É primavera. Me lembro disso na voz de Tim Maia.
Eu, modestamente, imitava o Tim ao violão. Só para me lembrar mais vivamente.
E hoje, está um dia um pouco frio, com sol alto e claro. Dia bonito.
E por falar em bonito, me lembro também de uma coisa bonita.
A coisa bonita foi uma namorada que eu tive.
Namoramos durante pouco tempo. E um dia no passado lá estava eu sentado à mesa de bar.
E sabe quem passou? A namorada que eu tive.
Ela não só passou, mas me viu. E se sentou na outra cadeira da mesa de bar.
Eu perguntei a ela:
- Você não vê problema em se sentar com um divorciado?
E ela:
- Eu, não. Eu não sou a causa de seu divórcio.
Eu me surpreendi com a resposta dela. E ri.
Ela riu também. E eu percebi que quando ela ria, mais bonita ficava.
E pensei comigo:
- Eu me casei com a mulher errada.
Ela percebeu que eu pensava em algo. E perguntou:
- Em que está pensando?
Eu a olhei fundamente. Ela não se intimidou. Ficou a me olhar.
E acabamos, eu e ela, esquecendo em que eu pensava.
E de repente ela:
- Marcou?
- O que?
- O nosso namoro. - disse ela.
Eu não pude me segurar. E confessei a ela:
- Claro! Eu só sinto é não poder voltar para você.
Ela era sobrinha de padre. E o padre não ia aceitar-me na família.
Ela estava calada. E calada ficou.
Eu entendi. Tinha dito o que eu não poderia dizer.
- Me desculpe, você perguntou.
Ela se levantou. O nosso encontro daquele instante acabou-se.
E restei sozinho na mesa de bar. Peguei uma caneta e escrevi no guardanapo um conto.
Este conto.

