Ela mora virando a rua
em meu peito em contrassenso,
correndo descalça a alma nua
pra matar o que resta inda de tempo.
Vai pintando sóis, escondendo Luas
numa colcha rasa de remendos
que ela coleciona amiúde
com alguns cacos de sentimentos.
A reta ela transforma em curva
num destino quase costumeiro,
como todo olhar inda acusa
a direção certa no ponteiro
da bússola que nunca muda,
seguindo dias imperfeitos.
E ela sonha e sai à luta,
carrega um mundo dentro do peito
entre lágrimas, esquinas e ruas
num labirinto que não há começo.
Ela mora ali virando a rua,
o seu nome eu inda me lembro,
eu a vi interrogando a Lua
perdida entre mil devaneios
de quem se molha antes da chuva,
por correr livre junto do vento.
No olhar de quem já viu muito,
um brilho em pressentimento
que sabe, a vida é pra quem se inunda
dela de cor, de luz sem mais lamentos.

