Um Guia Para Os Porcos (Terminado)
Rock
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 11/03/23 22:45
Editado: 24/06/23 19:41
Qtd. de Capítulos: 5
Cap. Postado: 18/03/23 14:17
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 15min a 21min
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Palavras: 2544
[Texto Divulgado] "Liberdade da tua Voz" Quando algo tão belo cai em nossas redes, o certo é soltar.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Um Guia Para Os Porcos
Capítulo 1 Belas Colinas

A pequena casa, se encontra em frente a um lago, rodeado por grandiosas árvores verdes.

Quando desço da minha camionete, sinto o cheiro do mato encher os meus pulmões, ouço os pássaros cantando uma linda melodia.

Bob, assim como eu, se demonstra extremamente empolgado com o nosso novo lar. O animal corre freneticamente ao redor do quintal, esboçando uma felicidade que não tinha desde que Anna se foi.

Após arrumar os meus pertences, paro para observar o meu novo lar, e percebo que este é um ótimo recinto para aproveitar o restante da minha vida.

Um ano se passou desde que fui diagnosticado com esta maldita doença, felizmente, os últimos meses têm sido calmos. As dores amenizaram, uma ou duas vezes por semana elas retornam, porém, se comparado com anteriormente, estou bem melhor! Acredito que morar em um local como Belas Colinas me fez bem. As pessoas desta pequena cidade se conhecem, diferentemente, dos residentes de centros metropolitanos, a um sentimento de respeito mútuo entre seus habitantes, algo que raramente acontece em cidades grandes.

Passo a maioria dos meus dias, seguindo a mesma rotina. Algo nestas atividades cotidianas me acalma, alivia os meus pensamentos mórbidos.

Todos os dias, me sento em frente ao lago, e observo sua água cristalina ondular. Sinto o leve sereno da manhã, e relaxo em meio a natureza que me rodeia. Algumas vezes tento pescar, confesso que não sou tão bom quanto gostaria, ou este lago tem poucos peixes, porém, a atividade que mais me acalma, como sempre, continua sendo a leitura. Quando me sento em frente ao lago e leio um bom livro pela manhã, com meu cachorro deitado ao meu lado, sinto meus problemas se esvaírem à medida que viro as páginas.

Li mais livros nestes meses do que em anos. O local onde consigo bons livros? À biblioteca da cidade. Lá, em seu interior, conheci o bibliotecário, que exerce esta função há anos, o senhor Wesley.

Agora que redescobri minha paixão pela leitura, visito Wesley todos os finais de semana, para entregar os livros que possuo e pegar novos. Sempre tenho boas conversas com meu novo amigo, afinal, Wesley é um ávido leitor. Ele sempre tem bons livros para me indicar.

Tenho vivido desta maneira, minimalista, por quase um ano, confesso estar melhor do que eu esperava. Não vejo mudanças em minha vida, e isso é bom, é o que eu queria, a tranquilidade, acredito que eu finalmente consegui encontrá-la nesta pequena cidade. A única coisa que me incomoda agora são os pensamentos negativos, que raramente brotam em minha mente. Concepções obscuras sobre o meu futuro, sobre as dores piorando, sobre o monstro crescendo em meu interior.

É final de junho e o inverno chegou a pouco tempo, com a sua chegada as dores pioraram, diariamente, meu corpo dói, confesso que até andar se tornou um fardo. Demorou pouco mais de um ano, para que o câncer fizesse sua presença insuportável, entretanto, acredito que devo apenas ignorá-lo e continuar com a minha vida até o fim. Bem, este não é o fim. Amanhã irei ver meu amigo Wesley, suas conversas sempre me animam.

Chego no grande edifício. A biblioteca é facilmente a maior construção de toda cidade, sua arquitetura gótica faz com que a mesma se destaque ainda mais do restante dos edifícios. Como uma peça que não se encaixa às demais, toda vez que a vejo, é como se estivesse voltado no tempo, para uma época onde a tecnologia não era predominante, um tempo antigo, um tempo de castelos e masmorras, livros e pergaminhos.

O interior da biblioteca é tão lindo quanto seu exterior. Na grande sala, revestida completamente por madeira, a várias estantes circulando o seu centro. onde as mesas se encontram. O local todo brilha, Wesley sempre o mantém o mais limpo possível. Hoje, aparentemente, há mais pessoas do que o normal. Em minhas visitas anteriores, sempre via senhores perambulando pelos corredores, ou, o ocasional jovem lendo um livro de fantasia. Infelizmente, o movimento é mínimo, hoje em dia, as pessoas preferem ler pela internet. Nunca entendi como ela funciona, porém, sei que os E-Books fazem sucesso pelo fato de que, eles podem ser lidos no conforto de sua casa, ou em uma longa viagem, entretanto, os livros de papel, sempre serão, para mim, o método ideal para se ler um livro, a forma ancestral de se sentir a literatura.

Me aproximo da recepção, o único local que possui algum tipo de tecnologia atual na forma de um computador em cima do balcão. Wesley como sempre está vestindo sua camisa social branca e calças beges. Ele está conversando com um jovem, e pelo seu olhar amargo, percebo que esta conversa o incomoda. Resolvo não me intrometer, apenas espero que o jovem se retire sem causar problemas, provavelmente, ele é um motoqueiro, seu visual com certeza indica isso, uma jaqueta de couro preto, calças jeans azuis rasgadas, correntes no pulso e um anel em formato de serpente, a figura típica de um motoqueiro.

Consigo ouvir pedaços da conversa, aparentemente, este jovem está procurando um livro chamado “Do Alpha Ao Omega” ou “O Ciclo Infinito”, talvez fossem dois livros ou uma série, enfim, não conheço tal obra. Wesley também aparenta desconhecer este livro misterioso, ele diz não ter tal obra disponível no catálogo deste estabelecimento, porém, o jovem insiste pedindo para meu amigo procurar com mais calma. Após cinco minutos o importunando, o jovem se retira, se desculpando por fazer meu amigo perder seu precioso tempo.

Me aproximo do meu amigo que me recebe com um sorriso em seu rosto, e ambos nos cumprimentamos com um forte aperto de mãos.

— Que bom te ver por aqui. E aí, já terminou de ler os que pegou? — Diz Wesley com entusiasmo.

— Terminei. — Digo, enquanto coloco os três livros que tinha debaixo do meu braço no balcão.

— E as dores? Ainda continuam? — Pergunta meu amigo, obviamente ele sabia sobre a minha condição.

— O mesmo de sempre, elas continuam a me incomodar… — Digo, e logo paro. Minha doença não é um assunto que gosto de tratar com as pessoas, principalmente, com Wesley.

— Ah! Deve ser o frio do inverno. Ontem fez quase zero graus na madrugada. — Diz Wesley, obviamente tentando mudar de assunto. Ele se preocupa, e felizmente, respeita o meu desejo de não falar sobre este monstro que me atormenta.

— Realmente, este maldito frio, deixa qualquer um com a saúde debilitada. — Digo mordendo a isca. — Quem era aquele? — Pergunto, enquanto meu amigo registra os livros que acabei de lhe entregar.

— Aquele motoqueiro? Não faço a menor ideia! — Diz Wesley. Terminando o registro, ele se curva da cadeira em que está sentado, e sussurra para mim. — Nunca tinha o visto na cidade antes… o que é muito estranho, como alguém de fora poderia conhecer o livro… — Meu amigo, para abruptamente. O livro? Então quer dizer que existe um livro?

— Então existe um livro. — Digo para Wesley, conforme ele se ajeita em sua cadeira.

— Não posso escondê-lo de você, afinal você é um morador confiável da nossa comunidade. Acho que posso te contar sobre o nosso tesouro. — Diz meu amigo, ajeitando seus óculos, fundo de garrafa. Ele sempre faz isso quando começa a contar uma história. — Este livro, é um dos tesouros desta cidade. Ele está na biblioteca desde a sua fundação, só de olhá-lo superficialmente é possível deduzir que o mesmo é extremamente antigo. Os rumores dizem que ele foi escrito pelos nativos, ou talvez, pelos primeiros colonos desta terra, ou talvez, seja um tomo perdido de algum filósofo excêntrico. Realmente, este livro é o maior mistério que esta pequena comunidade possui. Ele é um exemplar único, que apenas pode ser encontrado aqui, em Belas Colinas. — Confesso que saber sobre tal segredo me deixa feliz.

— Incrível… nunca poderia ter imaginado, que um livro tão raro estaria escondido por aqui. — Engulo seco, não consigo conter meu entusiasmo e logo pergunto. — Posso lê-lo?

— É só um livro antigo, uma fantasia criada por alguém no passado, repleto de achismos. Suas velhas páginas não contém nada relevante. — Diz meu amigo com um tom de deboche.

— Vamos lá! Só quero saber o porquê de tanto mistério! — Forço um pouco, meu amigo revira seus olhos. Provavelmente, ele está pensando; “porquê fazer esta tempestade em copo d’água, por um livro tão fútil.”

— Tudo bem! Tudo bem! — Diz Wesley se levantando da cadeira. — Vamos, vou pegá-lo pra você! — Começo a segui-lo, mal posso esperar para ver este mistério se desenrolar.

Sigo Wesley pela biblioteca, passamos por algumas estantes de livros até que chegamos a uma porta de madeira, não sei dizer se ela é nova ou antiga, sua aparência indica que a mesma seja extremamente anciã, porém, esta biblioteca fora construída utilizando arquitetura arcaica, não é possível saber se algo dentro destas paredes é novo ou velho.

Wesley, puxa um molho de chaves de seu bolso, e após algum tempo, ele abre a porta.

— São tantas chaves que às vezes eu me perco. — Diz meu amigo com um leve sorriso. Ele adentra o pequeno cômodo, e eu o sigo.

A sala é um pequeno cubículo, com apenas uma prateleira oposta à entrada. Nela estão alguns livros, só de os observar percebo que eles são velhos, suas capas estão desbotadas e o papel amarelado. Pelos títulos percebo que há vários gêneros literários, provavelmente, em suas primeiras edições. O único livro que é incrivelmente mais velho que os demais, é o livro central.

— Este é o livro misterioso? — Digo a Wesley, apontando para o livro no centro. Ele dá um leve sorriso.

— Perceptível, não é? Sim, este é o livro. — Diz meu amigo pegando o volume. Ele o encara por algum tempo, e logo o me entrega.

— Obrigado. — Digo pegando o tomo. Quando o toco, um estranho sentimento decai sobre mim, não sei especificar esta sensação. O que posso dizer, é que ela se assemelha a um leve chamado.

— Um dia tentei ler este aí, só li o começo, você sabe que não sou muito fã de fantasias, prefiro ler algo mais direto. Você vai ver, este livro é apenas um aglomerado de mundos fantásticos, desnecessariamente complexos. A parte que mais me incomodou, foi a baboseira new age sem sentido nenhum. — Sua análise já era óbvia, Wesley odeia livros assim. Pelo o que ele disse, penso que, provavelmente, este livro é um Grimório ocultista, ou uma junção de conceitos ocultistas mesclados com a fantasia.

— Ler algo diferente sempre é bom, Wesley! — Digo. Ando tentando fazer meu amigo mudar o seu pensamento sobre a fantasia, infelizmente, ainda não obtive sucesso.

— Prefiro continuar com meus clássicos, obrigado! — Diz Wesley, se tratando de literatura, ele realmente é inflexível.

Começo a analisar o tomo em minhas mãos, só de pegá-lo já percebi o quão robusto ele é, pelo seu peso, deduzo que o mesmo seja duas ou três vezes mais volumoso que a Bíblia Do Rei James. Gravado em sua capa dura, feita de couro e pintada de preto, está o desenho de uma cobra mordendo o próprio rabo, as inscrições “Do Alpha ao Omega” estão desenhadas em símbolos gregos no centro da serpente. Estranhas letras, diferentes de qualquer alfabeto antigo ou novo, rodeiam as inscrições no centro. Abaixo do animal pintado em vermelho-escuro está a inscrição “O Ciclo Infinito”, em português. No restante da capa preta, estrelas se desenham em estranhos padrões.

Na contracapa, a um desenho de uma galáxia pintada a óleo, tal gravura é maravilhosa, os detalhes obtidos pelas pinceladas simples, são surreais. Além do sentimento de beleza que esta arte passa, uma pontada de mistério me percorre conforme a observo, é como se estivesse encarando uma pintura perdida de Van Gogh. Relutantemente, desvio o meu olhar desta ilustração, e dou continuidade a minha inspeção deste mistério.

O livro não possui orelhas, porém, sua lombada aparenta conter um nome. Infelizmente, a tinta havia se deteriorado com o tempo, estranho, o restante do livro está intacto. Consigo identificar apenas algumas letras borradas, sendo elas: Fr… d… h… H… el.

Não vejo nada que indique o que o livro contém em seu interior, não há nem uma sinopse ou abreviação de acontecimentos.

— E aí, o que achou? — Pergunta meu amigo. Suas palavras me tiram do estranho transe ocasionado pelo livro misterioso.

— É bem interessante, quando chegar em casa vou lê-lo. — Digo a Wesley, o mesmo acena positivamente e logo saímos da sala.

Registro minha nova aquisição juntamente com alguns outros livros de mistério que estava com vontade de ler. Passo o restante da tarde lendo outros livros que me interessaram, porém, o conteúdo desconhecido do tomo obscuro sempre paira sobre os meus pensamentos.

Quando as dores começam a me incomodar, resolvo voltar para casa. Quando chego em casa, logo percebo que Bob está… estranho, ele chora quando me vê e se arrasta para dentro de sua pequena casa. Talvez ele esteja assim porque eu o deixei sozinho esta tarde? Não sei, sempre o mantenho bem alimentado e cuido o melhor que posso dele, seu comportamento com certeza é estranho para dizer o mínimo.

Após os meus afazeres noturnos, tomo meus remédios e me deito, vou deixar para começar minha leitura do livro misterioso pela manhã.

Acordo abruptamente na madrugada escura, meu corpo treme, meus olhos lacrimejam, o que havia acontecido? O sonho, não, o pesadelo que tive foi algo inexplicável, inconcebível até para as mentes mais imaginativas. Já havia lido incontáveis contos de horror e fantasia no meu trabalho como editor, porém, este sonho aterrorizou os confins do meu ser.

Tenho que registar o que vi, enquanto ainda consigo me lembrar. Abro a escrivaninha ao lado de minha cama e pego o diário onde estive registrando o progresso de minha doença, acendo a luz do quarto e começo a escrever:

“Estou flutuando em meio a uma ancestral escuridão, além do vazio há uma neblina permeando o ambiente. Tal bruma forma, imagens, faces, que começam a dançar em volta do meu corpo paralisado. Por horas fico preso a este transe, vendo estes aspectos horrendos se desenharem a minha frente. Com o passar do tempo, a névoa vai se dissipando, e os rostos vão se dissolvendo pelo abismo. As faces se esvaem, e no final tudo o que resta é apenas o vazio, a imutável escuridão”.

Já é de manhã, o sol acaba de nascer, e o lápis treme em minha mão, tinha terminado meu registro desta estranha experiência. Após alguns minutos refletindo, fecho o meu diário e o guardo na gaveta, quando o faço, vejo o tomo misterioso, quando meus olhos o encontram, o sentimento de que o mesmo me chama se manifesta. Sem pensar, eu estendo minha mão e o pego.

Sigo para o meu local de repouso. Me sento na velha cadeira de balanço e observo o lago azul a minha frente, o suor frio escorre pelo meu rosto, desvio meu olhar para as árvores, esta manhã está mais fria que o normal, ajeito meu agasalho e solto um longo suspiro, quando percebo que estou apenas tentando evitar o inevitável. Pego o tomo misterioso do meu colo, sinto que há respostas em seu interior, minha atração pelo conteúdo desconhecido atinge o seu pico, e mesmo estando aterrorizado, respiro fundo e o abro. Á medida em que as páginas são lidas, o terror que sinto é substituído por uma ânsia insaciável pelo conhecimento.

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