Eu adorava aquele clima. Enxergar o cinza daquele céu. Não havia nada mais de tão belo do que aquilo e, por conseguinte, nem de mais poético também. Era inverno. Fora o que eu tinha dito a ela. Sobre a tal poesia, mas sobre o tal inverno também. Naquela época, éramos mais e maiores do que somos hoje. Parece que o tempo nos tira e nos leva toda a inocência e coragem que precisamos para continuarmos acreditando. E por si só, aprendemos a cair. E só às vezes - muito às vezes, aliás -, a ficarmos de pé.
Sobre ela: ela tinha a metade da idade e dobro da coragem que eu tenho hoje, mas até naquela época eu lembro de me surpreender com a força no olhar que ela carregava. E por vezes, eu me abstinha. Era estranho, quando eu ficava mal, ela aparecia. Quando eu estava feliz, era ela o motivo. Ela me reenergizava.
Sempre buliço e inquieta ela era a mais perfeita comparação do que é ser uma tempestade. A tal parte do céu cinza e de meu fascínio era só a melhor analogia que eu usava para escrevê-la, para descrevê-la. Ela chegava, vez ou outra, de mansinho e ninguém sabia se fazia sol ou ia chover. Por vezes, só chovia. Ela nem se explicava, não conseguia. E eu ficava por ali, me molhando naquela chuva. Todo me estendia. Eu a entendia. Mas no fim das contas, era só chuva. Só mais um dia de chuva, ou seria só mais um dia dela?
Eu queria tê-la em meus braços, poder abraçá-la, mas como se abraça a chuva? Tinha vezes que ela chegava quieta, de mansinho sem que ninguém a percebesse e chovia a tarde inteira. Molhava o chão. Acalmava tudo no peito. Outras, ela vinha, revirava e tirava tudo do lugar. Era trovão, era temporal. Era tempo-amar. Era tempo demais quando eu não a tinha por perto. O sol não me bastava. A poesia habitava os olhos dela. E sem aqueles olhos castanhos botão-de-mundo tudo era defeito. Era um vício.

