I
Linhas e linhas de desenfado
Nestas noites que me custam tanto
Aqui e ali, olhos me seguem cansados
De vigiar a noite e seu manto.
II
Cobrindo-me os olhos e a face
Por temor da manhã que rompe
Trazendo à vista a luz que nasce
Quando o Sol desponta longe.
III
Quem dormiu: sonhou, não viveu
Sonhos apenas sonhos são!
À gaveta, aqueles teus e meus
Apenas guardados n'alguma razão.
IV
E mais memórias me enchem o prato
Mais sussurros ao meu copo
Tal quanto o mar - tão salgado,
De perguntas me inundam o corpo.
V
Minh'alma irrequieta ainda fala
O que meus olhos há tempos inundam
Espelho d'um olhar que me cala
Indecifrável, ali me estudam...
VI
Em silêncio e solidão, apenas
À companhia a fio de horas
Destas madrugadas à pena
Onde o frio aquece e consola.
VII
Batidas d'um coração já velho
Que teima e pulsa por devaneios
D'um sonho acordado, espera
Inda o suspiro teu derradeiro.
VIII
Que muito conta, me esclarece
Nestes dias e noites sem fim
Meu Sol dorme, a Lua amanhece
Mundos inteiros dentro de mim.
IX
E que importa que seja o ocaso
Despertando olhos já vermelhos?
Cansados de soluçar ao acaso,
Medos inocentes tão alheios.
X
Pálpebras cansadas de quem ainda
Nem dormiu e nem sonhou,
Este sonho será não finda?
Nem acordarei eu deste meu torpor?

