Castigo no Limbo
Francisco L Serafini
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 07/05/16 15:38
Editado: 08/05/16 12:16
Gênero(s): Comédia Drama
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 9min a 13min
Apreciadores: 8
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Palavras: 1585
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de catorze anos
Capítulo Único Castigo no Limbo

Eu não sei bem o que sou e nunca quiseram me explicar. Há muito tempo perguntei a Deus sobre minha origem e sobre minha missão junto aos deuses e aos humanos. Ele me respondeu que isso não se fazia importante saber, frustrando-me completamente. Mas eu estava muito curioso e, portanto, questionei a Lucífer, convicto que saberia mais sobre mim. Quebrei a cara mais uma vez. Até mesmo o fofoqueiro dos Infernos me negou essa resposta, dizendo que quem deveria sanar minha curiosidade era Deus. Fiquei enraivecido com esse silêncio e simplesmente decidi ignorar essa dúvida em minha cabeça, para poder viver em paz. Também fiquei enraivecido, ainda que momentaneamente, quando Deus me colocou no limbo, onde me encontro até agora, com a intenção de me castigar. Caramba, eu gosto muito de ser livre, de poder transitar pelo Céu, Inferno e Terra. Aqui tem cheiro ruim e é muito monótono e entediante, embora consiga me distrair perdendo-me em lembranças.

A minha última atividade com Deus o deixou muito fulo da vida, a ponto de me castigar de tal modo. Sei que parece uma reação exagerada, mas também entendo que o que aconteceu foi o pingo que faltava para a água transbordar. Em outros projetos que trabalhamos juntos, também cometi erros incríveis, que comprometeram muitos anos de trabalho. O primeiro deles foi há milhões de anos, quando fui a Terra para auxiliar no desenvolvimento tecnológico da primeira espécie superior que Deus criara. Eu e os lagarteanos, uma espécie de dinossauro, desenvolvemos um meio para que a obtenção de alimento fosse de forma rápida e eficiente, sem precisar de toda a truculência do método tradicional. Para isso, construímos enormes máquinas em enormes edificações, que ocupavam enormes regiões de terra e mar pelo globo inteiro. Foram muitos anos de trabalhos, até o dia da inauguração, o dia do meu primeiro grande erro. Para me homenagear, Deus e os lagarteanos decidiriam que eu deveria apertar o botão que colocaria todo o sistema a funcionar. Fiquei muito feliz e estava muito orgulhoso do nosso trabalho. No entanto, apertei o botão errado e uma reação em cadeia não prevista gerou uma gigantesca explosão. Todo o desenvolvimento tecnológico foi varrido da face da Terra e a primeira raça superior foi extinta. Deus não acreditava no que via e, em um momento de extrema raiva, me mandou para o Inferno, dizendo que estava proibida minha presença no Céu e na Terra até ele se acalmar e recomeçar seu projeto de uma espécie superior.

Fiquei por um longo tempo no Inferno, na boa companhia de Lucífer, com quem sempre tive grande amizade. Ficávamos noites em claro nos divertindo com jogos de azar e criando criaturas demoníacas para assustar os outros seres. Inclusive, enquanto criávamos uma espécie de mula que cuspiria fogo pela boca — só faltava fazer a cabeça —, Deus veio até o Inferno me procurar e disposto a me dar uma nova chance. Desta vez, a minha incumbência era ajudar um humano chamado Noé a construir uma arca gigantesca. Muito tempo depois, conversando com Lucífer, vi que Deus estava insatisfeito com a maioria dos exemplares da nova espécie superior que tinha acabado de criar e, por isso, decidiu salvar somente os exemplares bons e exterminar os demais com um dilúvio. Mas na época, eu nem perguntei o porquê Deus queria fazer isso, mas disse que ajudaria Noé com maior prazer. Voltei a Terra, onde começamos a construção de uma arca gigantesca, grande suficiente para abrigar cem casais de tudo que fosse vivo. E, com muito trabalho, eu e Noé terminamos a construção da arca em um mês. Deus gostou muito do que tínhamos feito e ficou feliz que estávamos dentro do prazo estipulado. Mas quando ele foi dar continuidade ao projeto, obrigou-se a interrompê-lo, pois eu tinha decidido inaugurar a arcar jogando em sua direção uma garrafa de champanhe, a qual se chocou com o casco com muita força. O estrago foi gigantesco, a ponto que seria mais fácil construir uma arca cem vezes menor do que reparar a arca danificada. Infelizmente, foi isso que aconteceu, o que acabou atrasando muito o projeto de restauração da espécie superior. Deus ficou muito bravo comigo e me mandou ao Inferno mais uma vez.

Fiquei na companhia do Lucífer por mais um longo tempo, o que não foi problema algum. Não sei como Deus pretendia me castigar me mandando ao Inferno. Mas enfim, fiquei nas profundezas até Deus me chamar novamente e pedir por ajuda. Desta vez, Deus engoliu um pouco de seu orgulho e decidiu pedir colaboração para outros deuses, para finalmente ser possível ter uma espécie superior que funcionasse corretamente. Sua primeira parceria foi com Rá-Atum, com quem elaborou um plano que tinha como objetivo aproximar os humanos e os deuses. Para isso, era necessário a construção de inúmeras pirâmides, as quais serviriam como antenas que transmitiriam mensagens entre o criador e a criação. E assim, fui mandado ao Egito, onde, junto com o povo local, demos seguimento ao plano divino. No fim, construímos uma dezena de pirâmides e tudo parecia que correria bem. Pois bem, ledo engano o meu. Apenas três pirâmides permitiam o contato com Deus e Rá-Atum, enquanto as outras sete estavam voltadas para o Inferno. Lucífer, brincalhão como é, aprontou muito com os humanos e frustrou o plano tão bem elaborado. Deus e Rá-Atum acabaram com a parceria e eu voltei ao Inferno. Sei que Deus tentou uma parceria com Zeus, mas também não deu certo. Fiquei aliviado que a culpa não caiu sobre mim, ao menos daquela vez.

Mas minha serenidade não durou mais que alguns poucos séculos. Deus iria tentar novamente desenvolver uma civilização avançada entre os povos, a qual, posteriormente, doutrinaria a palavra divina a todos. Isso não seria problema, se para essa nova tentativa ele não tivesse chamado o hippie do Jesus. Deus me preteriu a um hippie! Deus achou que um hippie poderia mudar o cenário caótico que acometia a sua espécie superior. Subi ao Céu e disse diretamente a Deus e a Jesus que esse plano não daria certo. Voltei ao Inferno e prometi a mim mesmo negar ajuda a Deus até ele não admitir que cometera um grande erro. Na companhia de Lucífer e da mula sem-cabeça, cuja virou bicho de estimação e fugiu um tempo depois, acompanhei o desempenho de Jesus. Tenho que admitir que no começo, ele foi bem, mas no fim, deu a merda que já era prevista. A tentativa foi tão frustrada, que hoje em dia os humanos continuam sendo falhos e, para piorar, utilizam o nome do hippie para justificar suas falhas.

Mas Deus, genial como é, percebeu que cometera um grande erro com Jesus e por isso veio até mim admiti-lo e pedir ajuda. Eu fiquei muito feliz que poderia voltar a frequentar o Céu e ajudar a Deus a criar a espécie superior perfeita, algo que ele tanto almejava. Inclusive, prometi a mim mesmo e a ele que faria de tudo para não estragar nada da próxima vez, quando na verdade, eu cometeria o erro que acabaria com a paciência de Deus e o faria a agir como agiu. A nova tentativa de Deus foi aproximadamente nos anos dois mil após o hippie nascer na Terra. Esse novo plano era diferente de tudo que Deus já tinha tentado, a ponto de deixá-lo muito radiante e confiante. Dessa vez, Deus se esforçou muito em algo que ele considerava utópico, mas que foi possível de ser construído: um humano de bom coração e de boa índole. A ideia era que esse humano fosse até a Terra e se reproduzisse com os demais humanos. O gene da bondade seria sempre dominante e em um século, ou até em um milênio, a humanidade seria completamente boa. A minha missão nisso tudo era levar o humano bondoso até a Terra e protege-lo de qualquer mal que pudesse exterminá-lo. Era algo simples e que poderia fazer sem causar nenhum dano. No entanto, frustrei os planos de Deus novamente. Ao partir do Céu em direção a Terra, decidi mostrar o humano ao Lucífer, para que visse a boa ideia de Deus. No Inferno, Lucífer também concordou no sucesso de Deus, visto que era uma brilhante ideia. Ele pediu para ver o humano mais de perto e eu, obviamente, deixei. Não deveria tê-lo feito. Lucífer se aproveitou de um momento meu de distração e modificou o coração do humano. Assim sendo, quando o humano bondoso começou a se reproduzir na Terra, seus frutos eram tão problemáticos quanto os demais humanos. Deus logo percebeu que algo estava errado e, com uma rápida investigação, descobriu o porquê.

E é por isso que hoje estou no limbo. Deus quer me ver distante da Terra, do Céu e do Inferno. Quer também que eu fique longe do Lucífer, visto que é uma má influência. Sei lá, acho que Deus exagera, às vezes, mas não vou entrar nesse mérito. De fato, acabei com o trabalho dele. O negócio é esperar ele se acalmar para eu poder sair daqui. Mas até lá, me obrigo a ficar sentido esse cheiro podre no ar e compartilhar minhas aventuras e missões que vivi na Terra, no Céu e no Inferno para as almas que aparecem por aqui. Felizmente, esses momentos nostálgicos me acalmam e me motivam. Quem sabe, um dia saia daqui e resolva o problema da espécie superior para Deus? Ele ficaria tão feliz e, de repente, até me contaria o que eu sou de fato. Nossa, não vejo a hora de sair daqui.

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Postado 09/05/16 03:48

SHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! SATÃ, ESTA OBRA... PELO INFERNO, O QUE FOI ISSO QUE ACABEI DE LER? SHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Ousada, divertida e (talvez) polêmica. É como defino este grandioso conto, que me fez rir feito um paspalho em certas ocasiões (o "epic fail" na pré-história foi muito engraçado de se imaginar)! Genial, Sr LEcrivain! Simplesmente genial!

Me encanta a forma como conseguiu criar um conto com uma temática tão audaciosa, por assim dizer, de modo incrivelmente descontraído! Ora, mas esta não é a sua marca registrada? Sim, e como de praxe, não nos decepiciona: muito pelo contrário!

Este tipo de criatividade e liberdade que o senhor esbanja em seus contos aqui reinou em total supremacia e concede aos leitores uma obra digna de aplausos, na minha modesta opinião! Aprecio, recomendo, ovaciono tanto o conto quanto o autor!

Parabéns pela excelsa empreitada, Sr LEcrivain! Foi estupenda!

Atenciosamente,

Alguém que ficou com vontade de visitar o Limbo, Diablair.

Postado 09/05/16 16:24

Fico muito feliz em causar essa reação nos leitores, sobretudo no leitor tão carismático e crítico como tu, Diablair.

Fico lisonjeado com tamanhas palavras, que me motivam a continuar procurando por essas loucuras que almejam sair de minha mente para chegar à mente do leitor.

Espero continuar lhe agradando e ser digno de tanto carinho e admiração.

Agradeço imensamente pelas palavras.

Postado 08/05/16 00:08

Que loucura, chico! kkkkkk

Mano, passei o texto todo jurando que o cara era o Raul, mas tudo bem. Muito legal o texto, parabéns.

Postado 08/05/16 16:20

Hahahaha. O Raul? Mas como? Hahaha. Mas vai saber. Numa dessas...

Que bom que gostaste. E obrigado pelo comentário!

Postado 08/05/16 14:05

Adorei

Gostei muito mesmo!

Parabéns!

Postado 08/05/16 16:20

Eita. Bom ler isso. Muito obrigado pelas palavras.

Postado 08/05/16 14:05

Adorei

Gostei muito mesmo!

Parabéns!

Postado 08/05/16 18:22

casa comigo, vem morar comigo, qualquer coisa, só pra eu ler primeiro do que todo mundo..kkkkkkkkkk...demais, espetacular, amei. ah..chega de puxar saco. mas que é muito bom ler seus textos é...hehehe. parabéns mil vezes.bjoca

Postado 08/05/16 18:59

Hahahaha. Que coisa. Mas pode puxar o saco sim. Faz bem para o ego da pessoa, haha.

Obrigado pelas palavras. São sempre são tão motivantes! =D

Postado 10/05/16 20:13

Deixei para comentar quando estivesse mais calma, só que passou-se um tempo e acabei esquecendo '-' enfim:

Nossa Senhora da Penha, como eu comento essa história? Dizer o que eu digo em todos os seus outros textos ficaria repetitivo e não traduziria o que eu senti quando li este aqui.

Também quero saber quem é essa criatura, ela é tão ingênua que dá até dó da coitada! Espero que ela possa sair do limbo, pelo menos com o amigo Lúcifer ela tem um pouco de diversão -u-

Ademais... Sua. Criatividade. Me. Espanta. E quase me mata também ;-;

Eu adorei tanto esse texto, mas tanto <33

Só pra fechar, amei a parte da mula-sem-cabeça principalmente, ficou MUITO fofa SHAUHSUA deu até vontade de ter uma de estimação -qq

e Jesus como hippie, CARAMBA CARA ISSO É GENIAL. Perdão. Eu não consigo tirar da minha cabeça um dueto de Jesus e John Lennon cantando Imagine. Desculpe se te ofendeu de alguma forma, só... céus, que texto incrível. Acho melhor eu "ir indo" antes de falar algo pior, embora ainda com todas essas palavras sinto que nem falei metade do que gostaria.

Até, e parabéns!! o/

Postado 19/05/16 13:58

Ai, ai, ai, heheeh. Que grande comentário! Fico muito feliz em ler algo assim, hehe. Muito obrigado. Faz meu ego ir às alturas!

Não te preocupes, não me ofendeu em nada (por que ofenderias? hehe).

Postado 11/05/16 17:06

Chico do céu! hahahahaahah

Caracaaa! To rindo de boba aqui com tamanha criatividade! Tu sempre estás a se superar! Não é a toa que a Flá disse que foi o texto mais criativo do desafio! Faz tempo que eu não lia um conto dessa qualidade. Muito foda, Chico! :D

Postado 19/05/16 13:59

Muito obrigado. Tô super feliz com repercussão desse texto. De fato, ele agradou a muita gente, hehe.

Obrigado novamente pelas palavras, Joy!

Postado 18/05/16 15:54

Que coisa maravilhooooooooooooos! HAHhahaahahahahuahauhauhahu

Postado 19/05/16 14:00

Heheeh.

Que coisa boa ver essa reação! Muito obrigado!