Sutileza (Terminado)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 18/04/22 21:34
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 30
Cap. Postado: 18/04/22 21:34
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 42min a 56min
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[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Romance ou Novela.
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Notas de Cabeçalho

Queria agradecer a quem acompanhou a história até aqui, talvez com raiva e terminando a leitura movido à força do ódio, talvez com carinho e já com saudade antecipada por saber que esse é o capítulo final.

Seja como for, chegou a hora de se despedir de Diana, Agnes e Gianfrancesco. Então boa leitura, boa despedida, e até a próxima história.

Capítulo Trigésimo Sutileza

Cara Lady Tremaine,

Talvez lhe interesse saber que Gianfrancesco morreu há três dias, num acidente em nossa propriedade.

Atenciosamente,

Agnes Winter Di Stefano.

Era agosto de 1920, e a carta datava de uma semana antes. Maria Madalena leu mais uma vez aquelas palavras, que de tão diretas, eram difíceis de serem compreendidas.

Parecia inacreditável que um jovem como Gianfrancesco fosse capaz de morrer. Um rapaz tão bonito, tão alegre e forte, e tão apaixonado pela vida, estava morto. Era impossível acreditar.

Lady Tremaine não chorou, apenas sentiu seu coração ser tomado por uma tristeza delicada. Aquela sensação abstrata que se experimenta quando se vê no jornal um parágrafo debaixo de uma foto e de uma manchete, informando que um artista que se admirava havia morrido na noite anterior, por este ou aquele motivo. Um sentimento que aperta o coração, mas não chega a de fato doer.

Fazia dez anos que não tinha notícias de Agnes ou de Gianfrancesco. E ele passara a fazer parte de seu passado de maneira tão sólida, que era quase descabido sentir qualquer coisa em relação a ele agora. Mas havia sido tão importante para ela um dia, que não sentir nada também seria absurdo.

Respondeu à carta imediatamente. Sinto muito pelo que aconteceu ao seu marido, escrevera. Era tão estanho referir-se assim a um homem que havia sido dela durante dois anos… teve receio de enviar a carta como estava. Talvez precisasse ser reescrita. Mas, depois de muito refletir, pôs a carta no envelope em sua versão original, e a colocou no correio.

A carta, além de prestar condolências, convidava Agnes a fazer uma visita. Mas ficou nas entrelinhas que não se tratava do tipo convencional de visita. Lady Tremaine oferecia a Agnes a oportunidade de fazer um retiro.

Dentro das semanas seguintes, recebeu dois telegramas: o primeiro era a resposta de Agnes, aceitando o convite, e no segundo ela avisava que já se encontrava em Londres e estaria com ela no dia seguinte.

Maria Madalena, naquela manhã, levantou-se ansiosa pela chegada da velha amiga, mas sem saber o que iria encontrar. Quem poderia ser Agnes agora, depois de tanto tempo e tantas circunstâncias novas? Era impossível arriscar um palpite.

A rica senhora Tremaine postou-se no topo das escadas que levavam à porta de sua casa. Era ainda tão bela como antes. O tempo andara acentuado as linhas em seu rosto, como era inevitável que acontecesse, e ela havia decidido abandonar a henna para finalmente assumir o tom prateado de seus cabelos. Mas seria preciso muito mais do que isso para roubar-lhe o encanto.

Normalmente, teria se sentado em sua sala de visitas e esperado que o mordomo abrisse a porta e conduzisse a convidada até lá. Mas aquela não era uma visitante comum. Era sua velha amiga Agnes, tão querida e íntima que qualquer formalidade pareceria ridícula.

Um carro vagarosamente se aproximou, fez as curvas necessárias e parou ao pé das escadas. Demorou um pouco até que as pessoas começassem a sair do carro. O primeiro foi o motorista, que logo se prontificou a abrir a porta de trás e estender cordialmente a mão para ajudar a passageira a descer.

A iluminação do dia e a posição da porta impediam que Maria Madalena visse o interior do carro, mas pôde ver uma mão numa luva preta segurar a mão do chofer, e um pé projetar-se para fora do carro e tocar o chão. Agnes se afastou um pouco do veículo, olhando para baixo para alinhar brevemente o vestido. O grande chapéu negro lhe ocultava o rosto, mas quando ela o levantou para olhar a imponente construção, Maria Madalena se surpreendeu ao ver seu semblante, limpo de qualquer maquiagem, mas viçoso e corado. Não dava pistas de qualquer sofrimento, exceto pelo luto fechado de suas elegantes vestes. O corpo hoje era um tanto maior do que quando se viram pela última vez, e era difícil afirmar que ela tivesse envelhecido um ou dois dias, mas, em uma palavra só, Agnes estava linda.

Já nenhum espartilho apertava as cinturas das duas. A figura era mais reta, e a sensação, mais livre. As saias, encurtadas pelo senso comum, hoje ousavam mostrar os tornozelos. Mas isso não tornava o luto de Agnes menos pesado, menos triste, ou menos negro.

Outro detalhe chamava atenção: as roupas que ela vestia, assim como o número e a qualidade das malas, e a deferência nas maneiras do condutor, deixavam algo bastante claro: Agnes, que saíra dali sem levar nada além de um amor, agora voltava como uma viúva rica.

A segunda surpresa foi ainda maior, ao ver sair do carro três crianças: um menino de cabelos castanhos, uma menina loira, e um outro menino, de cabelos muito pretos. Aparentavam ter exatamente a mesma idade. O terceiro menino, inquieto por natureza, e diferente dos outros dois, muito comedidos, saiu do carro correndo e se divertiu chutando os cascalhos do chão. A voz de Agnes soou firme:

— Smettila! Vieni qui.

A criança obedeceu, contrariada, e os quatro esperaram o taxista pôr a ultima mala no chão para começarem a subir as escadas. A garotinha segurou a mão de Agnes, que a encarou com uma frieza terrível, mas não rejeitou o toque.

O coração de Madame Tremaine mal segurava a vontade apertar Agnes num abraço, e até soltar gritinhos juvenis de alegria, quando ela chegou ao topo das escadas. As duas mulheres se abraçaram antes de qualquer palavra.

— É bom voltar a vê-la.

— Agnes, você está linda! Eu confesso que esperava te encontrar… — parou para procurar as palavras, mas não encontrou. Agnes o fez por ela:

— Destruída, arrasada?

Lady Tremaine confirmou com um silêncio desconcertado.

— Eu estou — fez uma pausa reticente, respirou fundo e acrescentou: — Eu sempre quis voltar a ver minha terra natal, mas nunca imaginei que seria nessas circunstâncias.

Lady Tremaine a abraçou mais uma vez. Agnes sorriu, mas os olhos não puderam acompanhar. Pôs o braço ao redor do de sua antiga patroa, e as cinco pessoas entraram na casa.

A Sra. Di Stefano olhou em volta com certo deslumbramento. Esperava encontrar a casa irreconhecível depois do incêndio, mas tudo estava igual. Toda a mobília e a decoração eram novas, mas isso mal chegava a fazer diferença. Em essência, nada parecia ter mudado por ali.

Ela fechou os olhos e inspirou profundamente o ar daquele palacete magnífico. Tinha o mesmo cheiro que sentira na primeira vez em que pisou ali, quando era ainda uma menina de 17 anos, trazendo apenas seus sonhos, sua inocência, alguns vestidos e uma caixinha de música. Passou rapidamente por suas lembranças a imagem das duas bonecas que comprou com o primeiro salário. Sorriu com aquela saudade inocente. Já levava trinta anos sem que pensasse naquelas bonecas.

Agnes amava aquela casa, e se sentiu acolhida no instante em que pôs os pés ali. Embora diferente em pequenos detalhes, era a mesma casa, impregnada de seu passado. Era a casa de sua juventude, a casa onde se sentira amada pela primeira vez, não por um homem, mas por uma mulher que a compreendeu e aceitou como era, que se importou com ela e a protegeu do mundo hostil debaixo de suas asas. Era a casa onde havia encontrado seu adorado Gianfrancesco, e se apaixonado por ele, onde havia se entregado a ele, e onde ele havia se rendido a ela. Era a casa onde ela havia construído a maior parte do que era hoje. Ela era parte daquela casa, e aquela casa era parte dela. Aquela era sua casa.

E é claro que suas duas residências na Itália estavam repletas de lindas memórias também, mas levaria algum tempo até que a sensação principal deixasse de ser a de que Gianfrancesco não estava nelas. Por enquanto, o melhor lugar para Agnes parecia ser a casa de Madame Tremaine, onde ela podia entrar no salão de baile, ou na sala de música, e estar com ele outra vez, revivendo aqueles momentos que permaneceriam ali, eternizados como pinturas na galeria do tempo.

De perto, Agnes não parecia tão serena como parecera de longe, mas no mínimo podia-se dizer que ela estava calma. A tristeza em seus olhos era praticamente tangível. Agnes carregava uma sombra de angústia muito mais fúnebre do que a velha melancolia a que Madame Tremaine havia se habituado. Estava verdadeiramente desolada, e vê-la assim, trajando luto e padecendo sob tanta dor, tornou toda a sensação muito mais concreta para Maria Madalena, e ela finalmente foi atingida pela impiedosa realidade: Gianfrancesco estava morto.

As duas logo se viram a sós numa sala bem arejada, a se olharem em silêncio, sentadas nas pontas opostas de um mesmo sofá. Jamais uma conversa havia sido tão difícil de iniciar. Agnes retirou o chapéu, deixando à mostra as raízes grisalhas de seus cabelos tingidos, e Maria Madalena disse a primeira palavra:

— Eu admito que não sei como iniciar esta conversa, mas depois de tantos anos, o que eu mais quero é conversar com você — Agnes assentiu, com um sorriso discreto, abaixando um pouco a cabeça, mas não disse coisa alguma — Se preferir descansar por algumas horas primeiro… Eu suponho que a viagem tenha sido bastante cansativa.

— Sim, foi.

— Gostaria de subir, então?

Com um olhar vago, Agnes recusou silenciosamente, apenas balançando a cabeça. Voltou os olhos para Maria Madalena depois de alguns segundos, com uma expressão suplicante no rosto. Ela conhecia bem aquele olhar.

— Vem aqui — convidou a mais velha, de braços abertos — Te dou colo.

Sem qualquer receio, como se viesse esperando por aquilo, Agnes deslizou pelo meio metro que a separava de Madame Tremaine e buscou abrigo em seus braços. Chorou em silêncio por muito tempo, tentando encontrar algum consolo naquele abraço, nos beijinhos que recebia na testa ou no gentil afago em seus cabelos.

Enquanto sentia as lágrimas de Agnes molharem seu colo, o coração apertado de Maria Madalena experimentava uma agradável sensação de familiaridade: ela continuava a mesma, ainda tão frágil, delicada e bela como antes. Algumas pequenas coisas haviam mudado, mas não tinha importância. Sua querida Agnes estava de volta, e precisando dela mais do que nunca.

Ela pensou em dizer que tudo ficaria bem, mas optou por manter o silêncio, e apenas apertou a amiga em seu abraço.

Permaneceram abraçadas durante um longo tempo. Seria natural que todos aqueles anos as tivessem transformado em estranhas, mas entre elas era como se nem um dia se tivesse passado.

As lágrimas de Agnes foram cessando devagarinho. Por fim, de olhos secos, respirava pela boca e ainda não cogitava se afastar de Madame Tremaine.

A Sra. Di Stefano recebeu um beijo no rosto e foi gentilmente conduzida até o quarto que seria o dela enquanto desejasse permanecer por ali. Permitiu-se ser despida de sua armadura negra e vestiu uma acolhedora roupa de dormir — emprestada, porque levaria algum tempo até que suas malas fossem desfeitas —, e teve seus cabelos carinhosamente escovados. Com um zelo de mãe, Lady Tremaine puxou os cobertores sobre sua querida Aggie, e preparou-lhe pessoalmente uma xícara de chá de camomila. Havia aprendido este ritual com Agnes, e agora tinha uma chance de retribuir todo o amor que recebera dela em seus momentos de dor mais profunda.

Depois de deixar Agnes descansando, foi procurar conhecer as crianças. Encontrou-as reunidas numa sala de janelas grandes, de que Gianfrancesco costumava gostar muito. Para um dos meninos, comportar-se adequadamente parecia uma ideia tão abstrata que ele não sabia exatamente como colocá-la em prática, e o outro, sem interferências até podia agir como os adultos esperavam, mas deixava-se levar pelo irmão. Os dois, então, quando viram que eram observados pela dona da casa, imobilizaram-se lado a lado, em formação militar, tão rígidos e inquietos que não puderam parecer outra coisa, senão ridículos. A menininha entrou em formação junto com os irmãos, mas nada nela havia de patético: era uma dama.

— Descansar, soldados — disse a anfitriã, sentando-se no tapete, e convidou as crianças para juntarem-se a ela.

Os dois meninos sentaram-se à sua direita, e a menina à sua esquerda. As pernas dela, esticadas, formavam uma barreira entre a garotinha e seus irmãos. Os pequeninos se apresentaram, revelando à Lady Tremaine os lindos nomes que Gianfrancesco havia escolhido para eles: Vittorio, Amadeo, e Elvira.

Quando viu aqueles três descendo do automóvel, instantaneamente presumiu que tivessem vindo de algum orfanato, mas olhando seus rostos de perto, essa hipótese caía por terra inteiramente. Elvira tinha os olhos e o nariz como os de Agnes, e os lábios idênticos aos de Gianfrancesco. O cabelo, loiro como o dele, era cacheado, como o dela.

Vittorio vinha a ser um rapazinho muito educado e agradável, apesar de parecer não ter certeza disto. Ao contrário de Elvira, que trazia no rosto uma bela combinação de Gianfrancesco e Agnes, Vittorio era todo Gianfrancesco. Até mesmo seus cabelos, apesar de castanhos como os da mãe, eram extremamente lisos.

Amadeo era diferente dos irmãos. Muito bonito, mas não se parecia com nenhum dos dois. Tinha um ar maroto inerente e peculiar, que irritava e conquistava ao mesmo tempo.

Ela decidiu que gostava das três crianças, embora a melancólica Elvira fosse indiscutivelmente sua favorita. Maria Madalena sentia-a olhar para ela com um brilho de fascinação nos olhos. Ela emanava um certo tipo de poesia difícil de colocar em palavras. Uma poesia que se vê, que se sente, mas que não está lá para olhos e sentidos pouco treinados. Era um espetáculo, que enchia os olhos de pessoas como Gianfrancesco, Christopher e Elvira. E apesar de saber que era uma senhora bonita, a própria Maria Madalena tinha pouca noção de seu próprio encanto, mas era inegável a conexão que estabelecia com uma pessoa que fosse suscetível a ele.

Pôs o braço ao redor de Elvira e a trouxe para si, com um afável sorriso em seus lábios. A criança, que até o instante vinha tentando se manter o mais quieta possível, evitando qualquer gesto ou palavra, permitiu-se abraçar a cintura da Sra. Tremaine e apoiar a cabeça em seu peito. Sentiu o coraçãozinho se aquecer de uma maneira tão intensa que teve vontade de chorar de emoção. Finalmente recebia o gesto de carinho que a mãe lhe vinha negando desde o dia da tragédia, e não havia nada no mundo de que ela precisasse mais do que aquilo: um pouquinho de compaixão.

Ela ficou por algum tempo junto das crianças, familiarizando-se com elas e assegurando que se sentissem acolhidas em sua casa. Quando tentou se levantar, seus joelhos a lembraram de que já não era mais tão jovem, e precisou solicitar ajuda:

— Poderiam as boas criancinhas ajudar uma velha senhora a erguer suas ruínas do chão?

O travesso garotinho de cabelos pretos se adiantou a ajudá-la, e ela sentiu que aquela gentileza era uma tentativa de amenizar todas as travessuras que estariam por vir.

— Madame? — Elvira chamou baixinho, alcançando-a no corredor, sem segurança de estar agindo certo ao tocar naquele assunto — Acha que mamãe algum dia vai me perdoar?

— Perdoar pelo quê, meu bem?

— Ah, então ela não contou à senhora o que eu fiz?

— Não. O que você fez?

— Se não se importar, eu prefiro não dizer. Ou a senhora também não vai mais querer gostar de mim, assim como a mamãe, e seria terrível!

— Por que acha que sua mãe não gosta mais de você? Me conte o que houve, talvez eu possa ajudar.

— Não pode, não tem mais jeito. Mamãe não me ama mais. E está coberta de razão.

Elvira abraçou Maria Madalena num gesto desesperado. Sentindo o coração doer, ela se revoltou contra Agnes por fazer uma criança tão doce se sentir assim. Não podia haver motivo no mundo que justificasse aquilo.

Aquele dia e os dois próximos foram conduzidos com normalidade, na medida do possível. Nas poucas vezes em que saiu de seu quarto, Agnes falou muito pouco. Maria Madalena não pôde deixar de perceber que ela e Elvira evitavam uma à outra. Agnes não queria vê-la, e Elvira não queria ser vista. Outra coisa no comportamento de Elvira chamava atenção: seu apego à Madame Tremaine parecia exagerado, já que elas não passavam de estranhas uma para a outra. Elvira dava sinais claros de sentir-se completamente perdida e sozinha no mundo, e estava pedindo socorro.

Enquanto escovava sua longa cabeleira prateada antes de dormir, Diana ouviu um som rouco de passos vindo da porta do quarto. Olhou na direção, e lá estava Agnes, em roupas de dormir, com os cabelos soltos, e o mesmo olhar tristonho de quando tinha 20 e poucos anos.

— Sei que é tarde, mas…

— Não, não é tarde — disse, sem que a amiga precisasse terminar a frase. Deixou a escova de lado e se levantou — Venha cá.

Agnes entrou no quarto, mas a gritante diferença não lhe chamou a atenção. O aposento já não era mais rosa. Tinha uma tonalidade azul acinzentada, muito fria, mas que não remetia à tristeza, como as cores frias costumam fazer. Inspirava a calma que se deita sobre uma tarde depois da chuva.

As duas mulheres se sentaram na cama. Diana puxou Agnes para si, e ela se debruçou sobre seu colo.

— Eu queria conversar, mas acho que não consigo.

— Não precisamos, se não quiser.

— Mas não quero continuar no quarto sozinha. É assustador acordar e encontrar a cama vazia. Eu ainda espero vê-lo todas as manhãs, e fico desapontada. Me sinto desamparada, abandonada, tenho tanto medo… — desatou a chorar novamente, e Diana tentou confortá-la com um afago nos cabelos.

— Exatamente como Elvira deve andar se sentindo — comentou com suavidade, mas sem esconder a crítica que fazia.

Agnes suspirou.

— Elvira… tenho sido horrível com ela, eu sei. Mas não posso evitar. Eu mal consigo olhar para ela.

Madame Tremaine pressentiu que havia muita dor rodeando aquele assunto, e achou melhor não fazer perguntas. Deixaria que ela escolhesse o momento de lhe falar a esse respeito.

— Se não quiser falar agora, pode ficar aqui mesmo assim.

— Posso dormir com você?

— Se não for decepção demais me ver pela manhã…

— Será um alívio me sentir menos só — a voz de Agnes se afinou até desaparecer, mas desta vez não vieram lágrimas. Estariam esgotadas por algum tempo.

As duas velhas amigas acomodaram-se debaixo do cobertor. Não era inverno, mas ali sempre esfriava de madrugada. O frio, ainda que ameno, era inédito desde o dia fatal, e fez Agnes recordar-se do tempo em que o que mais a aquecia durante a noite era o calor do corpo de Gianfrancesco.

— Eu… devo agradecer por ter cuidado dos meus filhos para mim. Eu precisava deste descanso. Acho que não faz de mim uma boa hóspede, apenas me fechar no escuro e sumir por alguns dias, mas você compreende, não é?

— Chorar, às vezes, faz bem.

— Não é isso, é que… eu já não era a mesma. Ainda não me sinto exatamente… é difícil falar. O mundo não é o mesmo. E eu também não consigo ser igual. Estou confusa, me desculpe. Nada do que estou dizendo faz algum sentido.

— Faz, eu também já me senti assim.

— É surpreendente que eu tenha conseguido chegar até aqui. Meu médico me receitou algumas pílulas, mas elas são terríveis. Parecem me afastar de mim mesma, eu me sinto vazia.

— Não são as pílulas que fazem isso, é o luto.

— Eu não as tomo faz alguns dias. Não me sinto melhor, mas… eu mal conseguia me lembrar do rosto dele sem um retrato. Não posso perder a memória dele assim.

— Enquanto estiver aqui, não precisa se preocupar com obrigações ou pílulas.

— Obrigada — um novo silêncio se fez, mas Agnes logo recomeçou: — Você ainda vê o seu fantasma?

— Deixei de vê-lo na noite do incêndio. Depois que Gianfrancesco foi embora, eu tentei de tudo para não perdê-lo também. Convidei médiuns, fiz algumas sessões. Poucas. Lembrei-me de que ele me dizia que não me deixaria enquanto precisasse dele, então entendi que talvez fosse hora de olhar para a frente. E era, mesmo.

— Quando eu olho para a frente, só vejo o deserto.

Maria Madalena não sabia o que dizer. Estivera naquela situação uma vez, e por isso sabia que nenhuma palavra podia amenizar tamanha dor. Então apenas abraçou Agnes e esperou. Esperou que ela dormisse ou que voltasse a falar, mas nenhuma das duas coisas aconteceu. Agnes ficou simplesmente calada, por muito tempo. A respiração, de quando em quando dava sinais de pranto, mas não haviam mais lágrimas a serem vertidas. Maria Madalena acabou caindo no sono, e depois era natural que Agnes dormisse também.

Despertou com a claridade e mais uma vez não pôde ir contra o hábito de buscar Gianfrancesco a seu lado. Não ficou surpresa por não encontrá-lo, tampouco a dor foi menor ao deparar-se com uma antiga amizade no lugar de um espaço vazio. Mas aquela mulher sempre fora para Agnes um sinônimo de refúgio. Não estava mais só, tinha novamente a mão de alguém para segurar. Nada jamais preencheria o vazio que a falta de Gianfrancesco deixava em sua alma, mas ao menos, ali, estava aquecida.

Agnes se sentou, passou as mãos pelos cabelos, levantou-se e foi até a janela. Por um segundo viu, lá na grama, aquele Gianfrancesco jovenzinho perseguindo os pavões, e a imagem se desfez como fumaça.

Elvira se aproximou devagar. Vinha cumprimentar a única pessoa que parecia capaz de amá-la no mundo, e estava ansiosa para chegar, mas já não era capaz de correr. Depois do acontecido, calculava cada passo, como se por simplesmente colocar o pé no chão, pudesse ocasionar alguma tragédia. Mas ao invés de sua querida amiga "tia Maddie", Elvira se deparou com a mãe. Sentia-se horrível por encará-la, queria poder jogar-se aos pés da mãe e implorar por perdão, mas era impossível se ela mesma não se perdoava.

Lady Tremaine despertou a tempo de ver Elvira retirar-se às pressas, e Agnes deixar-se cair sobre o canapé sem encosto que ficava junto à janela, apoiar a cabeça nas mãos e pôr-se a chorar outra vez.

— Agnes, o que há entre você e Elvira? Me diga.

— Ela matou Gianfrancesco! — acusou ferozmente, a voz e o coração carregados de rancor.

Um arrepio percorreu o corpo de Maria Madalena num estalo. Ela sentiu o sangue e as faces gelarem e precisou se aquecer.

— O que está dizendo, Agnes?

— Que se esta maldita criança nunca tivesse nascido, Gianfrancesco estaria vivo agora.

— Como isto aconteceu?

— Os cachorros uivaram, eu devia saber. Não devia ter permitido que ele saísse a cavalo, não podia! Mas, quando nós ouvimos os cães, pensamos que fosse a meu respeito. Ele ficou preocupado comigo, eu fiquei assustada também, mas acabamos nos esquecendo. Pouco depois dele ter montado, os cachorros recomeçaram, e eu ouvi o cavalo e senti que devia olhar na direção dele. Apenas para vê-lo cair das costas do animal e jamais se levantar outra vez. Eu, que tentei tantas vezes, jamais consegui. Ele, num único acidente… se foi.

Maria Madalena fechou os olhos, sentindo uma súbita pontada de dor no peito ao imaginar a cena de Gianfrancesco caindo das costas do cavalo para encontrar a morte contra um chão de terra.

— Mas… o que tem Elvira a ver com isso? — perguntou com delicadeza, tão logo conseguiu se recompor.

— Tem tudo! Você não compreende. Ele era um exímio cavaleiro, jamais teria caído. Se não fosse aquela… criança, se lançar na frente do animal, perseguindo uma maldita borboleta! Por uma borboleta eu perdi meu Gianfrancesco. Por uma borboleta, um… um menino, de 30 anos… — não pôde concluir a frase. Chorava, mas desta vez era diferente. Eram lágrimas de ódio.

— Não foi culpa dela, Agnes… algumas coisas não estão nas nossas mãos, e não podem ser evitadas. Se não tivesse sido ele, teria sido ela.

— Eu preferia. Preferia que ele não tivesse puxado as rédeas, preferia que ela estivesse morta, e ele, vivo.

— E você estaria agora cega de ódio por ele, acusando-o de ter matado sua filha. Não, você não preferia isso. Eu sei que é injusto perdê-lo tão cedo, e você precisa de alguém para culpar. Eu também me culpei pela morte de Christopher no início, achava que se tivesse cuidado melhor dele, teria tido mais saúde, e seu coração não teria parado naquela noite. Mas como eu podia saber? Ele era forte como um touro. Ninguém tem culpa, Agnes. Algumas coisas simplesmente estão escritas. Elvira já perdeu o pai. Não a deixe sem mãe também.

Agnes refletiu sobre aquelas palavras pelo resto do dia. À noite, quando era hora das crianças irem para a cama, ela procurou Elvira e forçou-se a dizer-lhe que não a considerava culpada, mas não conseguiu se desculpar, ou dizer que a amava. Recebeu um abraço que mal pôde corresponder. Sentiu naquele abraço toda a dor e o medo da pobre criança, e não sabia se sofria mais pelo luto ou por ter feito Elvira sofrer assim. De toda forma, na manhã seguinte, nada havia mudado. Continuaram a evitar uma à outra, e assim foi por muito tempo.

As senhoras Tremaine e Di Stefano foram pouco a pouco conhecendo as mulheres que haviam se tornado durante aqueles dez anos, e descobriram que nenhuma das duas era a mesma.

Depois de muito chorar pelo abandono de Gianfrancesco, Diana refletiu sobre algumas coisas, e percebeu que ele sempre tivera toda a razão: estava tão ocupada multiplicando seu dinheiro que mal conseguia ver aquele menino, que esteve lá, clamando por ela durante muito tempo. Ele implorou por receber tanta atenção e carinho quanto lhe dava, até que percebeu que havia outra pessoa disposta a lhe dar o amor que ele queria sem qualquer reserva.

Sua preocupação era com o futuro de Carolyn, mas estava perdendo tanto do tempo que devia estar passando ao lado dela, que não viu solução, a não ser reduzir ao mínimo o tempo que passava administrando suas empresas. Havia perdido Gianfrancesco em nome de sua sede de dinheiro. Jamais se perdoaria se um dia levantasse os olhos para Carolyn e visse uma mulher adulta e desconhecida.

— Em último caso, ora, eu sou Lady Tremaine, afinal. Ainda que um dia não tenha mais nada, eu posso viver apenas do meu nome durante alguns anos, deixando aos poucos a casa cair aos pedaços e vendendo um a um meus itens de valor. Vai ficar tudo bem. É triste que eu tenha precisado perdê-lo para entender isso, mas não se pode voltar atrás, não é?

Então, havia convertido a maioria de seus negócios em barras de ouro que ficavam muito bem guardadas no banco. Em troca, teve a oportunidade de ver de perto Carolyn crescer, dedicando a ela várias das horas de seu dia, não mais somente uma ou duas antes de dormir. Se tornaram grandes amigas, apesar da rebeldia da adolescência de Carolyn não tê-la impedido de causar à sua grande amiga, uma enorme decepção.

Foi terrivelmente duro superar a partida de Gianfrancesco. Madame Tremaine chorou por vários dias, mas chegou um momento em que cessou de se lamentar. Afinal, não fazia sentido uma mulher como ela continuar chorando por um homem que não mais a queria. Em seu íntimo, sempre tinha sabido que aquele romance logo terminaria. Apenas, quando terminou, ela ainda não estava preparada.

Despertou, então, para um novo dia, banhada da luz da aurora, e sentiu-se perfeitamente renovada. Já nenhuma dor a afligia.

Aprendeu a levar a vida com leveza e encontrar alegria na simplicidade das páginas de um livro, nas notas de uma música ou nos latidos de seus cãezinhos. De certa forma, ela sempre soube que esta alegria estava lá, mas era raro que estivesse livre para buscá-la.

Estava livre do passado, livre do fantasma de Christopher. Deixou-o ir e seguiu em frente, sem correntes, sem amarras. Percebeu o quanto era gostoso viver sem apego ao passado, quando o futuro ainda tinha muitas coisas belas a oferecer. Sentia-se mais jovem do que nunca, com mil possibilidades e nenhuma barreira.

Voltou a fazer teatro clandestino com seus amigos da alta sociedade, todos amantes da arte querendo evitar qualquer tipo de escândalo. Faziam suas peças onde pudessem ter público, mas não visibilidade. Porém, as escolhas de Carolyn davam à Maria Madalena uma liberdade a mais, e ela até flertava com a ideia de não mais se esconder. Ter uma carreira de verdade. Por que não? Mas por enquanto era apenas uma ideia. Ser uma "saltimbanca" ainda tinha seu charme.

Depois de Gianfrancesco, não amou mais ninguém. Não era amargura, ao contrário. Estava feliz o suficiente com o que tinha para procurar qualquer outra coisa.

— Agora estou fugindo dos homens. De vez em quando, um tenta me fazer a corte. Deus me livre! — confessou à Agnes, bem humorada, numa daquelas tardes — Os homens jovens são animadinhos demais, e os velhos são uns chatos. De qualquer forma, só estão atrás de uma coisa, e não é aquilo. Também, se fosse, já não tenho mais energia. Christopher hoje teria 71 anos, e não estaria enchendo minha paciência com estes assuntos. Ele era mesmo meu parceiro ideal, em todos os aspectos.

Além de tudo, seria difícil encontrar quem pudesse atraí-la depois dos amores que passaram por sua vida. Depois de Marguerite, Christopher e Gianfrancesco, ela não aceitaria ninguém menos que um príncipe encantado, um poeta, ou uma mulher que fosse a primavera em pessoa. Bastava o pouco de cada um que levava dentro de si.

Havia algo incomodando Maria Madalena como uma pedra no sapato. Carolyn, agora uma alegre mulherzinha de 16 anos, andava radiante com os preparativos e a expectativa de seu casamento que se avizinhava. Estava noiva de um valdevinos, e a mãe estava morrendo com isso, mas não havia nada que se pudesse fazer a respeito.

Tentara impedir o desastre por inúmeras e sensatas razões: por ser contra o casamento ou qualquer outra decisão definitiva à tenra idade de dezesseis anos, por desaprovar o noivo, por ainda não estar certa de que sua criancinha estava preparada para viver sem sua supervisão e arrimo. Também havia um quê de egoísmo em sua resistência, porque ela própria não se julgava pronta para deixar voar sua avezinha e passar a viver num ninho vazio. O orgulho do nome Tremaine não aceitaria facilmente a ideia de entregar a filha a homem daquele tipo, e era terrível deparar-se com a verdade de que todos os esforços feitos por ela para garantir à filha um bom casamento, haviam sido em vão.

Mas Carolyn tinha a correr nas veias a personalidade forte dos pais, e embriagada do vinho doce da rebeldia da adolescência, jamais se curvaria a uma proibição. Num plano calculado com a minúcia de um criminoso, criou o golpe perfeito e deixou a mãe sem qualquer escolha: permitiu-se ser desonrada pelo namorado, mas não bastava. Precisava de uma afronta visível que exigisse medidas urgentes: estava grávida. Agora, ou se casava com seu maravilhoso vagabundo, ou com mais ninguém.

No fundo, Maria Madalena não podia deixar de acreditar e admitir que possuía alguma culpa nisso. Aquele problema havia se iniciado no dia em que deu permissão a Gianfrancesco para instalar-se em sua casa e em sua vida. Não o culpava pela má escolha da filha, mas aos olhos dela a influência do italiano era mais que evidente. Foi o primeiro homem que conheceu e o único com quem conviveu enquanto crescia. Foi seu exemplo. Não podia deixar de nutrir certa admiração por ele, e por fim, ele salvou-lhe a vida. Daquela noite em diante, Gianfrancesco era para Carolyn seu herói, seu ideal. Então ela cresceu e se viu diante de um homem com características como as dele, porém mil vezes mais bonito. Não teve escolha. Apaixonou-se.

Diana achava que, se não tivesse dado tanto espaço a Gianfrancesco em sua vida, se o tivesse deixado na Itália, onde era seu lugar, os passos de Carolyn talvez tivessem tido outro rumo. Ou, talvez, ela tivesse perdido a filha naquela incêndio. Talvez tivesse visto o fantasma naquela noite, então não teria tomado nenhum remédio, e estaria acordada quando Carolyn a chamasse, e o fogo jamais começaria. Talvez, tudo o que aconteceu tivesse acontecido de qualquer maneira. Era impossível dizer, e tarde demais para pensar no assunto.

Agnes, por sua vez, embora escondida atrás de uma parede de dor que ocultava suas mudanças, também estava diferente.

Não era uma mulher tão complexa que suas mudanças fossem difíceis de compreender. Precisava de um amor que colorisse sua vida cinza, e o teve. Realizou seus sonhos de menina: uma casa grande e cheia de filhos e um marido bonito. Precisava ser amada para ser feliz, e foi. De uma hora para a outra, passou a gostar da vida. Voltou a ser a mocinha tola e alegre que tanto irritava o jovem Lorde Tremaine. Aquela mocinha havia-se perdido junto com seus sonhos, e foi reencontrada ainda vagando por eles. Bastou abrir aquela porta para que ela pudesse novamente sair.

Com o passar do tempo, Agnes percebeu que não estava morta por dentro. Tendo o apoio da companheira, que era a única pessoa a quem confiava seus filhos inteiramente, sentiu-se livre para mergulhar em sua dor sem filtros e sem medos, e sofrê-la até a esgotar. Sofrer até não poder sofrer mais, e então parar de sofrer, e começar a ser feliz.

Não foi fácil tomar a resolução de deixar definitivamente a Itália, onde, de certa forma, tinha Gianfrancesco "por perto". Mas quanto mais tempo ficava naquela casa, mais tinha a certeza de que seu lugar era ali, ao lado Maria Madalena, onde as duas amigas poderiam passar seus últimos anos em companhia uma da outra, a tornarem-se velhas "azedas e ressecadas" juntas, como sempre haviam imaginado que fariam. Gianfrancesco podia se contentar com duas visitas a seu túmulo por ano, quando sua dedicada viúva ia deixar-lhe margaridas brancas.

No fim, nada havia mudado, mas tudo estava diferente. Mais unidas do que nunca, as duas continuavam ali, na mesma casa, ainda velhas e ainda sós, mas tudo tinha cor agora. Gianfrancesco havia feito uma passagem rápida pelas vidas das duas, apenas para lembrá-las de que a vida ainda podia ser bela. Ele foi como o brilho do Sol se infiltrando por uma pequena brecha num céu nublado, e realçando todo o cenário com luz e calor novamente.

Como quando alguém triste se debruça na janela num dia triste, e vê cruzar o céu triste um pássaro lindo. Evento tão rápido, mas suficiente para fazer nascer um sorriso.

Maria Madalena, ou Diana, tinha para si a impressão de que, assim como a abandonou, Gianfrancesco teria abandonado Agnes cedo ou tarde. Não achava que ele fosse leviano ou algo do tipo, mas apenas era de sua natureza ser livre. Livre como o vento que molda as dunas do deserto, e intenso como uma tempestade no mar. Acreditava que ele teria amado Agnes até a última gota, e então partido, algum dia, para viver uma nova aventura, ou uma nova paixão, intensa também, irresistível e única, enquanto durasse.

Agnes, por sua vez, jamais duvidou de que teria tido Gianfrancesco a seu lado enquanto seu coração tivesse forças para bater e amá-lo. Ele não viveu o suficiente para que se pudesse dizer qual das duas estava certa.

Entre elas não havia qualquer rancor. Maria Madalena jamais se sentiu roubada ou traída. Não havia perdido Gianfrancesco para Agnes, simplesmente o havia perdido. Ele teria saído de sua vida de qualquer jeito, porque seu lugar já não era mais ali. Agnes não tinha culpa, e Madame Tremaine compreendia isto.

Não havia mesmo muito espaço para Gianfrancesco em sua vida. A paixão que viveram foi fulminante, intensa e repentina como um raio, que, tão subitamente como surge, se desfaz. Pode ser até que deixe suas marcas, assim como foram eternos nos corações um do outro, mas não passava disso: uma marca. No fim, era melhor para os dois que ficassem separados.

Com Agnes, as coisas haviam acontecido de outra forma. Um sentimento sorrateiro que se insinuava por detrás de pequenos gestos de amizade, foi aos poucos se infiltrando, tomando conta de tudo. Assim como uma relva de florezinhas selvagens, a quem os insensíveis costumam chamar de mato. Rebeldes florezinhas, que sempre renascem depois de arrancadas. Florezinhas assim, nascem sem nunca terem sido plantadas. Mas há quem possa dizer que não são lindas?

O que tornava a paixão deles tão sólida, era seu alicerce na necessidade que um tinha do outro: Gianfrancesco precisava ser amado, Agnes precisava amar. Ele precisava de um motivo para viver, e ela precisava ser o motivo de alguém. Gianfrancesco precisava de Agnes, e Agnes precisava de Gianfrancesco.

A ruptura que se formou entre Agnes e Elvira só veio a ser desfeita dois anos depois. A menina habitualmente voltava da escola com duas amigas, mas sempre havia um ponto do caminho em que tinham que se separar. E depois de se separar das amigas, Elvira desapareceu. Agnes entrou em pânico, e a sensação de horror por não tê-la por perto era tão forte, que fez todo o rancor de outrora parecer poeira. Depois de recorrer à polícia, Agnes recorreu a Deus e a todos os santos que conhecia. Não fez nada durante aqueles dias a não ser rezar, chorar e se arrepender de todas as coisas más que havia lhe dito.

Elvira foi encontrada três dias depois, internada num hospital pequeno de um vilarejo distante, sem qualquer identificação. Novamente havia tido a vida posta em risco pela própria imprudência: a ponte sobre um rio não muito manso havia se partido no mês anterior, e uma nova estava sendo construída, mas ainda inacabada, faltavam-lhe os parapeitos. Ela se inclinou para ver o rio correr, e caiu. Lutou contra a correnteza durante algum tempo, mas perdeu. Foi arrastada até parar inconsciente sobre algumas pedras e ser encontrada por uma velha lavadeira. Permaneceu desacordada ainda por dois dias depois de ter sido localizada. A mãe, aflita, não saiu de seu lado até que a viu abrir os olhos.

Seu coração encheu-se de tanto amor e alegria, que ela se deu conta de que nunca havia realmente culpado Elvira pela morte de Gianfrancesco. Estava irada por tê-lo perdido, precisava direcionar sua raiva para algum lugar e Elvira era o alvo mais óbvio. Ela finalmente viu o absurdo em suas atitudes, e condenou a si mesma por ter perdido aqueles dois anos, mas não importava mais. Havia conhecido a sensação de perder Elvira, e agora que a tinha recuperado, jamais se permitiria afastar-se dela de novo.

E o tempo fez a única coisa que era bom em fazer: passar. E aquelas quatro crianças se tornaram mulheres e homens e deixaram o ninho como era esperado que fizessem.

E conforme atravessavam os anos de mãos dadas, as duas mulheres foram se tornando uma amálgama inseparável de vigor e beleza. O amor e amizade que existia entre elas tinha um calor forte o bastante para aquecê-las quando chegaram ao frio inverno da vida, que foi doce como as tardes chuvosas que passamos lendo ao pé de uma lareira.

As crianças que costumavam pensar que Agnes era um fantasma já haviam crescido. As novas gerações jamais imaginariam algo assim ao ver uma senhora tão bela e radiante, tão viva como Agnes.

Quando a mais velha partiu, a viúva do poetinha não sentiu-se só. Viveu seus últimos anos rodeada da linda família que construíra, onde tinha mil pessoas para amá-lá.

Uma vida curta. 30 anos somente. Cumpriu sua missão e partiu, como se tivesse nascido apenas para salvá-las. Cheio de todas as faltas e falhas, havia até quem pudesse dizer que não valia nada, mas o bem que fez àquelas duas senhoras, ninguém jamais terá o direito de negar.

Apesar de todos os defeitos, ele amou Agnes. À Maria Madalena, ensinou lições valiosas, e ela pôde reorganizar sua vida antes que fosse tarde demais para viver.

Gianfrancesco foi um tipo diferente de anjo, dono de vários defeitos e capaz de morrer como um homem comum. Um humilde tipo de anjo, que chegou ali atrás apenas de alguém que pudesse amá-lo tanto quanto ele precisava, jamais tencionando operar tantas maravilhas.

Mas enquanto viveram aquelas duas viúvas, a memória de Gianfrancesco jamais foi deixada de lado, tampouco revivida com tristeza.

Quanto mais se afastava delas na estrada do tempo, mais se aproximava dos anjos, parecendo cada dia mais ter cruzado o caminho delas apenas para operar suas maravilhas, e partir.

E ele mesmo jamais chegara a se dar conta dos milagres que fez. Um anjo, cheio da beleza da juventude, do calor da paixão e de uma despretensiosa sutileza.

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