechada em torno do polegar, ela não parecia mais que uma criança arrependida, que havia devorado até a última colherada de uma iguaria que lhe fora proibida, e agora era forçada a ir pedir desculpas.

Com as sobrancelhas e o queixo erguidos, Maria Madalena respondeu, desafiadora:

— Não sei, Agnes. Se você realmente acha que ainda tem alguma coisa para me dizer…

A Srta. Winter deu um passo para dentro do quarto e fechou a porta atrás de si. Precisou de dois segundos para tomar a coragem de se aproximar. Diana levantou-se, e Agnes parou subitamente, desejando que ela tivesse continuado sentada. Seria muito mais fácil falar se não tivesse que ser olhada de cima.

Sentindo o coração martelar, Agnes baixou os olhos do rosto de Diana para suas mãos, e tentou segurá-las, mas ela as levantou bruscamente, e este foi o golpe fatal. Nocauteada, a governanta sentiu as pernas enfraquecerem e caiu de joelhos aos pés de Madame Tremaine, cobrindo o rosto com as mãos para esconder a vergonha que sentia, mas os ombros sacudindo, e os soluços e arquejos eram impossíveis de ocultar.

Acabava de voltar do médico, onde havia ouvido uma verdade dolorosíssima. Tinha sentido, na noite anterior, enjoos e tonturas, e teve reavivada sua esperança de que nenhuma vida houvesse sido perdida no episódio das escadas, de que se arrependia terrivelmente. Pela manhã, tratou de ir a uma consulta para assegurar que tudo continuava bem.

Foi uma verdadeira prova de bravura declarar que estava grávida enquanto o médico tinha nas mãos uma ficha que dizia que ela se chamava Srta. Agnes Winter. Solteira. Mas era seu dever passar por cima de toda a vergonha que pudesse estar sentindo em nome da saúde de seu filho.

O doutor, depois de um exame minucioso, disse como se fossem boas notícias que jamais qualquer criança havia sido concebida naquele ventre. Havia, sim, algum alívio naquelas palavras, mas a dor que as acompanhava era muito mais forte, e Agnes não conseguiu esperar até estar fora do consultório para desmoronar. Gemia de uma dor tão intensa como a da mãe que tem o filho arrancado dos braços.

Quando Maria Madalena retornou de Londres, Agnes estava vivendo uma situação muito nova em sua vida, e Gianfrancesco não fazia parte dela. Embora ele estivesse muito relacionado com tudo, não se tratava da paixão que eles estavam compartilhando. Havia uma outra coisa, muito diferente em todos os aspectos, se desenvolvendo em Agnes de dentro para fora, mexendo com seu corpo e suas emoções.

Embora Gianfrancesco não soubesse ainda do que estava acontecendo, Agnes precisava dele mais do que nunca. Depois daquela festa, Maria Madalena havia deixado bem claro que não haveria apoio ou amizade no que dizia respeito a Agnes e Gianfrancesco. Mas, antes que pudesse contar a ele sobre as novidades, Lady Tremaine voltou. Aos olhos dele, Agnes deixava de existir.

Por mais doente que pudesse estar, não faltavam a Maria Madalena pessoas para cuidar dela, remuneradas ou não, mas quem restaria a Agnes se Gianfrancesco a estava abandonando?

Naquelas circunstâncias, foi impossível vê-la como qualquer coisa diferente de uma rival, que puxava Gianfrancesco novamente para si, e a deixava sozinha na chuva, com sua pobre criaturinha. Sentiu ódio, e lhe parecia que tinha toda a razão. Se havia algum culpado naquela situação toda, era Gianfrancesco, que traía uma e abandonava a outra. Mas para chegar a esta conclusão, Agnes precisaria de um equilíbrio, e clareza de sentimentos e pensamentos que até então vinham sendo impossíveis de atingir.

Estava defendendo os interesses de alguém muito mais importante, e muito mais dependente de Gianfrancesco do que Lady Tremaine. Afinal, o italianinho não era médico, e ficar sentado ao lado dela durante horas a fio não ajudaria em sua recuperação. Seu lugar, então, deveria ser ao lado de Agnes, e de sua sementinha, como ele havia prometido que estaria.

Mas ela descobriu que, desde o princípio, tudo havia sido um grandíssimo equívoco. Nunca uma vida havia habitado seu ventre, nem mesmo por um dia sequer.

E agora ela compreendia que havia traído Maria Madalena, que esteve contra sua melhor amiga quando ela mais precisou de seu apoio e cuidado. Tudo por algo, por alguém, que nunca havia existido.

Diana, altiva e fria, olhava para Agnes abaixando os olhos, mas não a cabeça. Não havia conseguido ainda dizer qualquer palavra, e não parecia estar perto de conseguir. Mas não era necessário. Agnes, descontrolada como estava, era a própria imagem da vergonha e do arrependimento.

— Eu te perdoo — disse, não por pena ou por bondade, mas por acreditar que, para Agnes, não poderia haver castigo pior do que aquele.

E a flecha foi parar exatamente onde tinha sido mirada. Uma bofetada teria sido menos humilhante do que aquele gesto de nobreza. Depois de tudo o que Agnes havia feito, lá estava Madame Tremaine, sendo benevolente com ela mais uma vez.

Não podia continuar ali, debaixo daqueles olhos altivos, não quando sentia tanta vergonha até mesmo de existir. Custosamente, Agnes reuniu suas forças e retirou-se da presença de Maria Madalena às pressas. Correu de volta para seu quarto, e não saiu de lá por três dias.

Diana havia pensado muito sobre o que fazer diante daquela situação. Pensou em fazer um escândalo e mandar os dois embora, mas seria doloroso perder Gianfrancesco, especialmente se ele parecia tão arrependido do que fez. Pensou em fazer um escândalo e mandar Agnes embora, mas novamente Gianfrancesco não permitiria. Pensou em fazer um escândalo e não mandar ninguém embora, mas isso poderia soar como uma permissividade, e Gianfrancesco não mais sentiria remorso por traí-la, continuaria brincando alternadamente com ela e com Agnes sem o menor peso na consciência. Chegou à conclusão de que, se ele estava realmente arrependido, o melhor caminho era não fazer escândalo nenhum, deixar que ele esquecesse Agnes com o tempo e fingir nunca ter sabido de nada.

Perdoava a ambos. A Agnes, porque não podia esperar dela que resistisse ao primeiro homem que amava lhe fazendo juras e promessas — como ela estava certa de que ele havia feito —, pedindo-lhe em troca apenas que se rendesse. E a Gianfrancesco porque… porque queria, simplesmente. Não havia lógica que pudesse explicar aquele perdão. Ela apenas não estava disposta a perdê-lo por orgulho.

Madame Tremaine havia aceitado correr aqueles riscos quando decidiu viajar sem a companhia de pelo menos um dos dois. Entre deixar a casa sem administração e passar pelo embaraço de ter que explicar Gianfrancesco à Rainha e a todos os conhecidos da alta sociedade londrina, escolheu deixar os dois em casa. Agora lhe cabia suportar as consequências.

Sofreu, é claro. Chorou muito. Mas tinha como consolo saber que, mesmo depois de tudo, ele ainda lutava por manter aquele amor vivo. Havia voltado da viagem preparada para ser recebida com um "precisamos conversar. Acho que é minha hora de partir", mas encontrou-o arrependido e disposto a tentar mais uma vez. Isto a aquecia por dentro, tal como uma bebida quente num dia frio. O melhor a fazer era mesmo fechar os olhos.

Agnes estava de volta à casa, e à sua rotina, mas não era a mesma. Ao menos, não a mesma dos últimos anos. Era uma versão antiga de si mesma, a Agnes neurastênica que havia sido na juventude.

Agnes se lembrou daquele seu passado triste, todo o sofrimento causado por sua fraqueza em não conseguir lidar com a sensação de abandono que a falta de um amor lhe causava. A solidão e o medo de enfrentar o mundo sozinha, a dor de acreditar que jamais seria amada, uma correnteza de sentimentos amargos contra a qual ela não soube nadar, então afundou. E ficou submersa durante muito tempo, até que por fim, depois de muito tentar, Maria Madalena mergulhou naquela água suja e conseguiu trazer Agnes de volta à superfície, encharcada e lívida, e tremendo de frio, mas ainda viva. Foi preciso tempo e paciência para reconstruir Agnes, mas lá estava ela, outra vez firme sobre seus pés, e acreditava-se inabalável até o dia em que o italianinho entrou por aqueles portões. Agora ela sentia que começava a ser arrastada outra vez, pela mesma correnteza, mas tinha ainda menos forças para lutar do que antes.

Não mais se concentrava, tampouco tinha forças para o que quer que fosse. O corpo doía, e a cabeça também. Apesar do cansaço constante, quando se deitava no meio da tarde não conseguia dormir. Pelo contrário, afastar-se de suas ocupações a deixava livre para pensar, e para entrar em pânico.

Passava o dia aguardando ansiosamente pelo anoitecer, quando poderia recolher-se, e finalmente buscar algum refúgio. Esvaziando uma garrafa por noite, não tardou até que ela não mais pudesse esperar pelo fim do dia e se atrevesse a pequenos goles durante o trabalho. Demorou um pouco até que voltasse a cambalear na frente de todos, mas os olhos vermelhos e o hálito não foram fáceis de esconder por muito tempo.

Aos poucos, foi deixando de existir aos olhos de todos. Seus instintos lhe diziam que o único jeito de sobreviver era fazer sua presença o menos notada possível, então ela se afastou. Era menos vista a cada dia, até que atingiu o status de uma sombra, fazendo jus às lendas inventadas pelas criancinhas. Gianfrancesco e Diana sabiam que ela estava lá, mas não a viam. Era um fantasma.

Chegou a parar de cumprir suas funções, deixando de ser digna até do próprio salário. Isto exigia providências da dona da casa, mas, por compaixão, Diana decidiu "deixá-la para lá". Apesar de tudo, ainda era a única pessoa com quem Agnes podia contar, e deixá-la desamparada naquelas condições era o mesmo que condená-la à morte. Agnes não duraria dois dias sem o apoio dela. Era evidente que tentaria outra vez, fosse com cortes, com veneno de ratos, uma queda perigosa, ou algum método ainda não explorado, e Diana jamais poderia dormir de novo se fosse a responsável por algo deste tipo. O único jeito era esperar. Dar tempo a Agnes, dar tempo ao tempo, e talvez todas as coisas se resolvessem sozinhas.

Aquela situação torturava Gianfrancesco. Ele daria qualquer coisa para que tudo voltasse a ser como antes daquele cenário complicado se formar. A verdade era que ele adorava Agnes, e cada vez que a via passar por ele sem um olhar ou palavra, era como viver novamente a sensação de encontrá-la ao pé das escadas, exânime, lívida, e se lembrar das coisas terríveis que lhe havia dito minutos antes. Ele adorava Agnes, e toda aquela situação o entristecia muito. Mas talvez fosse inevitável. Por mais que adorasse Agnes, Diana significava a vida para ele. Não queria ver terminar algo que tinha sido tão bonito. Precisava tentar, lutar por aquele amor ainda mais uma vez.

Se Diana tivesse voltado bem, tudo teria sido diferente. Ele a teria deixado descansar da viagem por um dia, talvez até dois, e a chamaria para uma conversa honesta que provavelmente começaria com "algumas coisas mudaram enquanto você esteve fora." Ele lhe confessaria seu amor por Agnes e tudo o que havia acontecido durante aquelas semanas, e estaria preparado para qualquer reação.

Mas quando voltou, ela estava à beira da morte, e ele não foi capaz de lhe causar um choque com aquela revelação. Como poderia? Toda a coragem que ele havia reunido para deixá-la havia se convertido em medo de perdê-la, e ele jurou a si mesmo que se ela sobrevivesse, não desperdiçaria aquela segunda chance amá-la.

Mas esquecer tudo o que tinha vivido com Agnes era simplesmente impossível. Assim como a paixão de Diana por Christopher se recusava a morrer, aquele amor remanescente não o impedia de amar e desejar Agnes intensamente.

Mas ele não acreditava em amar duas pessoas ao mesmo tempo, assim acreditou ter de escolher uma das duas, e conscientemente, achou sensato escolher sua paixão mais antiga.

— Você não vai mais fazer peças? Eu gostei tanto de te ver no palco... — Perguntou para quebrar o silêncio, enquanto ela cortava as folhas secas do dos galhos de uma de suas plantas.

Havia se oferecido para fazer-lhe companhia em sua visita à estufa, mas com a atenção dela toda voltada para o cuidado com suas flores, era inevitável que ele ficasse sobrando. Na ocasião, Lady Tremaine já estava completamente recuperada fazia uma ou duas semanas, mas era a primeira vez que tinha tempo de ir cuidar de suas plantas.

— Ah, o palco… eu sinto alguma falta, sim, mas não há espaço. Eu já tenho tanto com o que ocupar meu tempo, se for me dedicar ao teatro, o que vai sobrar para você?

— Então, você está dizendo que o tempo que dedica a mim é o tempo que sobra?

Ele não tentava esconder o quanto estava ofendido, nem queria. Mas não sentia raiva, podia passar por cima daquilo.

Diana precisou pensar num jeito de responder. De fato havia dito aquilo, mas não era o que pretendia dizer.

— Não, querido. Estou dizendo que entre você e um punhado de aplausos, eu escolho você. Meu grupinho de teatro vai muito bem sem mim. Nenhum de nós depende disso para viver.

— Entendo — tentando não deixar a conversa morrer, iniciou um outro assunto: — Me fale... fale dos seus negócios. O que aquele português fazia aqui?

— Veio discutir a venda de suas terras em Portugal.

— Por isso você ia a Lisboa?

— Sim.

— Por que quer terras em Portugal?

— Para produzir azeitonas. As oliveiras se desenvolvem muito bem por lá, e o óleo de oliva pode ser muito lucrativo.

— Você nunca para de pensar em dinheiro?

— Nunca.

— Mas você não acha que já tem o bastante? Plantações, fábricas… tecidos, cosméticos, e ações, e sei lá mais o quê. Meu Deus, Diana! Por que não deixa aquele diabo de advogado administrar tudo e se dedica a nós dois?

— É tão difícil te fazer compreender… falamos sobre isso tantas vezes!

— É pelo futuro de Carolyn — repetiu o já desgastado argumento, com ar de ironia.

— Estou cansada de explicar sobre isso, Gianfrancesco, porque você não quer entender.

— Eu entendo que Carolyn já tem dinheiro o bastante.

— Dinheiro não é tudo, meu filho. A minha conduta também faz diferença.

— Carolyn é a escusa com que você justifica sua ganância.

— Ora, basta deste assunto! Eu não tenho o dever de me explicar para você. — decretou ríspida, impaciente com a insistência dele em bater naquela tecla.

Provavelmente, em outra situação, teria sido mais gentil em suas palavras. Mas depois dos últimos meses, e da repercussão dos acontecimentos passados neles, que ainda continuavam a se refletir em estremecimentos, havia uma tensão crescendo, e se apoderando de todos. Cada um reagia à sua maneira: Gianfrancesco vinha se tornando engessado e vazio, Agnes havia sido a primeira a desmoronar e se perder, Diana estava soltando faíscas.

— Quanto tempo falta até Carolyn ter 16 anos?

— 16? Minha filha não vai se casar com 16, é a pior das idades para fazer qualquer escolha. Não vê você? Na primeira oportunidade de fazer uma escolha errada que teve, se amarrou a uma velha que não pode viver para você, nem te amar tanto quanto você merece. E agora está aqui, neste país frio, sem sua herança, e infeliz. E já tinha dezoito anos. Acha que fez uma boa escolha?

— Você acha que não fiz?

— Eu não teria me escolhido, em seu lugar. E me dói perceber que não consigo te fazer feliz, porque eu te amo muito.

Durante algum tempo, olharam um ao outro no fundo dos olhos. Ela o beijou delicadamente, e não gostando da sensação que aquela conversa havia deixado no ar, voltou às suas flores e mudou assunto:

— Sabe que um dia desses Carolyn me apareceu com uma rosa na mão, e me perguntou que flor era aquela? Eu disse...

Gianfrancesco se distraiu por um instante, deixando que Diana falasse com as flores. Ele tinha estado naquele lugar por tantas vezes que sabia notar as mudanças mais sutis. Sabia dizer quais plantas tinham florido, e quais tinham perdido suas flores. Estava apreensivo quanto à reação que ela teria quando desse falta do vaso de camélias que ele havia quebrado por descuido, na sua urgência de ter o corpo de Agnes. Na ocasião, havia sido motivo de risadas. Ele sorriu com a lembrança. Aquele lugar estava repleto das memórias das tardes que os dois passaram juntos ali. Memórias tão vivas que seu corpo respondia a elas.

—… mas eu também, a primeira vez que vi uma rosa tão aberta que o centro estivesse à mostra, pensei que se tratasse de outra flor.

Ele ouviu uma interjeição de espanto e começou a elaborar uma explicação para o triste fim das camélias.

— Pobrezinhas! Como isso foi acontecer? Mas a vontade de viver delas é tanta, que ainda assim resistem...

Ela se abaixou para recolher a planta quase morta, que se aproveitava do resto de terra e umidade contidos em suas raízes e espalhados pelo chão, para sobreviver como podia, já com todas as flores e folhas secas e pouco do caule ainda verde.

Gianfrancesco segurou seu braço, puxando-o não muito gentilmente, mas sem agressividade. Ela compreendeu que ele a queria de pé, e se levantou.

O jovem tentou reproduzir os beijos dos velhos tempos calorosos de outrora, e por mais que sua boca tenha feito um ótimo trabalho, o coração parecia ter se esquecido de como era a sensação. Não disparou como acontecia antes, ao simplesmente vê-la. Continuou a bater inalteradamente. Havia uma ligeira aceleração em seu ritmo, mas não era Diana que causava aquilo. Eram as memórias.

Com as costas contra o chão e Gianfrancesco entre as coxas, Diana enlaçava seus dedos nos cabelos dele e enchia seu pescoço de beijos, arfava com suas carícias.

Ele acreditava que possuir Diana ali abafaria as lembranças de seus momentos com Agnes, como passar uma nova camada de tinta sobre uma imagem pintada. E não havia nada naquele momento que ele quisesse mais do que desfazer-se daquelas pinturas.

Mas um pensamento lhe invadiu a mente: aquela estufa havia se tornado o templo da paixão que Agnes sentia por ele, e sequer pensar em tocar em outra mulher ali dentro seria um sacrilégio gravíssimo, como prestar culto a uma deusa no santuário de outra.

Esta ideia agiu sobre ele como o freio de emergência de uma locomotiva. Tudo parou.

Envergonhado, ele escondeu o rosto nas mãos.

— Que foi? — Diana questionou docemente, acariciando seus cabelos, como que os penteando com os dedos.

— Desculpe. Eu não sei o que está havendo comigo. Isso nunca aconteceu antes.

— Eu sei, eu sei. Tudo bem.

— Estou tão envergonhado... me desculpe.

— Isso acontece, querido. Não se preocupe. Não é nada de mais.

— Mas… isso não devia acontecer, eu te amo e te desejo tanto!

— Ninguém está duvidando disso. Eu te amo, também. Isso não fará diferença nenhuma entre nós, está bem?

— Tem certeza?

— É claro.

— Eu gostaria que fosse um pouco menos compreensiva. Parece que está sentindo pena de mim.

— Meu bem, de jeito nenhum. Eu só tenho respeito demais por você para rir do que aconteceu — ele deu um sorriso tímido.

— Acho que vou voltar para casa. Sair dessa situação constrangedora. Virá comigo?

— Não. Vou tentar salvar minhas camélias. — finalizou a fala com um beijo.

Alguns dias se passaram, desfazendo pouco a pouco o fiasco da estufa. Eles seguiam em frente, vivendo uma rotina morna, mas tentando fingir que nada havia mudado.

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