O Milharal
Robson Pinheiro Cruz
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 19/02/26 13:12
Editado: 19/02/26 13:27
Avaliação: Não avaliado
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Notas de Cabeçalho

Título: O Milharal

Autor: Robson Pinheiro Cruz

Data:12/02/26

Capítulo Único O Milharal

A noite não caíra, ela se acumulara, densa como pasta de fungo entre os talos. A lua, mordida e torta, mal conseguia rasgar aquela cortina de neblina que subia do chão, úmida, viva, fedendo a adubo velho.

Na curva da rodovia de terra, onde o asfalto desistia de existir, o milharal estremecia sem vento.

Algo se movia entre as fileiras.

Não era o vento.

Era o ranger seco de palha apodrecendo, o som de gavinhas de milho sendo afastadas por dedos que não existiam mais. A criatura,se é que se pode chamar assim o que restara de um espantalho que aprendera a odiar, a mortalha arrastava-se para beira da estrada, trazendo consigo o cheiro de enxofre e de pássaros mortos pendurados em varais esquecidos.

Os faróis dos carros passavam rápido demais. Nunca viram.

Mas quando a névoa engrossava, quando o motorista diminuía a velocidade assustado com aquela curva que parecia maior por dentro do que por fora, era então que a mortalha de estopa surrada, manchada de algo que não era ferrugem, se erguia entre os talos.

A morte, ali, não tinha foice.

Tinha um chapéu de palha quebrado.

E olhos de botão que refletiam a escuridão não porque fossem vazios, mas porque estavam cheios demais, cheios de

noite, de estrada, de todos os motoristas que pararam para mijar e nunca mais voltaram para o carro.

O milharal crescia fértil naquele trecho. Mais alto. Mais verde.

E no meio dele, imóvel de novo, esperando o próximo farol que hesitasse, o espantalho não vigiava os pássaros.

Vigiava a estrada.

Porque palha, no fim das contas, sempre precisa de novo adubo.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Espantalho como arquétipo — tradicionalmente símbolo de proteção agrícola, aqui subvertido em figura de ameaça, evocando o medo do que deveria ser inofensivo.

Névoa e fungo — a descrição da noite como pasta de fungo reforça a ideia de decomposição e vida parasitária, criando atmosfera de decadência.

Curva da estrada — metáfora para o limiar entre o conhecido (asfalto) e o esquecido (terra), onde o sobrenatural se manifesta.

Olhos de botão — remetem ao vazio e ao grotesco, mas o texto os inverte: não refletem por serem ocos, e sim por estarem cheios demais, sugerindo excesso de ódio ou memória.

Chaparral quebrado — substitui a foice da morte, reforçando a ironia: o banal se torna símbolo de fim.

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