Sutileza (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 18/04/22 21:34
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 30
Cap. Postado: 18/04/22 21:28
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 28min a 38min
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[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Romance ou Novela.
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Capítulo Vigésimo Oitavo Chamas

Que não seja acusado Gianfrancesco de falta de vontade de salvar aquele amor. Ele fez tudo o que pôde para conservar aquele caso como costumava ser, dois anos mais cedo. Seus esforços foram comparáveis aos de Madame Tremaine em sua tentativa de salvar aquelas camélias, regando, alimentando, protegendo. Cobrindo de todas as atenções possíveis, tomando inclusive o cuidado de deixá-las em paz quando era necessário. Mas as camélias morreram. Suas raízes estavam enfraquecidas demais.

Já era o terceiro mês desde a volta de Diana e o rompimento com Agnes. No primeiro mês, ele não se deu conta do quanto estava se esforçando em lutar por eles. Tudo lhe parecia natural, de certa forma. Uma naturalidade tão falsa quanto uma fruta de cera.

No segundo, ele percebeu que já não existia mais nada pelo que lutar, além de uma lembrança. Ele buscava salvar o amor que havia sido, lançando-se ao apego de um passado de rosas e poesias, como Diana se agarrava ao fantasma que talvez ela mesma tivesse construído, por simples resistência à ideia de perder aquele amor. Mas viver aquela sombra de amor era cada dia mais parecido com nadar numa banheira. A magia havia-se perdido. Não existia mais encanto. Levar as horas livres a meramente contemplá-la já não parecia mais um passatempo tão atraente. Vê-la dormir serena e nua já não era nada de mais. A atmosfera de sonho estava desfeita.

E ela escondia o quanto tudo aquilo a torturava. Até na cama as coisas haviam mudado. Ele havia se tornado lasso, tudo era puramente carnal. Os beijos eram insípidos. As horas mais calorosas haviam se tornado frias. Porque a chama havia se apagado, restavam somente cinzas. E cinzas não pegam fogo.

O corpo de Diana já não o entusiasmava mais. Tinha se tornado indiferente ao seu estilo ousado no quarto. Por mais que fosse uma distinta dama agora, na cama ainda deixava transparecer ecos de seu passado, e foram estas as características que o haviam prendido a ela com mais força.

Claro que existia também uma magia que irradiava de Diana, a tal celestialidade poética que o havia conquistado à primeira vista, naquela tarde singular de 1908, quando ele a viu, trajando com toda a elegância um véu transparente, representando sonhos que ele nem sabia que tinha. Aquela tarde jamais abandonaria os domínios de sua memória, mas sem desejo, tudo aquilo era muito pouco.

Agora, tudo era diferente. Era na modéstia de Agnes que ele pensava quando se divertia sozinho. Provar do néctar puro da inocência, tão doce, tão suave, fora como tomar vinho pela primeira vez. O recato da alma de Agnes o encantava. Mesmo depois de tudo o que houvera entre os dois, ela ainda ruborizava ao toque de suas mãos. A arrebatadora singeleza de uma delicada margarida.

A reservada decência de Agnes o cativava tanto, especialmente por ser algo inteiramente novo em sua vida. Desde sua primeira noite de homem, havia apenas conhecido o corpo de meretrizes. E agora, depois de ter feito sua aquela delicada margarida, a rosa de intenso vermelho que era Diana começava a parecer apenas um pouco mais do mesmo.

Agnes estava nas maçãs e nas flores. Agnes estava na chuva, na floresta, naquele riacho. Agnes estava nos pensamentos e no coração dele, e também no quarto de Diana, muito bem representada por aquelas três peças de crochê, que tinham irmãs e primas espalhadas por toda a casa. E a onipresença de uma Agnes que parecia não mais existir era uma silenciosa tortura.

Gianfrancesco sentia falta daquela Agnes que havia desabrochado em suas mãos, que era tão jovem quanto ele, e mais bela do que qualquer outra. Uma Agnes que, quando olhava para cima e via seu rosto, parecia estar olhando para o céu e vendo um anjo.

Agnes havia se tornado mais bela do que ele jamais imaginou que ela era capaz de ser. Como uma semente que guarda em si toda a beleza de uma flor em suspensão, depois de tantos anos esperando para florescer, ela havia se iluminado com as mais belas cores. Mas ao que parecia, Gianfrancesco havia matado e soterrado aquela Agnes para sempre, e não era capaz de se perdoar por isto.

Contudo, a maneira de Gianfrancesco se sentir a respeito daquelas duas mulheres não era a única coisa diferente naquele palacete. Ele próprio começava a mudar, amadurecer, perder a leveza ensolarada de seus 18 anos, como era inevitável que acontecesse. O dolce far niente aos poucos deixava de ser tão prazeroso, e o rapaz se perguntava até quando viver daquele jeito lhe bastaria para ser feliz. Talvez fosse a hora de fazer alguma coisa.

E pela primeira vez, Gianfrancesco se deu conta do quanto de si mesmo havia perdido naqueles dois anos. Pouco a pouco deixando pelo caminho partes de sua própria essência. Quando se lembrava de seus momentos joviais e leves, quer fossem antigos ou recentes como a tarde que passara a brincar com Carolyn e as crianças Lancaster no gramado, não era capaz de se reconhecer. Antes de vir para aquela casa, Gianfrancesco brilhava, mesmo reluzia, como o Sol que aquecia a Itália. Hoje, era o céu cinzento que costumava cobrir a fria Inglaterra. E a culpa não era de Diana. Ela mesma não se deixava transformar em céu cinzento; ela era as luzes de Paris, tanto quanto podia ser. A culpa era dele próprio, que se permitira contaminar por seus próprios sentimentos negativos: ciúme, insegurança, e a tristeza que era filha deles. Agnes havia sido o vento que arrastou para longe as nuvens, e ele pôde voltar a brilhar. Mas agora, sem ela, chovia, e sentindo a água fria depois daquele banho de Sol, ele se deu conta do que havia sido, e do que havia deixado de ser.

Apesar de procurar iludir-se voluntariamente, eram poucas as vezes em que Gianfrancesco conseguia ver Diana como algo mais do que ela de fato era. Não um sonho, não uma deusa. Apenas uma mulher, e velha demais para ele. Nada além de uma senhora rica, que estava muito mais preocupada com seu dinheiro e com suas plantas do que com o amor que existia entre eles. Embora Gianfrancesco não pudesse negar que era amado por ela, também já não podia mais fingir que era o suficiente.

Agnes era diferente. Embora já quase tão velha quanto Diana, Gianfrancesco sentia que tinham a mesma idade. Era ainda tão severa e equilibrada como sempre havia sido, ou, em seus momentos mais sombrios, taciturna e destrutiva, mas quando estava com Gianfrancesco, Agnes se iluminava, ria, até mesmo dançava. Emanava aquela mesma luminosidade e calor que ele costumava emitir quando seu coração era jovem. E ele acreditava que talvez ela pudesse ajudá-lo a recuperar sua jovialidade perdida.

Passou-se um dia que transcorreu como qualquer outro, a não ser pela estranha inquietação de Diana, que ficava mais agitada a cada hora que passava. Olhava para os relógios da casa insistentemente. Gianfrancesco a observava, sendo curiosamente contagiado por seu estado de espírito.

Diana, cosa succede? — decidiu perguntar, por volta das 23h.

— Hoje é nosso aniversário, ele ainda não veio me ver… — respondeu, perturbada e de olhar vago — Me deixe sozinha, por favor, querido. Ele pode não querer aparecer com você aqui.

Ligeiramente ofendido com o pedido, ele simplesmente deixou o quarto, sem vontade de iniciar uma cena. Fechou a porta e sentou-se no corredor, no chão. Se ele viesse, gostaria de ouvir o que ela teria para lhe dizer.

Sentada no centro da cama, abraçada aos próprios joelhos, com os lençóis a cobrir-lhe as pernas, ela rezava constantemente para que cada minuto durasse no mínimo o dobro, para que aquela última hora do dia se alongasse, e ele tivesse um pouco mais de tempo para aparecer.

45 minutos, 30, 10, 5, 00h00. E o dia se acabou sem que ele viesse. Maria Madalena entrou em pânico.

Do outro lado da porta, o poetinha a ouviu rogar suplicante:

— Chistopher! Você não vem me ver? E a sua promessa? Eu preciso de você, ainda! Não me deixe aqui sozinha...

O italiano levantou-se bruscamente e desceu as escadas. Foi para o lado de fora, em busca de ar fresco, e encontrou Agnes sentada nos degraus da entrada da mansão, com o rosto iluminado pela luz branca da Lua. O som dos passos dele a tirou de seus pensamentos, e ela o encarou por um instante.

— Madame quer falar comigo? — articulou com certa dificuldade.

— Seu expediente já terminou, não? Não vim atrás de você. Eu só precisava sair de perto dela.

— Brigaram outra vez?

— Não. Não vou falar sobre isso com você, Agnes.

— Nem precisa. Eu sei que foi o fantasma — riu com desprezo e se levantou. Estava muito embriagada — Você é a primeira pessoa que eu vejo competir com um homem morto, e perder — novamente riu, sentindo um terrível e cruel prazer em humilhá-lo.

Suspendeu a saia um pouco, e perdeu o equilíbrio quando levantou o pé para subir o primeiro degrau. Gianfrancesco a amparou, evitando uma queda. Ela afastou as mãos dele bruscamente e subiu, a passos vacilantes, deixando-o a sós com uma garrafa um terço cheia, que ele cogitou terminar.

Olhava-a pelas costas enquanto subia lentamente, tentando não se desequilibrar. Sentiu um impulso de ir tomá-la nos braços e cobri-la de beijos. Subiu até alcançá-la, pulando degraus de forma que dois passos foram suficientes, e a puxou pelo cotovelo.

Ela se atirou no peito dele, agarrou-se ao seu pescoço. Ele comprimiu seus lábios num longo beijo, segurando-lhe o rosto com as duas mãos. Pressionou a mulher contra si, envolvendo-a com um dos braços, e, com os dedos metidos em seus cabelos, beijou-a ardentemente.

Olharam-se por um instante. Os olhos de Agnes, pesados, semiabertos, brilhavam. Seus lábios úmidos se curvaram num sorriso fraco.

Gianfrancesco mergulhou no oceano azul daqueles olhos lindos, e como se estivesse realmente submerso, de repente se viu isolado de todo o resto: existiam apenas ele e o mar. E não existia nada que ele quisesse mais do que se afogar naquela água, beber dela, permitir que ela entrasse nele, e se permitir tornar-se parte dela. E tal qual a sensação de emergir para a superfície e encher os pulmões de ar de novo, sentindo-se completamente renovado e leve, como se tivesse nascido outra vez, foi o sentimento que o invadiu quando ele finalmente compreendeu. Abriu uma caixa modesta, e dela saiu música e luz dourada. Era Agnes.

Subitamente, o peso que ele vinha carregando nas costas desapareceu, e ele se sentiu a um passo de levitar. Era Agnes. Sua solução, seu remédio, sua redenção. Sua paixão. Era Agnes. E ele não pôde fazer nada a não ser beijá-la mais uma vez.

Permitindo-se ser guiada por ele, desceu as escadas e correu de mãos dadas com ele pelo gramado. Gianfrancesco pretendia chegar até a floresta, mas como ela tropeçou e caiu um pouco antes de chegarem até lá, apenas ficaram ali, desfrutando da paixão que sentiam um pelo outro a céu aberto, à luz da Lua, sem a recôndita proteção segredeira dos troncos e copas das árvores.

Ele deixou-se cair de joelhos na grama, e puxou Agnes para si. Beijou a mulher no rosto, ela lhe pagou com um beijo na boca. Como era seu hábito, soltou os cabelos dela e embrenhou os dedos em seus cachos sedosos. Ela ofegava sob os beijos de Gianfrancesco em seu pescoço, e a pressão dos braços dele ao redor de si. Tinha nos lábios quentes um sorriso lânguido.

Gianfrancesco ficou surpreso quando a viu colocar-se sobre ele, aberta como uma rosa no auge de sua beleza. Ela pôs as mãos em sua nuca e o beijou do jeito que ele havia lhe ensinado: sufocante e deliciosamente.

— Eu te adoro, Agnes, me desculpa. Me perdoa por tudo. Por favor. Eu te amo.

Em resposta, ela o beijou outra vez. Tudo parecia tão mágico para os dois que era impossível pensar em qualquer outra coisa. Viam apenas um ao outro e ao brilho da luz azul que os cercava, e nada que estivesse fora daquela luz, fosse coisa, pessoa ou lembrança, tinha qualquer significado.

Os apaixonados rolaram pela grama nos braços um do outro, e ele declarava, usando beijos risonhos como se fossem palavras, sua decisão final. Era Agnes, e era definitivo.

— Faz amor comigo? — ela pediu num sussurro, apertando-o entre suas pernas, enquanto o provocava com beijos no pescoço.

— É melhor não, Agnes, querida.

Ela o encarou com um ar desapontado em seus olhos pesados. O baque daquela recusa refreou a loucura com que ela o buscava, e ela se sentou no gramado.

— Não me quer?

— Agnes, você sabe que sim. Pode sentir, não pode? Mas você não está em condições.

— Eu sei bem o que estou fazendo.

— Eu acho que não sabe. A Agnes que eu conheço nunca me ofertaria o corpo.

— Eu tenho me ofertado toda a você há muito tempo.

— Mas nunca assim. Não foi para isso que eu te trouxe aqui. Teremos toda uma vida para unirmos nossos corpos. Esta noite, vamos apenas olhar as estrelas, está bem? Podemos esperar até de manhã.

Gianfrancesco tirou com um beijo o ar triste de desilusão do rosto de Agnes, a abraçou e se deitou na grama, fazendo-a deitar-se também. Continuaram bem juntinhos, nos braços um do outro, e com o som da voz dele, a cantar baixinho enquanto acariciava seus cabelos com delicadeza, Agnes logo adormeceu.

Em seu quarto, Carolyn revirava-se na cama, morrendo de fome. Havia rejeitado o jantar por pirraça e sido mandada para a cama de estômago vazio. Agora estava pagando o preço. Lutou com a preguiça de levantar-se por algum tempo, mas a fome venceu. Foi bater à porta do quarto da mãe, mas não recebeu qualquer resposta. Os nervos de Lady Tremaine haviam sido de tal maneira abalados pelo choque de não ter visto Christopher, que a única maneira que encontrou de evitar um colapso foi tomar uma pílula. Agora se encontrava em sono profundo.

Procurou a babá, mas também não obteve resposta. Ela não estava em seu quarto, mas sim no aposento de um dos empregados, um rapazinho bonito com quem vinha mantendo um caso desde sua segunda semana no emprego. Bateu então à porta de Agnes, em última instância. Mas naquele momento, ela estava rolando na grama com um certo jovem italiano.

Cogitou então voltar para a cama como estava e esperar até de manhã para se alimentar. Mas não soube ser tão forte. Decidiu ir até a cozinha e arranjar por si mesma algo para comer.

A Srta. Winter dormiu por quase duas horas, e despertou consideravelmente mais lúcida, mas ainda havia algum álcool remanescente em seu sangue. Sentiu o perfume de Gianfrancesco invadindo suas narinas e percebeu que estava em seus braços. Não se lembrava com clareza do que havia acontecido, mas se lembrava dos beijos ébrios que lhe concedera. Na falta de informações concretas, criou a própria verdade, deduzindo tudo de uma maneira terrivelmente errada.

Sentiu-se usada, e teve vergonha e raiva de si mesma por ter se rendido ao charme de Gianfrancesco, e sido feita de boba mais uma vez.

— Não posso crer que deixei isso acontecer novamente.

Gianfrancesco, que dormia um sono leve, se assustou com o brusco levantar dela, a sair repentinamente de seus braços.

— O que está dizendo, Agnes? O que foi que eu fiz?

— Tão burra! Tudo só aconteceu porque você está com raiva dela.

— Mas nada aconteceu, Agnes.

Ela não deu atenção ao que ele dizia, e decretou antes de se retirar, com o indicador em riste:

— Escute, nunca mais chegue perto de mim. Eu não vou ser sua distração. Você não vai me usar para provar a si mesmo que não é dependente dela. Nunca mais!

Cobriu a boca com as costas da mão, procurando ocultar a emoção que a dominava, mas não pôde evitar um dolorido soluço antes de se afastar correndo. Ele a viu subir e descer a suave colina, desaparecendo atrás dela, e ficou ali deitado sozinho por mais de trinta minutos, sem pensar em absolutamente coisa alguma.

Com os olhos vendados pelas lágrimas e o nariz congestionado, Agnes não pôde sentir nenhum cheiro estranho, nem ver a fumaça que começava a tomar conta da sala, quando atravessou o lugar correndo em direção às escadas. Subiu sem se importar com nada mais, entrou em seu quarto e se jogou na cama.

Mordeu um lençol para abafar o som deplorável de suas lágrimas. Rangeu os dentes, padecendo sob uma dor mortificante, à qual talvez fosse impossível sobreviver.

Achava indigno chorar em autocompaixão, mas continuar a ser forte era impraticável. Agnes jamais fora forte, não adiantava fingir. Era indigno chorar de autocompaixão, mas talvez dignidade fosse mesmo o que ela tinha em menor quantidade. Amar Gianfrancesco era um martírio terrível, uma tortura que jamais terminaria enquanto ela vivesse.

Buscou no banheiro seu frasco de sedativos. Estava quase no fim, mas talvez fosse o suficiente. Despejou todas as pílulas na boca, encheu as mãos com água da torneira e engoliu sem dificuldade. Reconhecia sua derrota. Era melhor morrer.

Não fazia aquilo por aquele momento no gramado, mas por toda uma vida passada sem amor, e um futuro sem qualquer esperança de ser amada um dia. Uma vida seca, vazia e cinza, como uma floresta num inverno que não passaria nunca. Um caminho longo, escuro e frio, que ela não tinha coragem de percorrer sozinha.

Se era para viver uma vida que não valia a pena, onde o melhor que podia conseguir era ser usada pelo homem que amava; entre assistir à própria decadência, vendo-se secar e morrer um pouco a cada ano, encontrando sua alegria em lembranças cada dia mais distantes, achava melhor morrer, e o mais breve possível.

Secou a boca na manga do vestido e o retirou. Saiu para a varanda, vestida ainda com a delicada anágua, e olhou para aquele cenário por uma provável última vez. Notou na cozinha um brilho incomum, mas mesmo assustada, deitou-se em sua cama, rezando para que sua vida já tivesse terminado quando seu quarto fosse atingido.

Gianfrancesco fazia uma lenta caminhada de volta à mansão. Aproveitava o ar da noite, mantendo quase todo o tempo seus olhos no céu limpo, salpicado de estrelas. Inspirava profundamente. O ar estava fresco e agradável naquela noite. O relevo do terreno não permitia, do ponto onde ele estava, que visse o que estava sucedendo na mansão.

Notou uma estranha atividade luminosa ao longe. Um brilho forte e espesso que vinha do chão, trazendo opacidade ao cristalino do céu. Antes que tivesse certeza do que se passava, seu coração sentiu o perigo e começou a bater acelerado, como se quisesse sair correndo por si só.

Correu na direção da casa, parando em choque ao ver a cozinha em chamas. Sentia o calor que emanava do lugar aquecer seu rosto como se abrisse a porta de um forno. E do meio dos sons do fogo consumindo o ar e destruindo tudo o que tocava, ouviu os gritos abafados de Carolyn. Por uma das janelas, agora já desprovidas de suas cortinas, pôde ver a garotinha em pânico, de pé em cima da mesa.

Permitiu que o medo o paralisasse por três segundos apenas. Exatos três segundos. Agarrou o metal quente da maçaneta da porta que dava para o jardim, mas esta se encontrava trancada. A mesma, já enfraquecida pelas chamas, caiu depois de três pancadas. Ele atirou-se para dentro sem pensar no perigo, pegou a garotinha no colo e correu para fora.

Ela ainda gritava, chorava, tremia em intenso horror. Ele acariciou seus cabelos e lhe deu alguns beijos na testa. Para tentar acalmá-la, simulou uma postura descontraída.

— Fez xixi nas calças, não é? Covardinha. Mas está tudo bem agora, fique calma. Você se machucou? — ela balançou a cabeça verticalmente. Ele secou suas bochechas com as mãos.

— Mamãe está lá dentro. Todo mundo vai morrer por minha causa, não vai? Eu juro que não fiz de propósito, eu juro!

— Claro que não fez. E ninguém vai morrer, eu prometo. Estou indo buscar sua mãe e acordar os outros. Fique aqui bem quietinha, está certo?

Com boa parte da roupa molhada e recém saída de uma fornalha, ela agora tremia com o frio da noite. Ele pôs o paletó sobre os ombros dela e voltou a entrar na casa, agora pela porta da frente.

As chamas avançavam pelo corredor, alcançando os cômodos adjacentes à cozinha. A sala estava tomada pela fumaça. Ele cobriu o nariz com um lenço que trazia no bolso e foi direto ao terceiro andar. Acordou um dos empregados, contou o que estava acontecendo e lhe disse para chamar os outros. Desceu para buscar Diana, mas lembrou-se de que havia outras criaturas em risco muito mais iminente: os animais, que ficavam todos no andar de baixo, em um aposento só para eles.

Os cães, já agitados, irromperam porta afora quando ele entrou, e correram para a saída sozinhos, junto com o gato e os dois coelhos, que instintivamente sabiam para onde correr. Gianfrancesco tirou a gaiola das calopsitas daquela sala, e deixou-a nas mãos de um empregado que a levou para o lado de fora.

A visibilidade era ainda menor. Havia mais fumaça e a luz elétrica não funcionava mais. Foi na contramão dos empregados que desciam as escadas e subiu para buscar Diana, que ainda dormia tranquila, alheia a todos os acontecimentos. Seu quarto, no extremo oposto do lugar onde o incêndio havia se iniciado, ainda não tinha sido alcançado pela fumaça.

Tirou a mulher da cama gentilmente, tomando cuidado para não interromper seu sono, e a carregou pelo corredor tão lentamente quanto possível. Apegada a seus bens como era, Gianfrancesco sabia que acordá-la naquele momento seria condená-la à morte. Ela se recusaria a sair sem antes tentar salvar tudo o que pudesse, e quando desistisse seria tarde demais para percorrer o inferno dos corredores. Seria consumida junto com a casa.

Ela despertou quando ele a pôs no chão sobre o gramado.

— O que está acontecendo? — perguntou, ainda sonolenta, bastante tonta e confusa, mas não precisou da resposta para ver seu lar sendo consumido pelo fogo.

— Calma, querida. O importante é que você esteja aqui, sã e salva.

— A minha filha?

— Está bem. Seus animais também.

Ela olhou em volta à procura de Carolyn. A menina se arrastou para mais perto da mãe, e elas se abraçaram. Feliz por ver sua preciosa criança fora de perigo, ela sorriu largamente, apertou a filha em seus braços com o coração alegre e encheu o rosto da pequena de beijos. Era como se nada mais importasse. Mas não demorou muito até se lembrar de que haviam, sim, muitas outras coisas que importavam.

Maria Madalena olhava para o fogo com lágrimas nos olhos. Começou a se lembrar de todas as coisas que tinha lá dentro, objetos de inestimável valor, alguns puramente sentimentais, alguns financeiros também. Foi o suficiente para desencadear uma crise de histeria.

— Eu preciso voltar!

Largou a filha e avançou na direção da casa. Gianfrancesco a agarrou pela cintura, prendendo-a em seus braços.

— Você não vai entrar lá.

— Eu preciso! Você não compreende!

— Você não vai!

— Não! Me solte! Eu não posso perder as coisas que estão lá dentro.

Ela lutava para soltar-se com uma força surpreendente. Era difícil para Gianfrancesco contê-la.

— Sossegue, Diana! Se entrar lá, você vai morrer!

— Me solte, por favor. Não me impeça.

— Sua filha está aqui fora. É a única coisa que importa. A casa está perdida, você vai ter que aceitar.

— Meu quarto ainda não queimou. Eu preciso de tantas coisas… me deixe ir! Eu não posso deixar queimar tudo o que me resta de Christopher. Nosso retrato. Todas as fotografias, meu vestido de noiva, minhas joias. São muitas coisas que não posso perder! Por favor, me solte! Me solte… — perdendo temporariamente as forças, desistiu de lutar e chorou no peito de Gianfrancesco, desferindo-lhe enfraquecidos murros nos ombros, como se fosse ele o culpado pelo incêndio.

Ele a levou de volta para junto das outras pessoas e pediu para os empregados tomarem conta dela. Parecia ter se acalmado um pouco, mas ele previa um novo surto, que não demorou a acontecer.

Madame Tremaine gritava ainda mais do que antes, chorava e clamava pelos objetos que não queria perder. Clamava por Christopher e empenhava os pulmões inteiros na tarefa de convencer os empregados a deixá-la ir. Por fim, já não era mais capaz de articular palavras, apenas gritava. Seus gritos eram tão arrepiantes que davam a impressão de que também ela queimava, e perturbavam Gianfrancesco de tal maneira que ele sentia vontade de dar-lhe uma bofetada para trazê-la de volta à razão. Não conseguia ouvir seus próprios pensamentos. Tinha a sensação de ter-se esquecido de algo muito importante, algo que, como as recordações de Lady Tremaine, ele não podia deixar queimar. Mas a inquietude dela não o ajudava a entender o que era.

Gianfrancesco experimentou a mesma histeria de Diana quando se deu conta de que uma pessoa estava faltando ali. Viu o coração de Diana falhar e ela perder a consciência como uma lâmpada que se apaga, mas tinha a mente agitada demais para preocupar-se com isso. Atirou-se na direção das chamas, assim como ela, mas desta vez não houve ninguém para detê-lo.

Entrou na casa. Os móveis da sala já estavam irreconhecíveis, a casa toda ardia como uma fornalha. Era difícil respirar um ar tão quente e enfumaçado. Tossindo, e sem poder ver quase nada, ele subiu as escadas. O esforço pareceu muito maior naquela situação. Chegou cansado ao terceiro piso, que já começava a ser consumido também, e encontrou a porta de Agnes trancada.

Gritou pelo nome dela, mas logo percebeu que aquilo não fazia sentido. Abriu a porta com um chute, e encontrou Agnes deitada entre seus cobertores, como se dormisse numa noite regular.

— Agnes! Por que ainda está aqui?

— Não me deixe morrer queimada, Gianfrancesco — pediu, numa voz fraca, quase inaudível.

Ele carregou seu corpo entorpecido e frio pelas escadas. Ela parecia mais pesada do que de costume. Quando chegou ao andar térreo, viu que o acesso à saída havia se tornado impossível. Era um lago de fogo. Mas o corredor à sua direita ainda estava intocado.

Deitada languidamente nos braços de Gianfrancesco, a cabeça e os braços de Agnes pendiam e balançavam de maneira mórbida, mas ela ainda tinha consciência. Em sua fraqueza, conseguia sentir um débil contentamento, por saber que passaria seus últimos momentos nos braços de Gianfrancesco, e um alívio por perceber que morreria das pílulas, não das chamas. Estava salva do fogo.

Sem alternativa, Gianfrancesco foi até a sala no fim do corredor, a sala de música onde haviam se beijado pela primeira vez, deixou Agnes no mesmo sofá daquela ocasião e olhou pela janela. Havia pouco mais de três metros até o chão, mas era sua única chance.

Pegou Agnes no colo carinhosamente e se sentou na janela. Virou as pernas para fora e lhe deu alguns tapinhas no rosto. Ela abriu os olhos e sorriu. Ele deu-lhe um beijo que talvez fosse o último, e saltou.

Atingiu o chão secamente. Sentiu o corpo todo doer, mas não deu importância a isso. Viu Agnes perder seu último vestígio de consciência, e a carapaça que havia criado para enfrentar àquele momento de cabeça fria se desfez. Sentia esparsas gotas de chuva lhe caírem na pele.

Acreditando tê-la perdido, não teve tempo de chorar muito antes de perder a consciência também. Mas ainda teve tempo de fazer uma única coisa.

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