Perdida
Cria de Minerva
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 17/09/25 22:49
Editado: 17/09/25 22:54
Gênero(s): Crônica Suspense
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 6min
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Palavras: 813
Não recomendado para menores de doze anos
Capítulo Único Perdida

É um pouco desesperador abrir os olhos e não reconhecer não o ambiente. Você já passou pela experiência de estar em um lugar cheio, completamente lotado, mas que nenhum rosto é familiar? Assim como de praxe, todos os rostos são formados por dois olhos, uma boca, um nariz... mas ao mesmo tempo, nenhum deles formam nada... é... vazio. Borrado. Escuro.

O barulho da rua são apenas ruídos que não significam nada: ambulantes gritam sons indecifráveis e os ônibus dirigem em câmera lenta. Pelo menos, é assim que me lembro. Me recordo de estar parada no meio da rua, me sentindo exposta e acuada, sem saber meu nome, idade ou de onde vim. Eu só sabia que precisava sobreviver.

Então, caminhei em linha reta, na esperança de encontrar placas que indicassem o nome do local, bairro ou rua em que eu estava. Mas sempre que encontrava informações, as letras não formavam sílabas e muito menos palavras que fizessem sentido, tentei perguntar as pessoas que passavam por mim, mas elas não me enxergavam. A maioria delas, apenas fechavam a cara sem nem mesmo direcionar o olho para mim.

Será que estava invisível?

O medo tomou conta de cada centímetro do meu corpo, os cabelos do meu braço estavam arrepiados, os olhos marejados e a garganta completamente seca. Mas eu sei que preciso seguir em frente.

Então, segui.

Se passaram, aproximadamente, duas semanas desde então. Duas semanas que vago pelas ruas, sem nome, sem lugar, sem rosto... sem identidade. Eu desisti de pedir ajuda, ninguém prestava atenção em mim e, mesmo quando consegui que uma menina olhasse em minha direção, ela parecia confusa com o que eu dizia. Por isso, deduzi que, assim como eu, ela não conseguia entender. Será que eu estava em outro país? Será que falamos em idiomas diferentes? Não sei. Só sei que preciso seguir.

Aos poucos, eu fui me cansando, calos apareceram nos meus pés e lágrimas inundavam meu rosto. Mas me acostumei, a dor já não era mais importante. Eu só precisava chegar lá. Onde? Eu não sei, mas eu precisava.

Até que um dia, choveu. A chuva era tão intensa, que as ruas pareciam rios, os bueiros cuspiam água e o vento nos batia sem dó ou piedade. Mas tudo bem, durante esse tempo todo, eu nunca pedi por misericórdia. Me permiti parar um pouco para sentir o vento impiedoso perfurar meu rosto, observei cada gota de chuva pousar na minha pele. E pela primeira vez, me permiti olhar para o céu, encarei as nuvens como se perguntasse – vocês sabem de algo que eu não sei? Vocês se lembram de mim?

Mas assim como todos os outros, elas ficaram em silêncio. Encarei apenas por mais alguns segundos, na esperança que ficassem constrangidas por me deixar sem resposta.

A chuva, apesar de fria, ríspida e sem um pingo de misericórdia, lavou todo meu corpo (que, por sinal, estava imundo e empoeirado há dias, pois caminhei por semanas sem folga). A água me distraiu e, quando retomei a atenção, todas as pessoas haviam sumido, dos bares, praças, farmácias, avenidas. Eu estava completamente sozinha.

Eu precisava seguir. Será que todos eles chegaram lá primeiro que eu?

Antes mesmo de concluir o raciocínio, senti uma dor lancinante no pé esquerdo. Quando baixei os olhos para identificar o motivo, fui tomada por desespero, meu pé estava enxarcado de um líquido vermelho vivo – sangue. No meu pé estava fincado um prego enorme, enferrujado, ele atravessava o meu pé de modo que conseguia ver a ponta do objeto na parte superior. Mas pouco importava, eu precisava seguir.

Assim que dei três passos, cai com o rosto direto no chão. Eu não tinha forças para caminhar, a dor era forte demais. O sangue era intenso demais. O prego estava enferrujado demais. Tentei removê-lo, cuidadosamente, mas a dor não permitia. Eu gritava de dor, mas não havia ninguém que pudesse me ouvir. Eu chorei copiosamente, mas não existia quem pudesse secar minhas lágrimas.

E, em meio a tanta dor, eu me lembrei. A dor agiu como uma alavanca, me impulsionando às memórias mais fúnebres e profundas da minha alma. A dor, diferente de todos aqueles rostos, era familiar.

Desse modo, eu me lembrei do meu nome, do meu rosto, da cor do meu cabelo, do riso dos meus amigos, do cheiro do café da minha mãe e do abraço do meu pai. Mas a dor era tão forte, que tudo isso parecia marcado pelo sentimento angustiante e infernal, eu só queria esquecer de novo.

Mas depois disso, foi impossível esquecer que eu jamais conseguiria fugir por completo das consequências dos meus atos, eu jamais conseguiria remover aquele objeto perfurante dos meus pés. Porque independente de quantas vezes eu acorde no meio da multidão, eventualmente sempre terminarei sangrando até a morte, assim como naquela noite em que drenei até a última gota de sangue na banheira do meu quarto.

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