Sem Tempo
Maria Clara Bruno
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 25/01/22 17:06
Avaliação: Não avaliado
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[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Olá gente! Tudo bem?

Continuo ainda na missão de terminar contos que nunca terminei. Tenho desejado muito terminar esse, e finalmente consegui. Espero apenas tê-lo feito de forma que agrade você, leitor que vem!

Deixo essas notas de cabeçalho curtas, apenas para te cumprimentar. Espero que goste!

Capítulo Único Sem Tempo

Um relógio na mesa, outro no pulso, um no bolso e um na parede. Com tantos, nunca o psiquiatra sentado na mesa, a estudar seus últimos casos, perderia o horário na vida. Ele suspirava, encarando um caderno e um livro, pensando em remédios, teorias, enfermidades. Cansado, murmurava para si:

- Me falta tempo!

E encarava o relógio de pulso, com o tempo correndo no ponteiro. E este apontava três horas, e seu cérebro apressado e ansioso pensava já o que iria fazer às sete: empolgado, se lembrou que era um encontro! Sim, um encontro, com uma linda moça que encontrara em um café, um tempo atrás. Nunca realmente pensou que encontraria tamanha beleza e candura em uma mulher; porém, quando a viu, conversou, sentiu que estava olhando nos olhos de uma antiga lembrança, suave, de quando o tempo corria mais devagar. Quando comentou com seus pais, tão rígidos e que se importavam com relógios até mais do que ele, ouviu a seguinte resposta:

- Muito bem, Psiche, já não era sem tempo.

Psiche. Seu nome era, certamente, incomum. Ainda mais na placa de seu consultório: Doutor Psiche Fujiwara, psiquiatra. Ah, a psiquiatria, a psiqué e a saúde humana, suas grandes paixões! Isso lhe recordava do tempo em que entrou na faculdade: Jovem, bem jovem, aos 16 anos; pois, como seus pais diziam: Não havia tempo a perder! Quanto mais jovem, mais tempo teria como médico, e mais dinheiro ganharia. Não que lhe importasse o dinheiro, ele sabia que precisava dele, mas o que mais desesperava Psiche eram as pessoas que precisavam ser curadas. Haviam tantas! Tantas! E ele pensava sobre como iria encaixar todas as pessoas do mundo na sua lotada agenda, e todos os compromissos e eventos importantes da vida em pelo menos 80 anos de sua existência. Queria já ter tudo planejado, desde o casamento até seu funeral, e ele mal havia começado a sair com uma garota.

Respirou mais uma vez, fundo, silenciando todo pensamento. Precisava focar, trabalhar, o próximo paciente chegaria em dez minutos. Dez minutos que ele contava no relógio de parede, que fazia um som, incessante:

Tic tac... tic tac... tic...tac...

E o som se juntava com o relógio de pulso...

Tic...

E o relógio na mesa...

Tac...

E o psiquiatra, em uma quase neurose, só queria que o tempo não existisse. Ou que, ao menos, voltasse.

Em cima de sua mesa, ao lado de um retrato de seus pais, e uma pequena foto de sua graduação, havia ali uma foto tão alegre, cheia de sorrisos ensolarados. Uma foto de sua turma, sua antiga turma da quinta série. Lembrava-se bem: Quinta série, classe B, professor Tico, que dava uma aula excepcional sobre qualquer assunto que lhe dessem. Na sala, também, haviam figuras excepcionais, e Psiche se pegava, vez e outra, a se lembrar de tudo, como quem olha através de uma delicada névoa; tão singular e efêmera, com cheiro de infância, terra molhada, biscoito recheado e papel; avião de papel. No fundo dessas memórias, desses pensamentos que tanto lhe tomavam tempo, mas arrancavam sorrisos, Psiche recordava claramente, especialmente de seu apelido, “Piche”, porque era pálido como neve (ele nunca havia visto neve!), mas os cabelos e olhos tão escuros e profundos, como piche mesmo. Nos primeiros dias que recebeu o apelido, ficou ofendido, mas depois viu que não havia maldade nas crianças e muito menos no tal “codinome”, que ele passou a se acostumar durante toda a vida, até terminar a faculdade. No presente, sorriu, e mais uma memória veio, atravessando mente e coração, como uma flecha dolorosa que lembra que esse tempo já se foi, e não volta; o que lhe resta é memória, resquício na mente do homem.

Lembrou de um dos meninos da sala: Jassen. Era um garoto com quem gostava de se sentar do lado, pois, tímido como era, falava pouco, e assim ambos podiam ler seus livros trazidos clandestinamente em paz. O tal menino era tão discreto quanto podia ser, e só sorria nos momentos de aula. Lembrou-se de um episódio, quando todos descobriram que o amado professor Tico não viria dar aula. A decepção foi geral, mas ninguém nunca mais viu Jassen com um olhar tão frustrado e ele, irritado, passou a questionar e argumentar com o pobre coordenador que viera dar as notícias de mau agouro. Rendeu boas risadas no momento, mas pouco depois a sala ficou tão ou mais decepcionada que ele, pois o professor substituto era, como diziam, “um chato de galocha”. Ah! Saudades...

Lembrou, também, de um garoto tão alto que mais se parecia um rapaz. Era do oitavo ano e, por mais que qualquer um da quinta série se amedrontasse com a visão de um “grande moço” do fundamental II, Psiche se sentia confortável com ele. Era tão calmo como era alto, e sabia falar e responder sobre tudo que perguntassem, menos sobre física. Entretanto, quando se dizia tudo, a mente infantil compreendia tudo, com todas as letras e significados escondidos em duas sílabas, tudo de maravilhoso que o universo poderia esconder. O rapazote tinha o apelido de “Juizinho” pois, desde que se entendia por gente, falava de juízes, desde os de tribunais até os de esportes, com tamanha paixão que admirava até mesmo os professores, que só incentivavam, pensando no homem de sucesso que ele seria no futuro, e os grandes créditos que sua escola receberia por tê-lo educado. Certa vez, Psiche conversou com ele, e tinha tanto carinho por esse tempo passado, que se lembrava da conversa até hoje.

- Piche, não é?

- Isso, eu... – Sua voz tremeu. Diziam que os garotos do oitavo eram realmente assustadores, altos e pareciam tão maduros, com seu início de bigode no beiço. Piche não levantou a cabeça, temeroso. – Eu mesmo.

- Ah, não precisa ficar com medo... O inspetor pediu para eu entregar isso aqui. – Ele estendeu um saco de papel e Psiche logo abriu. Seu remédio para gripe estava ali, e o menino asiático torceu o nariz com a visão. – Sou só eu, o Juizinho. Sua mãe pediu para trazer aqui...

- Bem, obrigado... – Suspirou, tão entristecido que viu Juizinho tombar a cabeça, curioso ou até mesmo preocupado. Enfim ergueu a sua, para ver o quase rapaz loiro, não intimidador, mas interessado.

- Esqueceu de propósito, não é?

Os ombros de Psiche tremeram, em um calafrio.

- Oh, eu... Bem. – Parou, tentando pensar em uma desculpa, justificativa, inutilmente. – É verdade.

- Sabia...

- Eu já estou bom... acho que não precisava de mais.

- Acho o contrário, precisa ir até o fim. Ou vai ficar ruim de novo, e dessa vez por culpa sua. – Ele sentou ao lado de Psiche, e cruzou os braços. – Imagine a cara que sua mãe vai fazer...

Nessa hora, Psiche sentiu o impacto do apelido “Juizinho”. Intrigado e um tanto irritado, resolveu que iria testar esse lado.

- E qual a sentença? – Não sabia o que esperava, além de uma breve irritação, para fazê-lo rir e esquecer-se da sua. Mas o rapaz, loiro, alto, com um olhar sério, apenas o observou com curiosidade por um tempo que pareceu interminável e incerto. Já sentindo o olhar gélido do menino-homem encarar sua alma para bater o martelo, Piche se sentiu obrigado a quebrar o silêncio. – ...Juizinho?

- Tome o remédio. É isso.

A conversa findou tão rápido como começou, mas Psiche se sentiu tão impressionado pela placidez e intensidade do menino que nunca o esqueceu, mesmo já adulto, trabalhando. Se perguntava onde estava o Juizinho, onde havia a vida levado ele? Estando tão ocupado com a própria vida, havia se esquecido que outras pessoas a compunham, de uma maneira ou outra. Os amigos da escola, substituídos pelos da faculdade, que não se mantiveram, passaram, voaram com o vento, mesmo que o carinho por esses fosse igualmente grande. Balançou a cabeça, voltando à realidade de espera.

Olhou o relógio de parede, e o de pulso, e o do celular. Passaram-se cinco minutos, apenas.

Sua mente divagou em mais uma lembrança gostosa: Uma menina com quem brincava na quadra de esportes escolar quando era pequeno, miúdo. Riu-se, era uma moleca, enérgica, feliz e brincalhona, mas com um temperamento que poderia assustar até os adultos. No geral, se davam bem, ela o mandava parar de ler e ir brincar, e ele a acalmava quando a aula ia começar, para que não levassem bronca dos adultos. A amizade entre os dois era simples, sem pretensão, mas tão maravilhosa que Psiche sentia saudade. Lembrava-se dela, que ela só vestia roxo, lilás e rosa, que gostava de fadas e que enchia sua mente com histórias de contos de fada, quando ele queria apenas falar sobre carros, tratores e samurais – uma estranha para ele, mas comum paixão de infância. Discutiam as vezes, como todos bons amigos fazem, mas tão logo que esqueciam que parecia até que nunca tinham entrado em desacordo. Boas lembranças, fabulosas memórias!

Três minutos se passaram, tão rápidos e silenciosos que pareciam querer enganar Psiche. Quando olhava para os ponteiros, o psiquiatra podia até escutar...

Mais um pouco, Psiche! Mais.um.pouco!

E, depois, como se fosse retomada a pressa de sua agenda lotada, os ponteiros pareciam gritar, esbaforidos.

Mais um pouco! Maisumpouco!

Até engolirem as palavras, juntando todas em uma massa indistinguível que ninguém, só o próprio tempo, entendia.

O relógio foi brutalmente interrompido por uma batida na porta. A secretária, meio tímida, meio receosa e apressada, parecia mais desesperada que o relógio, mas sua voz era tão cheia de ansiedade que Psiche chegou a pensar, logo que ela entrou, que queria ser também paciente.

- Senhor Fujiwara, o paciente chegou.

E Psiche mandou abrir a porta e o deixar entrar.

...

Tão logo a consulta acabou, sentiu-se cansado, dolorido. Suas costas, ainda que jovens, pareciam sentir o peso da cadeira sobre elas, um peso grande, e que lhe daria um ar mais velho; se não fosse a – bendita! – genética de sua mãe, que parecia ainda ter seus 50 anos quando, na verdade, beirava os 70. Psiche tinha caído nas graças de possuir o mesmo gene para tal, e mal parecia cansado, senão por sua postura. A secretária mais uma vez apareceu incomodada, e parou na porta, encarando de soslaio o médico e mantendo a agenda em mãos, os olhos agitados correndo, movendo-se, falando tudo que a boca jamais diria. Psiche logo percebeu que, ou uma alegria muito grande perpassava a mente da jovem, ou algo muito ruim haveria acontecido. Ela bateu, ele permitiu a entrada com um aceno e logo as palavras saíram.

- Senhor Fujiwara, os últimos desmarcaram. – O esforço dela para conter o alívio e a felicidade em se ver livre do trabalho era, como diziam, comovente. Mal podia esconder o brilho fugaz no olhar. E quem a julgaria? Psiche pelo contrário, sorria feliz que poderia descansar por um tempo a mais até as sete horas. Eram, agora, exatamente cinco horas da tarde.

- Pois bem... Estamos liberados, então? – Sorriu, e a secretária concordou com um aceno de cabeça breve. – Pode ir, Mirela, que eu vou logo também. Bom fim de semana!

- Para você também.

Enfim sozinho, Psiche se via a mercê de viajar nas memórias mais um pouco, contemplando os antigos rostos felizes, mãos sujas de barro e tinta, relógios de pulso que não andavam, até porque nunca precisava trocar as baterias, e delícias de amizade ao alcance de uma mão. Lembrou-se de Casimiro de Abreu, e de seus próprios oito anos. “Ah que saudades que tenho. Da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!”. E esperava, como quem acreditava, que o relógio fosse subitamente correr uma inversa maratona e voltar, voltar... apenas para satisfazer-lhe o sonho feliz que tivera, o sonho de viver de novo o excesso de tempo. E o relógio, como criança teimosa, ralhava que queria apenas seguir em frente... em frente! Eram cinco e cinco. Como pensava que talvez fosse rude aparecer no encontro de mãos abanando, decidiu que iria para a rua procurar por um mimo, qualquer objeto que demonstrasse sua alegria em vê-la. Levantou-se, e vestiu um casaco elegante, mas discreto, o qual usava quando se sentia mais confiante. Fechou janelas, trancou a porta e deixou o consultório com o coração aos pulos e a alma ansiosa e retorcida num misto de alegria, saudade e pressa. A rua acompanhava esse seu interior bagunçado, com o cinza do chão, o concreto da estrada, os carros correndo e milhares de pessoas, como ele, transitando por ali.

Aquela avenida movimentada, além de seu consultório, possuía ainda muitos atrativos para qualquer passante. Lojas e lojas de roupas e eletrônicos, o teatro – ah, fabuloso teatro! – Psiche fixou os olhos terna e demoradamente naquele lugar, onde haveria de ser seu encontro tão esperado. Já parecia ser mais belo, fabuloso apenas por seu significado, mas também atemorizante na mesma medida. Um grande pedaço da sua vida dependia daquela noite, o resto de sua vida dependia dela. E, para tão mais especial tornar aquela data, voltou sua atenção para seu obstinado objetivo: Arranjar um presente. Olhou no relógio, cronometrando cada passo; eram cinco e nove.

Passando pelo infinito corredor de lojas, não achava nada que poderia ser do agrado daquela moça, visto que pouco a conhecia de verdade. Bom, dizia-lhe já sua avó: “A gente pensa que compra presente para os outros, mas é na verdade para nós mesmos” e, céus, aquela senhora estava certa! Psiche logo começou a pensar o que ele gostaria de ganhar em um primeiro encontro. Gravatas, abotoaduras? Não parecia com algo que aquela moça gostaria. E o que mais? Com tantas opções, parecia impossível pensar em algo que fosse ser o bastante para ele mesmo expressar seus sentimentos e intenções para com ela. Estático em frente a uma das lojas, encarando o próprio reflexo, ele teve – novamente! – Uma recordação de dias antigos.

Já na pré adolescência, era ele agora um dos temidos meninos do oitavo ano. Sua sala ainda era a mesma, mas agora contava com a presença de um novo rapaz, meio desconfiado, mas prestativo, e de uma garota que pouco se conformava com o mundo, e vivia ali, desenhando esperanças. Em um dos dias em que tudo parecia moroso, as matérias pareciam ainda menos interessantes, algo inesperado aconteceu: Uma forte chuva começou, refrescando e perfumando o ar com o cheiro de terra molhada, grama úmida, e os pássaros a piar. De súbito, um trovão, um relâmpago no céu e, para a alegria dos estudantes, que gritavam, a luz se apagou! Lembrou-se do grito de alegria, como se mil pássaros tivessem sido libertos, que percorreu os corredores, o pátio, as salas. Nesse momento, viu que o menino reservado parecia intimidado. Mais encolhido, seus ombros tremiam e os braços abraçavam a si mesmo, os raios cortavam a janela e ele, sozinho naquele monte de gente, parecia a criatura mais amedrontada do planeta. Nessa hora, Psiche sentiu que devia fazer algo. Seu corpo, sem dar chance para a cabeça pensar, se moveu; seus olhos amendoados, em um instante fitavam com compaixão a cena que presenciava, e seus braços logo desobedeceram também a mente, a física e o sentido; para abraçar a invisível alma do rapaz, ao mesmo tempo que fisicamente se apoiavam na carteira dele. Em meio a bagunça, dois olhos calmos como um lago encaravam outros dois olhos; cheios de medo.

- Tudo bem? – Agora que havia chegado, sua mente parecia em branco. Não sabia o que dizer, tampouco como dizer; mas seus olhos, calmos, ali apenas por estar, pareceram acalmar os ombros do outro menino. Por mais que se sentisse calmo por ter ido, seu coração ansioso palpitava, e podia sentir que estava suando frio.

- Sim, me desculpa. – O outro enfim falou, após um silêncio ensurdecedor. – Eu tenho medo de trovões. Não queria te preocupar.

- Ei, não precisa se preocupar com isso. – Abriu um sorriso, deu tapinhas no ombro, querendo passar o máximo de conforto que pudesse. – Como era seu nome mesmo? Walter?

- Isso, Walter... – O próprio garoto, se sentindo mais à vontade, sorriu de volta. Era fácil de lidar, de confortar, e ele logo ria do próprio nome. – Com o W e o A em maiúsculo!

Era uma boa lembrança, que as vezes Psiche buscava lembrar quando se desanimava com o trabalho. O considerava, talvez, seu primeiro paciente, o primeiro pelo qual sentiu preocupação pela saúde, saúde mental. Ali, por trás de sua carteira, um mundo de medo, de dor e sofrimento o tocou, e nunca mais soltou. Se perguntou onde o tempo tinha levado Walter, e se poderiam um dia se ver de novo.

Através da vitrine, uma mulher acenou para ele. Perdido, Psiche acenou de volta, e logo ela caminhou e estava ao seu lado, uniformizada, os cabelos vermelhos, pintados como fogo presos em um coque baixo. Psiche a reconheceu de imediato.

- Uh, Laura? – Prolongou os lábios num gesto alegre, surpreso.

- Piche? – Ela ficou em silêncio, um tempo, e logo compartilhou o sorriso, puxando a mão de Psiche e a apertando, alegremente. – Há quanto tempo Piche! Como vai?

- Estou bem, como sempre. – Olhou ao redor, e admirou mais uma vez a fachada da loja. Era simples, pessoas iam e vinham, passavam, somente eles permaneciam ali. – Trabalha aqui?

- Bem, sim. Depois do ensino médio, você se mudou, mas eu comecei a trabalhar como secretária, vendedora desde então. – Com orgulho, apontou para a vitrine. Era uma loja de antiguidades, com diversos itens dispostos, belos e arrumados. – Mas essa é minha própria loja.

- Isso é incrível! – Admirou a vitrine em si, e as peças propriamente. Sentia-se orgulhoso, da colega e da história, da vida que se desenvolveu. A moça que ele recordava tão tímida e calada, agora comandava uma loja, e ele achava apenas admirável todo o esforço e o caminho, tão distinto do seu. A maneira com que ela sorria, satisfeita, o enchia de alegria. – Antiguidades? Não sabia que gostava dessas coisas.

- Nem eu, até receber algumas. – Sorriu, virando-se para voltar ao interior da loja. – Não quer dar uma olhada? Pode ter alguma do seu agrado.

- Na verdade, me ajudaria muito. – Com alívio, pisava dentro do recinto. A loja tinha paredes bege, que mal podiam ser vistas pela quantidade de itens as cobrindo; objetos esses um pouco empoeirados, mas a maioria em bom estado, colocados lado a lado em prateleiras, os pequenos, os grandes apoiados em suas mesas ou no chão. A loja era comprida e, em sua extensão, algumas prateleiras grandes foram colocadas, com livros antigos e empoeirados, tal qual uma biblioteca. Pelo cheiro de papel antigo e pelas cores e formato das capas, Psiche viu que estava lidando com algo valioso e mais velho que si. Voltou o foco para a mulher, que parecia entretida com um caderno. – Vou me encontrar com uma moça hoje, e gostaria de dar um presente. Alguma ideia?

- Uma moça, Piche? – Sua voz tinha um tom zombeteiro, mas alegre. Ela parou e refletiu, observando o fundo da loja. – Temos livros... e ali no fundo alguns objetos pequenos, como porta maquiagens, bolsas... Talvez encontre algo que ela pode gostar por ali, fique à vontade.

- Obrigado.

Psiche se perguntou se não estava perdendo tempo. Laura era simpática e claramente esforçada, mas o japonês se perguntava seriamente se não era falta de respeito deixar o cliente a sós, dessa forma. A irritação dele provinha principalmente da dúvida, do questionamento. Olhava as capas de alguns livros, entrava em corredores de prateleiras e nada via que pudesse interessar à mulher. A origem das Espécies? Muito sério. Shakespeare? Talvez, mas a gramática era tão antiga quanto os dois. Um livro de contos de fada? Talvez soaria infantil. Vendo que os livros pouca solução lhe dava, decidiu ir para o último corredor, onde uma parede com uma estante cheia de pequenos objetos ficava. Porém, parou. Escutou o tique taque de um relógio, seguido por passos. Os passos eram leves, e pesavam a cada taque, movendo-se pela estante, junto com o relógio; pareciam fruto do mesmo ventre, os sons tão similares. Psiche tremeu, e avançou devagar. Os sons gêmeos continuavam, até pararem exatamente atrás de si, na ponta da prateleira. Juntou alguma coragem, seu coração batendo mais rápido, atrasando toda impressão de tempo que podia ter. “Deve ser só outro cliente” pensou, e avançou, veloz.

O que viu não foi uma figura assustadora, nada mais era que suspeita. Um homem adulto, loiro, de chapéu. Do seu chapéu pork pie marrom pendia uma curta corrente, presa num relógio dourado. Seu terno, impecável, tinha mais bolsos que o comum (E Psiche podia apostar que estes estavam cheios de pequenos relógios, a julgar pelo barulho insuportável dos tique taques); estava tão formalmente vestido quanto Psiche, e parecia interessado num relógio de bolso prata, quebrado na estante. Assim que vislumbrou o protagonista, o homem sorriu. De mesmo modo, Psiche respondeu o sorriso, para evitar ser mal-educado. Assustado, e curioso, tomou coragem de passar por trás do homem e ir admirar algumas peças.

- Desculpe se te assustei, rapaz, não imaginei que viria aqui nos fundos. – Iniciou ele, sem tirar os olhos do relógio. O tique taque continuava.

- Não se preocupe com isso, eu vim apenas...

- Buscar um presente. Desculpe se sou rude, mas pude ouvir sua conversa com a vendedora.

- Não... tudo bem. – Voltou a encarar algumas peças, em especial uma bolsa pequena de moedas, sentindo menos pavor, e mais receio daquela estranha figura. – E o que o senhor procura?

- Sou tão novo quanto você. – Ele sorriu, e pegou o objeto nas mãos. Estava quebrado, empoeirado, era um milagre funcionar. Limpou com uma mão enluvada o visor, analisando o que precisaria ser reparado. – Vim buscar memórias.

- Memórias?

- Isso, memórias. – Mostrou o pequeno relógio encolhido em sua mão. – Guardo relógios para cada memória importante que tenho. Assim, garanto que não as vou esquecer.

- Parece interessante... – Um pouco do lado profissional do psiquiatra aflorou com a conversa. Um pouco de seu lado pessoal, também. Os relógios não serviam apenas para marcar o tempo que faltava para seus compromissos, e definir a duração das coisas? Aquele homem parecia excêntrico, e suspeito.

- Infelizmente, muitos não entendem meu motivo. – Entristecido sorriu, os olhos baixos. – Sou também artesão, faço retratos de momentos importantes das pessoas nessas belezas.

- Como?

- Pintando. Deixo um relógio com um cliente, mas não só o relógio. Dou ao tempo o sentido de memória, lembrança, de eternidade.

- Como assim, eternidade? – Indagou, sentindo-se provocado. Em seu âmago, restavam dúvidas e receios. – O tempo é passageiro.

- E eterno na memória. – Rebateu. Seus olhos brilhavam, genuinamente felizes. – O mais valioso do meu tempo é que ele é meu. Se passa, sem que aproveitei, é porque eu fiz a escolha para tal. Prefiro perder tempo e ter eterno em mim minhas escolhas, que viver todo o tempo do mundo, sem viver minha vida.

Psiche sentiu uma pontada no peito. O homem o incomodava, era seu oposto. O que fazia senão viver a vida sem percebê-la, correndo contra o tempo? O som do homem caminhando era tão parecido com o relógio; talvez porque ele próprio devia fazer de si o tempo que gastava, existindo. O som dos relógios era insuportável.

- É poética sua visão.

- Não poética, realista. – O homem sorriu, e estendeu a mão para o fundo da estante.

Psiche encarava, curioso, intrigado e ofendido. Puxou, do fim daquela funda estante, um relógio de bolso impecável; e belo. Era do tamanho de uma palma, bronze. Podia-se abrir e fechar o objeto e, quando fechado, a silhueta entalhada de uma bailarina se destacava, esguia, com uma coroa de flores ao seu redor, belas rosas, desabrochadas e botões fechados. Era verdadeiramente bonito, os olhos de Psiche brilharam ao vê-lo, tão pequeno e belo. Um suave tique taque ecoava daquele objeto, tão único. Quando pensou na possibilidade do homem pegá-lo para si, o psiquiatra sentiu uma estranha tristeza. Porém, para sua surpresa, viu a mão deste se estender para si, e derramar na sua o objeto belo.

- Não gostaria de algumas memórias também?

* * *

Psiche saiu da loja alegre, leve e com um presente bonito em mãos. Infelizmente Laura não tinha um papel de embrulho para ele, mas não importava; o relógio era tão bonito que nem precisaria de embrulho. Pegara o contato do artesão, e prometera que pediria uma de suas pinturas, logo que tivesse uma memória bela para fazer. Era ainda pouco depois seis horas da tarde, e a cidade parecia agitada. Passou em frente ao fórum, que estava lotado, e viu uma multidão e uma ambulância. Sentiu pena, mas nada poderia fazer. A rua estava interditada, apressada, e o semáforo continuava se movimentando. Torcia apenas para que não fosse algum conhecido.

Um pouco de sua alegria pelo futuro encontro o cegava, e seu olhar estava preenchido pelos pensamentos sobre tempo. Antes seu inimigo, mas agora o psiquiatra sentia que queria fazer as pazes. Queria aproveitar bem o presente que o tempo dava, sem controlá-lo. Tinha ainda uma hora livre, antes de encontrar a moça. Queria apenas que o tempo voasse...

Quando passou mais próximo da porta do fórum, viu com certeza o Juizinho. Adulto, crescido, ele agora tinha uma verdadeira feição de homem responsável, justo e completo. Pensou em o cumprimentar, aproveitar a vista, mas logo viu uma mulher apressada parar na frente dele. Pelos olhares, constatou logo que uma tragédia deveria ter acontecido. Juizinho correu e passou por ele, com o olhar mais perplexo que Psiche viu em uma alma, através dos olhos. Por um instante, tão curto que nenhum relógio ousou registrar, os olhos de ambos se encontraram. Era dor, pura dor.

O juiz correu até a rua e entrou na ambulância. Psiche torcia, apenas, para que outro conhecido não tivesse a mesma dor.

E então caminhou um pouco na direção do teatro, e o ultrapassou. Estava cedo, e não queria causar nenhuma ansiedade antes das sete. O espetáculo começaria, na verdade, as sete e meia, e não importaria em demasiado chegar antes disso. Apenas uma melancólica música saía daquele ambiente, através das janelas, tocando mais seus sentimentos. Se perguntou se os bailarinos ensaiavam, assim tão em cima da hora.

Andando um pouco mais, admirando o relógio, passou por um hospital alto, de brancas paredes. Um rosto conhecido era refletido na janela.

Apertou os olhos, e pôde constatar que era, de fato, um antigo colega de sala. Acenou, pensou em matar o tempo o visitando, se soubesse o quarto. Mas ele não viu. Tão diferente e tão igual quanto tempos atrás, Walter parecia amedrontado, encarando a janela de forma pacífica. Seus olhos refletiam uma preocupação e uma tristeza. Psiche suspirou. O tempo talvez devia ter levado dele o sorriso grande e fácil. Era triste que, com o passar dos anos, o psiquiatra via também sorrisos desaparecerem. Viu colegas de sala desistirem. Alguns, lutaram e viviam bem, mas distante de seu olhar. Outros, nunca mais viu, e podia apenas torcer que estivessem bem. O tempo era cruel. Era parceiro e amigo de pessoas otimistas como o artesão, mas inimigo invencível da saudade dos que a tinham. Passou por baixo da janela, rezando apenas para que pudesse ver Walter sorrindo de novo. Tinha saudade.

Lembrou que uma praça se encontrava pouco distante de si. Era pequena, costumava brincar naquele lugar quando mais novo, bem mais novo. Nos dias de passeio da escola, eram comuns as visitas de circos e pequenos parques infláveis naquele lugar, alegrando as crianças. As memórias ainda cheiravam à pipoca e tinham gosto de pirulito. Porém, com a saudade, Psiche sentia nada menos que uma pura nostalgia, distante e inexplicável. Lembrou-se de um dia, quando brincava com a menina moleca de seu ensino fundamental. Caíram ambos no chão de pedras colocadas lado a lado, ralando os joelhos. Tinha ainda uma cicatriz num destes, e lembrava-se que ela também tinha. Odiava admitir para si, mas deveria ter gastado melhor seu tempo com ela. Focado em excessos em seu futuro brilhante, se lamentava de não ter construído melhores memórias com sua melhor amiga. Havia de admitir, gostaria de reencontrá-la.

Psiche pensava, em tudo. Pisava na praça, e desejava novamente ler ao lado de Jassen, quieto e tímido. Desejava ver Walter sorrindo, de levar uma bronca do Juizinho e de brincar com a garota espoleta de sua sala. Sentindo-se um pouco triste, sentou-se em um banco branco de pedra, vendo as primeiras estrelas decorarem como pérolas e bordados o céu noturno que se estendia como um véu pela cidade. Distraído, quase pulou de susto quando uma voz ressoou ao seu lado.

- Moço, tudo bem? – Indagou a voz de um rapaz jovem.

Psiche se apoiou no banco, quase caindo para o lado. Se recompôs e encarou a figura tímida que o fitava, tão amedrontado quanto ele. Era um rapaz de cabelos bagunçados, olhos escuros, magro e com um casaco azul. Devia estar sentado ali antes mesmo que o psiquiatra chegasse, e mesmo assim mal notara sua presença fraca, discreta naquele banco tão exposto. Ele tremia um pouco, talvez pelo frio.

- Tudo bem? – Ele voltou a perguntar, vendo que Psiche se mantinha quieto.

- Tudo bem. Me desculpe, não te vi aí.

- Tudo bem... eu acho. Você parece meio pálido.

- Pareço? – Indagou, olhando as mãos. Tão brancas como sempre. Riu-se. – Não se preocupe, eu sou assim. Mas pareço doente?

- Não, só preocupado. – O menino respondeu, mais sorridente. – Nem me viu sentado aqui, deve ter um problemão na cabeça.

- Não é bem um problema, mas, sim, estou ansioso. – Resolveu falar, quando percebeu que era apenas um jovem. A aparência dele, o olhar cansado, porém esperançoso o recordava de si mesmo quando mais novo. – Tenho um encontro hoje.

- Parece bacana. Boa sorte!

- E você, rapaz? Me perdoe a falta de educação, meu nome é Psiche.

- Igual o doutor?

- Bem, eu sou doutor. – Sorriu, deixando o orgulho o dominar um pouco.

- Acho que meu pai era seu paciente... Seu José.

- Eu espero que ele esteja melhor, então. Me lembro do Seu José. – Sorriu, um pouco mais relaxado. – E o seu nome?

- Caio. – O menino parou de o olhar e observava o céu estrelado. Já passavam das seis e meia. – Vim olhar as estrelas. – Psiche acompanhou seu olhar, e viu um belo céu naquela noite. A tristeza em seu coração deu lugar a uma admiração pelo infinito; pelo céu profundo, brilhante que se refletia em seus olhos completamente negros. Com alguns pontos brilhosos, seus olhos também se assemelhavam ao céu. – Me fez bem, doutor, e acho que a você também. – Viu o psiquiatra sorrir, de fato, mais corado.

- Você seria um bom médico... – Suspirou, olhando o relógio de pulso, com mais paz. O infinito céu o lembrava que, o que quer que tenha acontecido, havia de se consertar. Ainda era tempo de sorrir sob o céu estrelado. – Mas não cometa meus erros. Olhe para o céu o quanto desejar, e não deixe nenhuma ameaça do tempo te tomar isso.

- Não vou, sério.

- Bom saber.

Se levantou, se despedindo do menino. Parecia menos preocupado com seu futuro, vendo tal nova geração tão calma, feliz, ao menos aquele garoto. Fez o caminho da volta ao teatro saboreando cada ansioso segundo valioso, e acalmando o coração agitado para confiar; que seria um bom tempo. Pôs os pés em frente ao teatro, suspirou e sorriu. Logo a moça com quem se engraçava apareceu, maquiada e bela, com um sorriso de orelha a orelha. Se viram e, já próximos por poucos passos, Psiche sentia o coração do peito pular. De que adiantava tentar controlar aquele órgão que ousava se rebelar? Pôs a mão no bolso, puxou o relógio, vendo o olhar da moça brilhar mais que o céu estrelado, encantada.

- Piche, fico feliz em te ver! – Ela pegou o objeto em mãos, abriu o relógio, o analisou e, por fim, o fechou e aproximou com as mãos cerradas contra o peito. – Como adivinhou?

- O que? – Psiche sorria, confuso. – Que gostava de relógios?

- Ah, deixa. Vai pro nosso lugar, eu logo apareço, sim? – Ela, agitada, saiu às pressas e o deixou ali, perdido. O psiquiatra apenas observou, rindo suavemente, apesar da confusão. Imaginou que talvez ela tivesse alguma urgência, ou tinha visto algum conhecido.

Psiche ficou um tempo parado e, vendo que ela não voltava, decidiu ir ao seu lugar. Contudo, querendo surpreendê-la, pegou a fila para a pipoca, uma longa fila que durou longos minutos; e pegou dois pacotes de pipoca, água e alguns doces, que imaginou que ela fosse gostar. Gastou ainda mais algum tempo passando por fileiras de pessoas se espremendo até chegar em seu lugar, muito próximo do palco. Ao seu lado, uma poltrona vazia, que assim ficou até o espetáculo começar. Já se sentia envergonhado e tenso, sentindo alguns olhares em suas costas enquanto segurava os dois pacotes de pipoca; quando o espetáculo começou.

Qual foi sua surpresa quando, no palco, viu sua amada dançando. Usando uma roupa rosada, com um tutu roxo, ele sorriu, sentindo-se bobo. Ela o chamara de Piche, um apelido antigo seu e que nunca soara tão harmonioso, usava rosa e roxo, era espoleta e surpreendia sempre quem encontrava. Parecia tanta coincidência, que ele mal podia acreditar, até pegar o livreto do teatro sobre a peça, com o nome e foto de todos os dançarinos. Via agora, pelo nome, descrição, pelos trejeitos; era ela, a moleca de sua infância!

E, subitamente, Psiche se sentiu menos bobo por estar segurando dois pacotes de pipoca em mãos. Se sentia menos ansioso pelo seu futuro. Pois, o que mais lhe importava, agora, era manter o sabor da memória doce que o tempo formava para ele, de presente.

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Notas de Rodapé

Espero que tenha gostado, e que esse texto te tenha trazido alegria no fim!O Psiche é um personagem que fiz para esse conto, especificamente. A ideia dele me veio pouco depois de decidir que cursaria psicologia, enquanto pensava sobre o que seria ser um profissional. Ele é para mim, de fato, a figura do profissional - quase - perfeito e responsável.Aliás, alguns trechos da história podem ser vistos por outro ângulo em outros contos meus. O Homem sem sonho e O Homem em sua bolha também possuem em si referências de um para outro. Me desafiei, na escrita desses contos, a fazê-los se cruzar entre eles. Se tiver curiosidade, eu recomendaria ler eles! (mas sou suspeita de falar isso, sendo a autora haha)Espero que tenha gostado, meu caro leitor. Fique bem, fique com Deusaté um próximo conto!

Apreciadores (2)
Comentários (1)
Postado 25/01/22 23:21

Ohh, o Psiche sempre evocou curiosidade nessa alcateia. E de certo trouxe mais agonia do que esperavamos, essa relação dele com o tempo, haha. A ansiedade talvez seja contagiosa como bocejos... Mas vero não seria, se não fosse por sua escrita trabalhada. Apesar disso, o trilhar do conto nos agradou bastante, foi bem desenvolvido, especialmente a reflexão lentamente mudando, momentaneamente ou não, até os finalmentes. Gostamos muito da aparição do homem dos relógios, toda a cena dele foi bastante envolvente, como uma pessoa de aura, atmosfera própria; esperamos poder ver mais contos seus no futuro, minha cara, mas por agora aproveitaremos para pensar sobre este, no devido presente. =w=

Postado 26/01/22 14:43

Devo admitir que acho graça no desconforto causado pelo Psiche. De certa forma, eu queria mesmo que ele causasse algo marcante, e a agonia é marcante, não? haha, mas a ansiedade realmente se espalha. Obrigada pelos elogios, e pela leitura. O homem do relógio é um personagem que ainda vou desenhar e escrever alguma coisa sobre ele, tenha certeza. Muito obrigada!!