A Verdadeira Ameaça (Em Andamento)
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 14/07/22 11:46
Editado: 25/07/22 23:44
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 25/07/22 23:44
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 41min a 54min
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[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de dezesseis anos
A Verdadeira Ameaça
Conto 3 O Elefante na Sala

O período de quarentena havia começado a mais de um mês e a vida da mãe de família e enfermeira Camélia havia ficado de cabeça para baixo. Apesar do salário ter aumentado, a carga horária também aumentou, o número alto de pacientes na UTI do hospital particular que trabalhava aumentou também trazendo mais transtornos. Julia, Alves, Paulo, Raissa… haviam tantos precisando de cuidados, com dificuldades de respirar, morrendo e, como se não bastasse, haviam os vários desvios de função uma vez que o hospital particular que trabalha estava com poucos funcionários e Camélia revezava com outros colegas enfermeiros o papel de recepcionista. O atendimento como recepcionista era difícil, exigia uma frieza que fazia mal para Camélia. Entre momentos de descanso do plantão, ela sempre lembrava da aflição de um dos clientes que não teve a filha atendida devido à lotação de leitos:

Avistou o senhor adentrando a recepção sem máscara, um senhor de meia idade, estava suado, rosto vermelho, perdido diante da movimentação frenética dos médicos e enfermeiros.

— senhor? Senhor...?!

O homem somente atendeu quando seu ombro foi tocado por Camélia. Apesar dos seguranças terem sido autorizados a manter pessoas sem máscara do lado de fora. O procedimento dizia que caso alguém estivesse sem máscara essa pessoa deveria ser retirada do recinto pelo responsável da recepção e o atendimento deveria ocorrer do lado de fora. Camélia seguiu o procedimento e o senhor estava tão perdido na movimentação que deixou ser conduzido para fora.

— o senhor é acompanhante de algum paciente? — Camélia deu início ao atendimento, mas falhou ao não oferecer a máscara para o sujeito. Naquele momento estaria correndo o risco de ser infectada.

— Não — respondeu o rapaz, finalmente recuperando a atenção, com certo tom desesperado — A minha filha, que está no carro, está apresentando dificuldade de respirar e…

— Aqui, o senhor precisa usar máscara a todo momento — Camélia entregou uma máscara cirúrgica para o rapaz — O paciente está inscrito na fila de espera?

Camélia percebeu que o rapaz não fazia a mínima ideia do que ela estava falando, aquele era um sinal de que o atendimento seria difícil. Os desavisados nunca aceitavam as suas próximas palavras.

— mandamos um e-mail para todos cadastrados em nosso sistema, estamos com todos os leitos de UTI ocupados no momento, fizemos alguns leitos improvisados, mas ainda falta material, os atendimentos agora seguem uma fila de espera para um melhor…

Não houve paciência para ouvir o resto, quem teria paciência para ouvir que pagou pelo melhor atendimento e que no final não seria atendido?

— Fila de espera...? Fila de espera?! — A expressão do rapaz, mesmo por trás da máscara, era de inconfundível fúria.

Camélia já sabia o que viria a seguir, lamentou pelo rapaz enquanto se afastava. Os seguranças antecederam e afastaram o rapaz do local. Camélia sequer olhou para trás para saber se o rapaz estava bem, aquilo era como se fosse um barulho que não estava disposta a ouvir. A mãe de família Camélia sentia profunda tristeza e simpatia por aquele rapaz, Camélia tem uma filha pequena e para cada caso semelhante que se apresenta no hospital, ela se pergunta o que faria se estivesse na mesma situação e como resultado, um desespero momentâneo lhe domina, mas logo o lado profissional sufoca este desespero. Esse lado profissional compreendia que não havia nada a fazer, eles já estavam fazendo o máximo que podiam, com os recursos que tinham, não era uma questão financeira… O dinheiro? Seus clientes tinham, mas neste caso o dinheiro não adiantava de nada se faltava material. Diante de uma pandemia, os países entraram em estado de emergência fornecendo somente o mínimo para outros países.

Era tudo muito cansativo e incessante, mas havia algo em todo o estresse que Camélia enfrentava todo dia em seu ofício que lhe deixava na zona de conforto, seu serviço era lugar pretérito e Camélia não sabia exatamente o porquê. Em certos momentos de abstração no ambiente de trabalho, o Dr. Sérgio perguntava de maneira trivial, como sempre fazia, "como vai a família?", Camélia logo dizia que estão todos bem, que Iris continuava sendo a menina prodígio e virtuosa na escola e que seu namorado continuava lhe conquistando aos poucos… Uma resposta padrão, era algo automático que Camélia sempre falava, mas havia algo velado, havia certo incômodo subjetivo, que passava despercebido pelo consciente de Camélia: depois de altas cargas de estresse Camélia voltava para casa, sua filha estava fechada no quarto e seu namorado que estava bêbado já havia ocupado o sofá para um cochilo, a TV ligada no esporte e Camélia se esforçando para mudar de canal sem acordá-lo e se alguém perguntasse o porquê de tal atitude Camélia diria que era um ato romântico para poupá-lo já que estava tão cansado do serviço, mas a verdade é que Camélia não suportava falar com ninguém, sua filha estava numa fase complicada de ficar enfurnada no quarto, ao acordar o namorado viriam os beijos com bafo de cerveja ransosa, o papo furado de o quanto ele fazia diferença na vida dela e depois viria um sexo rápido e desconfortável, sem consideração, daqueles que a fazia sentir somente uma boneca inflável. Camélia tentava ao máximo entrar muda e sair calada, fazia comida com o som da TV alto para não ouvir os próprios pensamentos, deixava a janta de ambos pronta, o almoço na marmita de cada um repousando na geladeira e deitava direto na cama sem incomodar ninguém, João — seu namorado — dizia para os outros que ela seria uma ótima esposa no futuro e, isso dava calafrios em Camélia ao pensar que isso viria às custas de uma vida submissa como sua mãe adotiva havia lhe preparado na infância e que tanto buscava evitar. Camélia se esforçava para não pensar nisso. No breu do seu quarto Camélia se permitia sentir falta de um tempo pra respirar e pensar, sentia falta de um tempo para si mesma, mas tinha medo, pois isto era um chamado para refletir sobre o "elefante na sala" e era justamente o que Camélia tentava — mesmo sem estar ciente — evitar a todo custo nas últimas semanas.

No dia seguinte, Camélia acordou mais cedo do que todos para preparar o café da manhã, este era um dos muitos agrados que, no passar dos dias, virou obrigação, agora fazia parte da sua rotina assim como escovar os dentes ou rezar antes de dormir. Tinha uma saúde de ferro, se fizesse uma retrospectiva, poderia contar nos dedos o número de vezes que ficou doente na vida, mas naquele dia Camélia havia acordado um pouco indisposta, havia uma leve pressão em sua cabeça como se estivesse prestes a ter uma dor de cabeça. Camélia imaginou que poderia ser seu corpo cobrando a rotina de trabalho pesado que vinha levando nas últimas semanas.

— Bom dia!

Disse para sua filha sem obter resposta. A garota entrou no banheiro com sua escova de dentes e uma trouxa de roupas, com cara de sono, mas bem consciente e só saiu de lá quando já estava arrumada. Camélia tenta sorrir novamente para sua filha um sorriso já não tão sincero.

— bom dia, tudo bem...?

— bom dia… tudo… — sua filha respondeu, com um certo tom de rispidez. Pegou o pão que estava sobre a mesa e se virou já com o notebook debaixo do braço.

— Iris, não vai se sentar e comer algo?

— desculpa, mãe… é que tô atrasada pra aula — Iris voltou para seu quarto e bateu a porta sem mais palavras.

Camélia sabia que sua filha não estava atrasada, mas sua filha andava lhe evitando. Camélia não queria questionar por medo de ouvir alguma resposta hostil e ter que reagir a ela. Sempre teve um ótimo relacionamento com a sua filha, eram muito parceiras, volta e meia Camélia se lembrava da agitação de sua maria-chiquinha correndo de um lado pro outro enquanto brincava, mas agora era só quarto e escola. Apesar de Camélia não se lembrar de quando este comportamento havia começado sabia que antes de ser estabelecido quarentena o comportamento de sua filha já estava diferente, mas agora estava mais difícil de ignorar devido o lockdown. "É só uma fase, vai passar" dizia para si mesma sem convicção.

— bom dia... — Disse uma voz atrás dela.

— bom dia, Jonathan. — Camélia respondeu um pouco distante.

Jonathan, seu namorado, a beijou na boca com um bafo matinal. Desde que a quarentena começou Jonathan escolheu se mudar para a casa de Camélia, uma vez que ela é enfermeira, eles precisaram tomar medidas mais radicais para garantir que não fossem infectados e, além disso, para Jonathan era imprescindível continuarem tendo seus momentos de intimidade.

— tá tudo bem? Por que tá com essa cara? — Jonathan perguntou ao se sentar ao lado de Camélia sem camisa.

Camélia levou um leve susto, como se tivesse acabado de acordar de um cochilo.

— Não é nada... é só a Iris, ta um pouco estranha…

— Ora... aquela coisa de sempre? — Jonathan interrompeu expansivo — é coisa da idade, ela tá entrando na adolescência… está virando uma mulher e não está sabendo lidar com isso, principalmente com a quarentena acontecendo.

Era um ótimo argumento… se ela fosse adolescente, mas Iris só tinha 9 anos e a puberdade estava ainda a alguns anos de distância, apesar da insistência de Jonathan no assunto, Camélia achava que isto não deveria ser motivo, mas procurava não contrariar. A princípio achava Jonathan inteligente, mas com o passar do tempo somente parecia alguém que tentava falar difícil e com opinião rasa sobre qualquer assunto que exigia um pouco mais de conhecimento e sutileza.

— Como homem você deve saber muito do comportamento feminino. — Camélia fez questão de deixar o tom irônico transparecer.

Jonathan ficou com expressão de surpresa.

— está bem, não falo mais, não ta mais aqui quem falou.

— não, querido… desculpa, é que eu não to legal hoje — Camélia botou as pontas dos dedos na têmpora — to com uma leve dor de cabeça e o corpo meio dolorido… ta influenciando no meu humor.

— pede pra um dos médicos verificar isso daí, você é linha de frente, tem que se cuidar… pelo menos pede para receitar alguma coisa pra você.

— Vou falar, mas deve ser só cansaço da rotina.

Camélia balançou a cabeça afirmando, seu namorado cuidava muito bem dela sempre dando palpites, no começo era um ato considerado romântico, na pandemia era sufocante. Muito provavelmente essa impaciência que sentia era somente resultado do estresse que estava sentindo por causa do trabalho. Camélia sentia que finalmente estava superando o falecimento de seu marido e Jonathan era alguém que estava a ajudando a passar por isso. Ambos ficaram um bom tempo conversando sobre vários assuntos e dando algumas boas risadas. Apesar do café da manhã amistoso, a ausência de Íris foi sentida. Por mais que Jonathan fosse um ótimo amante, Camélia sentia falta da presença da sua filha em cada momento que passava em sua casa. Era como se, mesmo estando sob o mesmo teto, ambas foram parar a quilômetros de distância uma da outra. Era como se na presença da sua filha a sensação de solidão fosse mais forte, mas antes eram como melhores amigas, então como pode ser?

***

Após o café da manhã, Camélia se despediu de Jonathan que saiu para trabalhar. Ela também se arrumou bem rápido, colocou a máscara, enfrentou ônibus e metrô cheio para chegar no hospital onde trabalha, apesar de a recomendação fosse para ficar em casa, muitas pessoas estavam por conta própria e sem a devida ajuda do governo era como se estivessem sendo obrigados a se expor ao risco da doença todos os dias, parte desse descaso do governo influenciava descaso nas pessoas que usavam a máscara de várias maneiras diferentes… menos da maneira correta.

Camélia fazia esse caminho a 12 anos, mas num momento delicado como a pandemia, Camélia fazia uma rotina um pouco mais trabalhada: chegava no serviço, não falava com ninguém, entrava no vestiário feminino, colocava suas roupas num saco plástico e os amarrava bem fechado, tomava um banho rápido passando sabonete principalmente onde a pele ficou exposta durante o caminho, com uma toalha que ficava em seu armário e que trocava a cada 2 dias ela se secou e vestiu as roupas que vinham numa segunda sacola fechada, guardava a roupa usada no armário e somente então estava pronta para o trabalho.

Aquele dia era uma quarta-feira e Camélia não havia se dado conta disso. Para qualquer paciente em tratamento a quarta-feira era só mais um dia de tratamento, mas no hospital particular onde Camélia trabalhava, a quarta-feira era o dia onde todos os funcionários, sem exceção, faziam o teste para verificar se estavam doentes. A dor de cabeça que Camélia vinha sentindo aumentou um pouco ao ouvir o doutor Aluísio chamar seu nome.

— Você não aguenta mais tirar sangue, né Camélia? — disse o doutor Aluísio dando um sorriso por trás da sua máscara.

— Ai doutor, eu to literalmente dando o sangue neste serviço — Camélia responde com um sorriso de Monalisa que deu um aspecto de cansada para ela.

Doutor Aluísio saiu com a cepa e voltou menos de 5 minutos depois com o resultado — é… dona Camélia… o seu teste deu positivo, a senhora está com a Doença.

Camélia arregalou os olhos, mas não conseguia formular nenhuma frase a não ser…

— e agora doutor?

— esta sentindo alguma coisa? Febre, tosse, dor de garganta, falta de ar? — doutor Aluísio perguntou enquanto passava o estetoscópio pelas costas de Camélia.

— não, só estou com um pouco de dor de cabeça e dor no corpo.

— Está bem. Camélia, presta atenção, a partir de hoje você vai ficar de quarentena por 14 dias, provavelmente não vai ter sintomas mais fortes do que os que já está sentindo, mas vou te receitar alguns remédios para te ajudar a passar por esta fase — pegou uma caneta de seu bolso e começou a escrever num receituário — vou te passar um remédio caso tenha febre também e caso sinta falta de ar ou a febre não ceda aí sim é recomendado vir para hospital, ok?

Camélia sequer ouviu, mas concordou com tudo, não que precisasse ouvir, já chegou a passar essas informações para parentes de pacientes antes, estava tudo decorado. Camélia teria os 14 dias de descanso para si agora, estava ciente que era o que mais precisava, mas por algum outro motivo que não fosse a doença, Camélia não se sentia confortável com isso.

Camélia voltou para a casa, avisou para Íris que estava doente, houve um certo silêncio antes de sua filha responder um "tá" seco, Camélia sequer insistiu, tinha o peso da culpa de ser a pessoa que trouxe a doença para dentro de casa. Deveria ser a pessoa mais cuidadosa uma vez que era linha de frente. Camélia chegou a pensar por um momento que talvez aquele homem que entrou no hospital sem máscara pudesse ter infectado ela, mas lembrou que a taxa de transmissão estava tão alta que já não era possível ter certeza de quando, onde e quem foi que passou. Camélia somente se trancou no quarto. Já tinha combinado com Jonathan de que se algum dos dois ficasse doente, a prioridade do quarto seria do doente, mas preferiu não ligar para ele avisando. Esperaria que seu namorado voltasse do serviço para poder dar a má notícia. Enquanto isso, Camélia aguardou no breu do seu quarto, tentando descansar. Camélia não era muito de falar, mas havia um turbilhão de pensamentos que tumultuavam sua mente e que eram ignorados pelas inúmeras tarefas que se propôs a fazer e, agora que estava acompanhada pelo silêncio e somente pela presença de si mesma, estavam vindo à tona. Camélia tomou dipirona como estava prescrito na receita e se pôs a ficar num estado semi adormecido no breu, num sonho que Camélia não sabia dizer se estava acordada ou pensando: voltou até a sua infância, onde viveu uma vida sem muita instrução de valores. Uma garota parda, de origem nordestina, mas muito pequena para lembrar de suas origens, lembrava vagamente que tinha uma irmã, mas não lembrava das circunstâncias da mudança para São Paulo. Não havia lembrança de seus pais, era muito nova quando foi adotada por uma mulher de classe média que a condicionou a se comportar como empregada doméstica desde pequena. A mulher que Camélia, com muito custo chamava de mãe, dizia para as outras que estava preparando sua filha para ser uma boa esposa quando fosse adulta. Camélia não gostava daquele futuro traçado e duvidava que aquela pessoa lhe fizesse o melhor. Sua mãe adotiva faltava com o carinho e cuidado que toda filha merece, havia um certo esforço em diminuir qualquer chance de autoestima que Camélia pudesse construir. Sonhando, Camélia reviveu o dia em que descobriu a flor com o mesmo nome que o seu no quintal da casa de sua mãe adotiva, ficou maravilhada por descobrir que seus pais escolheram o seu nome pensando naquela flor. O encanto durou pouco, uma vez que sua mãe adotiva percebeu o fascínio da criança pela flor, mandou cortá-las e reclamou do cheiro que elas exalavam e do aspecto sujo que deixavam com as pétalas espalhadas pelo chão… Camélia teve que varre-las com muito pesar e rancor.

Três batidas na porta foram o suficiente para tirá-la do sonho e situá-la novamente em seu quarto, Camélia se dirige até a porta, mas não abre.

— Oi, quem é?

— Sou eu amor, tá tudo bem? Voltou cedo — ele forçou a porta duas vezes e desistiu. — por quê a porta está trancada?

— Estou doente… terei que ficar 14 dias presa aqui, você vai ter que cuidar de tudo até lá.

Houve um momento de silêncio que pareceu durar uma eternidade para Camélia.

— Tudo bem… amor? — ela perguntou.

— Ahn… sim, tudo... — pareceu desconcertado — eu quero dizer… está tudo bem com você, não é?

— Sim, por enquanto tá tudo bem, poderia fazer o almoço? Qualquer coisa peça ajuda para Iris…

— Tá, eu vou pedir… já volto.

Camélia tentava evitar o máximo possível, mas de tempo em tempo era inevitável comparar Jonathan com o seu falecido marido. Era uma comparação desleal, um pouco mais de 6 meses de relacionamento com Jonathan contra 15 anos de relacionamento com Leco — seu falecido marido — mas haviam coisas que foram muito mais fáceis, desde o começo, com Leco do que com Jonathan. Aos 19 anos, durante uma série de construções e reformas feitas em sua casa, Camélia conheceu o pedreiro Leandro, também conhecido como Leco, para os mais íntimos. Foi um amor daqueles bem difíceis de encontrar, que se encaixa na primeira conversa, ou até mesmo antes... daqueles que se encaixa na primeira troca de olhares. Camélia romantizada pelas novelas que assistia com sua patroa… quero dizer “mãe”. Camélia enxergava as características de um cavalheiro em Leco que como todo homem negro e pobre não teve a oportunidade de mostrar ao mundo e Leco, por sua vez, via em Camélia uma mulher bela aprisionada numa condição condenada ao fracasso, algo muito parecido com a condição que ele vivia tentando escapar na favela em que morava.

Não precisou de muitas palavras para que Leco convencesse Camélia a ir morar na favela, na mesma casa que ele. Há quem diga que sua mãe adotiva chorou após sua partida, Camélia acredita que foi de raiva. Camélia morava bem e nunca tinha faltado comida em casa, mas valorizava mais do que tudo a maneira que Leco a tratava. Eram pobres, mas era um relacionamento cheio de carinho e atenção. A admiração que Leco tinha por Camélia era tão grande que ela desenvolveu autoestima o suficiente, adquirindo certo interesse pela área médica para entrar num curso de enfermagem e começar a trabalhar como enfermeira. Aqueles foram tempos difíceis… principalmente quando Camélia descobriu que estava grávida, demitiram ela e mesmo com toda a dificuldade Leco não deixava faltar nada em casa. Camélia sabia da vida dupla de Leco como pedreiro e vendedor de drogas e, apesar de temer pela vida do futuro pai de sua filha sabia que a vida não apresentava escolhas fáceis… quer dizer… mesmo sendo uma enfermeira competente, na sua gravidez, quando mais precisou de seu emprego foi quando a demitiram e quanto ao Leco, só Deus sabe quantas vezes tentou entrar numa faculdade, mas não havia condições e tempo para estudar, talvez se os professores e profissionais da engenharia civil vissem o capricho de suas obras bem acabadas, talvez Leco tivesse uma chance, mas muitos não tem tempo para essa chance. Quando Camélia engravidou de Íris, não foi necessário conversar, havia cúmplicidade entre ambos. Em um dos seus serviços de pedreiro, Leandro encontrou uma casa que estava sendo alugada por um preço bem em conta, ambos se mudaram para lá com a promessa de Leandro de que sairia da vida de crime e por mais difícil que fosse trilharia o caminho dos justos. Camélia por sua vez o ajudava nos estudos do vestibular. O plano era fazer faculdade de engenharia civil uma vez que estivesse fora da função, mas no primeiro ano de Íris a favela cobrou caro pela sua saída e Leandro foi assassinado com 3 tiros na esquina da rua de sua casa. Além do choque, Camélia teve que se virar sozinha pagando o aluguel e as contas que chegavam, teve vontade de desistir em vários momentos, mas assim como esteve lá pelo Leandro, ela também esteve ali por Íris durante os próximos 11 anos. Se dedicou tanto a sua filha que só quando Jonathan deixou bem claro que havia machucado a mão pela terceira vez só para conhecê-la foi que Camélia sentiu que precisava viver de novo. Infelizmente Jonathan não era como Leandro, Camélia não sabia o motivo, mas sentia certo incômodo pela presença de Jonathan, como se fosse errado trazê-lo para sua vida, achava que talvez estivesse se sabotando e, mais do que tudo, sentia vontade de ser amada como foi um dia.

— Querida, estou deixando o almoço aqui na porta do quarto — Jonathan disse despertando Camélia do seu devaneio.

— ah sim, obrigada… correu tudo bem aí fora?

— Sim, foi tudo bem. — respondeu bem seco.

— Iris te ajudou?

Camélia abriu uma fresta da porta, estava de máscara, mas só abriu o suficiente para passar a bandeja com o prato. Jonathan sorriu com um sorriso sem vontade para ela, que acenou a cabeça e Camélia voltou a fechar a porta desconcertada pela nova situação.

— Ela foi meio arredia no começo, mas me ajudou sim.

— E ela está bem? — não era do feitio de Íris ser rebelde, mas uma nova faceta se mostrava desde que apresentou Jonathan. "Adolescentes e suas neuras talvez...?" Pensava Camélia.

— Sim, está tudo perfeito agora… olha querida, tô um pouco cansado, vou assistir TV, ok?

Camélia ia perguntar mais alguma coisa, queria puxar assunto, mas percebeu o volume da TV aumentando. Já não seria ouvida. Havia apostado suas fichas na aproximação que a quarentena pudesse trazer ao convidá-lo para morar com ela e sua filha — que não gostou nada da ideia — mas mesmo assim manter um diálogo com ele às vezes era difícil. Imaginava que ambos teriam horas e horas de conversa, romantizando o momento que ambos estariam conversando sentados no chão, de costas um pro outro, separados pela porta, mas a realidade tende a decepcionar tanto. Camélia chorou um choro contido enquanto fazia sua refeição, a comida estava um pouco fria, mas isso só contrastou com o momento e passou despercebido pela mente de Camélia. Sentia medo, ansiedade, angústia, solidão e, mais do que tudo, sentia falta do Leandro.

Camélia não percebia o amor das pessoas que amava durante esta fase difícil, estava sozinha no momento que mais precisava de companhia. O comportamento de Íris era o que mais havia lhe magoado, anos de carinho mútuo para apresentar indiferença diante de uma doença que poderia matar se caso ficasse mais grave. Se perguntou o que havia feito para merecer esse ressentimento de sua filha. Desandou a chorar e quando já não havia lágrimas caiu no sono sem sonho.

Camélia acordou horas depois tremendo de febre. Sua dor de cabeça latejava no ritmo da música que tocava na televisão, foi até a porta, tentou pedir para abaixar o volume, mas não ouviu sua própria voz que estava também saindo sem força. Pegou o remédio para febre receitado pelo médico, estava se sentindo tão mal que engoliu sem ajuda de um copo d'água. Voltou a deitar e minutos depois caiu no sono novamente.

Desta vez Camélia se permitiu sonhar um sonho que logo virou um pesadelo: Era um dia comum, corrido como sempre foi, porém numa rotina pré pandemia. Camélia está correndo arrumar suas coisas para seu próximo plantão, a comida já está no fogo, mas ainda precisa ligar para Jonathan e…

— Mãe…? — Iris chamou um pouco retraída na porta do quarto. cabelo crespo apenas uma parte da sua maria-chiquinha aparecendo, uma camisa rosa, uma saia plissada que terminavam um pouco abaixo do joelho. Tinha os olhos bem vivos agora exibia uma expressão triste e um pouco perdida.

— Oi Iris, já terminou seu dever de casa, meu amor? — Camélia se permitiu olhar para a filha, mas logo voltou a atenção para o celular.

“tem algo errado com Iris, preciso saber o que tem de errado com Íris"

Camélia pensou, mas não houve reação diante do pensamento, estava em um pesadelo lúcido onde sua mente poderia pensar livremente, mas suas atitudes seguiam um roteiro.

— Ainda não mãe, queria falar uma coisa com você e…

— Agora não… faça sua lição de casa primeiro, depois a gente conversa.

O celular tocou e havia um certo cheiro de queimado vindo da cozinha, Camélia deu atenção para ambos virando as costas para sua filha. Iris seguiu sua mão tentando falar.

— Mãe, quero falar com você sobre o tio Jonathan — "tio Jonathan" foi como ele se apresentou na sua primeira visita a casa de Camélia.

“Jonathan? o que tem o Jonathan?”

— Amor, agora não… mamãe tá muito ocupada… ahn alô?

“Dá atenção pra sua filha!” — Camélia se debatia em pensamentos.

A ligação caiu e como se estivesse obedecendo aos seus pensamentos, mas ainda com certa resistência, Camélia se agachou para falar com a filha.

— Ai! fala depressa, Íris.

— Eu não gosto dele… das brincadeiras, do jeito que ele fala comigo e… e…

O celular começou a tocar novamente interrompendo Íris.

— Ora faça me o favor, Íris! — Camélia interrompeu antes de atender o telefone — Eu to correndo com as coisas, me sacrificando em dois empregos, pra você ficar com essas gracinhas!

Íris ficou sem reação, assim como a mente lúcida e observadora de Camélia.

— Por favor Íris, não tente estragar tudo, vá já pro seu quarto e não saia de lá até que Jonathan chegue! — Camélia atendeu ao telefone — Oi, Jonathan… não, tá tudo bem, Íris só teve um ataque de ciúmes…

A conversa continuou e tudo que sua mãe fez foi apontar o dedo dando o comando para que sua filha voltasse para o quarto. Os olhos de Íris se encheram de água, mas não verteu uma lágrima sequer. Iris parou de tentar falar algo, só respirou fundo por entre dentes cerrados, olhos tristes viraram olhos apáticos e neste momento não havia mais aquele brilho infantil, agora pareciam distantes. Camélia — aquela que assistia tudo na janela da sua própria consciência — observou Íris passando o antebraço em seus olhos evitando que as lágrimas caíssem, virou-se e seguiu andando para a porta do seu quarto.

"Não! Por favor! Não vá! Impeça ela! Iris! Meu amor! Não..."

Camélia chorava tentando lutar, na esperança em vão de alterar aquela realidade. Sabendo o quanto foi egoísta ao ignorar as súplicas da filha. Camélia sofria não pela tormenta claustrofóbica de estar trancafiada em seu cérebro ou por ter se rendido à tortura de um pesadelo, Camélia sofria pois sabia que a cena que foi apresentada não era um mero pesadelo, mas uma lembrança de um passado. Aquela garotinha que voltava triste para o quarto, era uma garotinha que não foi ouvida pela própria mãe e que agora estava largada nas mãos de um estranho que a própria mãe, Camélia, convidou para sua casa… O elefante que agora habitava a sua casa.

Camélia acordou arfando e bufando angustiada com o pesadelo. A febre havia passado completamente e a dor de cabeça agora era um leve espaço dolorido em seu lóbulo frontal. Suas roupas estavam encharcadas e por um momento Camélia pensou que havia urinado na cama, mas percebeu que não havia cheiro — característica de suor da febre — também constatou que não devia ser urina pois sua bexiga estava cheia… precisava se aliviar. Se levantou correndo, mas se lembrou que estava doente e precisava do penico novamente. Gritou por Jonathan, mas este não veio.

Mas é claro, com a TV num volume tão alto — Pensou Camélia irritada com o comportamento do namorado. Precisava fazer as necessidades logo, estava ficando difícil de segurar.

Abriu a fresta da porta e viu que estava sintonizada num filme de ação bem barulhento que passava na rede globo. Não viu Jonathan que, quando dorme no sofá acaba ficando com os pés para o lado de fora como já é do seu costume, mas também nem estranhou devido às suas necessidades ficarem cada vez mais urgentes — precisava ir logo ao banheiro — não lembrava onde havia deixado a máscara, mas talvez se prendesse a respiração e fosse rápida o estrago seria bem menor. Abriu a porta um pouco mais. O plano era correr diretamente para o banheiro em silêncio, sem correr risco de se aproximar de alguém, mas quando botou os pés no corredor vislumbrou a porta do quarto de Íris semi-aberta. Camélia parou e sua mente ignorou completamente as necessidades fisiológicas, sua atenção havia se voltado toda para a porta como se fosse a chave de revelação de uma memória ruim. Na televisão, o comercial de alerta do disparo da violência doméstica avisava do número de emergência 180, mas Camélia não o decorou, lembrou de quando precisou ligar para um número de emergência, quando Leco morreu e ficou perdida nas opções infinitas que a gravação dava. Foi andando lentamente em direção a porta do quarto de Iris, passou rapidamente o olhar pelo sofá para ter certeza que Jonathan não estava lá. "Não é possível, devem estar apenas conversando… mas o que poderiam estar conversando tarde da noite?" pensava Camélia somente a três passos da porta, mas não havia conversa.

Camélia olhou pelo vão da porta e viu com os próprios olhos as mãos sujas de Jonathan — não pode ser — as mesmas mãos que tanto havia lhe tocado nos últimos meses — não poder ser! — tocando em Íris que estava debruçada virada para a parede. Camélia se sentiu suja também, ao pensar por um segundo na possibilidade de Íris ser conivente com tudo, “não, não posso arranjar desculpas, não posso dar as costas para isso”. Camélia estava enojada e angustiada, queria vomitar ao ver toda a verdade, se sentiu tonta e angustiada. Estava tudo tão claro, como se finalmente estivesse vendo um elefante grande escondido nos traços de uma pintura, onde o elefante era seu namorado e a pintura a sua casa. Ela viu as mãos de Jonathan subirem lentamente as pernas de Íris como subiam as suas pernas quando pedia por sexo e, num ímpeto de evitar a próxima cena do ato, gritou o mais alto que pôde para evitar o toque ousado e sujo daquele monstro.

— Tira as mãos de cima da minha filha! — o grito sai arranhando sua garganta, uma exclamação que parecia mais um ataque de histeria do que voz de comando.

Jonathan olhou com expressão de assustado para ela que, por sua vez, também se assustou com a própria atitude. Camélia não reconhecia mais seu namorado, talvez fosse pela luz fraca do abajur do quarto de Iris, mas era como se Jonathan fosse algum bicho peçonhento tentando se passar por humano, havia uma tentativa de simular um sorriso gentil que só o deixava mais assustador.

— Camélia… espera… querida…

Jonathan se levantou fazendo menção de andar até Camélia, mas esta se afastou na mesma proporção. A máscara de Jonathan havia caído, não havia mais porque permanecer na mentira.

— Querida, venha aqui… não corre que vai ser pior.

Foi tudo muito rápido… Camélia se virou e saiu em disparada na direção da cozinha, ela podia ouvir o barulho dos passos pesados atrás. Isso causava mais pânico. Camélia corria pela vida dela e pela vida da sua filha, mas não era o suficiente: Camélia pensou em pegar uma faca ou qualquer coisa que pudesse feri-lo, mas sentiu uma repentina falta de ar decorrente da doença que a havia deixado de quarentena. Jonathan a alcançou e a empurrou com toda força contra a parede… houve um estalo sufocado em sua costela acompanhado de uma dor lancinante, Camélia se desmanchou gemendo sentada no chão. Sua mão procurou o motivo da dor e encontrou uma costela dobrada de uma forma nada comum, a percepção assustadora da costela quebrada lhe causou mais dor.

— olha a merda toda que você fez — Jonathan disse com um semblante calmo enquanto puxava a perna de Camélia pelo calcanhar com força, deixando-a de costas para o chão com um solavanco — Poderíamos ter sido uma família feliz se tivesse continuado em seu quarto.

A culpa sempre é delas.

Camélia tentava resistir às suas vontades, mas para cada tentativa de esforço havia um grito de dor. Ela quase não olhava para ele, mas para algum lugar procurando algo que estivesse ao seu alcance e que pudesse usar como arma, mas o pânico nublou sua visão. Camélia tentou chutá-lo, mas Jonathan imobilizou suas pernas ao se posicionar acima dos quadris de sua namorada, com o braço esquerdo segurou os braços dela acima da cabeça e pressionou de leve o antebraço esquerdo no pescoço.

— Não era para isso acontecer — Jonathan estava muito alterado, isso era perceptível devidos seus olhos arregalados e sua respiração lenta e pesada. Camélia, com medo, perdeu o controle de sua bexiga urinando no chão da cozinha. Começou a chorar não porque estava perante a morte iminente, mas porque abandonaria Íris a sorte do mundo assim como foi abandonada.

— isto vai ser rápido — Jonathan apresentava uma solidariedade afetada com o estado de Camélia — não quero que sofrgAH!

Jonathan, de súbito, soltou um grito bem alto se levantando rápido e fazendo menção de tentar alcançar algo em suas costas, Camélia ficou confusa e assustada, congelada de medo, sem saber o que esperar, não conseguiu se mexer. Jonathan se virou e só então Camélia pôde vislumbrar o bracinho de Íris com… uma faca de cozinha na mão?

Jonathan não teve a mesma oportunidade de vislumbrar sua algoz, pois antes de completar o giro lento de 180 graus, Íris estocou a faca de cozinha em direção a lateral de sua barriga e não parou somente na segunda estocada, mas continuou estocando várias vezes… facada após facada. Jonathan tentou pelo menos xingar, mas gorfou sangue. Olhou para a porta imaginando a sua fuga daquela situação e tombou jorrando sangue do seu corpo já sem vida.

Camélia ficou de joelhos com certa dificuldade para respirar e observou por alguns segundos o corpo de Jonathan no meio da poça de urina e sangue, queria garantir que ele não reagiria, estava aliviada por sua filha estar bem, se levantou com dificuldade, desviou do corpo caído e se pôs de joelhos diante de Íris, esticou os braços na direção de sua filha esperando que sua filha corresse para seus braços, mas Iris reagiu de maneira hostil, levantando o braço que segurava a faca, ameaçando atacar sua própria mãe. Olhos arregalados num misto de medo e ameaça.

Camélia se encolheu por um momento não entendendo o que estava acontecendo.

— Iris, sou eu… sua mã…

Camélia parou e finalmente olhou para si, não reparou na sua aparência, mas reparou em suas próprias atitudes. Camélia é a mãe de Íris, sua protetora e mesmo assim permitiu que um monstro chegasse perto dela. Camélia olhou novamente para íris e pôde ver um rosto adulto em uma criança, não havia nada do aspecto infantil costumeiro de sua filha.

Quando adultos não são capazes de defender suas crianças, elas sacrificam sua inocência para lidar com o problema

Não havia pedido de perdão, Camélia sequer se permitiu chorar, a dor da culpa de não ouvir sua filha era mil vezes pior que a dor na costela e mesmo não achando que tinha direito de derramar uma lágrima sequer, ainda queria demonstrar que já não era mais uma ameaça:

Continuou seguindo em direção a Iris, de braços abertos, ignorando a faca levantada na mão de sua filha, daria o abraço esperando pela facada. Envolveu Iris em seus braços e fechou seus olhos, serena, esperando pelo seu destino, se era para ser morta, então que seu último ato fosse de amor para com a sua filha.

Alguns longos segundos se passaram sem que o abraço apertado e afetuoso gerasse alguma reação em Íris. O tilintar metálico da faca caindo no chão ressoou mais alto do que o som da televisão e Camélia sentiu algo que, naquele momento, julgou ser pior do que a possibilidade da facada de sua filha. Camélia sentiu os braços de íris retribuindo o abraço de Camélia, sua pequena mão fazendo carinho em sua cabeça. Um ato de perdão? Um ato de carinho que desarmou Camélia e a fez cair em prantos enquanto sua filha permanecia muda em seus ombros. Camélia não queria que fosse assim, os seus braços deveriam apoiar Iris e não os braços de Iris que deveriam consolá-la.

Devido aos acontecimentos daquela noite, Iris também contraiu a doença da mãe, mas não exibiu nenhum sintoma durante a quarentena, ambas passaram pela quarentena sob os cuidados dos médicos no hospital particular devido a costela quebrada de Camélia e o acompanhamento médico e psicológico que Iris precisou passar. Camélia acreditou que Íris voltaria a ser rebelde em algum momento durante os exames, mas a garotinha obedecia sem objeções… quando voltaram para casa, Camélia tentou brincar como ambas brincavam às vezes, tentando provocar alguma resgate de sua antiga filha, mas Iris continuou com um semblante sério, se limitando somente a responder as perguntas da mãe…

Até que um dia…

— Mãe! — Íris gritou de algum lugar do quarto da mãe.

Camélia que estava preparando o almoço na cozinha largou a panela para socorrer a filha. Parou na porta do seu quarto e encontrou Íris sentada em sua cama olhando uma fotografia do baú de recordações. Era um porta-retrato contendo a fotografia de Leco e Camélia abraçados.

— Poderia me contar como o papai era?

Camélia pôde ver que havia brilho naqueles olhos, não era como antes, Íris continuava com uma feição adulta e triste — um símbolo da cicatriz emocional e permanente que o abuso havia lhe deixado — mas finalmente havia um sinal de emoção.

— Claro, filha — disse Camélia sorrindo — Traga o albúm para a cozinha para que eu possa contar.

Íris pegou o álbum que, era grande e parecia ser tão desproporcional ao seu tamanho e começou a ouvir as histórias da mãe e de seu pai na adolescência. Das dificuldades que passaram e de como riam juntos quando nos momentos de intimidade. Depois de um tempo, Camélia olhou para sua filha e pôde perceber que ela esboçava um sorriso tímido. Aquilo confortou Camélia pois a partir daquele momento percebeu que nunca mais veria aquele brilho infantil nos olhos de Íris novamente, sua filha cresceu prematuramente. Camélia sabia que tudo seria diferente de agora em diante, não havia como apagar o que aconteceu no passado, mas também sabia que ambas ficariam bem… ambas eram sobreviventes.

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