Sutileza (Em Andamento)
Endora
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 04/10/21 18:07
Editado: 03/12/21 23:48
Gênero(s): Drama Romântico
Qtd. de Capítulos: 10
Cap. Postado: 19/11/21 21:28
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 14min a 18min
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Palavras: 2264
[Texto Divulgado] "What your reason" Todas as coisas possuem uma razão de ser, um destino predestinado. Algumas razoes podem ser belas, outras são terríveis.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Sutileza
Capítulo Oitavo Flores

— Maddie! — exclamou um alto e risonho senhor, ao entrar no aposento carregando um enorme buquê de rosas vermelhas.

Gianfrancesco não gostou de nada naquela situação. Não gostou da forma íntima como ele chamava Diana, uma mulher possuidora de um título de nobreza. Não gostou que Diana não se incomodasse de recebê-lo em seu quarto, e naqueles trajes. Não gostou da cor das rosas, e sobretudo não gostou do tamanho do sorriso que ela deu ao receber os beijos que ele deixou em seu rosto.

— Terrence, faz meio ano que não o tenho visto! Por onde andou?

— Estava na Ásia.

— E me deixou aqui sozinha. Sabe que não pode me abandonar assim, você e Agnes são meus braços direito e esquerdo.

— Espero que o esquerdo seja ela — Diana riu.

— Ora! Me deixe ver essas flores.

Ele lhe entregou o farto ramalhete, que ela segurou com o carinho de uma mãe que segura um recém-nascido.

— São lindas. Obrigada — enterrou o nariz nas flores e desfrutou do perfume delas.

Ele se sentou na cama e segurou uma das mãos dela entre as suas.

— Mas eu fiquei muito preocupado ao saber que estava tão doente que nem podia sair da cama. Que foi que houve?

— Nada, já passou. Eu não estou doente, apenas um pouco debilitada.

— Você sempre diz que não foi nada e já passou. Ela disse isso a você também, não foi? — perguntou a Gianfrancesco, que respondeu com um movimento da cabeça — Qualquer dia cai morta por uma coisa que "não foi nada e já passou".

— Que horror, vire essa boca pra lá! Eu vou viver mais que vocês todos.

— Mas você não disse que não vive sem mim e Agnes? Tem que morrer antes de nós dois — finalizou com uma risada travessa.

— Eu dou meu jeito, vou pensar em alguma coisa. Você tem que vir aqui às escondidas, qualquer dia desses. Na calada da noite, assim... Pra nós falarmos de negócios. Porque se Agnes descobre que estou me preocupando com trabalho, coloca você num saco e te joga lá na estrada — os dois riram muito disso. Terrence disse, depois de recuperar parte do fôlego, mas ainda rindo:

— Podemos fingir que estamos fazendo amor.

— Ela também te jogaria no lixo por isso.

— Podemos fingir que estamos fazendo tricô — sugeriu, movimentando um par de agulhas imaginárias em suas mãos.

— Isso ela permitiria, mas não seria crível — riram mais um pouco, ela cessou seu riso com um suspiro, e mudou de assunto: — Eu já devia ter apresentado vocês dois, que feio de minha parte. Terrence, este é Gianfrancesco Di Stefano, alguém que eu conheci na minha viagem à Itália — Terrence encarou Diana com um olhar maldoso, e ela desviou, encabulada — Gianfrancesco, este é o Dr. Terrence Wright. Meu advogado e um dos meus amigos mais antigos e íntimos.

Os dois homens trocaram um aperto de mãos com palavras clichês, e Gianfrancesco se levantou, pediu licença e saiu do quarto. Não podia sustentar aquela situação nem por mais um minuto. Detestava a proximidade física com que os dois conversavam e as mãos dele segurando a cintura de Diana. Saiu dali antes que fizesse uma cena terrível, arrancando à força o homem de perto de Diana e o empurrando para fora pela janela.

Começou a descer as escadas e se deparou com uma figura no andar de baixo. Parou e olhou fixamente por algum tempo, na tentativa de identificá-la.

— Por que está me olhando desse jeito?

— Agnes? Desculpe, eu vejo muito mal. Só estava tentando identificar quem via. É mesmo você que eu procuro — terminou de descer as escadas.

— Precisa de algo?

— Eu decidi comer na cozinha. Onde é?

— Não vai querer comer na cozinha, é movimentada demais. O senhor não preferiria comer no jardim?

— Tanto faz. Pode ser.

— Me acompanhe, por favor.

No andar de cima, a conversa continuava:

— A julgar pelo que vestia, presumo que seja uma nova paixão.

— Ah… é. Foi muito inesperado, mas eu estou tão, tão feliz! — suspirou alegremente.

— É bom que esteja finalmente voltando a viver, depois de Christopher ter partido.

— Eu vivia. Só não amava.

— Não existe vida sem amor, Madalena. Sei que você sempre teve sua filha e seus animais e amigos…

— E memórias…

— … a quem direcionar seu amor, mas nada disso substitui.

— Olha quem diz. Está viúvo há 15 anos. Espero que tenha aproveitado esta viagem para cuidar do seu coração. Você tem estado muito sozinho desde que Margaret morreu. Eu preciso voltar a amar, mas você não precisa?

— Mas eu amo. Eu só não sou amado em troca.

— Esta tal mulher ainda? Você nunca vai me dizer quem é ela?

— Quando ela for minha, você saberá quem é. Até lá, o único que saberá do meu fracasso, sou eu.

— Você bem que poderia olhar para Agnes…

— Eu e Agnes? Que piada! Eu não me surpreenderia se um dia descobríssemos que ela morreu há cinquenta anos — eles riram.

— Terrence, não seja perverso. A pobrezinha ainda é tão bonita…

— Então, ela esconde isso muito bem. Imagine a noite de núpcias, nós dois sentados nos encarando, sem a menor ideia do que fazer um com o outro. Mas pensando melhor, não seria de todo um mau negócio. Magrinha como é, deve comer muito pouco, e sustentá-la sairia bem mais barato que pagar o salário da minha governanta. Vou fazer o pedido agora mesmo — levantou-se, voltando logo a se sentar, divertindo-se com a própria piada. Fez um pequeno esforço para parar de rir e mudou de assunto: — O rapazinho parece ter ficado enciumado.

— É… não tem importância, depois eu converso com ele. Ele entenderá.

— Eu acho que já vou indo.

— Por que tão cedo?

— Eu tenho que ir ao escritório, ver as crianças...

— Crianças? O mais jovem tem 17 anos.

— E Carolyn é mais madura que ele.

— Sabe que Christopher me disse que você viria?

— Ele ainda vem te ver, não é?

— Ele me prometeu que jamais me abandonaria enquanto eu precisasse dele.

— Isso me dá arrepios, sabe? É macabro… mas é bonito — ela deu um sorriso triste.

Ele se despediu carinhosamente e deixou o aposento.

Gianfrancesco tinha um sanduíche nas mãos e outro no prato à sua frente. Comia mecanicamente, sem conseguir parar de pensar nos dois lá em cima, e no que poderiam estar fazendo. Os tipos de conversas que estariam tendo. Até que esses pensamentos foram subitamente interrompidos por Terrence, a se sentar na cadeira à frente dele.

— Gianfrancesco, não é?

— Sim.

— Há quanto tempo estão juntos?

— Por que isso é da sua conta?

O advogado ergueu as sobrancelhas.

— Mas que rapazinho mais arisco. Eu só estou tentando ser amigável, porque eu vivo por aqui, sabe? E já que a partir de agora você é mais um dos souvenirs de Lady Tremaine, parece que vamos nos ver muito. É bom que saibamos conviver, e eu percebi sua aspereza com relação a mim no momento em que entrei naquele quarto.

— Eu não gosto de ver outro homem tocando na minha mulher e a enchendo de flores e beijos. Se você respeitar estes limites, não teremos problemas.

— Sua mulher? Bendita seja a ingenuidade dos jovens! Ela disse a você o quê? Que é o primeiro desde que o marido morreu?

— Eu acredito nela.

— Todos acreditam. E tem como não acreditar numa história bonita como esta? — Dr. Wright se levantou e chegou mais perto de Gianfrancesco — Aproveite este conselho, rapaz: tire dela o máximo que puder e caia fora antes que ela o descarte.

Bagunçou os cabelos de Gianfrancesco como se ele fosse um garotinho de cinco anos e partiu, levando consigo o apetite do jovem. O italiano voltou ao quarto de Diana, que ainda tinha suas flores no colo, e fechou a porta sem trancar.

— Escute, Diana. Eu não quero mais que você receba visitas daquele homem vestida assim.

— Por quê? Ele já me viu assim tantas vezes, não tem importância mais. Ele é da família, meu marido e ele cresceram juntos.

— Eu só não quero, está bem? Você não pode fazer isso por mim?

— Mas que besteira… já éramos amigos muito antes de você nascer.

— Mas eu nasci, agora estou aqui e não quero mais isso!

— Está bem, vou me vestir direitinho quando ele vier aqui a partir de agora. Está bem assim?

— Está. Me dê estas flores, eu vou jogá-las no lixo.

— Ah, isso não!

Ainda exaltado pela conversa no jardim, não soube conter o impulso de ir pegar as flores à força. Não tocava em Diana, apenas nas flores. Sua agressividade jamais seria direcionada a ela, o alvo eram as rosas em suas mãos. Somente as rosas, por serem um símbolo da afronta de Terrence. Mas ele não pensou que isso pudesse magoá-la também.

Ela gritou por Agnes e tentou defender suas flores como pôde, mas desistiu e deixou que ele as tomasse. A governanta entrou no quarto para ver Diana chorando e pétalas das rosas espalhadas por todo o chão e a cama.

— O que foi que você fez?! — correu até Diana e a abraçou — O que ele fez? Bateu em você com as flores?

— Ele destruiu minhas pobres rosas.

— Querida, me desculpe — pediu arrependido, devolvendo as rosas desmanteladas — Eu não queria fazê-la chorar. Você pode ficar com as suas rosas.

— Imbecil, saia daqui! Olhe o estado em que a deixou! Ela saiu do hospital ontem, não pode se exaltar.

— Mas… são só flores. Eu posso comprar outras.

— Saia daqui, saia! — Agnes insistiu, e ele saiu, deixando o que restara das flores aos pés da bela criatura.

Ficou esperando ao lado da porta, sentindo-se muito mal por aquilo tudo, enquanto ouvia o lamento de Diana sobre as flores destruídas e as palavras de consolo da outra mulher. Ouviu palavras sobre vida, beleza, respeito e sobre cada flor ser única. Agnes saiu do quarto como se não o visse, e ele voltou ao aposento, onde encontrou Diana de olhos vermelhos e um pouco inchados.

— Me perdoa, Diana? Eu fui horrível. Me perdoa, por favor.

— É tão triste vê-las desse jeito!

— Eu não imaginei o quanto eram importantes para você, me perdoe. Eu imploro. É meu primeiro dia aqui e já causei todo este desconforto. Me perdoe, nunca vai se repetir.

— Tudo bem.

Ele abraçou Diana e não disse mais nada.

Choveu durante a noite, mas não foi uma tempestade. Mesmo com Diana dormindo como uma criança a seu lado, Gianfrancesco teve dificuldades para pegar no sono. Não conseguia deixar de olhar para todo canto a todo instante, para se certificar de que não havia nenhum fantasma a observá-lo. Muitas vezes se assustou com os contornos obscuros dos objetos e móveis. Quando a chuva cessou e ele pôde ouvir as corujas cantarem, o cenário todo se tornou ainda mais sinistro. Mas houve uma hora em que adormeceu sem perceber.

Despertou surpreso por ter conseguido dormir, e por um breve instante acreditou que se veria dentro de um vagão sujo, mal acomodado no meio de sacos, caixas e barris, ou num decrépito quarto de hotel, entre lençóis encardidos e paredes mofadas, e não quis abrir os olhos. Mas teria de abri-los, cedo ou tarde. Abriu. Viu-se no paraíso cor-de-rosa do quarto de Diana. A primeira imagem embaçada que se apresentou a seus olhos verdes foi um teto pintado com pequenas figuras coloridas, que ele imaginou que fossem flores.

O som que ouvia era o do mar, do canto dos pássaros e do vento nas árvores. A seu lado, no lugar de um homem cheirando a suor dormido, encontrou Diana, cujos cabelos e pele tinham perfume de flores. Ele chegou mais perto da mulher e aspirou o perfume de seus cabelos. Não tinha porque lutar contra a vontade que sentia de beijá-la toda.

Ela acordou sentindo o rapaz beijar seus joelhos, e se espreguiçou antes de dizer bom dia.

Buongiorno, amore mio — respondeu ele, e beijou a mulher nos lábios.

— Não me venha com essas idéias hoje, por favor.

— Que ideias, Diana?

— Não tem nenhuma intenção por trás de todos esses beijos?

— Tem a intenção de beijar você.

Beijaram-se mais uma vez, e ele pousou a cabeça no peito de Diana. Sentiu seus longos e delicados dedos acariciarem seus cabelos.

— Ainda me sinto mal por ontem.

— Houve uma certa imaturidade de sua parte, mas acho que não posso cobrar maturidade de você. De qualquer forma, já passou. Esqueça.

— Não é um bom jeito de começar um convívio, é?

— Não. Mas já passou.

— Eu queria jamais ter te feito chorar.

— Eu não sei porque chorei. São apenas rosas, afinal. Esqueça isso, está tudo bem.

Diana ia fazer uma pergunta, iniciando um novo assunto, mas o momento a dois foi interrompido por batidas na porta.

— Madame? Está acordada? Trouxe seu desjejum.

— Estou, Agnes. Pode entrar.

Se os olhos de Gianfrancesco não fossem tão fracos, teriam visto a maneira com que Agnes olhou para seu peito despido ao entrar no quarto pela manhã, e como a respiração dela mudou com isso. Foi um olhar que Diana não conseguiu não perceber. Mas apesar disso, ela foi condescendente.

Alguns dias se passaram, e as dificuldades do mês anterior cada dia mais pareciam distantes, como a lembrança vaga que sobra de um sonho horas depois do despertar. Mas ele não se esquecia da sensação constante que tivera enquanto durou aquele período de se levantar antes do Sol, ainda cansado pelos esforços do dia anterior, com o corpo dolorido castigado por um miserável colchão de palha, ou pelo assoalho sujo do vagão de um trem, de que o mundo era grande demais para ele, e de que não estava pronto para enfrentá-lo ainda. Queria ficar para sempre ali, debaixo das asas de Diana, onde era quente, calmo e seguro.

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Comentários (1)
Postado 23/11/21 18:28

Vou dizer... Talvez a Diana só esteja brincando com o Gian e nada disso seja amor, apenas diversão. Sinceramente isso me deixaria pasma, porém não tiraria a razão dela, afinal ele é muito imaturo (a cena das rosas só prova isso e se tem algo que não suporto é homem mais novo que acha que é proprietário da outra pessoa). Vejamos como tudo virá a se desenrolar!

Obrigada por compartilhar conosco!

Parabéns, Endora ♥

Postado 24/11/21 10:03 Editado 24/11/21 10:04

Ou existe a possibilidade de que o Dr. Wright esteja sendo simplesmente venenoso kkkkkkk

Coitado do Gianfrancesquinho, ainda ontem tava usando fraldas, como a gente pode esperar que ele já esteja pronto pra administrar uma mulher do tamanho da Diana? Kkkkkk

Sem falar que, ele sendo um homem que nasceu no século XIX, com a criação que recebeu não deve ser tão fácil lidar com uma mulher tão à frente de seu tempo como é a Madame Tremaine. Buga o cérebro dele kkkkk Só digo que ele vai ter que rebolar muito ainda.

Obrigada, querida ❤