Atrasado pra todas as festas
Sena
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 22/12/21 17:40
Gênero(s): Cotidiano Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 9min a 12min
Apreciadores: 1
Comentários: 1
Total de Visualizações: 129
Usuários que Visualizaram: 5
Palavras: 1480
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

A imagem da capa é da autoria de GyoBeorn An. Não lembro onde achei, é isso.

Meus agradecimentos à Mei Yukari por ter acreditado nesse texto já na primeira edição dele, lááá em março desse ano.

Capítulo Único Atrasado pra todas as festas

Você é jovem. Você é cem por cento potencial. Nada está fixo ainda, nada está definido. O mundo inteiro se desenrola a sua frente. As possibilidades são infinitas. Nessa idade as pessoas fazem as amizades que levarão para toda a vida. Nessa idade as pessoas conhecem os amantes que levarão até o túmulo. Nessa idade as pessoas sonham com o que querem ser. Nessa idade as pessoas começam a lutar pelo lugar delas. Nessa idade as pessoas vivem coisas inesquecíveis.

Você se sente velho. Está cem por cento perdido, sem saber para onde ir. Tudo parece tão rígido. O mundo inteiro parece se enrolar num pesado manto de aço e vidro e fumaça. Talvez o resto de sua vida seja assim. Já nessa idade você está cansado de seus velhos amigos. Já nessa idade você já não vê o amor e o sexo com os mesmos olhos. Já nessa idade seus sonhos estão esmagados. Já nessa idade você não vê mais razão para lutar. Já nessa idade você gostaria de mergulhar no doce esquecimento bilateral da morte.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Você sabe disso. Todo mundo sabe.

Mesmo que nada aconteça. Não com você. Nem com ninguém.

Você ainda é convidados pros lugares. Ainda te colocam em grupos. Ainda te perguntam como você está. Ainda flertam com você. Ainda te chamam para festas.

Ainda não perceberam que você não está realmente interessado em nada. Ainda não perceberam que você é sempre o que menos falam. Ainda não perceberam que você sempre está do mesmo jeito: “bem, e você?”. Ainda não perceberam que você devolve os flertes por educação. Ainda não perceberam que a cada festa que passa você deixa de vê-las como um mundo de possibilidades.

Você costuma aceitar os convites.

Contanto que haja bebida.

Como você fala pouco, as pessoas gostam de te fazer ouvir. Te contam dos problemas delas. Dos relacionamentos. Sucessos e fracassos. Orgulhos e vergonhas. Te confessam pecados e crimes. Às vezes você pensa que talvez seja por isso que gostam tanto de você. Você escuta tanto. É uma perfeita esponja. Dizem que você daria um ótimo psicólogo…

Você sabe que algumas dessas pessoas são gratas. Que elas adorariam retribuir o favor. Adorariam ficar ouvindo falar dos seus problemas, dizendo “foda...” quando você ficasse em silêncio. Mas nem você mesmo sabe descrever seus problemas.

Nem você mesmo sabe porque você fuma. Nem você mesmo sabe porque você bebe tanto toda vez que sai de casa. Nem você mesmo sabe como começou. Ninguém sabe. É um mistério.

“Você é tão inteligente…” eles dizem, “você poderia ser rico se você quisesse, sabe?”

Eles dizem que “você se daria muito bem em medicina” ou em direito ou em engenharia ou na crescente indústria da computação…

Celulares te enojam. Computadores te enojam. Você não faz a mínima ideia do porquê. Você, como todo mundo, passa o tempo livre quase todo neles. Não se pode ir para festas todos os dias, afinal de contas. A voz dos Influencers te irrita como se fossem unhas se forçando contra um quadro negro. Quando te disseram que você poderia criar um canal no YouTube você saiu da vida da pobre coitada voando. Até hoje, segundo dizem, ela não entende porque você foi embora. Ela tem suas teorias. Todas as suas ex-namoradas têm.

Talvez você seja uma nova espécie de cafajeste.

“Ele é que nem todos os outros homens,” já ouviu dizerem de você, “só que pior.”

Talvez você se canse rápido.

Talvez você seja um homossexual reprimido.

Talvez você não consiga amar ninguém.

Talvez você tenha nascido com o coração quebrado.

Talvez você simplesmente não tenha encontrado a mulher certa para você. Ou talvez você simplesmente não seja o homem certo para mulher alguma. É uma possibilidade, por mais que tentem te consolar…

Sempre tentam te consolar.

Sempre tentam te dizer isso e aquilo.

Se você se entendesse, talvez soubesse porque sua vida amorosa é tão fodida.

Tentam te fazer se sentir muito privilegiado. De certo modo, estão certos.

“Quantos adolescentes se matam de estudar para tirar as notas que você tira sem esforço?”

“Quantos caras da sua idade nunca beijaram ninguém? Quantos nunca nem abraçaram alguém… nem seguraram a mão de ninguém… nem nunca foram notados…”

Sim, sim. Você tem o que muitos querem ter, é verdade, mas e daí? Como sua mãe dizia, você não é “os outros”. Você é você, e não faz a mínima ideia do que isso significa. Você sente que sempre será um estranho à si mesmo.

Um amigo de infância te chama para uma festa. Faz muito tempo que vocês não se veem. Como sempre, você chega atrasado. Passou tempo demais depois do banho se olhando no espelho. Tentando desvendar o que é que há por detrás do seu olhar. O que há detrás das sombras que suas sobrancelhas grossas evocam. Se perguntando como um sorriso verdadeiro se pareceria. Se perguntando o sentimento de corar. Se perguntando se um dia você sentirá seus próprios olhos brilharem. Se perguntando se vale a pena ir para essa festa, ou para qualquer outra, ou se seria melhor ficar na cama, ou, talvez, nos dias mais sombrios, se seria melhor nunca ter nascido…

Mas você chega. Atrasado, mas chega.

Seu melhor amigo de infância não parece estar em lugar nenhum. O espaço não te agrada. A música não te agrada. As pessoas não te agradam. Puxam conversa com você, você responde.

Não demora até começarem a falar de si mesmos.

A partir daí você desliga. Você tenta ter empatia mas não consegue entender como as pessoas podem sofrer tanto por tão pouco. Se bem que, para você, tudo é tão pouco.

Sempre confundem seu bom ouvintismo com bondade. Com virtude. Com atração.

Estão bebendo, mas você não gosta da bebida. Ainda assim, bebe com eles.

Estão fumando, mas você não gosta do que estão fumando. Ainda assim, fuma com eles.

Estão dançando, e você não gosta da dança, mas ainda assim dança com eles.

Finge gostar da música. Finge gostar da coreografia. Finge se importar com aquilo tudo.

Você não sabe como chegou lá mas está num quarto com alguma garota. Ela está fazendo a maior parte do trabalho. Você gosta quando é assim, porque dura mais tempo. O sexo sempre parece te fazer esquecer de tudo. Sempre te faz mergulhar na materialidade do próprio corpo. A dança das ancas parece ser automática. Involuntária.

No fim, ela chama seu nome. Mas não é seu nome.

Ela não sabe seu nome.

Mas está tudo bem.

Você também não sabe o nome dela. Você gosta disso. De ser objetificado. Você gostaria de se objetificar, como tantas outras pessoas já fizeram com elas próprias, mas não sabe como.

Ser um objeto… produzido em massa… descartável… servir a um único propósito… sem qualquer pensamento crítico… sem qualquer noção da contradição da vida que leva… isso tudo te parece um sonho. Uma ideia extremamente reconfortante. Talvez um dia você não seja você. Talvez um dia você seja, pura e simplesmente, O Homem Moderno, como tantos outros são. Indistinguível dos outros. Com o mesmo penteado. A mesma personalidade bobalhona. A mesma barba. A mesma Mulher Moderna ao seu lado. Indistinguível das outras. Com o mesmo penteado. A mesma personalidade pseudo-assertiva. O mesmo símbolo. O mesmo Homem Moderno ao seu lado. Indistinguível dos outros… talvez um dia você, também, devesse sacrificar sua alma ao trono do tempo presente… como fez o Homem Tradicional no tempo dele… como fez o Homem da Antiguidade no tempo dele… Como fará o Homem do Futuro…

Ela se vira e dorme. Você gosta quando isso acontece. Significa que foi impessoal.

Estão dançando uma música lenta lá em baixo.

Os casais da noite dançam juntinhos.

Não é uma música romântica. É uma daquelas em que os hormônios cantam e compõem. Uma canção de saudades. De desejo por uma ideia personificada em alguém do sexo oposto.

As estrelas estão espalhadas por todo o céu sem nuvens.

Você pensa que, talvez, já que estão tocando músicas lentas, a próxima seja a que você quer escutar. A que não sai da sua cabeça.

Mas ela nunca toca.

Você gostaria de dançar ela com alguém.

Mas esse alguém nunca aparece.

Talvez esse alguém nunca tenha sequer existido.

Talvez a música nunca tenha sido sequer composta. Talvez você não esteja mais vivo quando ela der as caras.

É claro, há sempre a fantasia:

Você pode se escrever numa estória. Dançar nas páginas a sua música, com o seu alguém. Fingir que você não é você, atrasado para todas as festas, e sim uma dessas palavras, sempre em casa em qualquer lugar do papel, sempre casando bem com qualquer outra. Celebrado pela unicidade e não sofrendo por ela.

Mas a fantasia não te consola.

Nada te consola.

O espaço entre as estrelas parece ser um bom lugar para se morrer. Talvez um dia você chegue lá.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Obrigado pela leitura, pessoinha atrasada

Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 22/12/21 19:04

Seus textos são sempre uma leitura imersiva, geralmente desconfortável (como balançar num balanço pequeno demais, sabe como é? Chegando tão alto, com tanta dor no quadril).

Terminando o texto, uma passagem que li em algum lugar esquecido brotou na minha mente:

"Se você não vê Deus na humanidade, não o verá em lugar algum."

Não tenho certeza se era bem assim, mas traduz bem a sensação que a narrativa inspira. Se a gente não se permite encontrar os valores escondidos nesse bicho egoísta que é o ser humano, a vida se torna inútil.