Quando o silêncio é o substituto do barulho constante de vida em uma casa, significa que algo que vivia lá dentro se foi. Hoje é 2 de novembro, Dia de Finados, segunda-feira. Feriado prolongado. Estive em todas as esquinas do prazer, nos centros do viver; esperava esperança ao amanhecer.
Nada é capaz de preencher o vazio. O silêncio é substituto do tilintar dos talheres, mas não representa o afago quente que existiu no coração. Alguém pode viver depois de construir tudo e, em seguida, destruir na mesma proporção? Alguém é qualificado para tomar o lugar que pertenceu a alguém que nunca existiu de verdade?
Aqui não era seu lugar. Você exerceu um papel que não foi criado, que nunca existiu. Nessa peça shakespeariana, sua função deveria ser assistir ao desenrolar dos fatos, ao contar da história. Erro seu: meter-se em algo que já estava escrito; tentou criar vida em algo morto por dentro e fazer existir um amor que não era para você. Nunca foi. Erro seu. Quantas vezes é necessário avisar?
Mesmo após sair, nunca mais poderá deixar isso para trás; esse é o molde. Tudo será constantemente inspecionado por esse fato insistente, por essa história impertinente (que durou tempo demais, diga-se de passagem). Nada mais fará sentido, e não adianta reclamar: você escolheu estar ali.
VOCÊ QUIS SE ENTREGAR e ESCOLHEU SE AFOGAR no rio raso do desamor. Era seco, gelado e cristalizado. O doce era o toque vago do quase, do por pouco, do prestes, da iminência. Faltou pouco para ser, de fato, amor. Alguém pode resumir esse tempo em uma única palavra? Eu diria que não; mas, em duas, posso dizer que foi uma tentativa vaga: nada veio disso.
Sinto culpa de ter alimentado essa incerteza. Eu sabia que nada findaria ali, mas não fui capaz de fazer as malas quando a ocasião da viagem era óbvia. Despi-me da verdade, vesti a mentira que eu mesma criei. Moldei-me. Suicidei-me emocionalmente: fui toda sua e para você. Morri. Fui embora sem nada, esqueci a mala. Deixei-a para você. Ninguém nunca será completamente capaz de me entender. Não sou mais ela, mas ela soa como eu. A incerteza morreu. Não consigo saber se fiz a escolha certa. Você faria do seu coração um alvo para uma flecha de gelo? Eu fiz.

