Diário de Holzwarth

Tratamento experimental de doentes e moribundos

Escrito 04/06/25 23:07

Me encanta a prosa dele. Não é à toa que falava demais dos colegas de ofício. O ego era maior do que tudo, mas o talento e o esforço, combinados, produziam grandes obras, cujo trabalho com a língua impressiona até hoje. Lembro-me o livro do fogo, aquele em que o poeta atira seus rascunhos às labaredas, e desde então tenho me permitido fazer a mesma coisa. O fogo metafórico da deleção, pouco chique, fedendo cigarro sem marca. Esse fogo. Enfim. Busquei pela cabeça de burro em meus documentos após ver um vídeo a respeito de linguagem, de substituições e de falta do que fazer. Foi ali que encontrei Gertrude Stein. Me encantam os versos dela.

Em parte, porque o que escreve lembra o que Genesis P. Orridge escreviam, anos depois, como música vanguardista. Mas Genesis queriam ser entendidas. Stein, como coloca o professor, talvez nem quisesse. (Vem a música que entra na cabeça e não sai mais, repetindo, ciclando: "Um dia ou outro, vou topar com aquele montinho de grama para deixar claro de uma vez por todas, anunciando para mim mesmo: acorde, acorde, acorde!"). Acredito ser difícil para o leitor entender do que se trata Cabeça de Burro. Não há motivos para entender ou tentar entender uma casa sem janelas, os vinhedos, os unicórnios, o retrato... e do rascunho, a Burrarquia, o Rei, o líriozinho d'água, o amor mais lindo. Apenas não se trata.

Escrevê-lo durou meses, e a cada reescrita tirava-se uma parte, alterava-se outra, até virar a cabeça de burro. Espero produzir ininteligibilidades com mais frequência, pois há fundo de intenção sublinhado, numa tradução terrível, descuidadosa e suja: nós matamos tudo o que não está amarrado. Nós eutanasiamos, mas mantemos vivas as formas mais baixas de vida na prisão, tão útil e experimental o tratamento dos doentes e moribundos. E a tortura? E a tortura? E a tortura? E a tortura?

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