Até Eu Te Perder (Parte 1) (Em Andamento)
Sabrina Ternura
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 17/10/21 02:25
Editado: 27/12/22 00:03
Qtd. de Capítulos: 7
Cap. Postado: 27/12/22 00:03
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 31min a 41min
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Não recomendado para menores de catorze anos
Até Eu Te Perder (Parte 1)
Capítulo 7 Tempestade de Ternura

Querido leitor, é uma decisão quase unânime entre os moradores das dimensões que os desentendimentos divinos são os mais temíveis, pois podem terminar com a destruição de um universo inteiro com um estalar de dedos. Todavia, o casal Calígula discorda com veemência desta afirmação e diz que, de todos os conflitos, aquele que acontece entre amigos sempre poderá ser mais potencialmente destruidor, tendo em vista que magoar um amigo implica, necessariamente, em destruí-lo.

Não é segredo para ninguém que uma certa Deusa tem o costume de designar tarefas difíceis a um certo Líder Infernal, porém tudo mudou após a chegada da pequena Imperatriz*. Apesar da amizade deles ter permanecido, algo entre os dois ruiu, tendo em vista que ambos sabiam que o desígnio teria consequências dolorosamente sombrias.

Para falar sobre o presente é necessário recorrer ao passado, afinal o que é o agora se não um aglomerado de escolhas do antes? Portanto, vamos fazer uma viagem para antes do nascimento da Trindade do Apocalipse; para o momento em que a família Infernal ainda não estava completa, mas que quase não chegou a existir; para quando esta divindade pediu ao seu amigo que fosse o Guardião de uma de suas faces.

Antes da Gênese…

Antes de Garraduende…

Havia um ser infernal amigo de uma estranha divindade que costumava a se esquecer e que sempre lhe dava fardos maiores do que ele poderia carregar…

— Você só pode… estar brincando com a porcaria da minha cara, sua deusa maldita! — Esbravejou Diablair, encarando com incredulidade e raiva a mulher negra de vestes alvas. — O que aconteceu com a Imperatriz não foi o suficiente para lhe ensinar que eu não estou apto a ser o Guardião de ninguém?

— Você não está apto ou não quer? — Ela rebateu com uma arrogância velada, encostando o dedo indicador no peito dele, revidando com o gesto o ataque raivoso que lhe fora direcionado. — E o que aconteceu com a Imperatriz deveria ter ensinado a você, ilustre Lorde Infernal, a tomar as decisões certas desta vez.

— Como eu poderia ter tomado as decisões certas, sendo que você simplesmente jogou em meus braços aquela criança envenenada e desapareceu**? — Devolveu ele com acidez, enquanto sentia um crescente bolo se formando em sua garganta, pois ele sabia que sua fala não era justa: a amiga tomara tal atitude simplesmente porque, naquele estado primordial, a Imperatriz poderia vir a denunciar a sua localização ao ser celeste que insiste em persegui-la. Entretanto, ele não conseguia parar e prosseguiu a afronta injusta ao mesmo tempo que empurrava com seu tórax o dedo da mulher: — Como eu poderia tomar as decisões certas agora, sendo que você pretende que eu seja Guardião da sua face boazinha, a que cria jardins de florzinhas enquanto anda, a que tem fadinhas ao redor da cabeça, a que chora vagaluminhos? Você mais do que qualquer outra pessoa deveria saber que eu sou incapaz de tolerar, conviver e suportar a sua bondade, Ternura… quer dizer, Téthis.

No mesmo instante, Diablair fechou os olhos com força, arrependendo-se amargamente do que havia dito. Se fosse possível, ele engoliria todas as palavras que pronunciara para trancá-las em um lugar que ele mesmo faria questão de esquecer. O dedo, outrora levantado, tombou abruptamente, assim como a voraz coragem que inflamava as íris multicoloridas de Téthis. Agora, apenas um olhar enevoado encarava o Lorde Infernal e o mesmo iria vagar como um fantasma pelas memórias dele por um longo tempo, pois se os olhos realmente são as janelas da alma, naquele momento ele viu o que era destruir com as próprias mãos o âmago de uma amiga.

— Espere, eu não quis di… — Começou ele a se reparar, porém foi interrompido por um imperativo levantar de mão da mulher.

— Eu não sabia… — Sussurrou Téthis com amargura, abaixando a mão. — … que a minha existência era uma forma de ofensa a você, Diablair.

Ao ouvir a resposta, o Líder Infernal sentiu um gosto azedo em sua boca, como se ele estivesse se forçando a tomar um veneno ao ter se colocado nesta situação. A mulher se afastou e caminhou até o olho d’água de seu Jardim. Ali ela permaneceu por alguns minutos e, em completo silêncio, parecia contemplar a bonança das águas para trazer a calmaria necessária ao seu espírito tempestuoso. Pablo e Fubuki se aproximaram de Diablair e sua cunhada lhe sussurrou em tom de reprovação:

— Sei que você é meio cabeça quente, porém de todas as porcarias que você poderia dizer, não havia uma menos pior? Ela lhe pediu para ser o Guardião de uma criança adorável… — Diablair encarou Fubuki com tanto ceticismo acerca do adjetivo usado que ela se corrigiu: — … certo, de uma criança extremamente adorável e completamente diferente de você, não te forçou a gerar e dar a luz. Por que você está tão irritado? Você só teria que lidar com uma versão pequenininha da Téthis.

— Ser o Guardião de uma das faces dela e ser amigo dela são coisas totalmente diferentes, Fubuki. — Justificou o Lorde Infernal em um sussurro, totalmente irredutível.

— Meu irmão, sou a pessoa presente que mais tem motivos para não estar aqui por conta de meu passado desastroso com Téthis, mas talvez você não tenha entendido o porquê disso tudo. Então a escute antes de tomar quaisquer atitudes das quais certamente se arrependerá. — Sussurrou diplomaticamente Pablo, tentando apaziguar a situação.

Téthis, ainda encarando as águas, passou a esclarecer seu ponto de vista com a voz pacífica:

— Há muito tempo atrás, você me disse “você é a porcaria de uma deusa, Ternura, haja como tal”*** e pela primeira vez estou caminhando para isso, só que do jeito certo. Você mais do que qualquer um sabe que cometi todos os erros possíveis como deusa, porém não pretendo persistir neles agora que me lembrei de tudo e sei que tenho minhas responsabilidades como divindade. Você será o Guardião dessa criança, Diab, e por mais poderoso que você seja, não há como derrotar aquilo que já foi escrito pelo Destino. Portanto, não estou pedindo que você cumpra o seu papel, estou te alertando. — Ela se virou para ele, enquanto acariciava sua barriga que denunciava uma gestação avançada. — Não peço que você entenda o que significa a bondade, mas, sim, que mostre a essa criança o quanto ela depende dela.

— O que você quer dizer com isso? — Questionou Diablair, intrigado, arqueando uma sobrancelha.

— A mamãe quer dizer — Disse uma voz lamuriosa vinda do olho d’água, a qual o Líder Infernal reconheceu sendo a de Tristeza. — É que a Ternura vai te dar muito trabalho não só porque virá na forma de bebê, mas também porque sem ela, eu e a Tortura não podemos existir.

— A luz é a única coisa que sempre está ao nosso alcance e é por isso que desdenhamos tanto dela, afinal, tudo o que está diante de nós não há valor. Contudo, quando a luz se apaga, o que sobra? — Inquiriu a voz de Tortura de dentro do buraco escuro do largo tronco da árvore central do Jardim. — A luz da Ternura advém de sua bondade e a sua bondade vem de sua humildade em reconhecer a força da natureza. Sem a luz dela, não existe a escuridão, que justamente sou eu. E sem a luz que acolhe a natureza, não há água para a Tristeza existir.

— Então, vocês estão dizendo que a mais nova de vocês é a mais forte? — Indagou o senhor Calígula, sentindo-se cético acerca do que havia acabado de ouvir.

— Você não acha imprudente entregar tanto poder a uma criança, Thétis? — Afrontou Diablair, ainda não convencido de seu papel como Guardião da menina.

— Sim, extremamente imprudente, só que não foi algo que eu pude evitar de acontecer… A Ternura é a Energia Primordial da Natureza, afinal de contas. O meu poder de controle da natureza apenas foi atraído para o núcleo do poder dela. — Respondeu com sinceridade a divindade, aproximando-se do Líder Infernal. — A questão é que essa criança carregará um fardo maior do que poderá carregar, se seu corpo e o seu espírito não forem treinados devidamente. Você já tentou aprisionar um relâmpago em uma garrafa, Diab?

— Não, mas vi que é algo que poucos conseguem fazer. — O homem negro respondeu.

— Sim, porque canalizar um elemento da natureza é algo raro, requer um controle mais que perfeito e uma energia ancestral de nascença. Afinal, como domar o indomável? — Thétis parou por um momento e encarou o fundo das íris escarlates do amigo. — Se ela não for treinada, o corpo de Ternura será a garrafa e o poder dela será o relâmpago… Ela pode gerar vida e ela pode morrer por causa disso. É a lei da justiça exercida pela natureza.

— E se eu falhar? — Questionou abruptamente Diablair.

— Sua humanidade escondida pode te fazer falhar, mas aquele que habita o Vazio e governa a crueldade jamais falharia.

— Você… — Começou o Líder Infernal, porém, tomado pela descrença, interrompeu-se. Após alguns segundos em silêncio, ele travou o maxilar e continuou, tentando conter a própria raiva: — Você quer que eu coloque o True para treinar essa garotinha? Acredito que ele começará bebendo o sangue da criança no próprio crânio dela.

— Nós podemos encontrar um meio de segurá-lo, para que não aconteça com ela o mesmo ocorreu com a Imperatriz. — Sugeriu Pablo, enquanto acariciava freneticamente sua barba com a mão, refletindo sobre como eles poderiam fazer isso.

Precisa ser ele e aqui entra o segundo motivo: por ser muito boa, a Ternura pode ser muito má. A inocência dela alimenta seu poder, mas, ao mesmo tempo, também pode trazer a sua ruína. — Ela explicou com uma preocupação tão palpável que compadeceu um pouco o espírito de Diablair, afinal ele só havia visto aquele nível de aflição nos olhos de Thétis durante o parto dos fetos natimortos das trigêmeas. — Em algum momento, o Caos vai se aproveitar disso, Diab… E se a escuridão dele corromper a luz da Ternura…

A mulher parou de falar e mordeu os lábios para conter a angústia que sentia apenas por imaginar o estrago que seria caso isso acontecesse. Ela acariciava energicamente sua barriga, como se o gesto pudesse afastar todos os males da filha. Notando que a mãe encontrava-se em um momento pessoal e compreendendo o medo dela de, novamente, perder as filhas, Tortura continuou a explicação:

— Se a escuridão dele corromper a luz da Ternura, a consequência será em escala universal.

— Com trinta infernos!!! — Exclamou Fubuki em um sobressalto.

— Não sobrará nenhum inferno para ser chamado em vão, senhora Calígula, caso ocorra um apagão universal, porque até mesmo o brilho do fogo morrerá. — Falou Tristeza, soltando uma risadinha infame. — Nós não sobrevivemos sem a Ternura, mas ela facilmente consegue viver sem nós.

— Espera… — Interrompeu Pablo, chamando a atenção de todos. — Então significa que vocês só são imortais por causa da Ternura? — Tristeza e Tortura não possuíam um corpo e muito menos um rosto, mas o silêncio que pairou sobre o Jardim da Deusa após essa perguntar ecoar, fez com que o senhor Calígula pudesse ver nos olhos escondidos delas que ele havia descoberto algo que deveria continuar secreto. Por associação, ele fez uma outra pergunta que trouxe ainda mais tensão ao ambiente: — E o Caos sabe disso, não é?

A quietude, novamente, trouxe uma resposta afirmativa. A turbulência das revelações, hipóteses e angústias de Téthis refletiam em seus domínios, fazendo não só com que a luminosidade da água que flutuava no Céu Profundo escurecesse, como também fez as flores de Lágrimas de Sereia de seu vestido começaram a se fechar e encolher. Percebendo que a situação era mais grave do que o esperado e considerando a explicação dada por sua amiga acerca do motivo da escolha de Diablair como Guardião, ele falou:

— Então, ao treinar a menina e expô-la para além de seus limites, ela conhecerá através da dor a importância de sua própria luz… A única coisa que não entendo é essa disparidade de maturidade entre vocês.

— Diablair, a Ternura não é a irmã mais nova à toa. — Disse Tristeza, soltando sua característica risada infame nos momentos de tensão.

— Enquanto eu e a Tristeza somos formas primordiais, a Ternura é uma energia primordial, ou seja, nós somos fragmentos da existência dela. Além disso, ela existe a mais tempo do que nós duas, o que a torna nossa irmã mais velha. — Pontuou Tortura.

— Isso só aumenta a complexidade de entendimento dessa situação. — Afirmou Fubuki. — Se ela é a mais velha, então porque está nascendo por último?

— Porque ela é forte e um poder latente como o dela leva tempo para ser gerado, mesmo que por uma divindade. — Explicou Téthis, saindo de seu torpor de preocupação.

— Mas se ela é tão poderosa, por que virá ao mundo em uma forma tão impotente? Tão… subestimável? — Questionou Diablair, sem compreender, andando de um lado para o outro.

Tortura e Tristeza deixaram escapar um riso baixo de satisfação, pois já tinham conhecimento da resposta. Percebendo a inquietação de Diablair por causa da dúvida, Téthis se aproximou dele e, com um sorriso gentil, propôs:

— Por que não se torna o Guardião dela e descobre?

O homem respirou profundamente em uma tentativa de apaziguar em seu âmago a potência do dilema em que se encontrava. Ele conhecia o sabor amargo do erro e estava cansado de degustá-lo: para Diablair, havia um limite para se errar e ele sabia que já o ultrapassara há muito tempo. Ir além disso significava ter mais sangue inocente em suas mãos e ele estava cansado de lidar com os próprios fracassos. Mesmo que ele estivesse destinado a ser o Guardião daquela criança, ele encontraria um jeito de burlar o destino, mas… aquela dúvida o assombrava e aquela estranha sensação que formigava em seu peito toda a vez que olhava para a barriga de Téthis o assustava. Ele lentamente moveu as mãos em direção ao alvo que tanto o intrigava, como se estivesse atraído pela vida que ali se formava, porque mesmo que só pensasse nos inúmeros motivos que possuía para partir, ele não conseguia simplesmente verbalizar o assombro que sentia quando pensava em deixá-la. Diablair, entregue a sua confusão, simplesmente ficou paralisado, porém Téthis ajudou-o e colocou ambas as mãos dele em sua barriga.

Assim que o toque ocorreu, o chão não se abriu abaixo de seus pés, muito menos seu coração saltou de alegria. Ele apenas sentiu uma serenidade imensa… tão grandiosa que pensou que seria engolido por ela. Sobre suas mãos banhadas de sangue, ele sentiu um movimento vindo de dentro da barriga de Téthis, que pareceu um cumprimento silencioso. Sobre suas dúvidas, ele ouviu um chamado simplório, como caminhar descalço sobre a grama. Sobre sua hesitação, ele viu mais do que uma chance de salvar aquele universo, mas também a oportunidade de salvar uma menininha pequena com um Dom grandioso. O sutil movimento transformou-se em um chute e ele sentiu um transbordar imediato de vida, assim como vislumbrou o flash de um momento passar por seus olhos: o rosto de uma garotinha com um sorriso banguela, que tinha cabelos marrons claros e encaracolados como se houvessem nascido para ser escorregadores de fadas que estavam achatados por um chapéu de caubói e íris lilases que pareciam ter dado origem a todas as flores do universo. Ela surgiu e desapareceu mais depressa que um respirar e ele encarou com confusão sua amiga, que esclareceu o que havia acabado de ocorrer:

— Isso foi a lembrança de um futuro que ainda não aconteceu.

— Esse é o jeito da Ternura de se comunicar. — Refletiu com amorosidade Tortura de dentro do tronco da árvore. — Eu costumava a odiá-la e a subestimá-la no início, bem antes disso tudo se formar… Até que ela me mostrou que todos nós podemos ser imensos, apesar da nossa pequenez.

— A Ternura é simplória, Diab. Ela não costuma elaborar grandes discursos e às vezes tropeça nos próprios pés enquanto anda e pede desculpas ao solo no processo e chora por galhos de árvores que se partem ao cair, mas ela uma vez me disse que todos nós somos misteriosas constelações de vazios e que é por esse motivo que precisamos ser bondosos, afinal nunca sabemos a dor que impulsiona o brilho das estrelas de alguém. — Falou Tristeza com a voz trêmula, como se estivesse contendo o choro. — A Ternura pode nascer pequena, porém ela sabe ser imensa… bem mais do que eu que sou um infinito oceano, bem mais do que a Tortura que é a escuridão que nunca termina.

[...]

— Existe um modo de salvá-la, caso ela entre em contato com a escuridão? — Questionou Pablo com o semblante preocupado.

— Sim, através de um artefato que ela mesma me ajudou a criar. — Explicou Téthis. — A garrafa com os Quatro Ventos de Éolo contém o elemento ar, sendo este um dos pilares do poder da Ternura. Ela abdicou dele e o inseriu neste recipiente, como um sacrifício, para que o mesmo possa ajudá-la na hora fatídica.

— E onde esse artefato está? — Perguntou Fubuki.

— Ninguém sabe o paradeiro da garrafa, porém aparentemente meu filho, Blake, está destinado a encontrá-la, como Tristeza profetizou. — Disse Catharina, ainda cercada pelos meninos de tamanhos diferentes, mas com as mesmas feições.

Quando aquele vestido pela escuridão caçar, o ar engarrafado ele há de encontrar. — Tristeza pronunciou em um tom exacerbadamente profético, fazendo com que Mama Oudin batesse o galho que usava de bengala na água para repreendê-la, pois tal ato soou como blasfêmia para a mais velha.

[...]

Aceitando silenciosamente o pedido de Diablair, todos os presentes e recém-chegados se afastaram, oferecendo privacidade para ele e Téthis. Entretanto, mesmo possuindo o espaço que precisava, o Líder Infernal não conseguia organizar as palavras de modo que as mesmas possuíssem uma coerência, tendo em vista que, para ele, aquela situação toda não fazia-lhe sentido algum. Mesmo imerso em confusão, ele pigarreou e disse:

— Das mais perversas e mal intencionadas artimanhas do Destino, essa talvez seja a que Ele mais deve se orgulhar, você não acha?

— Não posso dizer que toda essa situação não seja irônica… — Respondeu Téthis com sinceridade, acariciando a própria barriga. — Mas a acho fascinante.

Ele encarou a amiga e, de modo familiar, viu refletido nas íris multicoloridas dela o mesmo que vira nos olhos de Ternura: uma indomável curiosidade. Ao refletir sobre, ele deixou escapar uma risada baixa e a mulher questionou:

— Do que está rindo?

— Estou rindo, porque ela parece uma versão reduzida sua tanto na aparência quanto na personalidade. Sinto que terei muitos problemas por causa disso e parece que não poderei colocar ninguém no meu lugar para criá-la.

— Você conseguiria colocar alguém no seu lugar? — Perguntou retoricamente Téthis.

Quase que de forma primitiva, uma sensação desagradável se espalhou pelo corpo de Diablair, como se um substituto fosse algo irreal, quase antinatural, pois, apesar de serem extremamente opostos, eles pareciam inevitáveis. Quando pensava em deixá-la, a lembrança que ela havia compartilhado com ele lhe vinha à memória, mas não como um aviso ou uma sentença e, sim, como um conforto. Era como se ela soubesse sobre todas as angústias solitárias de seu âmago sem que tivessem trocado uma palavra.

Por mais que Diablair não compreendesse muitas coisas, ele precisava confirmar algo que havia notado após o primeiro contato dos dois e que poderia esclarecer muitas coisas. Timidamente, o Líder Infernal esticou as mãos em direção a barriga de Téthis, como se o gesto fosse um substituto das palavras. Compreendendo o sinal, ela novamente colocou as mãos dele sobre sua barriga.

Diablair sentiu novamente a calmaria invadi-lo, calando todas as suas inquietudes. Ternura se movimentou em resposta e tal atitude simplória pareceu ensiná-lo, de repente, o significado de bondade. De súbito, diversas memórias do futuro começaram a se materializar diante dos olhos dele: a Imperatriz correndo atrás de Ternura pelo jardim da Mansão Infernal; um vampiro e um hunter segurando Ternura pelas mãos, enquanto a balançavam pelos corredores da Mansão das Sombras; uma jovem de olhos verdes e cabelos negros auxiliando Ternura em seus primeiros passos, enquanto uma garota pálida e de íris azuis encontrava-se de braços abertos para acolhê-la; Sarah dando uma grande coxa de frango para Ternura comer; Pablo dentro de uma minúscula cabana cor de rosa, lendo para Ternura; Fubuki penteando os cabelos castanhos de Ternura e, em seguida, colocando o adorno de cabelo que usara em seu casamento na cabeça da jovem… e, por fim, Diablair deitado no gramado do lago da Mansão das Sombras com Ternura ao seu lado, com os braços e pernas abertos semelhantemente a uma estrela do mar.

Foi então que, subitamente, Diablair compreendera: ela estava mostrando tudo aquilo a ele para convencê-lo a aceitar seu destino, mas acima de tudo para convencê-lo a aceitá-la. O homem se pegou pensando no quanto de coragem aquela pequenina vida tinha e o quanto ela estava lutando, antes mesmo de vir ao mundo. Ele se abaixou na mesma altura da barriga de Thétis e disse, sorrindo:

— Acredito que você conseguiu me convencer.

Assim que Diablair pronunciara tais palavras, o ambiente, como se o respondesse, passou a mudar: diversos lírios começaram a brotar no Céu Profundo e, antes que boiassem até a superfície, eles se abriam e libertavam vagalumes. Todo o local fora tomado por um misto de resplandecer e ternura, como se naquele instante o significado de bondade houvesse se materializado diante dos olhos de todos.

Naquele instante, Diablair sentiu sua solidão se afastar e sua angústia milenar se desfazer, dando espaço a um quebrantamento de esperança que jamais havia sentido…

Naquele instante, mesmo que por alguns segundos, o Líder Infernal soube que aceitar Ternura, era escolher ser salvo.

_______________________________________________________

Desde antes do primeiro encontro, Ternura havia me ensinado o significado da calmaria que precede a tempestade. Ao observá-la descobrindo sobre as minúcias do universo — que nada mais são do que manifestações físicas de seu poder —, compreendi o verdadeiro significado de serenidade. Há em cada gesto e ação desta criança um esplendor de imensidão banhado de humildade e sempre que a vejo tenho a impressão de encarar o mais sombrio oceano, pois na mesma medida que ela consegue ser profundamente simplória ao ponto de transmitir calmaria, ela também sabe ser misteriosamente obscura ao iniciar a precipitação de uma tempestade.

Quando o desígnio de ser seu Guardião me foi dado, fiquei confuso e, diga-se de passagem quase horrorizado, com o fato dela possuir um poder latentemente destruidor — dada a potência da ancestralidade do mesmo —, enquanto mantém uma forma “subestimável” que consegue transmitir por gestos toda a significação da palavra bondade. Apesar do Vínculo que temos desde o princípio, a convivência não foi espontânea: ela foi construída tendo como base a minha inexperiência e a vontade de desbravar o mundo desta criança. Pacientemente, entendi que era necessário aprender: ela não poderia correr pela casa, sem antes ter engatinhado por todo o chão; ela não conseguiria dormir sozinha, sem antes ter a certeza de que estaria segura caso uma possível invasão de pesadelos ocorresse durante seus sonhos; ela não saberia a importância de sua bondade, sem antes compreender o cerne da crueldade.

Desde antes do primeiro encontro, Ternura havia me ensinado o significado da calmaria que precede a tempestade, contudo, quando a vi desaparecer diante de meus olhos mais rápido que o amanhecer infernal, a bonança até então construída findou-se como o respirar de um moribundo e, instantaneamente, a fúria obscura de uma procela até então ignorada simplesmente explodiu. Em meio ao aterrador cenário, já não consigo mais ver o corpo do filho do czar tomado pelo Desígnio da Morte ou os esforços desesperados de Ternura para salvá-lo: há apenas a escuridão profunda que me engole e me reduz a um mero grão de areia conforme essa maré destrutiva me engole.

Todavia, mesmo com essa potente avalanche de sentimentos me alertando de um iminente perigo nunca visto, quero afastar a ideia de que o motivo de tamanha perturbação deriva de um possível contato de Ternura com a escuridão. Sinto uma pressão sobre meu ombro que me faz despertar de meus devaneios oníricos repletos de preocupação: é a mão de meu irmão convidando-me fraternalmente para retornar a realidade.

— Diab. — Ele começa a me dizer com seriedade. — Acredito que tem…

— Tem alguma coisa errada! — Exclama abruptamente Tristeza, interrompendo-o.

Ela continua declarando a mesma frase sem parar, enquanto anda de um lado para o outro. Tortura se aproxima de mim e de Pablo, enquanto Fubuki tenta acalmar Tristeza.

— Tio… Nós temos que achar a Ternura agora. — A mais velha me diz com um misto de receio e preocupação na voz. — Tem alguma coisa muito errada...

— Devemos, sim, encontrá-los, mas não acho que Philip iria machucá-la. — Disse Nekromanteion rapidamente, tentando impedir qualquer ataque ao filho do czar.

— Não é ele que tememos, mas, sim, o que está dentro dele. — Declarou Fubuki, desistindo de acalmar Tristeza. — Devemos iniciar o plano de emergência agora!

Olho de realce para Pablo, enquanto Tortura e Tristeza parecem ter parado de respirar. Os que estavam presentes no dia em que a Deusa me alertou sobre a tutela de Ternura sabiam exatamente o que aquelas palavras significavam e eu nunca quis, em toda a minha existência, ter sido abençoado com a ignorância como nesse momento. A perturbação que antes me afogava, agora começa a me sufocar. Uma ardência forte preenche meus pulmões e sinto cada partícula de oxigênio lutar para existir dentro de mim. Minhas veias violentamente saltam e minha visão começa a ficar turva. Apesar da potência da manifestação, é como se tais sofrimentos não estivessem sendo direcionados a mim, pois sinto-os apenas como ecos que estão sendo produzidos por outro alguém. Incapaz de verbalizar isso, começo a tossir compulsivamente, enquanto sou amparado por Pablo, que já parece compreender o que está acontecendo.

— O Vínculo está te alertando que algo está errado com a Ternura, Diab. Acalme sua mente e busque encontrar em meio a esse caos o lugar em que ela está.

Fecho os olhos e concentro todo o meu pensamento em um único ponto: o fio rosado que me conecta a Ternura. Começo a puxá-lo enquanto caminho na mais profunda e silenciosa escuridão, no entanto ao chegar em determinado ponto do caminho, sou subitamente impedido de prosseguir por uma barreira. Ao tocá-la, sinto que o poder que emana da mesma transborda perversidade e maldade em seus estados mais morbidamente puros, o que me faz entender que há alguém por trás disso que não deseja que encontremos Ternura. Abruptamente, a sensação de sufocamento retorna, só que dessa vez com mais força, o que faz com que meus joelhos cederem. Assim que os mesmos encontram o chão, sou engolido por uma enxurrada violenta que me faz afundar. Quando o oxigênio começa a se tornar rarefeito, ouço uma voz cruel declarar:

— Esqueci de mencionar que o único pré-requisito para aceitar a escuridão é sacrificar a sua vida, o que não é um problema para você, já que é quase imortal. A questão é: quanto tempo levará para que alguém fraca como você consiga reviver?

Desperto repentinamente e me deparo com os olhos preocupados de meu irmão. Mesmo ofegante, sento-me na grama, sentindo uma enorme pressão na cabeça e em meu coração. Olho para a frente e, antes de recuperar o fôlego para dizer qualquer coisa, vejo Damon carregando a Imperatriz desacordada, enquanto ouço Fubuki lhe instruir:

— Você sabe o que precisa fazer… Leve-a para o mais longe possível.

E então, mais rápido do que um piscar de olhos, o jovem ruivo simplesmente desapareceu no bosque dos Pinheiros Sombrios. Levar a Imperatriz para longe era a primeira parte do plano, tendo em vista que a presença dela em um estado de fragilidade das trigêmeas poderia atrair a atenção de inimigos. A segunda parte dependia exclusivamente de Blake, afinal quem estava em posse da Garrafa dos Quatro Ventos de Éolo era ele. Corro os olhos pelo gramado e vejo-o realizando um ritual de invocação, enquanto tudo ao redor começa a ser consumido pelas trevas. Blake tira sua blusa, revelando uma marca pequena em sua barriga em formato de redemoinho. Um círculo de chamas negras se forma ao redor dele e ouço-o entoar em voz baixa um encantamento em uma língua antiga. Após isso, o mesmo crava uma adaga sobre a marca, retirando-a a seguir. O sangue que jorra da ferida, entretanto, começa a se transformar e a tomar a forma de uma garrafa. Assim que a invocação termina e Blake já está em posse da garrafa, olho para Pablo e digo:

— Eu sei onde ela está… Mas precisamos ser rápidos, porque a cada segundo que passa, menos sinto a presença dela.

Começo a correr em direção ao lago da Mansão das Sombras, enquanto todos os demais também o fazem. Mesmo que estejamos nos movendo rapidamente, é possível já observar os danos causados pelo contato de Ternura com a escuridão: as árvores estão perdendo a cor, a lua — que outrora iluminava o céu — esconde-se em meio a nuvens mais escuras que o vazio, as flores parecem ter se escondido dentro da terra, assombradas pelas trevas… A única coisa que continua a brilhar, é a imponente árvore dourada.

Assim que alcançamos a margem, sinto um aperto enorme em meu peito por conta do cenário devastador que se materializou diante de meus olhos: as águas estavam morbidamente estáticas e tão escuras que dava a impressão de que estávamos prestes a ver o nascimento da crueldade.

— Philip? — Ouço Nekromanteion perguntar com incredulidade, retirando-me de meu devaneio.

Olho para o centro do lago e vejo o filho do czar, um pouco mais velho do que alguns minutos atrás, em cima de uma das raízes da árvore dourada. Todavia, o que ele fez a seguir me surpreendeu totalmente...

Ele pulou com toda a coragem que tinha e que não sabia que existia.

Ele pulou para as trevas como se fosse um mísero floco de luz.

Ele pulou para salvar Ternura de sua própria tempestade, mesmo que isso significasse se perder nela.

❖❖❖
Notas de Rodapé

* e **: para saber mais, leia No Princípio, da @Yvi, e O Massacre da Imperatriz, do @TrueDiablair, onde tem-se a origem da Imperatriz e de seu relacionamento com Diablair.

*** Referência ao diálogo que abre o Capítulo 5 de Caçada Sombria.

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Comentário Favorito
Postado 04/01/23 01:22

Eu realmente não sei o que dizer acerca deste capítulo. Sério, sabe aquela expressão sobre a dificuldade ou impossibilidade de colocar sentimentos em palavras? É exatamente esta a situação na qual me vejo agora...

Eu queria poder descrever tudo o que me tomou ao ler algo tão bonito, profundo, intenso e perfeito quanto este episódio, mas somente um "muito obrigado" durante um longo abraço na/da autora poderia fazer minimamente jus a tão magnífica e edificante leitura, que uma vez mais comprovou o quanto a minha preciosa soBrina é capaz de superar todas e quaisquer expectativas com um esmero e uma sensibilidade absolutamente irrefutáveis e irretocáveis...

Muito obrigado por nos brindar com uma postagem tão bela, tão rica e tão grandiosa, Srta Ternura... De coração, muito obrigado por tanta preocupação com os detalhes (tais como "tão simplório quanto caminhar descalço na grama"), com todas as considerações sobre os eventos passados/lidos, com o cuidado nas interações entre os personagens e na descrição de suas personalidade, enfim... Com tudo e por tudo.

Atenciosamente,

Um ser que nunca cansará de se maravilhar, aprender e empolgar com as obras de sua mais que querida soBrina, Diablair.

Postado 29/01/23 00:57 Editado 29/01/23 00:59

Esse foi um dos capítulos mais difíceis que escrevi nessa obra até agora, pelo fato de trazer uma narrativa em primeira pessoa de um dos personagens principais, além de um evento que aconteceu no passado e que tem uma PUTA IMPORTÂNCIA para as linhas narrativas de várioooooos personagens no passado, no presente e no futuro do UG. Acho que ele é importante, porque exemplifica bem a relação do Diablair com a Ternura, mas também a dele com a própria Deusa e o início da relação do Diablair com o Philip. Foram muitas camadas construídas ao longo desse capítulo e sutilezas pensadas para melhor comportar as características de personagens tão únicos, porém valeu muito a pena, principalmente pelo seu comentário, que me alegrou e arrancou sorrisos, tendo em vista que esse capítulo foi algo que eu, você e o Lipe pensamos e discutimos com muito esmero e dedicação. São diversas linhas desenvolvidas por seis mãos e cinco cotovelos (favor ler Desígnio da Deusa se você que está lendo não pegou a referência).

Só me resta te agradecer pela presença não só pelos comentários que agregam e muito à obra, mas também pelas trocas que temos e pela amizade que construímos!

Obrigada, mil vezes, tio Diab ♥

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