A Fome e Seus Percalços
Gyl
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 28/08/26 07:26
Editado: 28/08/26 07:41
Gênero(s): Crítica
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 6min
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Palavras: 741
[Texto Divulgado] "Entre Vagalumes e Estrelas " Algumas lembranças permanecem adormecidas até que a noite certa as desperte. Sob a luz prateada da lua, entre flores e vagalumes que parecem pequenas estrelas, uma jovem retorna a um lugar onde o passado ainda parece respirar. Em seu pescoço, uma antiga estrela de prata guarda uma promessa que o tempo não conseguiu apagar. Há palavras que continuam ecoando, um rosto que permanece vivo em sua memória e uma esperança que ela nunca conseguiu abandonar, na lembrança daquela menina que um dia acreditou em milagres. Mas, naquela noite, algo muda.
Livre para todos os públicos
Capítulo Único A Fome e Seus Percalços

Sete horas.

Despertou com os pingos da chuva tamborilando sobre o telhado. Moravam ali havia alguns meses.

O filho, enfim, dormia. O pai não pregara o olho durante a noite: o pequeno não parava de se mexer, faminto. Quando conseguiu cochilar veio a chuva, o gotejamento e o frio fora de época.

A mãe saíra desesperada aos primeiros raios de sol. O pai colocou a cabeça no vão e ficou a perscrutar ao redor.

.

Nove e meia.

Ficou a sapatear em torno do filho, impotente.

Meio-dia em ponto.

Ela não retornou. O miúdo já estava acordado e exigia comida. Aguardou por um instante. Depois decidiu que se ela demorasse mais ele deixaria o recém-nascido só e iria atrás dela.

Ela costumava ir ao Mercado Central. Lá havia fartura de alimentos, mas a disputa com os outros em igual situação era feroz e necessária.

Meio-dia e quinze.

Olhou para a cria e partiu.

O que teria acontecido? Ela nunca se atrasava.

Os pensamentos voavam junto com ele.

Avistou o mercado lá embaixo. A paisagem lhe era familiar. Nascera próximo dali. Contornou o edifício. Nada.

Talvez ela estivesse no aterro sanitário municipal. Quiçá até estivesse em casa, satisfazendo as necessidades do rebento.

Em todo caso, era melhor ele mesmo prover o sustento do filho. Parou junto à lanchonete da esquina. Já tinha o costume de beliscar nas redondezas. Petiscou alguma coisa aqui e ali, recolhendo migalhas, quando decidiu voltar.

.

Com o coração acelerado, atravessou o espaço entre o mercado e o lar. Lembrou-se do dia em que a viu pela primeira vez, próxima ao banco da praça onde alguém, com muita dificuldade, dava de comer aos pombos.

Ela era diferente.

O brilho dos olhos e algo negro-fosco preso à perna direita, semelhante a uma tornozeleira, prenderam sua atenção. A impressão era que ela poderia ter fugido de algum cativeiro. No primeiro momento, ela sequer percebeu sua presença. Havia outros e um deles a perseguia, insistente, arrastando as asas para cima dela.

Daquele dia em diante, nunca mais se separaram. Não demorou e veio a primeira gestação. Não vingou. Gorou. Tentaram outras vezes. Tanto tentaram que conseguiram.

Mas a vida não era fácil, a lida era diária e as certezas, nenhumas.

Reconheceu o telhado de sua morada que despontava no horizonte. Acelerou. Talvez ela estivesse lá. Talvez o pequerrucho dormisse de barriga cheia. Talvez tudo não passasse de preocupações sem sentido. Talvez.

Chegou.

Nenhum pio.

Quando seus olhos se acostumaram à penumbra, percebeu o vazio.

Procurou em todos os lugares: sob a caixa-d’água, por detrás das conexões hidráulicas, entre os caibros caídos...

Ninguém.

Colocou novamente a cabeça para fora do vão quando viu o pequeno caído no piso de concreto.

Nunca soube como chegou tão rápido junto ao corpo do filho, que mal tinha chegado no mundo e já se despedia dele.

Chamou. Sacudiu. Aguardou. Não havia mais nada a fazer.

Precisava encontrar a parceira. Não tivera escolha. O filhote estava faminto... Ela demorando...

De repente, sons assustadores e conhecidos. Duas presenças ameaçadoras e gigantescas avançavam ferozmente em sua direção. O conjunto era um amontoado de dentes afiados e salivas espumantes.

Não foi possível resistir. Teve que abandonar sua cria. Ainda teve tempo de assistir aos pedaços do pequeno serem disputados pelas bocarras rosnentas e famintas.

Foi a última vez que viu seu filho.

Se ele pudesse gritar, gritaria.

Se ele pudesse chorar, choraria.

Se ele pudesse. Mas não podia.

Restou-lhe a resignação, fechar o bico e partir em busca da companheira.

Procurou-a próximo a certas construções conhecidas. Foi na fonte do terminal. Passou perto da antiga torre do morro onde tantas vezes trocaram carícias, até que...

Encontrou-a perto do Mercado Central.

Ou o que restava dela.

Reconheceu a anilha negra-fosca na perna direita.

Desta vez o monstro metálico fora mais rápido.

O corpo repousava sobre o asfalto. O peito estourado deixava as vísceras expostas, revelando os grãos que ela carregava para saciar a fome que acabou por matá-la, junto com sua cria. A chuva fina se encarregava da limpeza.

Era tudo.

Sete horas da noite.

O dia terminou em silêncio. A cidade vivia.

Dias depois, uma fêmea garbosa, no cimo de uma marquise, atraiu a sua atenção.

Aproximou-se.

Inflou o peito. Vocalizou. Preparou o seu melhor cortejo, arrastando as asas, exibindo e exagerando na sua performance.

Não demorou para que trocassem carícias.

Seus corpos e vidas cruzaram-se naquele instante.

Alçaram vôo...

E seguiram, invisíveis aos olhos do mundo, fiéis ao curso da vida.

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