A Verdadeira Ameaça (Em Andamento)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 14/07/22 11:46
Editado: 25/07/22 23:44
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 19/07/22 02:36
Cap. Editado: 19/07/22 05:08
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 40min a 54min
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[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de dezesseis anos
A Verdadeira Ameaça
Conto 2 O Preço da Ignorância

Hélio Américo em seus 50 anos demonstrava comportamentos de um conservador de esquerda, um rapaz branco de classe média que era contra qualquer pauta de esquerda. Progrediu rápido em sua vida, num determinado momento era pobre e desempregado e no outro se tornou gerente de hotel, se sentia um exemplo vivo da meritocracia. Hélio era um rapaz simples que nasceu numa cidade grande, não gostava do burocrático, do complicado, era um rapaz que gostava de praticidade, o “mão na massa” e por isso dava mais valor ao que via do que aquilo que não via, gostava mais de lidar com o tangível do que o que não podia tocar, conversava com Deus todos os domingos, mas só não era ateu pois tinha um medo inconsciente de ir pro inferno — que segundo ele era um lugar, o mesmo de onde Judas perdeu as botas.

Foi com um sistema de bolsa de estudo para pessoas de baixa renda — um programa antigo de um político de esquerda — que Hélio pôde fazer faculdade de gestão em hotelaria e foi o que enriqueceu o seu currículo a ponto de conseguir um emprego, mas para Hélio não havia sistema de bolsa de estudo. Era tudo papo furado da política de esquerda para fazer todos ficarem do lado deles — "bando de comunistas" — para Hélio quem realmente lhe deu oportunidade na vida não foi um suposto projeto social de esquerda da qual você não podia nem apertar a mão de alguém e dizer "obrigado pela oportunidade", mas quem de fato lhe deu oportunidade na vida foi o dono da famosa rede de hotelaria Habano, também conhecido como Velho da Habano, que esteve uma vez na sua entrevista de emprego e na dinâmica de grupo conversou um pouco com cada um. O Velho da Habano tinha o carisma semelhante ao do Silvio Santos e era alguém visível que se comunicava com as pessoas sem perder sua aura de superioridade. Foi exatamente a partir do dia que Hélio falou por uns poucos segundos com o senhor Habano no telefone — na verdade era uma gravação, mas Hélio não teve discernimento para saber a diferença — que ele sentiu que o Senhor Habano era alguém confiável, que se algo desse errado as pessoas poderiam tirar satisfação com ele pois não se escondia por trás de camadas de burocracia.

Hélio descobriu da melhor maneira que o saco do chefe era o corrimão para o sucesso: Vestiu a camisa da empresa, leu os livros que seus superiores indicavam, acompanhou palestras de coach financeiro e motivacional e foi absorvendo a cultura de pessoas mais abastadas como o senhor Habano. Sem que percebesse estava seguindo cegamente o conselho de influenciadores, palestrantes, empresários e políticos de direita. Todo esse esforço rendeu a Hélio a posição de gerente de uma das redes de hotéis, não porque era um bom funcionário, mas porque pressionava os funcionários de tal forma que agradava o sadismo velado de seus superiores. Se tornou um homem expansivo, tomou gosto pela demonstração gratuita de poder, uma pessoa simples, mas de temperamento difícil, alguém capaz de brigar com a mãe para defender o Velho da Habano. Sua devoção era tão grande que sua esposa não aguentou e deu entrada no divorcio. Hélio não podia suportar que a esquerda vencesse — estava tão obcecado que todo mundo que lhe contrariava se tornava um sujeito da esquerda — e com essa determinação que no divorcio conseguiu o direito da guarda da filha.

Três anos se passaram e além de cuidar da filha, Hélio se engajou ainda mais na politica... não que entendesse alguma coisa, mas se alguém estava falando mal do movimento negro, das feministas e da comunidade LGBT ele tava feliz… o importante era proteger o alto escalão que achava que fazia parte. Quando o vírus chegou, a OMS estabeleceu novas regras que, foram ignoradas pelo atual presidente. A falta de confiança fazia muito sentido para Hélio, ora veja só: uma vez que a OMS, a ciência e a medicina dizia que era para usar máscara ao sair — e céus, nenhuma delas é uma pessoa — aquele que provavelmente estaria certo é o presidente que estava dando a sua cara a tapa e botando a mão no fogo de que a pandemia era uma mentira, que era tudo "fake news" e de que todos deveriam voltar ao trabalho normalmente, mas quando o governador fez o contrário na cidade de São Paulo e instaurou o estado de quarentena, Hélio e seus superiores considerou aquilo como um golpe comunista contra o empreendedorismo. Do alto do seu carro luxuoso o velho do Habano, em seu seguro isolamento social, mandou mensagem pelo whatsapp para todos os gerentes de hotel da rede. Hélio precisou fazer um corte e demitir boa parte dos empregados, uma vez que a maioria não estava indo para o trabalho devido a quarentena, entre eles Luan, um ótimo funcionário, um garoto de origem humilde, mas se esforçava como ninguém nas suas funções e sempre pensava em formas de deixar o ambiente de trabalho mais agradável — seja pela implementação de novas tecnologias, seja pelas brincadeiras que deixava tudo mais leve — Hélio até sabia de algumas maneiras de atrasar as demissões em massa, talvez economizar em algumas recursos que não estavam sendo usados, uma vez que o hotel não estava recebendo inquilinos, para segurar os empregados por mais tempo, mas “quem sabia dos negócios eram os poderosos” — Hélio repetia com certa frequência uma das frases preferidas de Habano. Acreditando que era o melhor a fazer não só pelos empresários, mas como pelo bem do país, Hélio juntou com outras pessoas que seguiam cegamente o presidente para fazer protestos em frente ao hospital — o que era proibido, mas que eles interpretavam como um ato de censura do governador.

Hélio protestava próximo a linha de frente andando de mãos dadas com a filha. Passavam em frente a ala de UTI do hospital das clínicas que havia sido aberta recentemente para poder dar conta das pessoas contaminadas com o novo vírus. Os protestantes gritavam palavras de ódio aos médicos e enfermeiros pela suposta farsa. Haviam relatos de médicos que não conseguiam chegar ao estacionamento do hospital por terem sido barrados pelos protestantes. A polícia, que parecia um tanto resiliente com a atitude dos protestantes, precisou interferir diante das insistentes acusações. Líderes tentavam lutar pelos seus direitos de protestos e, enquanto isso, Hélio que era um homem alto pôde ver que havia um rapaz ajoelhado em frente a porta da UTI. O homem estava chorando, todo suado, com o cabelo bagunçado e carregava uma criança nos braços… tinha algo familiar naquele rapaz, talvez fosse um parente, mas Hélio queria ter certeza. Tentou se aproximar tirando algumas pessoas da frente, desviando de outras, mas…

Pow! FZZZZzzzzzzz…

Um objeto seguido por um traço de fumaça pousava no meio da multidão: uma bomba de fumaça jogada pela polícia com o objetivo de dispersar a multidão que se agitou. Hélio e Daniela — sua filha, uma adorável garotinha de cabelo cacheado castanho — se assustaram com a movimentação dos protestantes que se agitavam como um rebanho sem controle. Hélio puxou sua filha no colo e correu para um lugar seguro, abaixo do toldo de entrada da estação do metrô das clínicas.

— Pai, podemos ir para casa? — Daniela era uma garotinha inteligente. Gostava do pai que graças ao ativismo político parecia viver várias aventuras que talvez a mesma fosse muito nova para entender, mas se divertia. Só que Daniela tinha sua parcela de responsabilidade desenvolvida pelos pequenos desleixos do pai. Ela também sabia o momento que a diversão estava prestes a acabar nesses eventos. — Estou ficando assustada.

Hélio olhou em volta e por mais que quisesse continuar, sua filha era prioridade total em sua vida, se ela não estava feliz então era hora de ir embora mesmo. Adentrou na estação, desceu a escadaria, passou direto pelas catracas e subiu o lance de escadas do outro lado. O carro de Hélio estava um pouco mais a frente, estacionado em frente a uma floricultura que se estivesse aberta, teria tomado multa por estacionar em local proibido. Apesar de Hélio ter tirado vantagem da situação, estava muito irritado por não estarem trabalhando. Nesses momentos ficava aflito pela economia do país pois como diria o senhor Habano "Tempo é dinheiro e a economia não pode parar".

Hélio chegou em casa. Botou a sua filha para assistir a aula da escola particular online — coisa que teria que resolver mais tarde, uma vez que a escola tinha se rendido aos caprichos do governador golpista — Hélio pagava do bom e do melhor, desde escola particular e seguro de vida até os melhores brinquedos para sua filha, mas talvez não fosse o homem mais inteligente para decidir o que era melhor para ela. Nestes momentos de descaso, Daniela sempre foi precocemente responsável, apesar de seu pai querer sempre presenteá-la com brinquedos, ela sempre pedia materiais para poder estudar. Já sabia de antemão em qual escola queria estudar, era curiosa por natureza, queria ser cientista, mas tinha medo que seu pai pudesse não gostar então mantinha isso em segredo.

Hélio ficava muito tempo ocioso uma vez que só visitava o seu local de trabalho duas vezes por semana para cuidar de processos administrativos e verificar a manutenção, mas era justamente nesse meio tempo em casa que curtia a sua bolha social. Entrava nos grupos do facebook onde as pessoas botavam fatos mentirosos — também conhecidos como fake news — era ali, conversando com outras pessoas, que ele alimentava o próprio ódio. Não havia nada a fazer, às 3 da tarde pediu o almoço pelo ifood, uma vez que a empregada havia pedido demissão e Hélio não sabia cozinhar. Estava tão entretido em sua bolha social que se não fosse por Daniela, ele também esqueceria de pedir o almoço. Enquanto almoçava com a sua filha o seu celular tocou. Era sua ex-mulher, mãe de Daniela.

— Alo...? - Hélio sempre relutava em falar com Sandra pois toda conversa terminava em discussão.

— Hélio? O que você estava fazendo no protesto? Hélio… estamos numa pandemia! Não é hora de brincar com essas coisas — Sandra já demonstrava uma voz impaciente no telefone.

— Ow… ow… pera ae… quem disse que eu fui? — Hélio piscou para Daniela que retribuiu com um sorriso confidente — passei o dia inteiro em casa, como já vai acusando os outros assim?

— mas você ainda tem a cara de pau de mentir? Hélio! Ta o seu rosto escancarado em todos os noticiários...

Hélio saiu da cozinha e foi para a sala, pegou o controle e ligou a TV e nem precisou perguntar onde estava passando. Viu o seu rosto escancarado em uma gravação em looping dos protestos daquela manhã enquanto era repreendido de maneira indireta pelo repórter.

— …pelamordeDeus, não me diga que levou Daniela.

De fato Hélio não poderia dizer pois agora o noticiário exibia a sua imagem com a camisa do Brasil em frente a entrada do metrô com Daniela no colo. É óbvio que havia mais algumas poucas pessoas ali, mas a sua imagem, por ser a que mais preocupava, ganhava um destaque maior na televisão, era muito fácil achá-lo, quando sabia o que estava procurando…

— Poxa Sandra, vai me encher o saco agora? To aqui quieto no meu canto, não fico dizendo o que você tem que fazer ou não quando a Dani ta ai — a única estratégia de Hélio foi se colocar na defensiva.

— não se faça de besta! Se eu descobrir que você tem levado ela para os protestos, a gente vai se ver no juizado de menores, seu cretino!

Desligou.

Hélio queria ter respondido ao xingamento, mas Daniela estava por perto e não queria que sua filha aprendesse palavrões por ele. Apesar de estar aliviado de Sandra não assistir ao mesmo canal que ele, sabia que era só uma questão de tempo para que visse a imagem congelada dele em frente ao metrô. Odiava esses grupos que eram a favor da vacina, da ciência e das coisas complicadas, mas sabia muito bem que o juizado de menores podia lhe afetar, tinha medo deles… sabia que era bem possível que tirassem a guarda da sua filha se quisessem. "Mas ora bolas, era a segunda vez que levava Daniela para um protesto contra a quarentena e tudo havia corrido bem nas duas situações", nosso protagonista estava confiante de que se existia alguma fake news no mundo, ela vinha desse papo de pandemia.

Hélio olhou em volta e não viu Daniela, havia ainda um pouco de comida em seu prato, foi até o quarto da filha e encontrou Daniela lendo um livro da escola por puro prazer de estudar.

— querida, já está lendo? Não vai comer mais? — perguntou num tom passivo e afetivo.

— não estou mais com fome, papai — a grande verdade era que Daniela estava sentindo dor de garganta, principalmente quando tentava engolir a comida, este era um dos sintomas da doença do novo vírus, mas preferiu não fazer alarde pois era final de julho e a mulher do tempo havia dito que era comum o tempo ficar seco naquele mês. Não era a primeira vez que ficava com dor de garganta naquele inverno.

"Tudo se resolveria só bebendo água e se hidratando" pensou Daniela. Quanto ao Hélio, por se preocupar com a alimentação da filha que, aparentava estar muito magra, pretendia insistir para que comesse um pouco. Talvez até perceberia a dificuldade que a filha teria em engolir a comida no jantar se ele não ficasse distraído com uma notificação de evento do facebook: um protesto que estava organizado para acontecer naquele fim de semana chamado “buzinaço”. Um protesto em prol da volta das atividades de todas as empresas e contra as medidas da quarentena. Dessa vez para evitar a intervenção da polícia pela falta do uso de máscara o protesto seria feito dentro do carro passando por vários lugares enquanto buzinavam, o que seria totalmente dentro da tática de censura da OMS e ainda poderia levar Daniela no carro sem despertar a ira de Sandra ou do Juizado de Menores. Seria o protesto perfeito.

Os dias passaram voando e a data do protesto chegou, nesse meio tempo Sandra ligou novamente xingando Hélio após descobrir que ele levou Daniela no protesto. Sandra pediu para falar com a filha e após uma longa conversa só com as duas, Daniela conseguiu acalmar a mãe em relação aos cuidados que seu pai vinha tendo e este ficava preocupado sempre que havia essa conversa entre mãe e filha. Havia uma co-dependência não explícita entre pai e filha, Hélio cuidava de toda a burocracia rotineira dos adultos — pagamento de boletos, assinatura de contratos, cheques, etc… — da qual sua filha já tentará entender várias vezes por vontade prematura de ser independente, mas admitiu que talvez não tivesse maturidade suficiente para compreender — ou talvez julgasse burocracia desnecessária para se preocupar — e Daniela por sua vez tinha inteligência emocional o suficiente para fazer o pai refletir sobre as próprias atitudes e convencê-lo a tomar decisões melhores… algo que já salvou Hélio de processos e brigas desnecessárias. Sandra também perceberá a diferença de comportamento de Hélio quando ficava com a guarda da filha, qualquer um que conviveu com Hélio podia perceber que somente a presença da sua filha já o tornava um homem melhor e por isso a disputa pela guarda da filha geralmente não passava de uma ameaça, mas era uma ideia que vinha ganhando força com a quarentena.

Hélio levou Daniela para o protesto, mas dessa vez, por medo de perder a guarda da filha foi tomando várias medidas para que ela participasse, mas com responsabilidade. Assegurou que Daniela estivesse com cinto de segurança, espirrou álcool por todo o estofado do carro e dirigiu em direção ao protesto com somente uma fresta da janela do carro aberta. Fizeram buzinaço durante boa parte do caminho, passaram fazendo buzinaço em frente a UTI — o que era proibido, mas por algum motivo a polícia fez vista grossa — pararam em frente a prefeitura e somente neste momento parados ali e buzinando foi que Hélio permitiu que Daniela tirasse o sinto e abrisse a janela para ver o movimento dos protestos. Daniela gostava da agitação dos protestos, encarava tudo como um gigantesco carnaval com os desfiles e as cores e bandeiras verde e amarelo bem em evidência, ela sabia que era algo político e vinha tentando fazer o pai ter uma consciência melhor sobre o que estava protestando ou qual era a importância da ciência, da medicina e da OMS, mas enquanto não conseguia via aquele tumulto como diversão.

Foi tudo muito divertido, o fato de cada protestante estar isolado em seu carro foi algo que deu para Hélio e Daniela um tempo só deles, ele se divertia com o sorriso da filha, ele estava ali, entregue para a felicidade dela, havia sido a primeira vez que Hélio estava deixando os protestos de lado… mesmo que estivesse participando de um.

***

Na volta para casa, o carro de Hélio tocava “Can’t Stop The Felling!” de Justin Timberlake, música preferida da Daniela desde que assistiu "Trolls" pela primeira vez, enquanto ele vinha pensando que deveria aproveitar mais o tempo que tinha com a filha, talvez mudar um pouco essa rotina de protestos, levá-la ao parque… para a praia talvez… Parou o carro no farol vermelho, já próximo da sua casa, olhou pelo retrovisor para a sua filha e...

— Dani? Tá tudo bem, meu anjo? — Hélio percebeu que sua filha estava abatida, com as bochechas vermelhas e tremendo.

Daniela somente balançou a cabeça que não, mas permaneceu calada. Hélio retirou o cinto e esticou o braço direito encostando as costas da mão na testa de sua filha.

Estava quente… muito quente… febre…

— Ok filha, vamos fazer o seguinte - Hélio não queria aparentar, mas estava assustado — vamos fazer um pequeno desvio e passar numa farmácia.

Se Daniela pudesse falar alguma coisa, diria que seu pai estava pálido.

Hélio estacionou em frente à drogaria, era um local proibido, o que chamou a atenção de um policial que estava voltando para o seu posto móvel. A rua estava deserta, qualquer movimento ficava destacado, para os bandidos mais estúpidos a quarentena era um momento de oportunidade, para os mais espertos: estava tudo muito mais arriscado. Hélio pegou sua carteira, abriu um pouco mais a janela de sua filha para que não ficasse abafado, saiu do carro e quando estava prestes a entrar na farmácia, foi parado pela mão do policial.

— Desculpe, mas o senhor não pode entrar. — as palavras do policial estavam abafadas pela máscara azul escuro em seu rosto.

Hélio olhou para a mão do policial em seu peito, sua vista subiu para o nome do policial "PM Wagner B-", encarou o farmacêutico, que também estava de máscara lá dentro, e que disfarçou o olhar quando foi visto.

— Desculpe, eu não entendi… — Hélio voltou o olhar para o policial — eu só quero comprar um remédio para a minha filha.

— O senhor está sem máscara, é preciso estar de máscara para transitar pelas ruas.

Hélio reparou na máscara que o policial estava usando e se sentiu irritado com isso. — para ele não havia mais diferença do policial para um bandido com aquela máscara: ambos escondiam o rosto, tinham medo de se expor.

— Eu acredito que tenho liberdade para poder ir e vir sem más...

— O senhor tem liberdade para fazer o que quiser da sua vida, mas sua liberdade termina quando coloca em risco a vida das pessoas.

Agora Hélio sentia como se ele fosse algum vilão da história toda, o que o deixou mais nervoso ainda.

— Olha aqui policialzinho de merda, eu sou um cidadão de bem, tá ok? — Hélio aumentava o tom de voz conforme as palavras saiam de sua boca — e eu não vou tolerar esta tentativa de controle e censura que esses comunistinhas estão tentando impor, agora saia da minha frente que eu pago o seu salário com os meus impostos.

Hélio fez menção de desviar do policial e entrar, mas o mesmo botou o corpo na sua frente.

— senhor, eu peço encarecidamente que abaixe o tom de voz — a voz do policial não aumentou, mas havia um tom ameaçador e assustador nela — é necessário respeito ou terei que usar de força maior para prendê-lo por desacato a autoridade, o senhor e nem ninguém está autorizado a entrar sem mascara, estamos entendido?

Existia a possibilidade de Hélio baixar a guarda e pedir ajuda para o policial, existia um “e se” que tornaria esta história muito mais curta e agradável, um “e se” que demandaria esperança da vitória do indivíduo sobre o próprio ego, mas o que seria do “e se” se ele “fosse de fato”?

Havia uma intenção agressiva nos olhos do policial que assustou Hélio, mas como todo "macho" que manda na mulher, caçoa de homens afeminados e não leva desaforo para casa, Hélio pretendia ceder aos instintos mais fáceis e levar aquilo até às últimas consequências… até que…

— Pai! — Daniela conseguiu gritar de dentro do carro.

Hélio acordou de um pesadelo que estava prestes a acontecer e olhou para a filha, deixou o policial parado na porta da farmácia e voltou para o carro.

— Oi, filha… ta tudo bem? — a voz de Hélio se alterou completamente para algo mais harmonioso e gentil e sua mão repousava na testa da filha.

— podemos ir para casa?

Hélio raciocinou um pouco e lembrou que em casa talvez existisse um antigripal de gripes passadas que talvez ainda tenha passado do prazo de validade, tudo ficaria bem.

— tudo bem, nós vamos para casa… tenho remédio em casa.

Hélio olhou para o policial na porta da farmácia. Teve uma pequena vontade de chorar, por algum motivo a situação lembrou do rapaz ajoelhado em frente ao hospital das clínicas com a criança no colo. Do mesmo jeito que a lembrança veio, também se foi. Hélio deu a partida no carro e seguiu para casa tentando não ligar para o que ocorreu.

Daniela adormeceu. Após tomar um antigripal sua febre passou e por ter passado por um estresse grande acabou adormecendo. Hélio sentiu alívio e mentiu para si mesmo ao pensar que não havia motivo para fazer alarde, "é só uma febre, Daniela já teve febre antes". Tentava ignorar a possibilidade da sua filha estar com a doença que ocasionou a quarentena… até porque segundo o Velho da Habano: “ela não existe, é um delírio coletivo criado pela China”. Hélio permanecia na fé que este homem estaria certo em tudo e cedo ou tarde todos chegariam na mesma conclusão.

O celular de Hélio tocou e ele fez uma careta ao ver que era Sandra, mas agora se sentia confiante para responder a altura.

— mas o que foi, mulher!?

Hélio se sentia mais confortável com os gritos de Sandra, por uma questão de reforço negativo, toda vez que sua ex-mulher vinha com uma voz serena sentia algo ruim, foi assim quando ela disse que queria dar um tempo, foi assim quando disse que queria o divórcio e foi assim que iniciou a conversa.

— Oi Hélio, tá tudo bem com Daniela?

Hélio se sentiu confuso pela voz branda e pela pergunta em si. Daniela tinha o próprio celular e geralmente sua mãe ligava direto para ela quando queria saber como estava. A pergunta em si provocava uma sensação de culpa, como se Sandra tivesse descoberto algum crime de Hélio, "que crime? Não fiz nada de errado!"

— É claro que ela está bem… que tipo de pai acha que eu sou? — Hélio se pôs na defensiva, abaixou o volume da televisão e se sentou na beirada do sofá para ficar atento ao o que Sandra queria lhe dizer, estava preparado para qualquer ataque, menos aquele.

— olha… desde o dia que levou Daniela para o protesto sem tomar nenhum cuidado, eu estive pensando e decidi que Daniela deve ficar comigo, pelo menos durante o período da quarentena — Sandra falava, mas Hélio já não ouvia, estava transtornado pela possibilidade de perder a guarda da filha — eu percebo o quanto ela te faz bem, mas estou insegura quanto a maneira que está cuidando dela na quarentena, acho irresponsável e…

— irresponsável? Quem cuidou dela este tempo todo foi eu! — Hélio ficou com o rosto quente, num tom avermelhado — você quer vir falar de responsabilidade agora, Sandra?!

Neste momento Hélio ouviu um som de passos atrás dele, se virou por instinto na direção do som e viu Daniela ofegante, suor pingando de seu rosto, sua expressão assustada deu um choque de realidade em Hélio, um frio na barriga daqueles que se sente quando se está em um lugar alto e esta prestes a sofrer uma queda.

"Minha filha não precisa de antigripal, precisa ir pro hospital"

—…olha Hélio, não liguei para discutir, liguei só para avisar que já tomei a decisão e meu advogado…

Sandra continuava falando no telefone, mas a guarda da filha parecia um problema distante agora.

— Ta, ta… depois eu ligo pra você…

Hélio desligou o celular sem ouvir a resposta de Sandra.

— Dani, querida, o que está sentindo?

— parece… que to… me afogando… — Daniela disse botando a mão no peito.

O celular de Hélio tocou, depois foi o de Daniela, mas nenhuma ligação foi atendida.

Hélio pegou sua filha no colo, colocou no banco de trás de seu HB20, apertou o cinto e saiu em disparada ao hospital particular sem dizer mais nenhuma palavra.

Fazia questão do melhor plano que o dinheiro podia pagar para a sua filha, ela era o seu tesouro… Hélio não tinha certeza se era um rapaz de grandes feitos na vida, mas tinha certeza que Daniela era um desses feitos e investia cada centavo nela.

***

Hélio parou o carro logo na frente do hospital, saiu do carro às pressas e viu dois seguranças na lateral da porta que lhe fizeram lembrar do policial da farmácia. Tentou andar com pressa para não provocá-los. A porta automática se abriu e ele clamou por um médico. Lá dentro estava tão agitado quanto a cabeça do protagonista, haviam enfermeiros e médicos correndo por todos os lados, todos usando máscara, com roupas e óculos de proteção, sons de aparelhos hospitalares apitando em ritmo. Algum aparelho apitou num ritmo acelerado e um enxame de médicos e enfermeiras foram correndo até a sala, havia muito movimento, era desnorteante.

— Senhor? Senhor…?!

Uma enfermeira, usando máscara, pelo o que podia ser observado, negra de pele clara, tentava chamar a atenção de Hélio, que se assustou com a presença dela, mas rapidamente obedeceu ao comando da enfermeira de sair do hospital. Ela o acompanhou até o lado de fora da porta, mas não mais do que isso.

— O senhor é acompanhante de algum paciente? — a enfermeira deu início a conversa que, naquele lugar, era mais confortável.

— Não — respondeu Hélio. — A minha filha, que está no carro, está apresentando dificuldade de respirar e...

Mas não terminou.

— Aqui — a enfermeira disse oferecendo uma máscara K95 para Hélio — o paciente está inscrito na fila de espera?

Hélio ficou confuso e sua expressão foi resposta suficiente para a enfermeira.

— mandamos um e-mail para todos cadastrados em nosso sistema, estamos com todos os leitos de UTI ocupados, fizemos alguns leitos improvisados, mas ainda falta material, os atendimentos agora seguem uma fila de espera para um melhor…

— Fila de espera…? Fila de espera?! — Hélio não conseguia acreditar na frieza da enfermeira, mas muito mais do que isso estava indignado por seu dinheiro investido não valer de nada agora — eu pago o seu salário, sua vagabunda! Eu preciso de um leito, agora!

A enfermeira ofereceu um olhar apático, somente deu um passo para trás, se colocando para o lado de dentro da porta do hospital. Hélio havia feito escândalo suficiente para chamar atenção dos dois seguranças que, eram tão grandes que ao se colocarem lado a lado na frente de Hélio, preencheram qualquer espaço de visão que pudesse ter.

— Malditos! É a minha filha!

Hélio tentou socar um dos seguranças, mas foi rendido pelo outro que socou o seu estômago e o afastou da porta do hospital com um empurrão que o fez desabar a alguns metros de distância. Hélio foi puxando o ar tentando se recuperar enquanto se levantava, tinha o ímpeto de voltar lá e continuar lutando com eles, mas a sua filha era prioridade até acima do seu ego. "Se eu tivesse comprado aquela arma… " — Hélio pensou ao voltar para dentro do carro, se lembrou de quando estava pesquisando sobre preço de armas em sites online e Daniela ao saber disso o fez desistir da ideia.

— Querida, você está bem? Fala comigo!

Hélio não conseguia disfarçar a vontade de chorar, estava explícita na voz embargada e nas duas lágrimas que desciam pelo rosto suado. Botou as costas da mão na testa da filha e percebeu que a febre tinha voltado, mais forte do que nunca, mas o que mais assustava Hélio era a falta de resposta da filha. Os olhos de Daniela ainda estavam abertos e reagiam ao chamado do pai, mas era um movimento lento e fraco. Daniela estava sentindo uma dor de cabeça muito forte, incapacitante e incessante, não deixava espaço de tempo para acalmar ao pai que era a sua prioridade naquele momento, até mais do que se curar da doença que a afligia.

Hélio voltou para a frente do carro e encostou a testa no volante. Sério e pensativo, Hélio estava tentando se concentrar em algum meio de salvar sua amada filha, mas a única coisa que vinha na sua cabeça era o rapaz ajoelhado em frente ao hospital das clínicas.

"Por quê isso não sai da minha cabeça?"

Então veio vislumbre de uma possível solução, bem… não era exatamente uma solução, mas um sopro de esperança: "só temos que tentar outro hospital", era uma esperança cega, sem fundamento e nenhum embasamento em fatos, ele mesmo viu no noticiário que 90% dos leitos estavam ocupados, era apenas esperança pura e… teimosia, sim… uma teimosia que estava intrínseca em seu ser e que agora o motivava em continuar. Hélio ligou o carro e saiu em disparada, era como se fosse um piloto de fuga, tentava conversar com a filha mais para tentar se manter calmo do que para mantê-la acordada. Hélio ultrapassou todos os sinais vermelhos, quase bateu algumas vezes, mas permaneceu inteiro. O verdadeiro problema era a correia do carro, que fez o interior do veículo relinchar e pedir arrego na subida da Teodoro Sampaio, faltando uma quadra para chegar ao Hospital das Clínicas. Não era algo de um simples conserto, o carro estava no seguro, mas talvez não fosse o momento de ligar para o seguro e esperar o mecânico ou o guincho…

— Não se preocupe filha, logo chegaremos lá…

Hélio empalideceu de medo ao olhar para a sua filha, o celular no telefone e a gravação da seguradora rodando, tudo estava longe diante da visão da sua filha morta no banco de trás… celular, janelas abertas, chave na ignição, luz ligada… tudo foi deixado para trás… Hélio andava apressadamente com a sua filha no colo pela rua deserta do hospital, jurava que havia sentido o pulso de sua filha bem fraco, talvez fora do ritmo, mas estava ali, era enorme a angústia que sentia por não encontrar alguém, qualquer um… olhava em volta procurando por vultos e movimentos de sombras, mas era só o movimento das árvores, a única voz na rua era o assobio oscilante dos ventos de outono. Hélio chorava de desespero, faria de tudo para dar a sua vida no lugar da sua filha, suplicou para qualquer um que quisesse ouvir, esperava que um anjo aparecesse para lhe amparar ou, que o próprio diabo aparecesse para barganhar, mas isto não era obra de ficção, era a realidade e a única visão que Hélio teve foi a de uma assombração:

Em frente a porta da ala de UTI, Hélio viu novamente a imagem do senhor, ajoelhado na porta do hospital, suado e com o cabelo desgrenhado, mas dessa vez era seu reflexo espelhado na porta de vidro do hospital. Em seu delírio acreditou que era um castigo divino, que era Deus que havia colocado aquela imagem para que pedisse perdão… Hélio carregava culpa em seu choro… se ajoelhou, estava cansado, estava rendido, estava implorando.

— perdão... peço perdão... me leva, só não leva a minha filha. Salve a minha filha!

O pedido era para que Deus salvasse sua filha, estava com medo e começou a chorar tal qual como uma criança choraria.

Enfermeiros se assustaram com o grito vieram e tiraram sua filha de seus braços, a botaram no lado de dentro da UTI, ali no chão mesmo fizeram os primeiros socorros, foi feito massagem cardíaca por 3 minutos após perceberem uma parada cardiaca, mas que na percepção de Hélio durou uma eternidade. Houve uma respiração de alívio entre eles, a maioria se dispersou, mas uma mulher negra, usando o uniforme do hospital ficou para colocar Daniela deitada num conjunto de três cadeiras sem braços que estava encostada na parede do corredor. Foi quando Hélio se levantou surpreso e…

— O que? Minha filha está quase morrendo, não vai fazer mais nada?

— Ela está com a doença, assim como os outros, estamos só com um leito de UTI vago, precisamos avaliar o estado de todos os pacientes na fila… — a funcionária dizia com firmeza e calma de uma profissional que sabia lidar com pressão.

— Enquanto isso minha filha irá morrer? — Hélio interrompeu já se alterando.

— Sinto muito, senhor…

— Sinto muito uma ova, não quero falar com uma enfermeira qualquer, eu quero falar com um médico… — a olheira, o cabelo bagunçado, a camisa molhada de suor dava um aspecto monstruoso para Hélio — ou melhor, o responsável desta merda…

A mulher repentinamente jogou a prancheta no chão fazendo um barulho agudo de metal bem alto e estabelecendo silêncio no corredor. Ela que até então estava paramentada com viseira e máscara, no ímpeto da ação os retirou do rosto expondo seu rosto machucado ao ar do lugar que provavelmente estava contaminado.

— Eu sou a médica e sou responsável por esta merda! — gritou com olhos desafiadores. — você quer o único leito disponível do hospital? Então quero que olhe para cada um dos pacientes que estão neste corredor e diga que todos eles podem voltar para a casa e esperar pela morte porque somente a sua filha tem o direito de viver!

O silêncio reinou, a mulher continuava encarando Hélio com respiração pesada pelo cansaço da rotina de trabalho, quanto a este olhava em voltar e se sentia cansado, derrotado, egoísta… olhou para as outras pessoas no corredor e percebeu que haviam 6 pessoas doentes no corredor esperando pela ala da UTI, algumas respirava com dificuldades, outras haviam sido recém acordadas e exibiam rostos abatidos, parecidos com os de Daniele quando estava com febre no carro, mas muito além do estado, todas pareciam muito com pessoas que conhecia: uma garota uns 3 anos mais velha que sua filha, uma senhora de vestido preto com estampa de flores amarelas, muito parecida com o vestido que sua mãe gostava de usar, uma mulher muito magra que parecia Sandra quando se conheceram…

Hélio abriu a boca, mas sua intenção foi interrompida pelo toque do celular da médica.

Ela atendeu sem cerimônia, parecia não ligar para o fato de estar sem máscara. Concordou com algumas coisas, ficou surpresa com outras, algo que a pessoa estava falando havia desarmado sua postura.

— ok pessoal, quero que prestem atenção no que vou dizer!

Gritou chamando a atenção de todos novamente.

— Conseguimos vagas para vocês no hospital de campanha do Pacaembu, os enfermeiros irão auxiliá-los para que entrem nas ambulâncias de maneira organizada, rápida e segura.

Um ou dois enfermeiros antecederam na ajuda de cada paciente. A médica parou o enfermeiro que estava indo em direção a Daniela, ela virou para Hélio e…

— Ainda estamos preparando o quarto da UTI, ela ficará aqui pois o seu estado é muito grave e temo que tenha outra parada cardíaca antes que chegue no hospital de campanha. — neste momento ela respirou fundo e Hélio sentiu empatia por ela, era óbvio que estava tendo um dia díficil também — olha… geralmente eu diria para ir para casa agora mesmo, já que não pode ficar aqui se expondo, mas enquanto não podemos levá-la para o quarto, converse com ela, tente se consolar ou sei lá… muita gente deixa o parente aqui achando que é só uma gripezinha e… bem… você sabe…

— Obrigado — Hélio disse num meio termo de dor sentimental e fadiga.

O pai de Daniela conversou com a sua filha que ainda ardia de febre, estava desacordada, mas foi uma boa conversa, prometeu ser um homem melhor, que a levaria para conhecer o mundo e deixaria essas coisas de protesto de lado. Acariciou as suas mechas castanhas apreciando cada minuto de sua companhia, tirou a máscara e deu um beijo na sua testa, lhe acompanhou até a maca da UTI e aguardou o conforto da sua garotinha antes de ir embora. Logo que chegou em casa, fez a ligação para Sandra. Ouviu todos os xingamentos e culpas que Sandra tinha para jogar na sua cara. Aguentou firme, apático, só sentia um peso no peito e mais nada, somente rezava para que Deus fizesse o melhor para a sua filha e após dois dias de luta na UTI, Daniela veio a falecer... nem Hélio, nem Sandra puderam ir ao enterro por causa da quarentena e, mesmo assim Hélio se sentiu privilegiado porque percebeu que teve a chance de se despedir da sua filha… chorou mais uma vez, chorou por muito tempo no eco do espaço vazio que se tornou sua casa.

***

Hélio tomou um banho, colocou sua melhor roupa e ligou o seu notebook duas semanas após a licença nojo, coisa que o Senhor Habano não gostou muito, mas era o tempo necessário para botar a cabeça no lugar e entender a transformação que estaria disposto a passar para pagar a penitência eterna de perder sua filha. Algumas dessas transformações aconteceram sem que pudesse processar direito o que estava acontecendo. Os familiares se afastaram, sua ex? nunca mais ouviu falar. Seus “amigos” ligavam somente para falar de negócios, só queriam saber dos investimentos e da empresa. Os interesses do senhor Habano não eram mais os seus. A doença era real, as pessoas estavam morrendo e haviam algo de soberbo e estúpido no papo daqueles que eram seus colegas de protesto.

Os dias de trabalho ainda seriam home office, o que Hélio compreendeu como parte da penitência — olhou em volta e ainda era muito doloroso saber que sua filha não estaria preenchendo aquele espaço, deixava tudo muito cinza, sem vida — era justamente a ausência dela que servia como um lembrete para que ele se esforçasse para ser um homem melhor a cada segundo da sua vida. Estava tomando antidepressivos como mandou o psiquiatra, mas ele não sentia diferença nenhuma em seu humor, a dor da ausência de Daniela nunca passou. O seu processo de redenção duraria o tempo de luto: o resto de sua vida, mas começou com uma ligação.

— alo? Luan? Gostaria do emprego de volta?

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