Dai-me o vinho
OvniCius II
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 23/03/22 22:49
Gênero(s): Crônica
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
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Palavras: 878
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Capítulo Único Dai-me o vinho

Dai-me o vinho. Aquele da grande garrafa e barato.

Meus amores desprezam-me. Meus amores que nem me conhecem desprezam-me. Olham-me do alto de uma vida interessante e intelectual e cospem-me. Olham-me das alturas de um glamour espontâneo e nunca conceberiam saber que as amo.

Dai-me o vinho. Aquele da grande garrafa e barato.

Desprezo o desprezo imaginário de meus amores imaginários. É que primeiro necessitei de amores. Depois fui insuficiente para realizá-los. Em seguida projetei neles o outro eu que seria tão incrível quanto eles. Mas não poderia ser eu esse outro eu sem estar ao lado desses amores que me lançariam ao sublime. Tentei então alcançar o sublime de meus amores, mas na tentativa de escalar apenas me exauri e murchei como uma flor pavorosa e mórbida. Sei que, desconhecendo por completo minha existência, meus amores seguirão suas próprias rotas, triunfantes. O que posso fazer a esse respeito? Não tive coragem de dizer-lhes. Não pude saber se amava mesmo essa mulher, aquela mulher. Eram apenas mulheres à distância. Caíram no delírio de meu sonho romântico e transformaram-se em fantasmas de um futuro impossível. Seria tão bom estar com elas! Mas não digo tudo isso e assumo tudo isso tão somente a partir de meu egoísmo? De meu supremo egoísmo de posse? Mas o que, nelas, por elas, eu poderia possuir afinal, senão momentos que nenhum mortal é capaz de possuir, pois que nenhum mortal tem controle sobre o tempo e os gozos que o tempo traz, e leva?

Ah!...

Dai-me o vinho. Aquele da grande garrafa e barato.

Como um cão abatido estive vagando numa miserável chuva de solidão. O que eu queria afinal? Eu já esqueci. O sexo não me valia quase nada. Era algo como qualquer coisa outra: era algo como estar nu, na estupidez da matéria. Terei ainda metáforas para povoar um solilóquio deprimente, de um incompetente que jamais soube o que fazer de seus próprios impulsos? Penso agora naquele caminho reto pela vida. Naquele caminho propriamente aristotélico, socrático, epicurista, cristão, pragmático, ou qualquer outro caminho. Só me resta estar entre caminhos, tentando me achar, me desencontrando neles, com as palavras emperradas numa engrenagem enferrujada. Pois meu coração foi desabitado: pois essa ou aquela mulher --- nunca uma qualquer mulher, aliás. Mas "a mulher" --- sim, o "grande amor" --- isto nunca me sobreveio. Isto tudo caçoam não passe de ilusão. Os críticos já desmascararam tudo. Os yoguis optaram pelo Vazio Transcendental. Agora mesmo eu posso sair do Facebook e me sentar em silêncio até o fim de março, em jejum. Será que Deus em pessoa virá me buscar e me carregar para longe desse corpo que não sofre tentações vivificantes, mas apenas tentações bobinhas, tentações idiotas e tentações sem substância?

Dai-me o vinho. Aquele da grande garrafa e barato.

Sei que isso vai terminar mal. Tudo vai terminal mal. Onde afinal residirá a morte feliz? Todas as mortes são cheias de ais e de uis. E depois de um tempo fica-se cansado de saber que a nossa própria morte não será diferente de ais e de uis. A verdade é que eu queria me divertir com "o amor da minha vida" antes de chegar a hora de passar por esses ais e uis e ser esquecido eternamente na Terra Senhora de Tudo.

Dai-me, então, o vinho. Aquele da grande garrafa... quase vazia.

Eu deveria me encaminhar de cabeça erguida como quem tivesse um conhecimento místico qualquer? Eu deveria caminhar deveras com a cabeça erguida, desprezando o corpo, a saber que a alma é imortal, e que há uma Suprema Divindade que em tudo habita e que Ela é que Cria e Destrói e Recria tudo o tempo todo? Eu deveria ajoelhar-me e rezar pelos meus pecados e solicitar encarecidamente que meu espírito voe para longe do corpo e assim eu conheça afinal A Verdade? Ou ficarei apenas perdidamente, como sombra, entre milhares de tomos de filosofia, tentando compreender o incompreensível, a miríade de conceitos, que vão até Heráclito a nos falar de um fogo, e que tudo é devir, e com isso eu deveria me dar por satisfeito, e simplesmente silenciar e continuar trabalhando no que quer que seja, buscando aquilo que seja o mais próximo de um autêntico estilo de vida, de uma postura que me colocasse diante de mim mesmo num tipo de lucidez pela qual o pensamento fosse capaz de gerenciar uma multiplicidade de fatores e tirar suas próprias conclusões, como que por meio da lógica e da matemática, seguindo, por assim dizer, os traços que indicam lugares onde as abstrações tomam forma e finalmente ganham corpo e agem no mundo e dessa maneira eu, depois de tanta obscuridade e tormento mental, seria capaz de dizer "Sim, eu penso dessa maneira. Eu cheguei a essa conclusão após um exame ponderado."?

Ah! Dai-me o vinho, o vinho... Sim, o vinho...

Hei de estar bêbado. Não nasci para abstrações. Não para resolvê-las. Não para encaminhá-las. Não para me haver com arquétipos. Não para raciocinar politicamente. Não para observar e ter uma opinião qualquer. Não para expressar e ter uma personalidade.

Sim, sou essa sombra. Desdobro-me numa reclusão patológica.

Que mais tenho a imaginar?

Sei que tenho. Qualquer coisa que fosse. Irá... ou não irá vir.

E até já me esqueci das ninharias, dos amores impossíveis.

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