Sutileza (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 18/04/22 21:34
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 30
Cap. Postado: 18/04/22 21:30
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 36min a 49min
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[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Romance ou Novela.
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Capítulo Vigésimo Nono Retratos

Itália, Julho de 1920

Uma brisa quente soprou o rosto de Gianfrancesco, no momento em que abriu os olhos. As cortinas se balançavam nas janelas, e o ar era preenchido dos sons alegres que haviam se tornado costume quando se tratava de uma manhã aquecida pelo calor do verão. Canto de pássaros, cachorros brincando, o vento passeando pelas copas das árvores, e alguma coisa fritando na cozinha.

Não havia nenhum violinista deplorável, ou dor de cabeça remanescente da noitada anterior. Ele vestia um pijama confortável, e Agnes, a seu lado, fingia dormir. Sempre acordava antes, mas, numa ou noutra manhã, Agnes se via com medo de abrir os olhos e descobrir que tudo não passara de um sonho. Esperava, então, de olhos fechados, até que recebesse o tradicional beijo com que ele a despertava todas as manhãs, dizendo:

Buongiorno, moglie mia.

Agnes abriu os olhos e sorriu. Abraçou Gianfrancesco, que a apertou com carinho e lhe beijou na testa.

— Ouvir isso nunca perde a magia, sabe?

— O que é surpreendente, você ouve isso todos os dias — selou os lábios de Agnes com um breve beijo, acendeu um cigarro e se levantou para abrir as cortinas.

— Eu ainda me lembro do que senti na primeira vez em que você me acordou desse jeito.

— Foi nossa primeira manhã de casados. Te peguei no colo, ainda adormecida.

— Me despertou com um beijo e me chamou de sua esposa — suspirou — Sinto falta do tempo em que eu era magrinha e você podia me pegar no colo.

Gianfrancesco mudou de ideia a respeito da cortina que havia acabado de abrir. Fechou-a e disse:

— Talvez eu ainda possa.

Voltou para perto de Agnes, afastou os lençóis, pôs um braço sob suas pernas e outro atrás de suas costas, e a levantou como fazia antes, mas já não era mais tão fácil.

— Viu? Ainda consigo.

O casal trocou um beijo, ele pôs a mulher novamente sobre a cama e tirou, apressado, a parte de cima do pijama, antes de juntar-se a ela.

Entregaram-se um ao outro uma vez mais, como faziam quase todas as manhãs, uma deliciosa rotina. Devagarinho, como se saboreassem uma rara iguaria. Nem sempre era assim. Às vezes, o que eles mais queriam era matar uma sede enlouquecedora.

Os calores daquela manhã criaram dois amantes banhados de suor, que depois de tudo ainda tinham forças para um beijo interminável. O vento em suas peles molhadas causava calafrios gelados.

Gianfrancesco girou o corpo e esticou as costas sobre o colchão. Agnes, sonolenta como se não tivesse acabado de acordar, virou-se de lado, pôs a cabeça no ombro do marido e dormiu por mais quinze minutos.

Voltou a abrir os olhos quando Gianfrancesco decidiu que era hora de se levantar.

Ele abriu a porta, e lá estava ela: sua pequenina principessa, de pezinhos descalços e os cachos louros a coroar-lhe a cabeça com seu brilho dourado. Ergueu a garotinha do chão e a levantou acima da própria cabeça, chacoalhou-a um pouquinho, fazendo-a rir, beijou seu rosto três vezes, e se afastou, carregando-a no colo. Abraçada ao pescoço do pai, olhando para trás por cima de seu ombro, a menininha acenou para a mãe, que lhe soprou um beijo antes que Gianfrancesco dobrasse o corredor e saísse de vista.

Sentindo o corpo ainda mole, Agnes quis voltar a dormir, mas já não era mais possível, então se levantou. Entrou no quarto dos "rapazes", mas apenas um deles estava ali. Sentou-se na cama de Vittorio, caminhou pelo braço do menino com o dedo indicador e o médio, e o despertou com cócegas no pescoço.

Buongiorno, mamma…

Disse o garotinho, esfregando os olhos, e se sentou, abraçou a mãe, e depois de beijá-la na face vigorosamente, saiu da cama. Ele não se preocupou em pentear os cabelos, ou trocar o pijama por uma roupa apresentável. Domingo, naquela casa, era o dia de mandar para o espaço a disciplina, então ele apenas pôs sua correntinha de ouro e saiu.

As três crianças daquela casa possuíam correntinhas de ouro idênticas, cada uma com a imagem dourada de São Francisco de Assis como pingente, e as usavam sempre, mas Vittorio era quem mais valorizava o acessório. Ele adorava ouro, por alguma razão, e garantia que, algum dia, teria em sua boca apenas dentes de ouro. Agnes rezava para que os anos o dissuadissem desta ideia.

A cama de Amadeo se mostrava vazia e desarrumada, e Agnes se perguntava o que ele poderia estar aprontando desta vez. O som de um bater de asas atabalhoado e do grasnar dos patos foi sua resposta.

Irritada, Agnes se debruçou na janela e gritou com o pestinha em italiano. Tendo de escolher entre voltar para dentro pacificamente, ou sendo puxado pela orelha, Amadeo parou de perseguir os patos de estimação da mãe e entrou, cabisbaixo.

A Sra. Di Stefano se encontrava contemplativa e nostálgica naquela manhã. À mesa, Gianfrancesco contava, animado, alguma história às crianças, e Agnes, silenciosa, se limitava a olhar para eles e se alegrar pela sorte que tivera, de ainda ter tempo de construir uma família tão bonita.

Era um quadro lindo, aquelas cinco pessoas à mesa, que por sua vez, era farta, como nem sempre havia sido. O Sol da manhã, derramando sua luz de amarelo vivo pelas janelas, e a fumaça trêmula de um cigarro constantemente sacudido nas mãos inquietas de Gianfrancesco, que faziam tudo possível para participar da conversa, davam um toque especial à imagem. A voz dele, alegre como estava, podia ser ouvida até do jardim. E as crianças sorriam, empolgadas com a história que estavam ouvindo. Até a manteiga a se derreter sobre o pão quentinho constituía uma cena bonita de ver. E os pães feitos pela mão de Gianfrancesco tinham um sabor inigualável.

Fazia dez anos que estavam juntos, mas assim mesmo, de vez em quando, Agnes sentia como se tudo fosse uma empolgante novidade.

Havia sobrevivido por milagre àquela noite, e até hoje não sabia exatamente como tinha sido salva do fogo. Mas ela suspeitava. Gianfrancesco jamais contou, e jamais contaria. Não queria que Agnes achasse que devia sua vida a ele, não queria que lhe fosse eternamente grata. Mas aos olhos dela, Gianfrancesco era muito mais do que um salvador: ele era sua vida, em si.

Agnes não parecia muito mais velha hoje do que no dia em que Gianfrancesco a tirou da casa de Diana. Desde que mantivesse os cabelos tingidos, poderia convencer qualquer pessoa de que ainda tinha 48 anos.

O tempo não havia sido tão gentil assim com Gianfrancesco, e aqueles dez anos passados realmente se faziam notar. Haviam marcas inevitáveis de expressão reivindicando seu lugar na testa dele, e no canto de seus olhos. Embora ainda tivesse braços belos e fortes, os músculos do abdômen, antes suavemente delineados, hoje se escondiam atrás de uma camada de gordura, fina, embora já começasse a empurrar os botões de suas camisas, mas ele ainda não estava preparado para assumir que era já hora de começar a comprar camisas maiores, e os dentes vinham ficando amarelados, mas estavam todos ali. Acima dos lábios, um bigode impecavelmente aparado tinha surgido havia quatro anos, e não tinha a menor intenção de ir embora.

Para Agnes, Gianfrancesco continuava lindo. Para as outras mulheres que tinham a oportunidade de pôr os olhos nele, era perigosamente charmoso. Para inúmeros dos homens que o conheciam, era uma ameaça.

Os primeiros sinais do tempo citados acrescentavam uns bons cinco anos à sua aparência, e o bigode se encarregava dos outros cinco. Talvez o porte elegante, de imponente altivez, que ele fingia ter quando achava necessário pudesse dar a algumas pessoas a impressão de que ele tinha ainda outros cinco anos a mais, sem falar nos óculos que ele, ainda pouco conformado, trazia sempre no rosto.

Conservava o mesmo passo firme e decidido da juventude, como se tivesse a cidade inteira a seus pés, mas já não permitia mais que os cabelos se balançassem com o vento. Trazia-os, agora, muito bem penteados e fixados, cada fio em seu devido lugar.

Sendo assim, quando o viam desfilar de braços dados com Agnes, orgulhoso, vestido com os ternos mais finos dos alfaiates mais caros, a diferença de idade entre eles se atenuava, e hoje eram poucos os que a percebiam. Entre eles, a única diferença de idade era mesmo a que aparecia aos olhos dos outros, porque ambos sabiam que haviam nascido no dia em que decidiram se amar.

Uma hora mais tarde, Agnes passou pela sala e viu o marido colocando uma fotografia num novo porta-retratos.

— O que aconteceu com o outro? Era novo.

— Era, mas alguém quebrou.

— Quem?

— Quem é que deixa um rastro de destruição por onde passa?

— Elvira.

— Exato — terminou o que fazia e pendurou o quadro junto dos outros, numa parede que contava com outras onze molduras — Pronto, ficou até mais bonito do que o outro.

— Será que esta menina nunca vai tomar jeito?

— Francamente, eu não sei. Talvez depois de ela pôr a casa abaixo...

— Não é possível, ela não deixa pedra sobre pedra.

— Eu sei que sou um desastre — ouviram-na dizer tristemente, e se arrependeram da conversa que estavam tendo.

— Não, querida… eu não disse isso.

— Mamãe disse.

— Você disse isso a ela, Agnes? — perguntou, severo.

Agnes abaixou a cabeça e cruzou os braços. Sabia que podia esperar uma bronca muito extensa sobre o assunto mais tarde, mas no momento, quem precisava ouvir algumas coisinhas era Elvira. Embora o pai não fosse a pessoa mais indicada para dizê-las.

— Você não é um desastre, você é uma criança maravilhosa. Mas, tente me entender, você não pode sair por aí destruindo tudo com o seu descuido. Se eu for à falência repondo tudo o que você quebra, quando você for uma moça alta e bonita, o papai não vai poder te dar joias. É isso o que você quer?

— Se ela quebrar mais alguma coisa, venda uma boneca dela para cobrir o prejuízo — Agnes sugeriu.

— Não, papai, minhas bonecas não, por favor!

— Eu não vou vender suas bonecas, não se preocupe. Mas, por amor ao seu pai, tente não pôr a casa abaixo, sim? O segredo é andar devagar e com atenção. Não vê que você mesma pode se ferir numa bagunça dessas? E se algo pesado cai sobre você? Eu morro!

Elvira prometeu que tomaria mais cuidado e depois de abraçar e beijar o pai, saiu saltitante, esbarrou numa mesinha e fez cair um abajur, que, por sorte, tombou sobre uma poltrona e não se quebrou. Envergonhada, pôs o objeto no lugar e saiu sem causar mais desastres.

Gianfrancesco voltou-se para Agnes e ia manifestar suas objeções sobre as coisas que ela andava dizendo à sua princesinha, mas um uivo do cachorro o interrompeu. Não era um homem supersticioso, mas aquele som sinistro nunca estava associado a boas histórias. Esqueceu o que ia dizer, e perguntou apenas se Agnes se sentia bem.

Felizmente, Agnes estava ótima. Ele lembrou-se de que aquele cachorro tinha o costume de uivar com frequência, e nada de ruim acontecia por causa disso. A impressão desagradável logo se desfez, mas o animal continuou uivando e recebeu a colaboração de seu companheiro, mas ambos se calaram depois de um grito do dono.

— Parece que foi ontem, não é? — Agnes comentou, olhando para aquela parede repleta de fotos.

As duas primeiras, em molduras ovais, representavam o dia em que se casaram. Em uma, apresentavam-se muito sérios e respeitáveis, de braços dados, mas sem muito contato. Na outra, trocavam um beijo, contido o bastante para poder estar exposto naquela parede, mas ainda cheio do calor de uma paixão nova. Haviam cópias destas duas fotos em outros lugares da casa.

As outras dez fotos representavam, cada uma, um ano da vida dos dois. Em todas elas o casal se mostrava muito digno, em preto e branco. Rígidos e respeitáveis, como em toda boa foto de qualquer boa família. Não quebravam o padrão pouco variável que o senso comum lhes ditava seguir: ele de pé, ela sentada, e as crianças ao redor. Sorrisos eram proibidos. Mas só naquela parede. Existiam inúmeras outras fotos descontraídas dos dois, onde apareciam sorrindo, dançando, brincando com suas crianças. Gianfrancesco gostava de fotos, gostava de eternizar momentos de felicidade, transformando lindos segundos em pequenos "para-sempres". Eram um tipo diferente de poesia.

Na primeira fotografia, apareciam sozinhos. Na segunda, Gianfrancesco tinha Amadeo no colo, e Agnes, os gêmeos no ventre. Na terceira, via-se Vittorio nos braços da mãe, e Elvira nos braços de um pai orgulhoso. Amadeo já era grandinho o bastante para estar de pé por si só. As outras sete fotografias não mostravam nenhuma figura nova, a não ser o cachorro que aparecia nas últimas cinco. O segundo cachorro ainda não estava na família na época em que fora feito o retrato mais recente.

Aquela era uma parede pequena, mas ainda podia ser a galeria daquela família pelos próximos cinco anos. Então, teria-se que se eleger uma nova parede. Gianfrancesco gostava de se pegar imaginando os próximos retratos, os filhos cada vez mais altos, e então o número de pessoas começaria novamente a aumentar. Viriam noras e um genro, e algum dia netos. E ele e Agnes a cada ano mais velhos, até que um dia ela se ausentaria das fotos, e depois ele, e assim mesmo os retratos seguiriam sendo feitos, como era o certo acontecer.

Houve um dia em que ele se deu conta de que jamais havia fantasiado fotografias como aquelas ao lado de Lady Tremaine, nem mesmo quando vivia as primeiras semanas daquela paixão, e parecia não existir nenhuma mulher no mundo além dela. Mas não pensava muito no assunto, tudo havia ficado no passado.

Para Maria Madalena, a separação foi brusca e dolorosa, e ela sofreu por muito tempo depois de ele ter ido embora.

Gianfrancesco procurou tratar daquele assunto com o máximo de delicadeza possível, queria evitar que Diana sofresse, mas foi inútil. Ela perdeu as estribeiras e fez um grande escândalo. Ofendeu Gianfrancesco, se arrependeu, buscou se desculpar, despiu sua armadura de mulher forte, e apaixonadamente lhe implorou que não a deixasse. Atirou-se aos prantos nos braços dele, deu-lhe centenas de beijos não correspondidos. Ia e vinha de sua face mais doce à sua mais amarga. Primeiro era humilde, em seguida o humilhava. Estava fora de si.

Quando enfim compreendeu que não tinha mais jeito, teve súbita consciência de si mesma e do papel ridículo que estava interpretando, fora de controle, a um passo de pedir de joelhos para não ser abandonada. Foi tomada por uma onda de vergonha e pediu apenas que Gianfrancesco a deixasse só. Não podia ser vista naquele estado nem por um segundo a mais.

Naquela ocasião, fazia apenas quinze dias do incêndio. Um abalo forte demais para que ela pudesse se recuperar tão rápido. Ainda estava muito desequilibrada, mas Gianfrancesco estava decidido a não perder mais tempo. Definiu um espaço de exatos quinze dias para ter aquela conversa com Maria Madalena, e contou, ansiosamente, um a um. Julgou necessária aquela folga, porque o baque de ver aquela casa em chamas havia sido tão forte que seu coração não soubera resistir. E Gianfrancesco jamais se perdoaria se fosse responsável por uma nova falha.

Lady Tremaine precisaria de muito mais do que um incêndio para estar arruinada. Suas posses iam muito além daquela mansão. Mas o fogo havia consumido coisas insubstituíveis.

A mansão de Lady Tremaine havia sido inteira destruída. De seu quarto, lar de suas preciosas recordações — retratos e presentes, e inúmeras cartas de amor —, restaram apenas as joias que estavam guardadas no cofre, assim como a aliança que jamais tirava do dedo. Em meio à negra desolação, um milagre: o retrato daquele beijo, com a dedicatória de um eterno devoto, jazia placidamente, intacta, alheia ao que se passara a seu redor. Estava meramente suja de fuligem. Mas as cartas de amor, estas existiriam apenas em suas lembranças. Havia sido forçada a se separar de tudo a que tinha mais apego. Seu único consolo era saber que a sogra tinha em suas posses outros retratos de Christopher, inclusive uma cópia do álbum de casamento. O destino não seria cruel a ponto de fazê-la passar pela vida sem jamais ver o rosto dele novamente.

O quarto de Gianfrancesco, junto com suas poesias, o quarto de Christopher… tudo transformado em carvão e cinzas.

Também o aposento de Carolyn havia sido consumido — um castigo merecido para a causadora daquilo tudo —, e o de Agnes. Queimados até o último pedaço de pano.

Gianfrancesco pediu a Agnes centenas de perdões, pelo que havia feito, pelo que havia dito, tentou se explicar e implorou por uma segunda chance. Ela bateu o pé, e foi firme em suas negativas, mas ele não podia desistir. Afinal, havia feito uma promessa: se Agnes sobrevivesse, se casaria com ela. E lá estava ela, viva e saudável. Ele não podia deixá-la ir embora, precisava cumprir sua parte do acordo com o santo.

A verdade era que Agnes, mesmo depois de tudo o que havia sofrido, ainda gritava por dentro de vontade de lançar-se aos braços de Gianfrancesco. Um sentimento de que se envergonhar. Mas independentemente da paixão irracional e irresistível que sentia, estava determinada a não cair nos braços dele outra vez.

Gianfrancesco chegou ao ponto de se ajoelhar, o que, depois daquela queda, foi um tremendo sacrifício. Quando foi finalmente convencida, Agnes aceitou o pedido com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos. Mas, honrando a promessa que lhe havia feito, Gianfrancesco não a tocou até que ela pudesse assinar com o sobrenome Di Stefano.

Maria Madalena chorou por horas, não saiu do quarto até a manhã seguinte. Reviveu, uma a uma, as palavras ditas por ele e por ela mesma, e sofreu por cada uma delas. No meio daquelas palavras todas, que tanto feriram seu coração, ele lhe fez uma linda promessa: enquanto vivesse, jamais a esqueceria, nem mesmo deixaria de amá-la. Mas ela não acreditava nisso.

Pela manhã, novamente procurou Gianfrancesco, pediu-lhe desculpas e ofereceu, como presente de casamento, uma certa quantia. Uma ajuda modesta, mas que era muito para quem não tinha nada. Junto das economias mirradas que Agnes fizera ao longo da vida, aquele dinheiro certamente os ajudaria a respirar.

Gianfrancesco agradeceu e a abraçou com carinho por um longo tempo.

Depois de dito o adeus, ela não pôde impedir duas lágrimas de rolarem de seus olhos. A imagem provocou uma forte onda de emoção em Gianfrancesco, criando um nó em sua garganta, mas ambos permaneceram sólidos. Ela desceu até o quarto de Agnes para dar-lhe um abraço, fazer seus votos de felicidades e convidá-la para o provável último momento que teriam como as grandes amigas que haviam sido por tantos anos. Um reavivamento e uma despedida.

Deu a Agnes alguns de seus vestidos e outros acessórios, o incêndio a havia destituído até mesmo de suas roupas. Mas não os acompanhou até a saída da casa. Permaneceu em seu quarto, olhando tudo da janela. Depois de colocar a última mala no carro, Gianfrancesco olhou para a casa e a viu atrás da cortina semiaberta. Piscou um olho, e com um sorriso amigável, acenou para ela, antes de entrar no carro e sair de sua vida definitivamente.

Diana correu até o conforto de sua cama e chorou em seu travesseiro como só havia chorado antes uma vez na vida.

Enquanto guiava o carro pela estrada para longe dali, Gianfrancesco não se deteve com a presença de Agnes e chorou silenciosamente por vários minutos. Ele não sabia nomear aquela emoção, nem apontar um motivo para ela. Agnes não fez perguntas. Ela mesma também sentia vontade de chorar.

A casa onde viviam hoje era grande e bonita. Atendia com louvor às fantasias que a Agnes de 16 anos havia sonhado para si, e superava em muito as mirradas esperanças da Agnes de 46.

Viviam numa grande propriedade ensolarada e verdejante. Um caminho de terra bem demarcado ligava a casa ao portão principal, e depois de se percorrer a longa trilha entre as árvores, o bosque se abria e a casa se mostrava, muito grande e bonita, mas sem chegar a ser majestosa. A opulência fria dos ricos pomposos não combinava muito bem com a alma calorosa daquela família. Era aconchegante, somente. E bastava. Tinha um andar só, e muito espaço, por dentro e por fora, espaço para as crianças correrem livres, crescendo entre cavalos, patos e cães.

Tão diferente do casebre onde passaram seu primeiro ano juntos, numa época onde mal se havia dinheiro para comprar cobertores, e Agnes só sobrevivia ao inverno porque tinha Gianfrancesco para lhe aquecer.

O italianinho trabalhou duro e conseguiu sozinho dar à sua mulher e seus filhos a vida decente e confortável que lhes havia prometido, antes que o destino decidisse achar que decente e confortável ainda era menos do que eles mereciam.

Depois de ter deixado a casa de Diana tendo pouquíssimo para chamar de seu, o casalzinho foi até a cidade para oficializar o casamento da maneira mais econômica possível. Teriam se contentado em somente assinar um documento, mas quando Gianfrancesco foi se despedir de seus três três amigos, Charles sentiu que era seu dever dar ao companheiro italiano um casamento de que valesse a pena se lembrar.

Raptou Agnes e a levou em busca de seu vestido dos sonhos. Um lindo vestido branco que continuava no armário, e ela revisitava de vez em quando, mas jamais seria capaz de vestir outra vez. Para o momento da assinatura e da troca de alianças, contratou o fotógrafo responsável pelas duas fotografias que encimavam aquela pequena galeria dos anos. A festa de casamento se deu num restaurante popular o bastante para que os amigos pudessem fazer barulho, mas adequado o suficiente para ser digno da presença de uma dama como Agnes e ter um lugar nas lembranças dela. Houve um jantar muito farto, mas Agnes não comeu quase nada, eufórica demais para se alimentar. A sobremesa foi um lindo, mas pequeno, bolo de camadas, confeitado com flores de glacê. Quase nada era como ela havia sonhado, mas tudo era perfeito, em cada detalhe.

Foi conduzida a pé por um Gianfrancesco ligeiramente tonto até o hotel mais chique da cidade, que, por ser pequena, não era lá grande coisa, mas era bonitinho. Um dos melhores quartos estava reservado para sua noite de núpcias, que foi mágica, assim como cada minuto daquele dia.

Chegaram à Itália trazendo nada mais que algumas roupas, um pouco de dinheiro, e boas lembranças.

Gianfrancesco surpreendeu Agnes com a natureza laboriosa de seu caráter, que fora mantida muito bem camuflada durante os dois anos que em que ele vivera na Inglaterra. O que aquelas duas senhoras não compreendiam, era que Gianfrancesco se recusava a trabalhar, não porque tinha medo de trabalho, mas simplesmente por não ver sentido em se desgastar trabalhando enquanto pudesse viver por ali. Muito mais sensato era aproveitar aquele tempo, evidentemente limitado, a gozar de paz e sossego, dar asas à sua alma poética e praticar a arte de amar.

Foi um bálsamo para a recém-casada Agnes ser trazida a um agradável vilarejo à beira do mar, tranquilo, ensolarado, energizado pela brisa do oceano, ao invés de uma grande cidade, suja e barulhenta como grandes cidades naturalmente são.

A obediência quase adestrada de Agnes era um dos poucos aspectos dela que incomodavam Gianfrancesco, apesar de ele achar este traço muito conveniente. Ele queria uma mulher de sangue quente que discutisse com ele, uma mulher rebelde que temperasse sua vida com uma pitada de pimenta, mas não podia negar que de vez em quando seria ótimo ter alguém que respeitasse sua autoridade. Agnes se encaixava perfeitamente nos dois cenários. Tinha aquela rebeldia lá, em algum lugar, adormecida. Bastava que ele soubesse despertá-la. Mas era naturalmente uma pessoa nascida para ser liderada. Jamais havia sido capaz de dar um passo sozinha, então o seguiria onde quer que ele fosse. Ela precisava de alguém que lhe dissesse o que fazer diante das vicissitudes da vida, e ele, de alguém que o apoiasse em cada passo que desse. E ela sempre esteve lá, para massagear seus ombros cansados após um exaustivo dia de trabalho.

Antes de, num golpe do destino, o sogro morrer num grande naufrágio, e seu marido herdar todo o patrimônio da família em 1912, Agnes precisou ser paciente e viver humildemente ao lado de Gianfrancesco, amá-lo na pobreza antes de amá-lo na riqueza, estando sempre ao lado dele enquanto ele passava de pescador a padeiro, e por fim um grande homem de negócios.

Viveu conformada numa casinha singela que precisou aprender a amar, e não demorou a descobrir que, com boa vontade, dedicação, e Gianfrancesco a seu lado, aquele lugarzinho podia se tornar o mais belo palácio de todo o mundo.

E Agnes viveu feliz em seu palácio durante quase um ano, apesar de sentir-se terrivelmente solitária desde a hora em que Gianfrancesco saía para o mar, até o momento em que ele voltava. Era feliz quando ele estava em casa, e até mesmo o cheiro de peixe que ele trazia de um dia de trabalho deixou de ser um problema depois de uma semana ou duas.

Ele compreendia o quanto sua amada Agnes dependia dele emocionalmente, e era visível o quanto ser deixada sozinha durante todo o dia lhe fazia mal. Ela carregava, em seu ventre, um filho de Gianfrancesco. Ele próprio sentia falta da companhia dela, então chegou à conclusão de que era hora de abandonar o mar e os peixes, e encontrar algo que pudesse fazer sem precisar estar longe de Agnes. Foi assim que o lindo palácio litorâneo de Agnes foi reduzido pela metade e convertido numa simpática padaria.

Gianfrancesco descobriu que gostava de fazer pão, muito mais do que gostava de pescar, e sendo uma atividade que podia fazer sem sair de casa, estava junto de Agnes em tempo integral, rodeado do amor que dava e que recebia. Nada poderia tê-lo feito mais feliz do que isso.

Quando os gêmeos nasceram, o milagre que quase não aconteceu, após um parto demorado e difícil que pôs a vida de Agnes em risco, ele ficou grato por estar em casa para beijar sua mulher e dar às crianças as boas vindas, o que não teria sido possível se ele ainda estivesse buscando sustento no mar.

Amadeo era ao mesmo tempo um filho adotivo e um parente de sangue: filho da mãe de Gianfrancesco e seu amante — um erro que precisava ser escondido —, chegara aos braços de Agnes com dias de vida, e apenas duas semanas antes de ela descobrir a própria gravidez.

Apesar de ter tido que se esforçar bastante para colocar a empresa herdada novamente nos eixos, Gianfrancesco esteve sempre presente, para ouvir as primeiras palavras e ver os primeiros passos de suas crianças. Para dar-lhes conselhos ou sermões, ou beijos, para ler histórias na hora de dormirem ou para brincar com eles pela manhã. Esteve sempre presente para Agnes também, para conversar e rir, para lembrá-la de que continuava tão linda como sempre fora, mesmo ou especialmente depois de ter dado à luz, para tocar violão e cantar para ela, ou para compartilhar calor e prazer sem horário definido.

Mas o fato de ele nunca se afastar de sua família jamais significaria que ele havia deixado de lado as amizades, que apesar de terem novos rostos e nomes, continuavam tão duvidosas quanto Charles, Joseph e William costumavam ser. Gianfrancesco era um boêmio nato, e Agnes sabia muito bem onde estava se metendo quando aceitou se casar com ele. Um boêmio não deixa de ser boêmio só porque se tornou um marido, e embora Agnes reclamasse muito de suas festas semanais no quintal, que iam noite adentro e terminavam sempre com ele voltando para dentro carregado, ao irromper da manhã, no fundo ela reconhecia que alterar a essência festiva de Gianfrancesco poderia arruinar seu charme, e isso era a última coisa que ela queria.

O poetinha jamais deixou a poesia de lado, mas o diminutivo já não cabia mais. Era um poeta. E conforme o prometido, jamais esquecera Diana. Mantinha uma fotografia dela em sua gaveta, e olhava de vez em quando. Escrevia sobre ela. Jamais deixaria de amá-la. Não sentia por ela nenhum tipo de paixão, apenas um tipo muito particular de saudade. Saudade de si mesmo, do menino que havia sido enquanto esteve nos braços dela, e que teve de deixar para trás. Diana havia sido a primeira paixão de sua vida, e também sua primeira rainha. Com ela, havia vivido e sentido coisas que jamais tinha experimentado antes. Diana não merecia ser esquecida, e era lembrada como a coisa mais bela que passou por aquela fase da vida dele. Mas aquela fase já não passava de lembrança.

Contudo, seria ridículo dizer que tudo eram sorrisos e beijos. Agnes e Gianfrancesco brigavam bastante, geralmente motivados pelas picuinhas naturais que surgem em qualquer união. Uma mania de um que irritava o outro, ou conflitos de opinião sobre o que era certo ou errado na educação das crianças. A principal reclamação de Agnes era a respeito do hábito do marido de beber até a última gota. Ela temia que aquele costume pudesse sair do controle e ela de repente se visse casada com um bêbado que converteria o patrimônio da família em álcool, mas acima de tudo, temia que seus meninos acabassem crescendo e se tornando iguais a ele. Como poderia alguém não se ofender com palavras assim? E iniciava-se uma briga.

Outro motivo de discórdia era o evidente prazer que ele sentia em seduzir toda mulher que via. Com beijos na mão, olhares profundos, piscadelas e palavras de galanteio. Fazia-o até mesmo debaixo dos olhos da esposa, que, não sem motivo, ficava possessa. Chegava ao disparate de enviar presentes, flores e lembrancinhas, nem sempre baratas. Nunca se lembrou sozinho de um aniversário de casamento, e não era raro que Agnes encontrasse bilhetinhos em seus bolsos, ou cartas em suas gavetas, escritas com palavras aveludadas, em caligrafias que ela não conhecia.

Mas nem uma vez sequer, durante aqueles dez anos, havia tido, e nem mesmo beijado, qualquer outra mulher que não fosse sua Agnes. Nutria um respeito profundo pela mulher com quem havia se casado, e o amor que sentia por ela era muito mais forte do que o desejo que pudesse sentir por qualquer bonitinha por aí. De qualquer forma, Gianfrancesco sabia o quanto era duro de se aturar, e não trocaria a eterna paciência de Agnes por nada neste mundo.

Para ele, era tudo um jogo. Perigoso, ele reconhecia. Poderia vacilar a qualquer instante, e acabar fazendo algo de que se arrependeria por toda a vida, porque cada passo que ele dava poderia acabar levando-o longe demais. Ele sabia muito bem. Mas a cada ano, o espelho lhe dizia mais enfaticamente que Diana tinha razão quando dizia que ele não era bonito, e era revigorante ver que ainda podia fazer palpitar o coração de qualquer mulher que quisesse.

Era pela própria vaidade e orgulho que fazia aquilo, mas provavelmente seria impossível fazer Agnes compreender. Tampouco ele procurava se explicar. Detestava ser censurado por suas ações. Era maior de idade, independente financeiramente, e não deixava faltar nada às pessoas que dependiam dele. Só o que exigia em troca era a liberdade de fazer o que tivesse vontade. Atravessavam toda uma noite discutindo, ele acabava prometendo não fazer de novo, e no dia seguinte cedia mais uma vez à tentação de provocar rubores e suspiros em alguma nova mocinha.

Mas cultivava o hábito de trazer a Agnes flores de presente, sempre margaridas brancas, e também maçãs. Ambos muito simbólicos entre os dois.

Todavia, às vezes se encontrava num humor diferente, em que não queria saber das flores de outros jardins, nem de Agnes ou dos filhos, apenas de si mesmo. Se isolava e se introvertia, e entrava num estado de reflexão onde parecia inatingível. Agnes jamais se atrevia a importuná-lo quando o encontrava nesse estado, por medo de acabar descobrindo no que ele estava pensando. E estava certa ao achar que eram pensamentos que não gostaria de ouvir.

Ele questionava, com muita amargura, a escolha que havia feito e a vida que vinha levando. Se perguntava o que estava fazendo ali, brincando de casinha com uma mulher que logo tenderia a cada vez menos comportar todo seu vigor e desejo por, simplesmente, estar começando a ficar velha demais para isso. Àquela altura, Agnes ainda tinha energia bastante para corresponder às vontades dele, mas não era possível saber quanto tempo isso duraria.

Sentia vontade de largar tudo e sumir por algum tempo. Voltar, depois, como era sua responsabilidade, mas ter a chance de, por alguns meses, ou mesmo semanas, recuperar sua juventude. Afinal, tinha apenas 30 anos, e às vezes sentia como se tivesse 50. Então voltava para dentro de casa e olhava para as pessoas a quem dedicava sua vida. Sua Agnes gordinha tricotando na sala, de onde podia ficar de olho nos filhos, que aproveitavam as últimas horas do dia para brincar antes de ir para a cama. Elvira sentada no tapete brincando com suas bonecas, e os dois meninos correndo entre os móveis, ignorando os protestos da mãe, que já cansada do dia longo, não estava mesmo disposta a fazer muito mais do que falar.

O alegre e grande cachorro da família vinha saudá-lo, alto o bastante para colocar as duas patas no peito do dono e dar-lhe uma lambida molhada no rosto, tirando-o de sua letargia e aquecendo novamente seu coração. Ele entendia que seu lugar era ali com eles, e morria de vergonha de si mesmo por ter duvidado de sua família.

A cada vez que se afastavam, corriam de volta um para o outro com mais paixão do que nunca. Não importava qual fosse o motivo da briga, buscavam redenção no calor do corpo um do outro, e sempre encontravam. O prazer vinha com um aroma de perdão, e o amor deles amanhecia fortalecido, até a próxima discussão, o próximo perdão, e assim por diante. Uma estrutura inabalável.

Naquela tarde, um pouco depois do almoço, Gianfrancesco falou a Agnes sobre uma vontade de passear a cavalo pela propriedade, e a convidou para acompanhá-lo, mas ela recusou o convite, como sempre fazia. Tinha medo dos cavalos, mas gostava de vê-lo cavalgando. Ele o fazia com tamanha maestria… era de fato uma cena bonita de ver.

Mas antes, ele lhe trouxe margaridas e a conduziu por um passeio a pé pelos bosques da propriedade. Foi um passeio tranquilo, a passos lentos, e ele se mostrou tão nostálgico quanto ela, revisitando boas recordações e compartilhando algumas risadas. Foi um passeio florido com muitos beijinhos, mas um passeio breve.

Logo estavam de volta à casa, e na varanda, ele tocou violão e cantou para Agnes, enquanto ela saboreava uma fatia de bolo quentinha e admirava suas margaridas. De onde estava, podia manter-se de olho nos filhos, mas não estava interessada neles. Via apenas seu adorado italianinho, sorridente, belo, dedicando-lhe uma perfeita serenata vespertina. De si para si, ela desejava que todos os dias pudessem ser como aquele.

Gianfrancesco deixou o violão de lado e veio para perto de Agnes. As crianças não estavam olhando, ele aproveitou a oportunidade para dar à esposa um daqueles beijos calorosos que costumam deixar de ser costume em casamentos muito longos, mas isso jamais aconteceria com eles.

E, então, lá foi ele, buscar seu cavalo, e soprou um beijo para Agnes quando passou com o animal ao lado da varanda.

E ela continuou ali, tranquila, apaixonada, vendo-o se afastar.

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