Um Destino... Três
Barbara Nonato
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 25/10/16 09:53
Editado: 18/11/16 10:26
Gênero(s): Crônica
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 3min a 4min
Apreciadores: 2
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Palavras: 584
[Texto Divulgado] "Diálogo sobre a loucura" "Diálogo sobre a loucura" é um mergulho poético nas águas turvas da paixão humana. Sob um céu cinzento que chora em forma de chuva, a voz do poema trava um embate intenso entre a frieza da razão e o abismo do sentimento. Diante do olhar verde, puro e impassível de uma misteriosa menina, esconde-se o maior dos enigmas: seria o amor a única loucura que nos salva da lucidez do nada? Uma obra marcante sobre a coragem de se fazer tolo para aprender, finalmente, o que significa amar.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Capítulo Único Um Destino... Três

Na vida, desde pequena, as coisas nunca foram fáceis pra ela. Aos dois anos de idade o pai morreu de cirrose; passou a ser criada somente pela mãe, tendo também a companhia da avó constantemente acamada. Não que isso fizesse diferença: o pai não lhe dava a mínima, mas era bom ter uma figura masculina em casa, mesmo que agindo de forma ilusória. Como que pra compensar, a mãe não deixou que faltassem figuras masculinas naquela casa: um namorado diferente quase que a cada semana… Cresceu em meio a estranhos numa vida estranha de gritos e gemidos soturnos pelas madrugadas que ela, sem conseguir dormir de frio e fome, precisava encarar.

Aos cinco, num surto epidêmico, contraiu meningite. Esquecida em um leito simples de hospital público, sem visitas e sem milagres, ficou entre a vida e a morte. Escolheu a vida e viveu mais uma vez. Da doença, uma leve surdez como seqüela, pra não deixá-la esquecer as auguras do sofrimento e o cheiro fétido daquela enfermaria maldita.

Não foi pra escola, não estudou. Mal e porcamente escrevia seu nome pra poder rabiscar as contas no caderninho da mercearia quando a mãe a mandava comprar cerveja e cigarros no fiado.

Aos onze, perdeu a inocência nas mãos sujas de um punheteiro vadio que vagava noite e dia pelos becos do bairro. Ninguém viu, ninguém percebeu; mas ela sentiu. Como se tudo já estivesse perdido, aos doze, começou a ajudar em casa: se vendia pra poder comprar, se entregava a quem lhe desse alguns trocados pra poder comer.

Aos treze, foi apresentada à maconha; aos quatorze, já fumava crack, precisando cair ainda mais na vida pra poder, além de comer, manter o vício. A avó morreu quando ela tinha quinze. Nesse mesmo ano perdeu também a mãe, que foi embora ganhar chão em outro canto com um caminhoneiro. Com a partida da mãe fez da casa puteiro, levando pra lá os caras que apareciam pelas noites. Foi bom; assim não precisava mais pagar quartos pra trepar e a clientela acabou aumentando.

Aos dezesseis estava no auge do vício, da magreza e da decadência. Na concepção dos vizinhos, ter alcançado tal idade naquela vida desgraçada era uma proeza; na sua concepção, merecia comemoração. Ela comemorou. Encheu os cornos de tudo o que tinha direito naquela noite. Bebeu e fumou até cair. E caiu. Caiu no meio na rua, às cinco da manhã quando voltava pra casa. Levou uma porrada de um carro. Perdeu dois dentes e mais algumas semanas em um hospital, se recuperando de uma fratura exposta na perna e rompimento dos ligamentos de um dos braços. Após alta, recebeu uma indenização do motorista que a atropelou.

Sem saber se havia algum dia sido alguma coisa, nunca mais foi a mesma. Parou de sorrir, mancava da perna esquerda e sofreu uma atrofia no braço. Decaiu ainda mais. Aleijada e desdentada, virou mulher que ninguém queria. Sem clientela que prestasse ou que rendesse, entregava-se aos velhos bêbados pra um boquete por mixaria; ou aos mais novos que, de tão jovens, não tinham a quem comer. Já não sabia mais o que fazer… Destino cruel o seu. Com a revolta que sentia e parte da indenização que recebeu, tatuou nas costas a imagem de uma cruz cravada em solo árido. Nas pontas altas dessa cruz estampou os três Ps com os quais Deus marcou seu destino: pobre, preta e puta. E dali pra frente viveu a vida que lhe restava, tornando-se o resto da vida que vivera.

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Notas de Rodapé

Apesar de retratar a realidade de muitas jovens, trata-se de um relato fictício.

Apreciadores (2)
Comentários (1)
Postado 25/10/16 10:48 Editado 25/10/16 10:52

Hey!

Cara, que perfeita a narrativa e a forma que o texto foi estruturado. A leitura simplesmente flui.

Quanto ao conteúdo da obra, é algo que me faz pensar sobre possibilidades.

Se o pai da guria não tivesse falecido e continuasse em casa apenas como enfeite, será que o destino dela seria diferente?

Será que se mãe não tivesse tido tantos namorados e se importasse mais com a sua filha, a menina teria tido outro caminho?

Ou será ainda que tudo depende de uma força de vontade, podendo a garota, por mais impecilhos que a vida lhe proporcionou, ter criado seu proprio destino?

É algo para se refletir.

Ótimo texto. Parabéns.