A noite não caíra, ela se acumulara, densa como pasta de fungo entre os talos. A lua, mordida e torta, mal conseguia rasgar aquela cortina de neblina que subia do chão, úmida, viva, fedendo a adubo velho.
Na curva da rodovia de terra, onde o asfalto desistia de existir, o milharal estremecia sem vento.
Algo se movia entre as fileiras.
Não era o vento.
Era o ranger seco de palha apodrecendo, o som de gavinhas de milho sendo afastadas por dedos que não existiam mais. A criatura,se é que se pode chamar assim o que restara de um espantalho que aprendera a odiar, a mortalha arrastava-se para beira da estrada, trazendo consigo o cheiro de enxofre e de pássaros mortos pendurados em varais esquecidos.
Os faróis dos carros passavam rápido demais. Nunca viram.
Mas quando a névoa engrossava, quando o motorista diminuía a velocidade assustado com aquela curva que parecia maior por dentro do que por fora, era então que a mortalha de estopa surrada, manchada de algo que não era ferrugem, se erguia entre os talos.
A morte, ali, não tinha foice.
Tinha um chapéu de palha quebrado.
E olhos de botão que refletiam a escuridão não porque fossem vazios, mas porque estavam cheios demais, cheios de
noite, de estrada, de todos os motoristas que pararam para mijar e nunca mais voltaram para o carro.
O milharal crescia fértil naquele trecho. Mais alto. Mais verde.
E no meio dele, imóvel de novo, esperando o próximo farol que hesitasse, o espantalho não vigiava os pássaros.
Vigiava a estrada.
Porque palha, no fim das contas, sempre precisa de novo adubo.

